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Kapittel 5 Kritikk, frihet og det filosofiske etos

5.4 Avslutning

Nesta secção, explicitaremos o paradigma em que se insere a nossa investigação, os nossos postulados e algumas concepções em relação à natureza de ser humano.

Cuba (1990) menciona quatro grandes paradigmas distintos: o positivismo, a “teoria crítica”, o pós-positivismo e o construtivismo. Ao estudarmos aspectos culturais, ou melhor o encontro de duas culturas em casais biculturais, identificamo-nos mais com o paradigma do construtivismo, ou, melhor ainda, do construcionismo social. Para justificar esta afirma- ção, sentimos necessidade de referir os quatro paradigmas de Cuba (1990).

O positivismo (nome adoptado por Comte) que está enraizado num realismo radical em termos ontológicos, pressupõe a existência de um mundo real (matéria) completamente independente do sujeito. Baseando-se neste paradigma, pretende-se averiguar como “as coisas realmente são e funcionam” e limitar-se à observação dos factos, das experiências e suas relações invariáveis, que irão conduzir às leis. Desta forma, aponta para uma epistemo- logia objectivista, que pressupõe ser possível e desejável um completo distanciamento do

observador em relação aos fenómenos observados. Assume, então, um dualismo que distin- gue claramente, entre o mundo das ideias e o mundo dos factos. Tenta excluir quaisquer valores ou factores de ordem pessoal que possam “interferir” na observação. Adopta uma metodologia experimental com um controlo rigoroso das variáveis. Ora, uma investigação como a nossa, que pretende averiguar os recursos de casais biculturais não de forma objec- tiva mas antes como são vivenciados pelos sujeitos, afasta-se deste paradigma.

O segundo paradigma, denominado por teoria crítica, consiste basicamente numa investigação ideologicamente orientada, que tem como ponto de partida determinados valo- res, como acontece no movimento feminista ou no neo-marxismo. Parte do princípio de que não existe uma investigação livre de valores e, em consequência disso, assume-os de forma explícita. A nossa investigação não assume, de forma algum, quaisquer valores, à partida, muito menos pretende ser fundamentada ideologicamente. Refutamos até conceitos, como culturas mais ou menos desenvolvidas ou até primitivas. Apenas pretendemos estudar o que favorece a coexistência de diferentes culturas, ou, mais especificamente, os recursos de casais biculturais. Deste modo, afastamo-nos, também, deste paradigma.

O terceiro paradigma é denominado por pós-positivismo, que consiste num realismo crítico, pressupondo a existência de um mundo real mas que, no entanto, não pode ser intei- ramente apreendido. O realismo crítico defende que o mundo exterior existe, mas não é possível averiguar as suas características específicas, porque o sujeito cognoscente intro- duz, ou distorce, no acto da percepção, estas características. As ideias que temos do mundo exterior são consideradas como um produto e não meras cópias da realidade, como aconte- ce na concepção de um realismo radical. Desta forma, o pós-positivismo reconhece que uma objectividade absoluta não pode ser alcançada e que existem apenas aproximações ao mundo real. Assim, admite também, além de um método meramente experimental, outros métodos como os qualitativos. Neste paradigma, poderia haver um certo ponto de encontro com a nossa investigação. No entanto, como damos toda a ênfase às crenças subjectivas dos sujeitos de casais biculturais, nomeadamente, o que os sujeitos consideram riscos e recursos em termos da sua satisfação conjugal, inclinamo-nos mais para o último paradigma defini- do por Cuba (1990).

O último paradigma mencionado por Cuba (1990), consiste no chamado construti- vismo. Defensores deste paradigma como Maturana (1982), von Foerster (1985) e von Gla- sersfeld (1987) rompem com as concepções clássicas positivistas, afirmando que não existe

um mundo objectivo absoluto. A “realidade” é vista como uma organização cognitiva do mundo, que é construída pela nossa actividade psíquica (mente). Com base ou a partir da experiência e percepção, construímos o mundo que percepcionamos. Este paradigma consi- dera que não é possível separar o sujeito que observa, do objecto observado sem o influen- ciar. O objecto observado confunde-se com a estrutura do observador, que produz uma “realidade” estável, impondo uma ordem cognitiva para permitir a sua sobrevivência. Deste modo, afirma-se que nunca sabemos ao certo o que é real. Apenas há limites dentro dos quais são possíveis diversas “realidades” igualmente válidas. Estes limites são definidos pela chamada dupla restrição: a) limitação cognitiva e perceptiva e b) a limitação pelo mundo vivencial ou dos fenómenos. Segundo o construtivismo, a imagem que temos de nós e do mundo é apenas uma “realidade” possível entre várias. Desta forma, o construtivismo assume, no que diz respeito à ontologia, uma posição mais relativista (as “realidades” são consideradas formas de múltiplas construções mentais). Devido às restrições existentes, este relativismo não quer dizer que “vale tudo”, como muitas vezes erradamente é entendi- do, mas constitui uma chave de abertura para pesquisar construções cada vez mais elabora- das e coerentes. Estas “realidades” puderam ser observadas de forma implícita ou explícita, apenas através da janela de teorias, consideradas como instrumentos e não verdades. O construtivismo concorda com a teoria crítica no pressuposto de que não existe uma investi- gação ou observação neutra e livre de valores, mas recusa-se a assumir, a priori, determi- nados valores, defendendo, antes, que poderão existir múltiplos valores ou construções, que se pretende averiguar. Como em termos epistemológicos o conhecimento é considerado, em última análise, uma construção, considera as descobertas como o resultado do processo de interacção entre o observador e os fenómenos observados. Pretende-se identificar e repre- sentar as construções individuais ou sociais, o mais exactamente possível e, eventualmente, contrastá-las com outras construções (incluindo as do observador), mantendo os canais de comunicação abertos para aperfeiçoar continuamente a informação.

Mais recentemente, tem-se falado numa variante do construtivismo: o chamado con- trucionismo (Gergen, 1996), que tem em comum com o contrutivismo a concepção da impossibilidade da existência de uma realidade ou verdade única e absoluta que possa ser objectivamente conhecida. Mas enquanto o construtivismo defende que os construtos se formam quando o organismo entra em contacto com o seu meio e a construção de ideias sobre o mundo ocorre no sistema nervoso, assume o construcionismo uma perspectiva mais social, com ênfase na representação social e influências interpessoais da linguagem, da

família e da cultura. Vê o desenvolvimento do conhecimento como um fenómeno social e que a percepção do mundo se desenvolve num espaço da comunicação interpessoal (com suporte de uma linguagem comum). Fala, então, de construções linguísticas enquanto invenções sociais, que considera serem crenças acerca do mundo.

Queremos também referir, aqui, que no paradigma constructivista ou construcionista se insere a chamada segunda cibernética da corrente sistémica (ver Lind, 2001), que postula que o observador é incluído na observação acerca de que observa, onde não é possível uma objectividade. Maturana (1982) e Maturana e Varela (1990) falam em “multiversos” e não universo, e consideram os sistemas vivos sistemas autopoiéticos, isto é, sistemas autoregu- ladores e autoprodutores, cuja organização e estrutura produzem os componentes da sua própria estrutura e organização, e reagem segundo a sua estrutura face a perturbações do sistema. Desta forma, torna-se impossível uma “acção instrutiva”. Baseando-se na teoria da dinâmica dos sistemas complexos de Ilya Prigogine, a segunda cibernética integra o factor tempo numa perspectiva evolucionista. Postula, que sob a influência de mecanismos de feedback positivo em sistemas dinâmicos complexos, podem surgir saltos qualitativos de desenvolvimento não linear (rupturas como nas mutações) para um novo nível de funcio- namento. São as chamadas “estruturas dissipativas”. Estes saltos surgem após uma destabi- lização, “flutuações em pontos críticos”, do desenvolvimento, onde surgem alternativas de escolha “bifurcações”, que uma vez escolhidas, são irreversíveis. Esta nova concepção - tendência para o desequilíbrio de sistemas abertos e não equilíbrio de sistemas fechados, que substitui o conceito da homeostase pelo conceito da coerência, entendido como um encaixe (fit) dos elementos de um sistema recursivo, para a diversidade e modificação (introdução do factor tempo) e não restrição e invariância numa perspectiva atemporal, que inclui a imprevisibilidade e irreversibilidade da evolução de um sistema e impossibilidade de uma observação objectiva - teve uma radical transformação nas concepções teóricas, metodologias e da prática sistémica.

Como já afirmámos, achamos que uma investigação como a nossa, que pretende estudar fenómenos ligados ao encontro de duas culturas em casais biculturais, insere-se mais no paradigma do construcionismo social. Achamos que este paradigma se adequa mais ao nosso objecto de estudo, que implica necessariamente averiguar diferentes crenças e mesmo aspectos ligados a linguagem como iremos verificar. Queremos, no entanto, fazer um alerta. Miles e Huberman (1994) chamam a atenção para o facto de que é difícil existi-

rem investigadores que sigam, claramente, apenas um paradigma. Existem, segundo os autores, muitas posições intermédias ou interfaces. Eles apontam para uma “visão mais pragmática e ecuménica ou consensual” para remover o que chamam uma “esterilidade canónica” (Miles & Huberman, 1994, p. 5). De facto, ser-nos-ia muito difícil, justificar uma validação de questionários (ver capítulo 5) com base apenas no paradigma construcionista. Embora nos identifiquemos mais com este paradigma do construcionismo, não negamos a utilidade de certos procedimentos, que poderão ser mais atribuídos a um paradigma pós- -positivista. No entanto, para sermos minimamente coerentes com os nossos pressupostos metateóricos, ou melhor, com o nosso paradigma base, começamos por averiguar, no pri- meiro estudo exploratório, como iremos ver adiante, as atribuições (construções) da popu- lação alvo e preferimos sempre uma autoavaliação em relação a uma heteroavaliação, como, por exemplo, no domínio da língua estrangeira, onde não aplicamos, propositada- mente, testes objectivos de competência linguística, mas onde pedimos aos sujeitos para avaliar subjectivamente, por exemplo, o seu domínio da língua materna do cônjuge.

Postulados e concepções em relação à natureza do ser humano

Como vimos atrás, os postulados e concepções em relação à natureza do ser humano inserem-se na análise ao nível metateórico. Pensamos que os postulados subjacentes à nos- sa investigação consistem basicamente nas seguintes afirmações:

“os seres humanos são capazes de construir os seus recursos para promover a sua qualidade de vida”.

Deste postulado deduz-se que:

“Os riscos inerentes à complexidade em casais biculturais podem ser contrabalançados através do incremento de recursos”

Deste modo, encaramos o ser humano como sendo, de certa forma proactivo e indis- sociável do seu contexto, que não reage apenas face aos fenómenos, mas que é capaz de construir a sua interacção com o mundo circundante.

Em resumo, neste primeiro nível de análise metateórica, tentámos tornar explícitos, em relação à nossa investigação, o paradigma, os postulados e algumas concepções em relação à natureza de ser humano.