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Styrket samarbeid og samordning

In document Gode krefter (sider 50-56)

a) Caracterização da divindade e do seu culto

Não se conhece com segurança o nominativo deste teónimo, que apresenta diversos dativos diferentes, nomeadamente Bandi, Bandue/Bandu – que J. de Hoz (1986: 39) defende como forma de designação da divindade - e Bandei (Búa, 2000: 39; Encarnação, 1987a: 12).

Porém, esta divindade surge por vezes designada como Banda, “por uma questão de facilidade e por nos parecer que essa poderá ser a designação mais geral” (Encarnação, 1987a: 12, nota 8).

Quanto ao significado deste teónimo, a já ultrapassada abordagem de Michelena (1961: 200), que defende a sua origem na raiz indoeuropeia *bhendh-, remetendo para o conceito de “atar”/“ligar”, tem vindo a ser adoptada por diversos autores (por ex., García, 1990; Silva, 1986: 295, nota 424), que acrescentaram alguns traços particulares a esta base teórica. Destacam-se neste sentido as perspectivas (Encarnação, 1973 e 1975: 141-42; Hoz e Fernández, 2002: 47) que atribuem a esta divindade, ligada a uma realidade geográfica ou populacional, uma natureza protectora e tutelar.

Mais precisamente, foi sugerida a correspondência de Bandue/Bandi, na área lusitano- galaica, ao genius tópico latino, afigurando-se então passível de integrar a chamada “terceira função”, na óptica duméziliana; o que lhe conferiria ainda atributos infernais, como se verifica para os genii loci (Ribeiro, 2010: 42; Silva, 1986: 295-96). Esta constituirá a única das divindades indígenas hispânicas à qual é atribuível um papel especificamente tutelar, com base na pátera dedicada a Band(i) Araugel(aego) (AE 1960, 278, Badajoz), contendo uma representação da Fortuna tutelar, dada como sua correspondente nos termos de uma interpretatio romana (Búa, 2002: 61).

Porém, B. Prósper (2002: 271-72) considera inviável a maioria destas perspectivas focadas na ideia do “deus que ata”, pela sua ênfase na identificação da raiz de Bandue/Bandi, de onde partem para a justificação do seu significado, ignorando a sua morfologia de tema em *-u; propondo então a derivação do tema *bandu- de um nome de acção *gwem-tu-, “passo”, visto que “la mayoría de los temas indoeuropeos en *-u- está constituida precisamente por nombres de acción en *-tu-“ (Prósper, op. cit.: 272). Esta forma *gwem-tu- poderá referir-se à divinização do acesso a uma realidade geográfica protegida dos inimigos, pelo que Bandue/Bandi poderá ser entendida como uma divindade da passagem/caminho, exercendo uma acção favorecedora sobre o tráfego de bens e pessoas (Prósper, 2002: 274-75). Porém, não contamos ainda com uma etimologia conclusiva e incontestável que nos permita um melhor conhecimento desta divindade (Hoz e Fernández, 2002: 47).

É frequente a atribuição a Bandue/Bandi de diversos epítetos locais, que remetem para o seu carácter tópico ou étnico (Encarnação, 1975: 141; 1987a: 10). Esta situação surge efectivamente atestada na sua epigrafia votiva, onde se registam com mais frequência os epítetos Vortiacio (AE 1967, 136, AE 1977, 380 e HEp 5, 1995, nº 994, de Castelo Branco; CIL II 885, de Cáceres; e AE 2003, 865, da Guarda) e Isibraegui (AE 1967, 133 e 134, e AE 1982, 475, todas de Castelo Branco).

b) Origem e extensão geográfica do culto

Este culto terá gozado de considerável representação na Hispânia, de onde provêm cerca de 48 dedicatórias (excluindo aquelas desprovidas de teónimo, nas quais figuram apenas epítetos representativos da divindade), incluindo a inscrição em língua lusitana de Arronches. C. Búa (2000: 37) e B. Prósper (2002: 266-68) incluem também neste conjunto epígrafes registando as grafias Bannei (AE 1950, 220, Portalegre) e Bane (ILER 749, de Zamora; e FE 39, 1991, nº 176, de Castelo Branco); bem como um exemplar de Castelo Branco onde figuram apenas as iniciais BVS, lidas (Encarnação, 1987a: 20) como B(andi) V(orteaeceo) S(acrum).

Destaca-se a Lusitânia na procedência de documentação epigráfica, com cerca de 32 inscrições, 66,7% do conjunto, tendo os restantes 16 exemplares (33,3%) sido descobertos na Tarraconense; porém, no entender de B. Prósper (2002: 258), seguindo J. M. Garcia (1991: 292), uma das inscrições incluídas no conjunto lusitano (RAP 33), seria na verdade procedente do Norte de Portugal, tendo sido possivelmente trazida para Alenquer por H. Cabaço. No contexto da Lusitânia, destaca-se a região de Castelo Branco, onde se verifica uma apreciável concentração de epígrafes (CIL II 454; AE 1967, 132 a 136; AE 1977, 380; AE 1982, 475 e 477; Encarnação, 1987a: 20; RAP 22; FE 39, 1991, nº 176; HEp 5, 1995, nº 994; AE 2003, 863).

Por outro lado, se considerarmos também as epígrafes desprovidas de teónimo, o número ascende a 52 inscrições, contando-se entre estas o epíteto Isibraegui (HEp 12, 2002, nº 648a, Guarda) e variantes gráficas Issibaeo (RAP 156, Coimbra) e Esibraeo (RAP 227, Idanha-a-Nova); o epíteto Tueraeo (AE 1954, 96b, Aveiro); Vortiaeci (AE 1985, 531, Castelo Branco) e Roudeaeco (CIL II 763, Beltrán, 1975-76, nº 60, e HEp 6, 1996, nº 242, todas de Cáceres).

O culto desta divindade ter-se-á expandido de Norte para Sul em direcção à Lusitânia, situação que caracteriza também boa parte das divindades indígenas do Ocidente hispânico (Prósper, 2002: 440). Esta ideia assenta em parte na ocorrência dos epítetos sem teónimo apenas na epigrafia lusitana, o que se deveria a uma maior personificação do culto e à evidência do carácter tutelar de Bandi, tornando menos necessária a menção da divindade; bem como no facto de Bandue, que se apresenta como grafia típica da região a norte do Douro, constituir a forma de designação desta divindade com aspecto mais arcaico (Prósper, op. cit.: 273-74 e 280). Neste sentido, afiguram-se mais recentes as grafias consideradas típicas do Ocidente do território actualmente português, como Bandei/Bannei e Bandi (Búa, 2000: 38-39).

Assim, enquanto divindade cultuada também entre os Callaeci, Bandue/Bandi, juntamente com Nabia e Reve, não constitui uma divindade tipicamente lusitana, integrando o rol de “deuses nacionais ocidentais” (Búa, 1997: 58), do qual fariam também parte Cosus e Munidi (Alarcão, 2002: 157).

c) Representação nas localidades do mundo rural

O culto desta divindade no Sul do território actualmente português conta com três testemunhos, um dos quais de Avis (FE 46, 1994, nº 206), outro de Belver, Gavião (AE 1950, 220), e outro de Arronches (Carneiro et al., 2008), registando epítetos distintos. Estes constituem, até hoje, os testemunhos mais meridionais de que dispomos, apontando para a popularidade do deus e extensão do seu culto até ao sul do Tejo.

A primeira inscrição documenta a única utilização, em toda a Hispânia, do epíteto Saisabro, entendido por C. Búa (2000: 45) como um possível etnónimo. Já B. Prósper (2002: 264) propõe, como base do mesmo, um topónimo celta cujo primeiro elemento surge atestado na Celtibéria como antropónimo em Saecia, Saecus, embora também provavelmente como topónimo *Saikya, na base de Saeciensi (CIL II, 2981, Zaragoza). Este epíteto derivaria então de *Saikya-bri-, não obstante a sua leitura incerta, análogo ao conhecido epíteto Isibraiegui (Prósper, op. cit.: 369).

Já a inscrição de Belver regista o epíteto Picio, relacionável, apesar das reservas, com formas como o umbro PEIV < *pik-yo-, remetendo para “negro” (Prósper, 2002: 266-68). Por fim, na epígrafe de Arronches, é atribuído à divindade o epíteto Haracui, que estaria ligado, por uma relação de dependência, a Harase (divindade tópica também presente na inscrição) ou à realidade toponímica subjacente a este teónimo, que corresponderia a um hidrónimo ou orónimo (Ribeiro, 2010: 48).

2.2.2.4. Broeneia

a) Caracterização da divindade e do seu culto

A natureza desta divindade afigura-se difícil de determinar, não dispondo o teónimo de paralelos na teonímia pré-romana peninsular além da inscrição de Arronches (Carneiro et al., 2008; Encarnação e Guerra, 2010: 96). Na primeira publicação desta (Carneiro et al., op. cit.), os autores sugeriram, aproximando o radical br- do que existe em “broa”, uma ligação do teónimo aos conceitos de “pão”, “fermento” ou “fertilidade”. Já B. Prósper e F. Villar

(2009: 9) procuraram vinculá-lo à forma * bhr(e)H1-u-, remetendo para “ferver” e “borbulhar”, o que sugeriria estarmos perante uma divindade da fonte. A autora (Prósper, 2010: 335-36) procurou ainda relacionar o teónimo com o antropónimo masculino Broinienas, registado na epigrafia ogâmica da Irlanda, por sua vez relacionável com o irl. arcaico bráen (chuva, gota), derivando ambos de uma forma celta comum com ditongo *broino-; recuando até à protoforma *bhroi-no- (chuva), sugerindo portanto uma origem celta para Broeneia, entendida como divindade das tormentas.

Por seu lado, Cardim Ribeiro (2010: 48), aludindo à posição de Broeneia entre uma divindade tópica (Harase) e outra soberana (Reve), propõe a sua integração no segundo nível funcional, apontando para o celt. gaulês *brunia>bronia (peito), para o irl. bruinne (peito) e ainda bruinnell (a que tem belos seios), o que sugere a interpretação desta divindade como uma deusa virgem de traços guerreiros.

b) Origem e extensão geográfica do culto

Apresenta-se impossível a determinação da origem e extensão geográfica do culto de Broeneia, uma vez que contamos apenas com um testemunho da sua invocação em todo o território da Hispânia.

c) Representação nas localidades do mundo rural

Esta divindade encontra-se unicamente registada na inscrição de Arronches (Carneiro et al., 2008), onde o teónimo surge acompanhado do epíteto Haracae (leitura de Ribeiro, 2010: 48), apresentando-se dependente de Harase ou da realidade toponímica subjacente a este teónimo (loc. cit.).

2.2.2.5. Carneu Calanticense

a) Caracterização da divindade e do seu culto

J. d’Encarnação (1975: 156; 1984: 100 e 800) atribuíra a esta divindade origem grega, entendendo Carneus como latinização de Kárneios, divindade protectora dos rebanhos dos Dórios, e Calanticensis como epíteto indígena, conferindo-lhe a tutela de uma comunidade criadora de gado; a qual, segundo B. Prósper (2002: 174), designar-se-ia *Kalantika, que “morfológicamente corresponde a un participio de presente y que contiene el grado /o/ de una

raíz *kel(H) – “proteger, ocultar”, associando-se então à ideia de abrigo, protecção (Prósper, loc. cit.).

Por seu lado, para C. Búa (2000: 110; também Prósper, 2002: 174-75), o teónimo derivará de *kar-no-, atestado nas línguas célticas, com o significado de “monte”, “rocha” ou “pilha de pedras”, podendo a sua divinização ser entendida como uma variante da de Crougiae; pelo que a invocação a esta divindade deverá ser lida como “à (divindade) da rocha/pilha de pedras da cidade ou região de Calantica”.

b) Origem e extensão geográfica do culto

A consulta de HEpOL indica-nos uma completa ausência do culto de Carneu Calanticense na Hispânia, excepto no termo rural de Évora, sendo o centro deste culto situável em Arraiolos, de onde provém a totalidade da sua epigrafia (Encarnação, 1984: 490). Este foi identificado com a povoação a que se chamaria Calantica, Calantia, Calantum ou Calanta, possivelmente ligada à criação de gado, que corresponderia à actual Santana do Campo (Encarnação, 1984 e 2010; Prósper, 2002).

c) Representação nas localidades do mundo rural

As três únicas invocações desta divindade, não só do território actualmente português mas de toda a Hispânia, procedem de Arraiolos, tendo duas sido descobertas na igreja de Santana do Campo (IRCP 410 e 411). Já a terceira (IRCP 412) apresenta algumas reservas na leitura, pelo seu estado fragmentado, figurando apenas a letra C; constituindo esta a única divindade cultuada na zona cujo teónimo possui esta inicial.

O nome da divindade seria então composto por um teónimo e um epíteto tópico, que designaria a associação da mesma ao nome de um povo - os Calanticenses - ou de uma povoação identificada por alguns com Arraiolos, não obstante a ausência de referências literárias à mesma nos textos antigos (Encarnação, 1984: 489-90). Porém, no Diccionario Geographico… do Pe. Luís Cardoso (1747, I, p. 590, s.v. “Arrayolos”) consta que, segundo Diogo Mendes de Vasconcelos (editor da obra De Antiquitatibus Lusitaniae de Resende, após a sua morte), Santana do Campo teria sido fundada por populações gaulesas de origem celta, que a designaram Calantia ou Calantria (Encarnação, 2010: 31 e notas 7 e 8). Por seu lado, A. Guerra (2010: 113) refere apenas *Calantica como possível designação da actual Santana do Campo na antiguidade.

2.2.2.6. Dea Medica

a) Caracterização da divindade e do seu culto

Afigura-se problemática a caracterização desta divindade, pela ausência de traços, funções e de uma personalidade própria. Com base numa epígrafe alentejana (AE 1955, 241), esta Dea Medica terá sido equiparada a Minerva, atendendo à invocação desta como Minerva Medica em duas inscrições do Império romano (CIL III, 640 e CIL XI, 1306). Todavia, a perspectiva de A. M. Canto (1997: 166-67), que vê neste testemunho uma invocação de Atégina (integrando a sua epigrafia votiva registada em HEpOL), aliada à falta de indícios que corroborem a assimilação a Minerva neste caso e à condição autóctone da dedicante, justificará a inclusão da Dea Medica no rol de divindades indígenas. No entanto, optei por não incluir a referida inscrição no material epigráfico consagrado a Atégina.

b) Origem e extensão geográfica do culto

Não se registam homenagens à Dea Medica na Hispânia, exceptuando uma procedente da região de Serpa, encontrando-se esta divindade também ausente da epigrafia votiva do Império romano.

c) Representação nas localidades do mundo rural

Foi descoberta apenas uma dedicatória à Dea Medica no Sul do território actualmente português, em Serpa (AE 1955, 241), podendo a divindade ter sido invocada como Dea, interpretação proposta para a sigla D na última linha, antes da fórmula final (loc. cit.), o que apontaria para o seu carácter indígena. Todavia, A. M. Canto (1997: 166-67) propõe a sua leitura como d(omina) e não d(ea), o que sugeriria o uso de Dea Medica para designar Atégina, amiúde invocada como domina.

2.2.2.7. Harase

a) Caracterização da divindade e do seu culto

Quanto ao significado deste teónimo, Carneiro et al. (2008: 169-70) havia proposto, por um lado, a sua origem indoeuropeia, mas também uma possível relação com formas

gregas como aresis (“ajuda”) e aráso (“ancorar”), o que sugeriria a invocação desta divindade em situações de quebra da prosperidade agropecuária; e, por outro, a ligação de hara ao mundo da pecuária, ou à raiz semântica de Arronches.

Embora não tenha sido ainda possível definir seguramente o carácter de Harase, regista-se o culto de uma divindade Arase nas faldas tanto a NW como a SE da Serra da Estrela, atendendo a duas inscrições, de Penamacor (Curado, 2008: 125-27, nº 4) e Fornos de Algodres (AE 1986, 301); com base nas quais Cardim Ribeiro (2010: 47) vê em Harase/Arase um teónimo de base toponímica, remetendo para a região da Serra da Estrela (também Encarnação e Guerra, 2010: 95). Este cenário aponta para uma dependência parcial da epígrafe de Arronches em relação a realidades linguísticas mais setentrionais, e portanto para o desenvolvimento de rotas de transumância entre o NE alentejano e a Beira Interior (Ribeiro, loc. cit.).

b) Origem e extensão geográfica do culto

O culto de Harase/Arase revestir-se-ia de um carácter setentrional, considerando as invocações a Arase descobertas na região da Serra da Estrela, localizando-se o seu testemunho mais meridional na região de Arronches.

c) Representação nas localidades do mundo rural

O único testemunho de invocação desta divindade de que dispomos no Sul do território actualmente português foi descoberto em Arronches (Carneiro et al., 2008), na conhecida inscrição em língua lusitana. J. Cardim Ribeiro (2010: 56) propõe a integração de Harase, enquanto divindade tópica, num bloco de divindades de natureza possivelmente trifuncional, juntamente com Broeneia e Reve, integráveis no segundo e primeiro nível funcional, respectivamente.

2.2.2.8. Munidi (Munis)

a) Caracterização da divindade e do seu culto

De acordo com a sugestão etimológica de Prósper (2002: 189; também Prósper e Villar, 2009: 15), o teónimo derivará da raiz *men-, “cabeça” ou “monte”, remetendo para realidades elevadas, de destaque; o que explica a sua inclusão, por esta autora (Prósper, 2002),

no grupo das divindades dos montes e vales. Já em Carneiro et al. (2008: 171) e J. C. Ribeiro (2010: 56) fora referido o carácter tutelar desta divindade, assimilável à deusa Tutela, pela ligação do teónimo a moneo (“fazer pensar”, “recordar”), e, a partir daí, a “chamar a atenção”, “advertir” (Ribeiro, op. cit.: 49); tendo Prósper (2002: 189) aludido a uma possível relação com Iuno Moneta, cujo epíteto remeteria para a elevação onde viria a fixar-se o templo de Juno.

b) Origem e extensão geográfica do culto

O modesto número de testemunhos deste culto não invalida a sua apreciável extensão geográfica (Alarcão, 2002: 156), procedendo aqueles de Idanha-a-Nova (RAP 169), Guarda (RAP 169a), Paços de Ferreira (CIL II 5607) e Cáceres (AE 1915, 8). Este último é consagrado a Munidi Eberobrigae Toudopalandaigae, tendo B. Prósper (2002: 187) conferido à palavra *palanta o significado de “arroio”, enquanto C. Búa (2002: 61) faz derivar estes epítetos dos topónimos *Eberobrig(a) e *Touta Palanta, respectivamente. Contudo, a formação do epíteto a partir de um topónimo não implicará necessariamente um carácter tutelar para a divindade; situação que se aplicaria a Munidi, pois, para este autor (Búa, loc. cit.), entre as divindades indígenas da Hispânia, apenas Bandue/Bandi assumiria um carácter tutelar.

c) Representação nas localidades do mundo rural

O único testemunho do culto desta divindade no espaço geográfico em análise consiste na inscrição de Arronches (Carneiro et al., 2008), o mais meridional no território actualmente português, onde o teónimo surge acompanhado por dois epítetos. O primeiro foi lido (Carneiro et al., 2008: 95; Prósper e Villar, 2009: 3), como Caria, e aproximado ao epíteto Cariociecus de Marte e dos Lares Cairienses; enquanto Cardim Ribeiro (2010: 50) preconiza a sua leitura como Carla, correspondente ao Carlae de Arroyo de la Luz, parecendo constituir um topónimo.

Já o segundo epíteto foi interpretado como adjectivo de base toponímica (Carneiro et al., loc. cit.; Ribeiro, 2010: 50), atendendo à presença de Cantibedoniensi numa inscrição de Niebla (CIL II 4963, 01), que aponta para a existência de uma cidade Cantibidonia ou um território dos Cantibidonenses, estando já atestado em relação a outra divindade indígena de Segura, Idanha-a-Nova, Erbina (HEp 4, 1994, nº 1042-43).

2.2.2.9. Quangeio

a) Caracterização da divindade e do seu culto

A análise etimológica de B. Prósper (2002: 310) procurou ligar esta divindade a realidades lupinas e/ou caninas, atendendo à derivação do teónimo do IE *kuwon, “cão”, o que daria a Quangeio um aspecto lupino ou canino, ou a função de protecção de uma etnia autodesignada “os cães”. Já C. Búa (2000: 82) entende Quangeio como um nome comum teonimizado, apontando a diversidade de epítetos para a impossibilidade de constituir o nome de um lugar divinizado.

Provêm do Sul do território actualmente português os dois únicos epítetos registados na Lusitânia: Tangus/Tanngus (IRCP 641 e HEp 2, 1990, nº 833) e Turicaecus (FE 38, 1991, nº 174). Este sugere um carácter tutelar para a divindade, assumindo então a função protectora do núcleo populacional dos Turicecos, que poderão ser entendidos como habitantes de Turicum, possível topónimo de raiz celtibérica (Alfenim, FE 38, 1991, nº 174). Atendendo ao registo deste epíteto unicamente em Borba, o núcleo poderia ter-se fixado nas proximidades desta região.

Já o epíteto Tan(n)gus foi relacionado com o topónimo Tan[n]gia Norbana, atestado epigraficamente (Guerra, 1998), e com o antropónimo Tanginus (Encarnação, 1984: 699), estando possivelmente atestada a derivação de teónimos de uma base antroponímica (Guerra, 2002a: 64-65), e revestido de um possível cariz étnico (Búa, 2000: 83). O Quangeius invocado poderia então ter assumido a tutela de um grupo de Tangi, que teriam constituído uma unidade étnica menor do que o populus, instalada em Nisa a partir do território dos Igaeditani; ou então de maiores dimensões, designando o conjunto dos Tapori, Igaeditani e Elbocori (Alarcão, 2001: 313).

b) Origem e extensão geográfica do culto

Trata-se de um culto nitidamente concentrado na Lusitânia, de onde procedem 10 das 11 inscrições registadas em HEpOL, tendo a restante sido descoberta em Orense (FE 23, 1987, nº 102). Destas 10 epígrafes, metade provém do Centro do território actualmente português, entre o Mondego e o Tejo, mais concretamente de Castelo Branco (AE 1977, 356; AE 1984, 478; HEp 4, 1994, 1044) e da Guarda (AE 1988, 695 e 696); sendo as restantes oriundas da região alentejana, de Nisa (IRCP 641; HEp 2, 1990, nºs 830 e 833) e Borba (FE 38, 1991, nº 174), bem como de Cáceres (ILER 802).

Quangeio seria então, como refere J. de Alarcão (2001: 304), uma divindade tipicamente lusitana, considerada, juntamente com Arentius/Arentia e Trebarunis, uma das três divindades do chamado “panteão lusitano”.

c) Representação nas localidades do mundo rural

O culto de Quangeio no Sul do território actualmente português encontra-se unicamente representado em âmbito rural, através de quatro epígrafes, constituindo então a segunda divindade indígena melhor representada no espaço geográfico em análise, como podemos ver pela Tabela 1.

Numa destas inscrições (FE 38, 1991, nº 174, Borba), surge pela primeira vez o epíteto Turicaecus, embora o radical Tur-seja bastante conhecido, a ver por outros epítetos e teónimos, como o Turobrigensis “de” Atégina. O achado desta epígrafe reveste-se de apreciável importância, juntamente com o de outra proveniente de Nisa (IRCP 641), que constitui o primeiro testemunho do culto desta divindade descoberto neste espaço geográfico, ao terem ambas permitido a correcção e interpretação de outras invocações desta divindade anteriormente descobertas (Alfenim, FE 38, 1991, nº 174; Encarnação, 1984: 699).

Já entre as restantes inscrições, oriundas de Nisa, duas (IRCP 641 e FE 23, 1987, nº 106) registam a utilização do epíteto Tan(n)gus; embora a leitura do teónimo não se apresente segura na segunda epígrafe, pelo seu estado fragmentado, sendo contudo apoiada pelos paralelos existentes na região. Foi descoberta em Nisa mais uma inscrição (FE 23, 1987, nº 103), na qual o teónimo surge desprovido de epíteto; afigurando-se então confirmada a ligação de Quangeio à região de Nisa.

2.2.2.10. Reve

a) Caracterização da divindade e do seu culto

De acordo com a proposta de Villar (1996: 191; seguida por Prósper, 2002: 141-42), baseada na análise dos epítetos, Reve identificaria o conceito de “rio”, derivando de *H1reu- (tendo já Blázquez, 1962: 187 referido a sua natureza aquática); opondo-se-lhe a ideia de que nem todos os seus epítetos integram este campo semântico, como Larauco (Witczak, 1999: 70, nota 9). Outros autores (Búa, 1997: 82 e 2000: 66; Witczak, op. cit.: 70-71; Ribeiro, 2010: 42) defendem a origem deste teónimo no IE *dyeu-s, e subsequentemente uma aproximação

semântica de Reve a Zeus e Júpiter, o que o colocaria, numa óptica duméziliana, no primeiro nível funcional.

Esta ideia é suportada pela descoberta de duas aras em Vilar de Perdizes, dedicadas a Larauco d(eo) Max(umo) (HEp 4, 1994, nº 1094) e Iovi O(ptimo) Max(imo) (AE 1980, 578), e de uma dedicação a Reve Larauc(o) em Baltar (AE 1976, 298); bem como pela posição de destaque desta divindade na hierarquia da epígrafe de Arronches (Carneiro et al., 2008), ao receber o conjunto mais importante de vítimas – dez touros consagrados (leitura de Ribeiro, 2010). Neste sentido, Reve é ainda designado por K. Witczak (1999: 70) como “o deus principal dos Lusitanos”.

Entre os seus epítetos, destacam-se Anabaraeco, Langanitaeco e Larauco, todos com

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