a) Caracterização da divindade e do seu culto
Poderemos também conferir uma natureza tutelar aos Lares, embora J. Toutain (1907) não os tenha entendido como tal. As suas funções protectoras aplicam-se tanto ao espaço doméstico e seus integrantes como às encruzilhadas e vias, tendo originado em contexto rural e sofrido uma adaptação à esfera urbana (Fernandes, 2002a: 180).
b) Origem e extensão geográfica do culto
O culto dos Lares privados terá gozado de menor popularidade nas províncias, face ao território itálico (Toutain, 1907: 250). Contudo, outros tipos de Lares, nomeadamente das vias (Lares Viales), encontram-se abundantemente representados na Hispânia, revelando a consulta de HEpOL cerca de 96 inscrições, cuja nítida maioria (69) provém da Tarraconense, correspondendo a 71,8% deste conjunto, seguida pela Lusitânia, com 22 epígrafes (22,9%) e pela Bética, com uma parca amostra de 5 epígrafes (5,2%). De facto, verifica-se uma concentração de testemunhos do culto dos Lares a norte do Douro, onde teriam sido sujeitos a um processo de interpretatio e assimilados a diversas divindades tópicas indígenas (Lambrino, 1965: 233; Olivares, 2006: 147).
No contexto da Lusitânia, verifica-se uma concentração de dedicatórias na região de Cáceres (CIL II 804; HEp 16, 2007, nº 58; ILER 596, 5970 e 5971; HEp 5, 1995, nº 189; HAE 1884; HEp 2, 1990, nº 223); tendo sido também descobertas inscrições em Badajoz (CIL II 729), Monforte (HEp 3, 1993, nº 487), Idanha-a-Nova (HAE 1208; RAP 381), Viseu (AE 1985, 517; AE 1969/70, 248), Guarda (HEp 13, 2003/04, nº 991), Coimbra (RAP 210; RAP 379; HEp 2, 1990, nº 779; AE 1969/70, 247), V. Nova de Foz Côa (CIL II 431), Beja (HEp 9, 1999, nº 738) e Loulé (IRCP 62).
c) Representação nas localidades do mundo rural
Contrariamente à situação verificada para os Genii, da esfera rural do Sul do território actualmente português procedem apenas testemunhos do culto dos Lares, um dos quais (HEp 9, 1999, nº 738) descoberto em 1994 na região do Alvito, numa herdade onde foi identificada uma villa; tendo sido entendido como o primeiro testemunho deste culto no espaço geográfico em análise (Diogo e Feio, FE 62, 1999, nº 280). Porém, havia sido já publicada (Encarnação, 1986: 105-06; HEp 3, 1993, nº 487) uma epígrafe de Monforte, constituindo um inusitado testemunho da invocação dos Lares Viales, se considerarmos a zona da Lusitânia onde foi descoberto (Encarnação, 1986: 106), e o mais meridional no contexto peninsular (Abascal, 1995: 47).
Apresenta-se significativa, na primeira epígrafe, a ausência de qualquer epíteto denunciando aculturações pré-romanas, o que constitui uma situação comum no Norte do país; enquanto nas dedicatórias aos Lares na Lusitânia se apresenta pouco frequente a utilização de epítetos indígenas (Fernandes, 2002a: 180).
2.2.1.6. Júpiter
c-1) Representação nas localidades do mundo rural
Metade da epigrafia votiva de Júpiter no Sul do território actualmente português pode ser integrada no mundo rural. J. d’Encarnação (1984: 794) parece sugerir a integração, na região de Aritium Vetus, de outra epígrafe (IRCP 639) desprovida de teónimo e de dados onomásticos, maculada por claras dificuldades de interpretação; pelo que optei por excluí-la deste conjunto, dada a ausência de quaisquer elementos (por mais subtis que sejam) susceptíveis de apontar para uma dedicatória a Júpiter.
Á semelhança da situação verificada para o mundo urbano, uma das inscrições (IRCP 60, Ossonoba), parece revestir-se de um carácter simultaneamente votivo e funerário, atendendo à gravação lateral de uma pátera e uma coroa com fitas, bem como à colocação do ex-voto em memória de um indivíduo. Esta inscrição apresenta-se ainda relevante por documentar a colocação de uma estátua que seria posteriormente prateada com recurso a determinada soma de libras de prata, apontando para o elevado estatuto económico dos dedicantes, bem como para a possível existência de um santuário na região destinado a guardar esta estátua, embora esta situação careça de confirmação arqueológica (Encarnação, 1984: 108-09).
No tocante aos epítetos registados, contamos com quatro invocações de Iuppiter Optimus Maximus, e uma registando o uso de sacrum. Por seu lado, as epígrafes de Aritium Vetus (IRCP 638 e 640) atestam o uso do epíteto Repulsor pela comunidade indígena desta região, tendo J. d’Encarnação (1984: 697) sugerido a existência de um santuário a “Iuppiter Repulsor” na mesma; sendo esta ideia também suportada pela omissão do teónimo na referida inscrição “duvidosa” (IRCP 639) e sua gravação após o nome do dedicante em ambas as inscrições, marcando uma tentativa de individualização numa série em que todos os ex-votos seriam ofertados à mesma divindade. A onomástica indígena em conjunção com o formulário latino remete também para a já referida bidimensionalidade do culto de Júpiter na Lusitânia (Encarnação, op. cit.: 794).
Ainda nesta perspectiva de caracterização do culto de Júpiter no mundo rural, creio que se afigura relevante uma inscrição (HEp 12, 2002, nº 633, Vila Viçosa), que nos traz uma “pedra de raio” fusiforme na face esquerda, ladeada por dois raios simulando relâmpagos, juntamente com outra representação simbólica do raio na face direita. Estes elementos apresentam-se característicos da iconografia de Júpiter, remetendo para epítetos como
Fulguralis, Fulgurator, Tonans, entre outros (HEp 12, 2002: 228), que evidenciam o carácter soberano e guerreiro desta divindade.
2.2.1.7. Marte
c-1) Representação nas localidades do mundo rural
O culto de Marte encontra-se documentado na esfera rural do espaço geográfico em análise, como atesta a inscrição da villa romana de Torre de Palma, Vaiamonte, Monforte (IRCP 568). O teónimo surge aqui desprovido de epíteto, podendo Marte, de acordo com J. d’Encarnação (1984: 635), ser entendido como deus da guerra ou da agricultura, lutando contra os males climatéricos que a ameaçam; ou então, na já referida perspectiva de Toutain (1907: 259), como divindade romana assimilada a uma antiga divindade indígena. No entanto, figura no monumento uma gravação de Marte em alto-relevo, sobre um pedestal e envergando aparato militar; o que, segundo Lambrino (1965: 242), atendendo à descoberta da inscrição numa villa, parece sugerir uma invocação do Marte guerreiro, enquanto combatente dos inimigos da prosperidade agrícola, mas não como deus da guerra em si.
Podemos então constatar que, no contexto geográfico e cultural do Sul do território actualmente português, o carácter de Marte parece revestir-se de duas dimensões, uma das quais focada na sua natureza guerreira mas simultaneamente ligada ao mundo agrário, observável em âmbito rural; enquanto outra a concebe como divindade protectora no Além (Encarnação, 1984: 222), como nos mostra a epigrafia do mundo urbano.