• No results found

2 Fagutviklerrollen og lærerspesialistrollen i et styringsperspektiv- kunnskapsgrunnlag og

2.4 Styringsvirkemidler og fagutvikling

Margaret

[...] Eu nasci no interior do Ceará, em Santana do Acaraú, mas com oito anos eu vim pra cá, pra Fortaleza e a minha família e dos meus pais, sempre moramos de aluguel. Eu fiquei sabendo da ocupação e tô aqui.

(Entrevista realizada pelo autor em 03/07/2016, com Margaret).

Margaret não quis revelar sua idade, mas aparenta ter cerca de 40 anos. Tem pele clara e baixa estatura, estava sempre acompanhada da sua filha mais velha, uma jovem de 16 anos. Nós nos conhecemos no segundo dia da ocupação, quando ela e uma amiga da sua igreja (Assembleia de Deus) construíam suas barracas com dificuldade. Naquela ocasião, o meu papel era de coordenador e informei-as sobre os acordos coletivos, sobre o proceder da construção do barraco e o horário da assembleia geral. No terceiro ou quarto dia, Margaret ergueu um novo barraco próximo à cozinha do Grupo 2 (G2), que até então funcionava sobre as ruínas do alojamento dos pedreiros.

Esbarrei e dialoguei com Margaret diversas vezes. Pelo protagonismo e referência da ocupante para os demais, convidei-a para uma entrevista em julho de 2016. Ela aceitou de bom grado, tornando-se minha primeira entrevistada.

Tentamos conversar dentro do terreno, na antiga casa dos pedreiros, num cômodo que estava sendo destinado para reuniões da coordenação da ocupação, porém, a dinâmica das atividades não permitiu a pausa e o silêncio necessários para que pudéssemos dar prosseguimento ao diálogo com tranquilidade. Afastamo-nos para os fundos de uma lanchonete, localizada do outro lado da avenida da estrada da Urucutuba.

George

Sou coordenador do G1 e do setor de organização da Ocupação Povo Sem Medo. É, tenho 29 anos, no momento. Deus abençoe que eu chegue ao menos aos 40 (risos) (Entrevista realizada pelo autor em 15/09/2016, com

George).

Conheci George logo no primeiro dia da ocupação, no sábado de manhã. Eu não havia dormido e quando levantei para tomar café e dar continuidade aos trabalhos de organização da ocupação, encontrei-o já “botando pra gerar” 59, ao seu

modo hiperativo de realizar várias atividades, fosse na construção do seu barraco ou prestando auxílio e opinião sobre o barraco dos outros.

Aí eu já cheguei com tudo, já cheguei botando pra ‘gerar’. Construindo barraco, chamando a galera. Vamo que vamo e reunindo. Tem um monte de gente aqui conhecido meu já. Desde moleque mesmo, gente que me conhece, gente que eu abraço. Cara, isso aqui pra mim é uma vida, é uma história, é a minha história e, eu acho que eu nunca mais vou me esquecer disso, desse momento que eu passei aqui dentro desta ocupação. Eu vou participar de outras ocupações, mas essa daqui foi a primeira e é a que vai me marcar pra sempre. (George)

Creio que a identificação entre mim e George, assim como entre mim e Charles ocorreu por questões etárias e de gênero. Éramos próximos em idade e vez por outra, pela aproximação decorrente pela divisão de trabalho social na ocupação, cumpríamos tarefas em comum, de início na infraestrutura, buscando pessoas e materiais de construção, fosse para fazer postes improvisados para luz elétrica, canos para a instalação de água para as cozinhas, cobertura com lonas, construção de palcos dentro uma diversidade de serviços necessários para um acampamento/ocupação. George já havia trabalhado em inúmeras atividades, inclusive na construção civil. Apesar de não possuir diploma de especialista, sabia de tudo um pouco. Aprendi muito com ele.

Conheci por dentro a moradia de George, quando, em dada ocasião, ele me levou até a sua casa para pegar uma chave de fenda. Pude conhecer sua antiga residência (alugada), esposa, filho e cachorro, assim como um altar em que havia uma imagem de São Jorge. Por possuir identificação com tal santo,prolonguei a conversa e descobri que George era afilhado de Pai III, importante liderança religiosa (candomblé) da região, cujo apoio havia tido grande importância no trabalho de base para a ocupação.

59“Botar pra Gerar”ou “É o Gera!” São gírias que indicam ações de animação e/ou festivas, ações que geram outras ações, semelhante à expressão “Botar pra Quebrar”.

Apesar de conceber a religiosidade como elemento de elevada importância no cotidiano daqueles que convivi, não pretendo me alongar sobre a discussão da relação entre religiões populares e movimentos sociais. Citei a Assembleia de Deus e o Candomblé, a fim de compreender o contexto de muitas das aproximações e motivações subjetivas daqueles que ocupam. Isso não seria possível sem a proximidade por dentro “dos geras” que ocorriam na OPSM.

A entrevista com George ocorreu em setembro de 2016, dentro da OPSM. Após quase seis meses de ocupação, não estávamos mais no mesmo espaço social que encontramos e ajudamos a erguer anteriormente. Avançava o tempo de “fogo morto”. Rareavam os barracos e foram flexibilizados os acordos coletivos. George havia se divorciado e tinha outra companheira que conheceu durante a Povo Sem Medo. Moravam juntos lá dentro e haviam mobiliado parte da antiga casa de pedreiros.

Afastamo-nos um pouco dos barracos para iniciar a entrevista, às quatro horas e vinte e poucos minutos da tarde de um domingo. Percebi que George tinha muito para falar; portanto, procurei deixá-lo à vontade para que respondesse com o tempo e o modo que achasse necessário. Adiante, pela riqueza dos detalhes do que foi dito, apresentarei literalmente partes da transcrição. A forma de apresentação crua superou quaisquer tentativas frustradas de tradução. “Filosofia de fumaça analise, e cada favelado é um universo em crise.” (RACIONAIS MC´S. Da Ponte pra Cá, 2002)

Charles

[...] tenho 25 anos, sou fortalezense, nascido e criado aqui e criado em todos os bairros. A gente é meio nômade60, Castelão, Barroso II, Tancredo Neves, Jangurussu, José Walter, Mondubim, Montese e agora Bom Jardim.“(Entrevista realizada pelo autor em 17/09/2016, com Charles).

Conheci Charles em julho de 2014, na ocupação Copa do Povo. Ele me apresentou ao MTST enquanto caminhávamos. Alguns meses depois, soube que havia ido para o Rio de Janeiro, participar da ocupação Zumbi dos Palmares, como uma espécie de intercâmbio de aprendizado entre cearenses e cariocas do MTST.

60Para outras informações sobre os fluxos migratórios e movimentos pendulares na região metropolitana de Fortaleza, ver: ARAUJO, (2010).

No final de 2014 nos encontramos novamente, lutando contra o aumento de passagens de ônibuse novamente alguns meses depois, quando visitei a ocupação Bandeira Vermelha. Mantínhamos até então uma relação distante e por vezes áspera, pelas diferenças entre as organizações das quais fazíamos parte. Naquele momento, eu ainda fazia parte do Coletivo RUA.

Aproximamo-nos somente após a ocupação do CUCA Jangurussu, em março de 2016, à medida que conversávamos e convergíamos politicamente durante os momentos de tensão e tomada imediata de decisões.

Charles, negro, baixo e magro, foi uma das principais lideranças da ocupação Povo Sem Medo, participando e dando apoio a todas as coordenações, setores e grupos desde o primeiro momento. Carregamos juntos o caminhão de bambus, ocupamos, participamos da primeira assembleia, dividimos tarefas, medos e assistimos a violências e solidariedades. Reafirmamos durante a ocupação, nossas distintas trajetórias, cores de pele, padrões de consumo, anseios e oportunidades, embora também tenhamos nos reconhecido naquilo que nos unificava: nossos inimigos em comum, valores, crenças, responsabilidades, indignações e opções de classe.

Foi na escola que estudou no bairro da Sapiranga, EEFM João Nogueira Jucá, que Charles iniciou a sua formação política, ainda no movimento estudantil. Neste mesmo lugar, conheceu Douglas, Robert e outrosex-membros do MCP do núcleo Parque Água Fria, que também vieram a compor posteriormente o MTST.

Entre os cinco entrevistados deste capítulo, Charles foi o único que já havia participado de outras ocupações antes da Povo Sem Medo. Como os demais, tornou-se MTST, construindosua relação de identidade por dentro da ocupação. A Copa do Povo foi marco da sua entrada no Movimento. Em maio de 2016, já havia participado de três ocupações em Fortaleza e uma no Rio de Janeiro.

Morou durante alguns meses na ocupação, onde conheceu sua atual companheira, Diana. Após alguns meses mudou-se para o Conjunto Miguel Arraes, onde passou a morar junto com Diana e três filhas dela. Tive algumas dificuldades para entrevistá-lo, pois com sua nova rotina, como chapeiro61na cozinha de uma lanchonete, precisava trabalhar muito, das 18 horas da noite às 4 horas da manhã,

61Cozinheiro que trabalha com fogão de chapa, a exemplo daqueles que preparam hambúrgueres em

longe de sua residência. Durante o dia, estava dormindo pelo cansaço da longa e noturna jornada.

Entrevistei-o no seu local de trabalho, em setembro de 2016, uma hora antes do mesmo entrar na cozinha de uma lanchonete no Jangurrusu. Havia muito barulho e trânsito de pessoas, além do incomodante olhar do seu chefe, que o via sentado, dando uma entrevista.

Charlotte

[...] Sou coordenadora do G5. Tenho 24 anos. Sou nascida aqui mesmo em Fortaleza. Antes de vir pra cá, eu passei algum tempo no Siqueira, outros tempos no Jatobá e depois eu vim para a Ocupação Povo Sem Medo aqui no Bom Jardim (Entrevista realizada pelo autor em 24/06/2017, com

Charlotte).

Charlotte, negra e robusta, não me era próxima como outros daqueles que ocuparam. Acredito que nos conhecemos com pouco mais de um mês de ocupação, quando ia almoçar nos finais de semana no grupo cinco (G5), um dos mais organizados. Porém, na época, da entrevista, não havia mais cozinha neste ou em qualquer outro grupo. As cozinhas tornaram-se individuais.

No final da tarde de um sábado, encontrei-a comendo pipoca com amigos. Reconheceram-me e perguntaram o porquê de eu estar tão sumido; aproveitei para explicar que fazia uma pesquisa e convidei Charlotte para contribuir para meu trabalho. Ela, ainda que tímida, aceitou. Nos afastamos até o campo onde outrora aconteciam as assembleias.Esta foi a penúltima entrevista e ocorreu ao fim de junho de 2017.

Elizabeth

“[...] Eu nasci em São Paulo, vim pra cá pro Ceará com 12 anos, voltei pra São Paulo com 14 e depois retornei com 16 com a minha família, com meus pais e meus irmãos. Morei no interior daqui (Itapiúna). Com 18 vim para Fortaleza. Hoje eu tenho 33 anos e estou aqui agora lutando pela minha casa. Não tenho mais pais. Minha mãe morreu já faz 10 anos e meu pai morreu ano passado. Tenho três filhos. Um de 15, um de 10 e um de 7 anos. É isso.” (Entrevista realizada pelo autor em 01/07/2017, com

Elizabeth é mãe solteira. De fala articulada, aparenta ascendência negra e indígena. Foi coordenadora do Grupo 4, talvez aquele com maior dinamicidade e organização dentro do OPSM. Sempre nos víamos nos atos e demais atividades, mantendo um contato amistoso, mas com pouca proximidade.

Foi minha última entrevistada: pela sua destacada atuação no seu grupo, me foi indicada por outra companheira da coordenação estadual do MTST. Realizei essa entrevista no início do mês de julho de 2017, período excepcionalmente chuvoso em Fortaleza. Pudemos conversar demoradamente sob um barraco remanescente no meio da ocupação, ilhados pela chuva.

Seguindo o roteiro de entrevistas e modificando-o quando julgava necessário, iniciei nossa conversa por questionamentos referentes tanto aos trabalhos que realizou na ocupação quanto nas suas atividades profissionais.