transposto, de vários outros jornais (inclusive do Diário de S. Paulo), como afirmou seu ex
dono, uma publicação de propaganda do “Projeto de Programa do Partido Comunista do
Brasil” (FOLHA DE ITUIUTABA, 06/03/1954), partido que vivia na clandestinidade desde a
49 Podemos afirmar também que Fued Dib e Sammir Tannus também eram ligados a Ala Moça, defendendo o nacionalismo. Como nos afirma DIB, sobre sua atuação ainda no movimento estudantil na década de 1950: “era através das entidades nossas estudantis, eu tive a honra de participar ativamente do movimento brasileiro nacionalista né, da ação nacionalista brasileira” (DIB, 2009).
década passada. G erado Sétim o e E rcílio D o m in g u es foram con d u zid os à D e le g a c ia L ocal para dar esclarecim en tos, onde afirm aram que a tal n otícia foi paga para ser publicada no jornal. E rcílio fo i p rocessad o com b ase na L ei de Im prensa, p rocesso que foi arquivado ainda
no m esm o ano (F O L H A D E IT U IU T A B A , 10/0 4 /1 9 5 4 ).
Cruz N e to (2 0 1 6 ), ao analisar os reflex o s sobre a R ev o lu çã o C ubana nas páginas de alguns jornais produzidos no T riângulo M in eiro - abrangendo o recorte tem poral de 1959 até 1964 - , n os afirm a que a Folha, em suas páginas, dem onstrava adm iração p ela revolu ção e a defendia co m o um even to libertador para o país caribenho a partir do arquétipo nacionalista de triunfo revolucionário, sendo que P etraglia fo i um grande exaltador da revolu ção cubana nas páginas do p eriódico, apesar de os jornalistas salientarem que não eram com unistas.
H á, em 1964, um texto na F olh a com o título: “N o v a agressão à C uba”, assinado com o X X X , o qual afirm a que os E U A estão in vestin d o em um a n ova ação contra a R ev o lu çã o Cubana (F O L H A D E IT U IU T A B A , 0 1 /0 2 /1 9 6 4 ). T am bém se encontra no jornal a cham ada para um a palestra na C âm ara M unicipal do M u n icíp io, na qual o C om unista da cidade vizin h a e líder regional do R oberto M argonari, de U berlândia, relataria sua visita à U n iã o S ov iética e a outros países do leste europeu (F O L H A D E IT U IU T A B A , 1 3 /0 7 /1 9 6 3 ).
O grande “crim e” da F olh a foi ser o porta-voz das esquerdas da m icrorregião. N a s suas páginas encontram os d esd e a d efesa de in teresses trabalhistas, sindicalistas e nacionalistas, co m o escritos e inform es dos com unistas (apesar de esse s serem m ín im os). A s elites lo ca is viam o jornal co m o um in im ig o que precisava ser derrotado, e o go lp e de 1964 foi esse m om ento. C om o n os afirm a Tannus, a relação entre a F olha e U D N foi de op osição, tanto que:
[...] eles (os udenistas) tiveram que aproveita a força que eles criaram e eles tinham que eliminar os adversários, a luta pelo poder é eterna, sempre foi assim né? Num tinha uma ideologia política nenhuma, eles eram contra o Jornal do Ercílio porque o jornal era contra eles (TANNUS, 2015).
A d em ais, José A rantes afirm a que:
porque era oposição da UDN, era oposição, esse jornal não comungava o mesmo pensamento da UDN, então ele foi fechado pela revolução. Como o Zé Arsênio caiu, ele podia tá com um rosário na mão na igreja rezando - ele tinha caído [...]Faziam propaganda contra a UDN, ai veio a revolução e a menina dos olhos da UDN era fechar o Jornal do Ercílio e aconteceu (ARANTES, 2015).
D a m esm a form a que a F o lh a de Ituiutaba, há um grande núm ero de jornais que foram fech ad os p elo g o lp e de 1964. P o d em o s citar alguns com o, por ex em p lo , O B inôm io, jornal de sátira e crítica p olítica produzido em B e lo H orizonte; O Sem anário, jornal de orientação
nacionalista; B ra sil U rgente, inform ativo católico; P anfleto, jornal da Frente de M ob ilização Popular (B rizolista); P o lítica O perária, tab loid e da N o va esq u erd a; os sem anários clandestinos N o vo s R u m o s e A C lasse O perária, que eram jornais ligad o ao PC B ; e A L ig a, do m ovim en to das L igas C am p on esas. T od os esses jornais são um a alternativa ao que con h ecem os com o a G rande Im prensa, ou m ídia burguesa, e m uitos deles foram o em brião do que viria ser con h ecid o co m o im prensa alternativa da década de 1970. E sse s im p ressos se apresentavam com o críticos ao sistem a liberal ou apoiadores das R eform as de B a se propostas por João G oulart (K U C IN SK I, 2 0 0 1 ). A F o lh a não fu giu d essa lógica.
C om o no afirm am M artins e L uca (2 0 0 6 ), “regim es autoritários im puseram (e ainda im p õem ) lim ites às atividades jorn alísticas, por m eio de censura, apreensão de ed ições, proibição de circulação, persegu ição de p rofission ais etc.” (M A R T IN S; L U C A ; 2 0 0 6 , p. 11). N e sse sentido, não bastava caçar/apreender os jornalistas. Era n ecessário estrangular o m eio a partir do qual as id eias chegavam ao público, e assim foi fe ito 50.
A s atividades da F olha foram interrom pidas p elo G olpe, sendo que nenhum a edição do jornal correu em abril de 1 9 6 4 51. O jornal, no in ício d esse m ês, foi fech ad o e im p ed id o de circular, e E rcílio e G eraldo (junto a outros que escreviam no p eriód ico) foram p ersegu id os pela aliança civil-m ilitar. E rcílio foi preso pela junta com anda p elo capitão C laudio R ech e encam inhado ao D O P S de B e lo H orizonte, onde fico u preso por um período de 21 dias, liberado por m o tiv o s de saúde. Sétim o se refugiou na zon a rural da cidade e se entregou dias depois, sendo tam bém encam inhado para a capital m ineira. T em p os d epois os dois foram liberados, m as ficaram sobre v ig ilâ n cia p olítica durante um período.
O s dois foram p rocessad os por subversão e o jornal proibido de circular - d epois liberado apenas o funcionam ento da parte gráfica da em presa. G eraldo foi exonerado do cargo
50 Há diversos trabalhos que se dedicaram a compreender processos políticos por meio dos jornais, desde o apoio até o papel de resistência. Sem a intenção de fazermos um inventário exaustivo, podemos citar alguns que se destacam em relação ao estudo sobre os prelos, o golpe de 1964 e a ditadura militar: O trabalho de Rodrigo Sá Motta (2006) que, por meio de análise de caricaturas de jornais, tentou interpretar o contexto do Golpe de 1964, analisando como a imprensa operava no pré-1964, demonstra como se instituiu o imaginário social no período diante da crise política. As charges da maioria dos jornais de grande circulação, ao pintar uma imagem desfavorável de João Goulart, acabaram ajudando no processo de desestabilização do presidente; já em relação à ditadura militar (1964-1985), a historiadora Maria A. Aquino (1999), ao comparar o jornal da Grande Imprensa
O Estado de S. Paulo com o semanário Movimento - considerado jornal de Imprensa Alternativa típico da década de 1970 -, discute a censura e seus efeitos práticos nos diferentes prelos durante a ditadura militar, apontando de maneira latente a resistência e a criatividade dos diferentes jornais; por outro lado, Beatriz Kushnir (2004), ao analisar o jornal Folha da Tarde, também de grande tiragem e circulação nacional, afirma que muitos dos jornalistas foram colaboradores do regime autoritário, contribuindo com autocensura dos jornais. Inclusive,
muitos dos jornalistas do jornal analisado eram apoiadores e trabalhavam em favor do regime.
51 A última edição que encontramos do jornal Folha de Ituiutaba, tanto no acervo da Biblioteca Nacional quanto do CEPDOMP, foi a referente à data de 25/03/1964.
p ú b lico que ocupava no IB G E da cidade. O acervo do jornal resguardado por E rcílio foi con fiscad o p elo s m ilitares, e não tiveram m ais nenhum a n otícia sobre a coleção.