(sobre pessoas, grupos e organizações) que acabam por se transformar em mecanismos de auto-sustentação do próprio regime (CAMARGO, 2002, p. 2). N ã o raro, as in form ações procedentes d esses registros são inexatas e enganadoras. M uitas de cunho pejorativo. D e sse m odo, o historiador d eve m anter, co m o v ia de regra, um a atitude prevenida de su sp eição em relação a essas fon tes.
U m a constatação im portante que ajuda a entenderm os os arquivos D O P S é que esses docu m en tos eram produzidos diariam ente de form a rotineira, sem nenhum a pretensão de inform ação para a posteridade. E sse s docu m en tos “nascem para servir de instrum ento ou prova de determ inadas ações e são alh eios a um eventual u so secundário que d eles se p ossa fazer” (C A M A R G O , 2 0 0 2 , p. 4). T em os de com preender que o con h ecim en to h istórico d eve ser entendido com o um a construção e co m o um a superação de evid ên cias. L ogo, esses docu m en tos constituem prova efetiva do ex ercício repressivo, m as, por m ais que não correspondam à verdade ou tenham inform ações inexatas, são testem u n h os do órgão que os elaborou. D e v e m o s interpretar o d ocu m en to não por ele m esm o, m as, sim , p elo sentido que ele dá aos sujeitos históricos.
O d ocum ento rep ressivo já citado traz com o in d iciad os um a série de n om es, relacion an d o-os co m o “m em bros do Jornal F o lh a de Itu iu ta b a” . O s prim eiros n om es da lista são do grupo editorial do p eriódico, em prim eiro lugar, o dono, E rcílio D o m in g u es da Silva, segu id o do redator-chefe, G eraldo S étim o M oreira, e, m ais à frente do relatório, o outro redator, M an oel A gostin h o. N a lista, tam bém encontram os alguns n om es da p olítica institucional, co m o o prefeito José A rsên io de Paula e o v ic e R o d o lfo L eite de O liveira, e os vereadores e suplentes: C ristovão José de R ibam ar N u n es, A n tôn io Ferreira N eto, Sebastião F rancisco da S ilva (tam bém co n h ecid o co m o “ Satipo”), José A rantes de O liveira, G erm ano Laterza, G eraldo M o isé s da Silva, D ió g e n e s Souza, G eraldo L uiz M orais A ndrade, D avid Francelino de O liveira e Pedro de L ourdes M orais.
T am bém n essa m esm a lista, encontram os outros n om es, co m o M ário C am pos, Iracides L im a, T hom áz de A q u in o P etaglia, H um berto T eodoro Júnior, A n tôn io de A ssis, R om ualdo João da Silva, A n ésio Santana dos Santos, G én esio A lv e s Ferreira, M ário C alil, Jerônim o Franco G ouvêa, Sadala Jorge, Jorge Jacob N u n es e M igu el Q ueiróz de faria - m uitas dessas figuras eram ligadas a m o vim en tos so cia is de trabalhadores na cidade, principalm ente ao recém -fu ndado Sindicato dos Trabalhadores R urais.
E m seguida, encontram os outra série de n om es, dessa v e z , são 32 testem unhas, provavelm ente, denunciando os indiciados. São n om es que surgem no d ocum ento que não reaparecem à frente dessa tram a histórica. E les são d esd e funcionários p ú b licos m unicipais
(um total de 14, desde secretários até m otoristas e operários), bancários (2), fazendeiros (3), ta b eliões e escreven tes de cartórios (2), com ercian tes (6), ad vogad os (1 ) e lavradores (2). C uriosam ente, m uitas das p rofissões dos in d iciad os são próxim as das p rofissões das testem unhas, provavelm ente, trabalhavam na m esm a área p rofissional ou até no m esm o local (co m o ex em p lo, o bancário M ario C am pos e um a das testem unhas que tam bém trabalhavam na m esm a agên cia do B an co do B rasil na cidade). Isso não exclu i a p ossib ilid ad e de que, além d esses citados, pod e haver outros delatores que não são apontados na fich a crim inal. A s denúncias, quase sem pre, eram feitas por m eio do anonim ato, isso n os dem ostram que as tais denúncias poderiam ter outros m o tiv o s para além do cunho id eo ló g ico . P oderiam ser desde d esaven ças p essoais até m o tiv o s de p rom oções e cargos no m eio profissional.
C om o advento da ditadura m ilitar, criou-se um c o m p lex o aparelho rep ressivo que b uscava elim inar o que era considerado su b versivo e, ao m esm o tem po, reprimir, preventivam ente, qualquer atividade que fo sse considerada suspeita - que p u d esse vir em potencial a subverter a ordem . A lém de inform antes esp ecializad os, havia tam bém inform antes espontâneos, que, m uitas v e z e s, p ossu íam cu m plicidade com o regim e e cooperavam de form as voluntárias, fo sse por co n v icçã o ou para se prom over no determ inado cenário. A técn ica con sistia em suspeitar de qualquer um , coletar e arquivar inform ações e entregá-las por escrito à p o lícia - a denúncia ficava no anonim ato, apenas a p o lícia p olítica tinha acesso a elas. Por m eio da v in cu lação de notícias fabricantes de m edo, que apontavam um in im ig o em inente, o cidadão com um era convidado, durante o período do regim e, a participar da com unidade de in form ações. N ã o raro, os inform antes não eram id en tificad os e seu cam po privilegiad o de in vestig a çã o era o seu próprio am biente de con vívio: qualquer um era objeto de su sp eição (M A G A L H Ã E S , 1997).
A o final da F ich a de IPM , encontra-se um apontam ento da p o lícia p olítica local sobre qual ação deveria (para eles) ser executada, de tal m od o que é “ Sugerida a cassação do registro do jornal F o lh a de Itu iu ta b a”, e em relação a prisões, o d ocu m en to d izia que não havia a n ecessid ad e de efetuar “nenhum a” . D e fato, com o, na prim eira sugestão, o periód ico realm ente fo i cassado, entretanto, em relação à segunda, o que acon teceu fo i praticam ente o contrário. A con tecera m u ito m ais do que estava p revisto n esse prim eiro docum ento.
A “O peração L im p eza” v iso u elim inar qualquer p ossib ilid ad e de ação por parte dos que eram considerados “in im ig o s da R ev o lu çã o ” . O “A to do C om ando Suprem o da R ev o lu çã o ” estab elecia que os encarregados de p rocessos e inquéritos - que suspendiam direitos p o lítico s e cassavam m andatos - poderiam delegar atribuições referentes a in v estig a çõ es e d iligên cias, bem co m o requisitar sindicâncias e inquéritos que, até então, eram
reponsabilidades de outras esferas. A ssim , foram criadas as co n d içõ es para que coronéis, tenente coronéis, m ajores e capitães (que ficariam con h ecid os, pejorativam ente, com o “coron éis dos IPM ”) execu tassem suas p ersegu ições, conduzindo IPM s e propondo as tais p u n ições (FIC O , 2 001).
A elaboração d esse d ocum ento e o seu encam inham ento serviu co m o um a cham ada para a ação dos m ilitares localm en te. A té esse m om en to, a produção do d ocum ento e os sujeitos en v o lv id o s estavam restritos à cidade. O IPM foi encam inhado ao C om ando Suprem o da R evolu ção, no qual o T enente C oronel José G om es R od rigu es de A lbuquerque encarregou sua ex ecu çã o ao C apitão C láudio A lb an o de B rito R ech , que ch egou a Ituiutaba com um a junta m ilitar não só para apurar os fatos (dentro de seu s prin cíp ios), m as am p liá-los e executar
apreensões.
A ssim , a ação se deu em três m om entos: 1) executar as d ep o siçõ es na p olítica institucional de cargos do leg isla tiv o e ex ecu tiv o - cargos esse s que foram eleitos dem ocraticam ente e lig a d o s aos projetos lo ca is trabalhistas e colocar em seu lugar outra ordem política, de cunho conservador; 2 ) coerção e p ersegu ição de sujeitos ligad os a m o vim en tos sociais de trabalhadores e ao recém -fu ndado Sindicatos dos Trabalhadores Rurais; 3) o fech am en to do jornal F o lh a de Itu iu ta b a e prisão dos atores que com punham sua linha editorial.
Entretanto, apesar de tratarm os o tem a, separadam ente, em eix o s, não p od em os d esvencilhar os even tos. O IPM instaurado é apenas um e e sse s sujeitos tinham , p oliticam ente, suas ações interligadas, além de que não eram bem vistas p elas elites lo ca is e p elo s m ilitares. E sses três e ix o s funcionavam em conjunto, por isso deveriam ser desarticulados e neutralizados. O s p o lítico s vinham em pregando políticas trabalhistas, de m od o que o sindicato surgiu co m o m aneira de reivindicar os direitos dos trabalhadores, enquanto a F o lh a se fez co m o o porta-voz dessas alas que vinham conquistando o esp aço p olítico na m icrorregião.
O T enente C oronel José G om es R odrigues de A lbuquerque, do C om ando Suprem o da R evolução, encarregou o C apitão C laudio A lb an o de B rito R ech, então com andante do 36° batalhão, localizad o na cidade vizin h a de U berlândia, de averiguar a “ subversão” no Pontal do T riângulo M ineiro. O C apitão R ech foi responsável por um a série de IP M s na região toda do T riângulo M in eiro no ano de 1964, desde p ersegu ições a p o lítico s de esquerda, um a liga
cam ponesa, a p rofessores, a sindicatos rurais, sindicalistas, entre outros que não n os cabe analisar aqui .
L o g o em seguida ao g o lp e que dep ôs o Presidente da R epública, in ic io u -se um a cam panha de p ersegu ição e apreensão em tod o o país. E ssa série de IP M s instaurados no T riângulo M ineiro, co m o já citado, fe z parte da “O peração L im p eza”, que aconteceu em n ível nacional, inaugurando a m o b ilização geral das forças repressivas do n o v o regim e p olítico.
C onfigura-se, aí, o em brião de um n o v o aparelho de controle por m eio da repressão que, n esse prim eiro m om en to, organizou expurgos dentro de organism os p olíticos, burocráticos e m ilitares. D e sse m odo, M oreira A lv e s (1 9 8 9 ) afirm a que:
Os IPMs tornaram-se uma fonte de poder de facto para o grupo de coronéis designados para chefiar ou coordenar as investigações. Configuravam o primeiro núcleo de um aparato repressivo em geminação e o início de um grupo de pressão de oficiais de linha-dura dentro do Estado de segurança nacional (ALVES, 1989, p. 57). O d ocum ento de IPM referente à cidade de Ituiutaba deu origem a um d o ssiê lid o ao fim de um a das reuniões na Câm ara M unicipal do m u n icíp io e, posteriorm ente, entregue ao D O P S -M G . E sse evento, in clu siv e, dem onstra a relação entre os m ilitares e, em parte, o poder p olítico institucional da cidade.
A o analisarm os docu m en tos da p o lícia p olítica, d evem os ter em m ente que esse s docu m en tos n o s trazem um a v isã o essen cialm en te repressiva e conservadora, que exp ressa o p osicion am en to de quem os produziu. N o caso do n o sso trabalho, p od em os observar que esses docu m en tos não expressam som en te a v isã o dos m ilitares que produziram os relatórios e os inquéritos e de quem o s assina em b aixo, m as tam bém de c iv is que residiam na cidade, os quais ajudaram cooperando com os m ilitares para a construção d esses docum entos.
P o d em o s assegurar que m uitas das in form ações que encontram os em relatórios referentes a sujeitos da cidade são detalhadas a ponto de um grupo de m ilitares vin d o de outras localid ad es não con segu ir elaborá-las em p ou co tem po sem algum a ajuda, no que concerne às in form ações de p esso a s que viv ia m na cidade e que, p rovavelm ente, con viviam ju n to aos indiciados. 57
57 Ao pesquisarmos nos arquivos do DOPS de Minas Gerais, encontramos a pasta de número 0008 referente a