6. Can commodities or exchange traded funds bring positive diversification effects to a portfolio of
6.1 Computing portfolios
6.1.2 A portfolio consisting of commodity based exchange traded funds and MSCI World
Para a recuperação do cenário canavieiro do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, a fim de ver o movimento das pessoas comuns36, os pequenos produtores de cana tecendo uma verdadeira trama ou teia, impôs-se a viva participação, agora, no presente, do pesquisador condutor deste projeto, cuja experiência e suas próprias reações à experiência investigada se manifestaram no contato com os sujeitos-atores do processo de conhecimento em construção. Isso se deu, sobretudo, através da aplicação da metodologia da História Oral, via que permitiu uma riqueza de dados, os quais supriram lacunas que a documentação escrita não cobriria. Mas alerta Jim Sharpe que a
[...] história oral tem sido muito usada pelos historiadores que tentam estudar a experiência das pessoas comuns, embora, é claro, não haja razão por si só evidente do motivo pelo qual o historiador oral não deva gravar as memórias das duquesas, dos plutocratas e dos bispos, da mesma forma que dos mineiros e dos operários fabris.37
Assim, esta pesquisa ela não investiga apenas a atuação dos dirigentes da produção industrial canavieira e o centro de poder que a orienta. Ela busca, sim, em seus depoimentos, explicações para o entendimento da trajetória dos canavieiros. Toma como baliza da construção do cenário canavieiro as falas das pessoas comuns, sem desconsiderar
36
Por pessoas comuns entendem-se: “[...] aquelas que se inserem num dado modo de vida – do qual emana uma certa ‘experiência’ – que, por sua vez, faz emergir uma cultura que lhe é, via de regra, correspondente.” SILVA, Luiz Geraldo Santos. Canoeiros do Recife: história, cultura e imaginário (1777-1850). In: MALERBA, Jurandir. (Org). A velha História: teoria, método e historiografia. Campinas, SP: Papirus, 1996. p. 94.
37
SHARPE, Jim. A História vista de baixo. In: BURKE, Peter. A escrita da História. 2. ed. São Paulo: Ed. da UNESP, 1992. p. 48-49.
a análise da estrutura social, bem como o jogo das relações políticas do contexto em foco. Foi o que buscamos fazer. E a respeito se pronuncia Sharpe: “Ignorar este ponto, ao se tratar da história vista de baixo ou de qualquer tipo de história social, é arriscar a emergência de uma intensa fragmentação da escrita da história, talvez mesmo de algum tipo de ‘antiquarismo’ moderno.”38
Parafraseando o mesmo autor,39 a história vista de baixo, no tempo presente em estudo, conduz ao convencimento de que os canavieiros articularam uma rica trajetória, rompendo com o imaginário que sonega a participação de segmentos da sociedade civil local no processo histórico. E recuperá-la, a partir de sua escuta, permite corrigir os erros de leitura da realidade regional, demarcada como Litoral Norte, a qual revela, ainda, rasgos de exclusão.
Quer-se, pois, observar, de perto, a realidade concreta, com suas contradições, presentes e passadas, dessas pessoas comuns, os produtores de cana, descrevendo-se analiticamente o seu modo de vida e suas experiências de trabalho; como também conectar as relações do seu mundo com a sociedade mais ampla na qual estiveram e/ou estão inseridos.
Portanto, para recuperar as ações dos trabalhadores de cana, foram ouvidas suas falas, mas também escutadas as outras, com a clareza de que essa história vista de baixo só iria ser melhor visibilizada se fosse trazida à cena a história vista de cima. É que não existe uma história vista de baixo sem uma história vista do alto, ou melhor: “As relações de poder na sociedade perpassam todas as camadas sociais e, portanto, interferem no nexo interno de toda e qualquer ação e representação efetuada socialmente, seja entre as pessoas comuns, seja entre a elite.”40 Daí ter-se dialogado com co-atores da realidade, como ex-
prefeitos, ex-vereadores, ex-governadores e seus secretários e também ex-deputados estaduais que atuaram no período em foco, além de diretores da AGASA, engenheiros agrônomos e funcionários, de diferentes lugares e fazeres na empresa. Cotejar os dois lados possibilitará, sim, uma escrita, mais clara e lúcida, da realidade em estudo, com vistas a capturar suas explicações sobre as causas do silêncio das moendas da usina, das conseqüências da desilusão para suas vidas e das repercussões que o fechamento da usina determinou.
38
SHARPE, Jim. A História vista de baixo. In: BURKE, Peter. A escrita da História. 2. ed. São Paulo: Ed. da UNESP, 1992.. p. 54-55.
39
Idem. Ibidem, p. 62.
40
SILVA, Luiz Geraldo Santos da. Canoeiros do Recife: história, cultura e imaginário (1777-1850). In: MALERBA, Jurandir. (Org). A velha História: teoria, método e historiografia. Campinas, SP: Papirus, 1996. p. 101.
Quando da elaboração do projeto desta pesquisa, com seu recorte temático circunscrito à história do tempo presente, tinha-se bem claro que os caminhos desse campo teórico proporcionariam o alargamento muito rico e amplo da noção e do uso de fontes. Não só o documento escrito (manuscrito ou impresso) haveria e importaria, como também o iconográfico, o cartográfico e outros tantos, em vários suportes.
Na atualidade, sobretudo, o historiador do tempo recente é um criador do arquivo da palavra, ao registrar as falas dos atores sociais dos objetos que estuda e pesquisa. Mas há que ter cuidados. Como oralista da história, sua prática deve ser seguramente conduzida por técnica cuidadosa de recolha dos depoimentos, bem como de sua análise e interpretação, para o que alerta Núncia Constantino: “[...] os historiadores que utilizam fontes orais precisam ter mais algumas habilidades, porque precisam também narrar emoções, silêncios, exclamações, interrogações, risos.”41 É que a prática da História Oral tem uma metodologia própria e específica, e segui-la é condição de êxito do trabalho. A propósito, Aspásia Camargo destaca: “O gravador é técnica, não é metodologia.”42 Em outro texto ela complementa: “Nas entrevistas gravadas, a fonte histórica é o Homem e sua memória, reavivada pela presença ativa do entrevistador-pesquisador.”43
A constituição de um conjunto sistemático, diversificado e articulado de depoimentos que o historiador grava sobre seu objeto de estudo, sejam de histórias de vida ou de ordem temática, lhe permite não só colher informações. Trata-se de um instrumento de compreensão das ações humanas e das suas relações com a sociedade organizada e as tramas do poder constituído. Captar a lógica e os resultados das ações expressas pela linguagem dos sujeitos sociais impõe-se diante dos desafios do jogo da ideologia.44 Para tanto, Aspásia Camargo previne:
[...] para poder penetrar numa sociedade desenvolvida [...] o informante é aquele que conta histórias [...] todo ator é suporte da ideologia da sua classe [...]. Isso significa que não há possibilidade de você falar com alguém, e que essa pessoa não reflita a matriz ideológica, cultural ou interpretativa do seu grupo. [...] A chave de tudo (é) combinar a história de vida com a História Oral. [...] Procuro mostrar como
41
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Narrativa e História Oral. Humanas, Porto Alegre: IFCH/UFRGS, v. 16, n. 1, p. 115-126, jan./jun. 1993. p. 119.
42
D’ARAUJO, Maria Celina. Como a História Oral chegou ao Brasil; entrevista com Aspásia Camargo. História Oral: Revista da Associação Brasileira de História Oral, São Paulo, n.2, p. 173, jun. 1999.
43
CAMARGO, Aspásia Alcântara de. O ator, o pesquisador e a História: impasses metodológicos na implantação do CPDOC. In: NUNES, Edson de O. (Org.). A aventura sociológica: objetividade, paixão, improviso e método na pesquisa social. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 293.
44
“O desafio da história oral nesse sentido é mostrar, diferentemente do que costuma ser consagrado, que a memória não é apenas ideológica, mitológica e não confiável, mas sim um instrumento de luta para conquistar a igualdade social e garantir o direito às identidades.” É o que afirmam: FERREIRA, Marieta de Moraes; FERNANDES, Tania Maria; ALBERTI, Verena. História Oral: desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz/ Casa de Osvaldo Cruz/ CPDOC; Fundação Getúlio Vargas, 2000. p. 13.
a história de vida é que dá a matriz de referência fundamental para a narrativa; porque todo ser humano tem referências de tempo na sua história e na sua percepção. A história de vida me permite capturar esses referenciais e controlar a entrevista.45
Diferente não é a posição de A. Lins Caldas: “[...] a objetividade depende do sistema sujeito-objeto em ação na pesquisa, da ‘posição de classe’ e da ‘consciência histórica’ do oralista, isto é, o método, ao assumir ser uma perspectiva subjetiva compatível com a subjetividade geral do ser social, abandona a tola pretensão científica da subjetividade.”46
E como historiadora da região, temos isso muito claro, o que é possível perceber na narração que discorremos, formatada no texto deste trabalho.
Mas, seguindo, pergunta-se: Que fatos a metodologia da História Oral47 conduz a entender? Na verdade, as situações em que o ator se move, com suas conexões passadas, presentes e futuras. Para tanto, devem ser escolhidos os atores. Nesta pesquisa, a partir de uma lista de cerca de 800 canavieiros que em 1958 fundaram uma cooperativa, buscamos identificar os que estavam vivos, para depois localizá-los no município de Santo Antônio da Patrulha e fora dele para constituir uma rede48 dessa categoria expressa numa colônia.49 Para o estabelecimento da rede, a escolha foi aleatória, a partir da direção geográfica. Ou seja, percorremos os morros que foram da cana 50 e batemos de porta em porta, indagando se o morador ou a família plantava ou havia plantado cana. Se afirmativa a resposta, feita a apresentação, informava-se a origem familiar da visitante e a sua relação com o cartorário Juca Maciel. As portas logo eram abertas, pois todos o conheceram, porque estiveram no Cartório para registrar sua terrinha, ou mesmo para tratar do empréstimo bancário para a sua produção canavieira. Depois de um “bate-papo” informal com o dono da casa e sua família, que logo atenta se acercava para ouvir ou também se manifestar, falávamos da pesquisa que se estava realizando e dos seus objetivos. Indagado se aceitava falar das suas vivências com a cana, como produtor nos pequenos engenhos ou como fornecedor para a AGASA, iniciávamos com perguntas sobre sua história de vida. De imediato, era
45
D’ARAUJO. Maria Celina. Como a História Oral chegou ao Brasil: entrevista com Aspásia Camargo. História Oral: Revista da Associação Brasileira de História Oral, São Paulo, n. 2, p. 173, jun. 1999.
46
CALDAS, Alberto Lins. Oralidade: texto e história para ler a história oral. São Paulo: Loyola, 1999. p.75.
47
Para Caldas: “Em História Oral, ‘método’ são meios para decompor, sintetizar, compreender, criar, interpretar, destruir e recriar criticamente determinado presente.” Diz, ainda: “[...] proporciona orientação para a criação, para o conhecimento e para a consciência do presente.” Ver CALDAS, Alberto Lins. Oralidade: texto e história para ler a história oral. São Paulo: Loyola, 1999. p. 69.
48
“[...] é uma subdivisão da colônia e que visa estabelecer parâmetros para decidir quem deve ser entrevistado ou não.” MEIHY, José Carlos Sebe. Manual de História Oral. 2. ed. rev. ampl. São Paulo: Loyola, 1996. p. 61.
49
Refere-se a “[...] grupos que têm traços comuns que marcam um comportamento amplo que os caracteriza. [...] A colônia é sempre o gênero, do qual a rede é a espécie.” Idem, ibidem. p. 61.
50
Especialmente o morro onde se localizam as comunidades de Montenegro, Ribeirão de Baixo, Ribeirão do Meio, Alto Ribeirão e Palmeira do Sertão.
percebível o sentimento de valorização que a ele se estava atribuindo, pela satisfação revelada de poder ajudar no trabalho, demonstrada através da sua expressão e postura de compenetração a que se punha. A relação com o gravador, na quase totalidade das entrevistas, foi tranqüila, sem resistência ou intimidamento, o que poderiam manifestar os entrevistados face às suas condições de vida no meio rural. Nas viagens realizadas pelos caminhos de terra, a passagem de um carro já chamava a atenção, e a chegada gerava, a princípio, desconfiança – sentimento logo dissipado com a conversa de identificação.
Paralelamente, a partir da lista dos fornecedores de cana para a AGASA, identificamos os cooperativados e constituímos uma outra rede. O mesmo foi feito com funcionários da usina e com os engenheiros agrônomos que orientavam tecnicamente os canavieiros. Foi articulada também uma rede com os dirigentes políticos (prefeitos, secretários, deputados e governadores) para capturar o espelho contracenado da trajetória dos canavieiros. Essas e outras redes e colônias possibilitaram um rico espectro para ler a realidade canavieira em estudo. Portanto, a escolha dos depoentes não foi rígida e fechada, devido à dificuldade de localização de muitos deles, aos limites práticos dos contatos e às resistências para conceder a entrevista.
Dos diálogos realizados, geradores de lembranças de acontecimentos e vivências, como também da tomada de posição diante das ações em movimento e de suas recorrências, se fez um balanço do ciclo da cana, notadamente nas décadas de 1950 a 1990, a partir dos sujeitos-atores.
Dado o caráter metodológico generalizante e difuso adotado, o cronograma das entrevistas não foi rígido, nem na ordem (que não houve), nem na duração. Igualmente não se adotou um esquema estruturado de perguntas e respostas, e nem por isso não se perdeu o rigor científico da pesquisa diante da naturalidade do diálogo. Portanto, se flexibilizou o roteiro para articular a espontaneidade e até a improvisação do depoente, concedendo a possibilidade de ir e vir no discurso para atender à construção de sua lógica durante a entrevista. Tentativas de elaboração de roteiro fechado ou de mostrá-lo antes de sua aplicação ao informante não foram feitas, salvo em duas exceções, com depoentes da rede de ex-dirigentes da AGASA. Tínhamos claro, nas normas de conduta nessa prática metodológica, que a surpresa da provocação reavivaria o diálogo das lembranças.
Foi assumido um papel ativo e vigilante na captura das imprecisões nas falas. Procurou-se articulá-las com dados já codificados e até interpretações divergentes presentes nos diálogos. Os roteiros foram adequados aos rumos das entrevistas para que se extraíssem delas coerência e unidade no desempenho dos entrevistados.
A sistematização dos dados colhidos foi feita a partir das variáveis orientadoras da pesquisa, o que possibilitou melhor conhecer os atores e sua trajetória nas diferentes fases por eles vividas. Indagou-se sobre origem social e geográfica; fixação na terra; formas de relações de trabalho; socialização intelectual, política e ideológica; relações tradição/modernidade e normas de convivência na comunidade canavieira; relações agricultura/indústria; poderes local e do Estado e suas relações com a região canavieira e os fatores que determinaram o fechamento da AGASA e suas repercussões.
O levantamento histórico através da oralidade dos canavieiros (fornecedores de cana ou não para a AGASA), dos atores com mandos políticos e de outros envolvidos com a causa dos pequenos produtores de cana foi fundamental para a recomposição do cenário de suas vidas e de suas comunidades canavieiras em quatro tempos: no tempo da euforia (décadas de 1940/1950); no tempo da cooperativa (1958-1962/1965); no tempo da AGASA (1965-1990) e no tempo da construção dos cenários do destino posterior destes sujeitos que se estende até os dias de hoje. Para tanto, se trabalhou com a intersecção de duas abordagens: a diacrônica, numa primeira etapa, realizando-se um estudo em profundidade histórica, com o exame de uma volumosa bibliografia recorrente ao objeto de estudo, através de uma varredura historiográfica e análise de uma diversificada documentação escrita; e a sincrônica, com o estudo em profundidade do tempo presente, através do registro etnográfico realizado quando da produção da documentação oral com os sujeitos da realidade canavieira em estudo. Quando da coleta dos dados, além dos registros em fitas magnéticas, os depoentes foram fotografados em seus ambientes e cenas da vida cotidiana.
Para a determinação metodológica do trabalho com a evocação das lembranças pela fala, tinha-se muito claro e presente que ainda pairam algumas resistências acerca do uso da História Oral na pesquisa histórica. Por exemplo, alguns ainda têm dúvidas se são confiáveis as informações contidas na entrevista oral e sobre como o pesquisador neutraliza as falas da memória humana para garantir a fidedignidade dos dados colhidos. Entretanto, indiscutivelmente, na atualidade é quase unânime a aceitação de que a entrevista não é uma fonte menor de informação. Para o historiador tradicional, o documento escrito é o que tem valor, porque não é sujeito à interpretação. Mas essa é uma falsa idéia, porque o documento escrito também sofre o mesmo processo, como alerta Aspásia Camargo. “Quem disse que uma pessoa só escreve a verdade para a outra?” E
ainda enfatiza: “Ela pode estar inventando, dando informações falsas, ocultando informações, interpretando o que lhe convém.”51
Como a história-realidade é infinita, nenhuma fonte isolada dá conta de permitir sua escrita. Ou seja, qualquer fonte, isoladamente, tem valor relativo. E Paul Thompson em sua clássica obra A voz do passado: História Oral destaca:
Toda fonte histórica derivada da percepção humana é subjetiva, mas apenas a fonte oral permite-nos desafiar essa subjetividade: descolar as camadas de memória, cavar fundo em suas sombras, na expectativa de atingir a verdade oculta. Se assim é porque não aproveitar essa oportunidade que só nós temos entre os historiadores [...].52
De qualquer forma, se pode neutralizar a subjetividade de um depoimento ou de um conjunto de falas, valendo-se de muitos recursos, como diversificar os testemunhos para capturar uma amostra significativa de múltiplas tendências, para que no final seja possível confrontar pontos de vista discordantes. Na pesquisa em curso, foi o que se fez.
Como testemunhas, suas falas colhidas, suas memórias ouvidas, trazidas no ato da narrativa, foram interpretadas na busca da explicação do real. E a cristalização do real foi configurando-se através dos diferentes depoimentos colhidos com dizeres similares e expressões idênticas. Fez-se então uma seleção das informações para confirmá-las ou corrigi-las, e depois hierarquizá-las para finalmente concluir. E por tratar-se de testemunhas ouvidas de viva voz que se pode tirar partido dessa possibilidade. Daí as fontes orais serem tão importantes quanto as escritas. Dir-se-ia mais: da História Oral podem emergir fatos, fazer falar vozes antes mudas, ressuscitando memórias encobertas pelo silêncio.
As fontes orais cruzadas com as fontes escritas permitiram uma maior visibilidade na pesquisa realizada, cujas evidências do real apareceram mais nítidas, mais claras e mais concretas. Para essa possibilidade confirmada, Roberto Franck nos animou: “É uma grande sorte para o historiador do presente, graças às testemunhas que interroga, poder fazer a
51
CAMARGO, Aspásia de Alcântara. O ator, o pesquisador e a História: impasses metodológicos na implantação do CPDOC. In: NUNES, Edson de O. (Org.). A aventura sociológica: objetividade, paixão, improviso e método na pesquisa social. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 289.
52
THOMPSON, Paul. A voz do passado: História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 197. Observe-se que historiadores do Rio Grande do Sul vêm crescentemente valendo-se dessa oportunidade com acertos, mas também com limites. A propósito, examinar PENNA, Rejane Silva. Fontes orais e historiografia: avanços e perspectivas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.
arqueologia da memória coletiva.”53 E o traço mais significativo da memória coletiva é a organização ativa das experiências vividas.
Eis a riqueza dessa operação feita a partir das memórias individuais para a arqueologia da memória coletiva do cenário dos canaviais, com vistas à potencialização da pesquisa. Assim, conforme Paul Thompson, se devolverá às pessoas que fizeram e vivenciaram a história um lugar fundamental, mediante suas próprias palavras.54
Toynbee, a propósito, afirmou:
O conhecimento pessoal dos fatos é de tamanha valia que se torna necessário que a História comece a ser escrita pelos que participaram dela. A ação do tempo, o enfoque da perspectiva, o amadurecimento dos homens possibilitarão, sem dúvida, uma revisão proveitosa. E, exatamente porque o estudo da História é a sua revisão constante, ela precisa começar a ser escrita com o depoimento dos seus protagonistas. Faz muito pouco tempo que os homens se convenceram de que o presente é também História.55
Importa no seguimento precisar alguns conceitos, sobretudo os que se referem aos sujeitos da pesquisa oral. São eles:
a) canavieiro: é o pequeno proprietário de terras, que planta cana-de-açúcar e produz artesanalmente (agromanufatura), com mão-de-obra familiar, a cachaça, a rapadura, o melado e o açúcar mascavo. Com a instalação da AGASA, muitos canavieiros se transformaram em fornecedores de cana;
b) fornecedor de cana: para esta pesquisa, é, em maioria, o pequeno proprietário de terras (em média, até 5 ha), que plantou cana-de-açúcar principalmente para fornecê- la à AGASA. Alguns deles praticavam, paralelamente, a produção artesanal dos