4. Empirical analyses of risk and return in commodity markets
4.7 Commodity risk and return
4.7.1 Sharpe ratio
Inicialmente, destaque-se que os pais da Escola dos Annales já haviam dado uma especial atenção ao presente. Como bem destacou Marc Bloch, “A incompreensão do passado nasce, afinal, da ignorância do presente.”21 Igualmente, Lucien Febvre, por sua vez, num curso de História da vida contemporânea, afirmou que “a análise do presente” podia dar “a régua e o compasso” à pesquisa histórica.22
O que ocorre é que a História do Presente é a que menos conhecemos. Sua fisionomia, seus contornos, suas evidências comparecem ao historiador, pode-se dizer, confusas, até que ele os aborde. Ao fazê-lo, impõem-se cuidados de ordem metodológica para não resultarem em problemas epistemológicos, dada a natureza da presença física do historiador em seu tempo e no seu tema.23 Mas Chauveau e Tétart reconhecem: “[...] continuamos sem munição. Para o presente não dispomos de uma referência como “Faire de l`Histoire.”24
Na verdade, é consensual entre os que vêm atuando com o tempo presente25 que o terreno há pouco vem sendo desbravado. Há que precisar-se a metodologia e a epistemologia do tempo recente e até o seu significado. E mais: se questiona se a história do presente, a história próxima, a história imediata e a história recente têm o mesmo significado.
Sobre a escolha semântica, Chauveau e Tétart respondem:
21
CHAVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões para a História do Presente. In: CHAVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. (Org.). Questões para a História do Presente. Bauru, SP: EDUSC, 1999. p. 10. Sobre a Escola dos Annales há farta bibliografia em nosso meio. Carece, entretanto, sobre a História do Presente.
22 Idem. Ibidem, p. 10. 23 Idem. Ibidem, p. 16. 24 Idem. Ibidem, p. 19. 25
O Institut d’Histoire du Temps Présent, da França, é um dos espaços de estudo desse campo da história. E a obra Questões para a História do Presente reúne autores que intentam clarear estes conceitos e demarcar o campo.
[...] pouco importa que a história próxima leve vantagem, segundo alguns, sobre os últimos trinta anos, e que a história do presente englobe, segundo outros pontos de vista cinqüenta ou sessenta últimos anos. As duas funcionam de um mesmo modo, definem-se por características comuns: a natureza dos arquivos e sua forma de acessibilidade, a natureza dos métodos, o círculo dos historiadores, a continuidade cronológica num século. As duas possuem, além disso, o recuo necessário para desapaixonar a abordagem científica.26
Certo é que o historiador é testemunha quando descreve a história e também é ator no lugar e tempo em que ele se encontra, em relação direta com o tema. E mais que isso: ele é cidadão, para além de ator, e também espectador. E daí sua estreita condição de viver o pertencimento da história e a possibilidade de mais amplamente desvendá-la e trazê-la à luz.27 Eis a especificidade da metodologia de trabalho com a história do presente, diante da tentativa de homogeneizar o método em história, em quaisquer tempos, assentado na aludida neutralidade e cientificidade da pesquisa.
Quem tranqüiliza acerca da formatação do presente é Sirinelli:
A consciência dessa subjetividade permite ao mesmo tempo freá-la – historiador (insistimos nisso), dominando seu ‘tempo’ com seu ‘ofício’ no sentido técnico do termo – e como vimos, utilizar-se dela quando pode ajudar na reflexão histórica. Há, portanto, de fato, uma espécie de dialética, a manter com o contexto histórico.28
A centralidade da questão reside na epistemologia da história do presente, que motiva a interrogar a história a fim de propor novos dados, que aumentarão a sua capacidade de explicação e de sugestão.29 Com essa clareza e postura adotadas, vislumbra- se a importância de saber qual a função social do historiador enquanto sujeito do seu tempo, que pode e deve trazer para o futuro sua parcela de participação na reconstituição da história presente e intervir sobre a realidade histórica em construção. Além do que, a história deve ser sempre estudada a partir do presente para o passado, e não o contrário.30
26
O Institut d’Histoire du Temps Présent, da França, é um dos espaços de estudo desse campo da história. E a obra Questões para a História do Presente reúne autores que intentam clarear estes conceitos e demarcar o campo. p. 27-28. (Grifo nosso).
27
Nessa direção destaca Padrós: “[...] deve fazer parte da ética dos historiadores o compromisso de tornar compreensível a dinâmica das sociedades, desvelando o que está velado, [...] sem deixar de socializar suas informações e sem sonegar explicações. PADRÓS, Enrique Serra. Os desafios na produção do conhecimento histórico sob a perspectiva do Tempo Presente. Anos 90: Revista do Programa de Pós-Graduação em História/ UFRGS, IFCH, Porto Alegre: PPGH, v. 11, n. 19/20, p. 199-223, jan./dez. 2004. p. 220.
28
SIRINELLI, Jean-François. Ideologia, tempo e história. In: CHAUVEAU, Agnès; TÉTARD, Philippe. (Org.). Questões para a História do Presente. Bauru, SP: EDUSC, 1999. p. 82.
29
Para Tétard, o tempo presente vem crescentemente granjeando “[...] completo reconhecimento científico, pedagógico e editorial, decorrente de uma aposta intelectual, de sucesso científico e de uma grande demanda social.” TÉTARD, Philippe. Pequena História dos historiadores. Bauru, SP: EDUSC, 2000. p. 134.
30
VILLAÇA, Flávio. Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. In: DÉAK, Csaba et al. O processo de urbanização no Brasil. São Paulo: EDUSP, 1999. p. 181.
Aliás, Chesneaux, para quem o presente tem primazia sobre o passado, indaga: Que lugar ocupa o saber histórico na vida social? 31 É E. H. Carr quem dá a resposta: “Permitir ao homem compreender a sociedade do passado e aumentar seu controle sobre a sociedade do presente.”32
Eis a relevância do trabalho com a história presente, diante dos demais tempos, exatamente pela possibilidade mais próxima e palpável de praticar o compromisso social de cientista. Como diz Le Goff: “O presente me interessa antes de tudo como cidadão.”33 E é esse medievalista e estudioso da memória que oferece a esta pesquisa, que aborda mais de perto, com maior ênfase, os últimos 50 anos da tradicional região canavieira do Rio Grande do Sul, algumas recomendações diante da tarefa de trabalho com a história imediata. A intenção é praticar as quatro atitudes que ele sugere:
a) ler o presente, o acontecimento com profundidade histórica suficiente e pertinente;
b) manifestar quanto a suas fontes o espírito crítico de todos os historiadores segundo os métodos adaptados a suas fontes;
c) não se contentar em descrever e contar, mas esforçar-se para explicar; d) tentar hierarquizar os fatos, distinguir o incidente do fato significativo e importante, fazer do acontecimento aquilo que permitirá aos historiadores do passado reconhecê-lo como outro, mas também integrá-lo numa longa duração e numa problemática na qual todos os historiadores de ontem e de hoje, de outrora e do imediato, se reúnam.34
Os atores sociais que ocupam o lugar central desta pesquisa são os pequenos produtores35 de cana-de-açúcar de Santo Antônio da Patrulha e imediações. Eles viviam cercados pelos canaviais, como seus avós e pais, produzindo, conforme herança familiar, artefatos da cana, em engenhos de pequeno porte, e, posteriormente, se configuraram como fornecedores para a usina de açúcar, a AGASA, a partir de 1966 (1ª safra), até a década de 1980. Ao seu final a usina agonizava, vindo a encerrar suas atividades na safra 1989/1990.
31
CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábula rasa do passado? Sobre a história e os historiadores. São Paulo: Ática, 1995. p. 9.
32
CAR, E. H. Que é história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. p. 22.
33
LE GOFF, Jacques. A visão dos outros: um medievalista diante do presente. In: CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. (Org.). Questões para a História do Presente. Bauru, SP: EDUSC, 1999. p. 93.
34
Idem. Ibidem, p. 101-102.
35
Quer-se evocar aqui E.P.Thompson, que centrou seus estudos especialmente no século XVIII, e também Eric Hobsbawn. Ambos sempre se ocuparam de pessoas comuns, nos mais diferentes temas de que têm tratado. Mas não só os marxistas ingleses estabeleceram a noção de pessoas comuns. Também historiadores ingleses não- marxistas, como Peter Burke, oferecem elementos nessa perspectiva. Na obra A escrita da História, por ele organizada, Jim Sharpe aborda A História vista de baixo. No seu texto destaca a aura subversiva dessa perspectiva, alertando, de um lado, perigos, e, de outro, que ela veio ajudar a corrigir a ênfase concedida à história política ainda presente na história imediata. E, ao abordar o trabalho de Thompson sobre a classe trabalhadora, destaca como a história é fundamental para auxiliar na sua auto-identificação, sobretudo como atores históricos. Com essa perspectiva, focam-se aqui os minifundiários da cana. Examinar BURKE, Peter. (Org.). A escrita da História: novas perspectivas. 2. ed., São Paulo: Ed. UNESP, 1992. p. 39-62.
Em janeiro de 1990, a sirene da usina tocou pela última vez, e as moendas calaram-se para sempre.
Viviam os canavieiros no alto dos morros, sem luz, sem estradas, carentes de comunicações e de escolas para seus filhos, sem bens e serviços, até que a esperançosa usina e a infra-estrutura da Vila, ao seu redor, lhes proporcionassem melhores condições de vida. O que detinham era uma herança familiar de cultura profissional dos fazeres com a cana-de-açúcar, repassada pelas gerações, secularmente. Essa tradição, entretanto, não estava registrada, ou seja, documentada. Impunha-se, com urgência fazê-lo.