Ainda que brevemente, é necessário mapear, especialmente, as tentativas agromanufatureiras209 das comunidades canavieiras precursoras, situadas no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, como alicerce para a compreensão do processo formador da grande usina açucareira gaúcha, a AGASA, criada em Santo Antônio da Patrulha, na década de 1960. Aliás, trata-se de espaço simbólico, o escolhido para sediar a indústria de açúcar no estado do Rio Grande do Sul. De centro político que fora do nordeste da Província no século XIX, e polarizador da economia canavieira norte-litorânea até então, sua condição potencial era a de ser a sede do maior empreendimento do ramo no Rio Grande do Sul.
2.3.1.1 Santo Antônio da Patrulha
Já visibilizadas as raízes canavieiras do município, interessa, no seguimento da análise, verificar como se encaminhou no século XX a sua trajetória no ramo. Há notícia de que, nos seus primeiros anos, ao tempo do Intendente José Maciel, fora tentado novamente estabelecer um Engenho Central. Teria sido na primeira década, mais ou menos em 1902 ou 1903, o intento projetado, mas acabou não se concretizando.210 Entretanto, recordou Leonel Mantovani que quase todo agricultor, mais ou menos de posse, tinha um bangüê particular, que era movido a boi ou a burro.211
Em 1973, a escuta de canavieiros, na sede e arredores de Santo Antônio da Patrulha, confirmou que a tradição canavieira herdada dos antepassados era ainda evidente, através da atuação de alguns donos de engenhos que resistiam aos reveses que a conjuntura impunha naquela altura. Um trabalho de pesquisa de campo oportunizou a coleta de dados interessantes, não só das etapas da manufatura dos derivados da cana, como a situação de vida que apresentavam, diante da condição de tradicionais canavieiros do município.212 Alguns
209
Um dos fornecedores de moendas e alambiques na região era a fábrica Badermann & Cia. Aberta na década de 1920, estava situada no município de Taquara. A origem da tecnologia canavieira para atender o mercado regional ainda precisa ser investigada.
210
Depoimento de José Maciel Júnior concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 13 maio 1986.
211
Depoimento de Leonel Mantovani concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 17 nov. 2001.
212
BARROSO, Véra Lucia Maciel. Relatório do Levantamento das manifestações folclóricas de Santo Antônio da Patrulha. Porto Alegre, 1973. (Monografia datilografada).
exemplos colhidos ilustram: Pedro da Silva Rocha, conhecido por Pedro Rapadureiro, residente no Passo do Sabiá, 2º distrito do município, à margem da então RS 17, atual RS 30, entrevistado aos 55 anos de idade, naquele ano afirmou:
Nasci e me criei na rapadura. Na minha família, eu era o cortador de cana. Cada filho tinha uma incumbência. Desde os dezoito anos, faço rapadura. Passei a fazer outros biscates, mas concluí que o caminho era enveredar para a rapadura, coisa que sabia fazer desde pequeno. A obrigação financeira me obrigou a seguir este caminho. [...] Já valeu fazer rapadura. Ganhei muito dinheiro. Mas, atualmente, a concorrência é muito grande. Ando cansado e pretendo parar. A família não quer continuar; acha muito puxado esse serviço. O forno é quente, principalmente no verão, que é mais difícil de trabalhar.213
Conhecido na comunidade de Entrada do Mato, próximo à Lagoa dos Barros, como
Jorge Batata, Jorge Domingues de Oliveira, nascido em 1901, também entrevistado em 1973;
fazia cachaça desde os anos de 1940, ao contrário do pai, que se dedicava à rapadura e ao melado. Também com alambique, Lídia Fraga dos Santos, residente na RS 30, próximo à Lagoa, fabricava, com os filhos, aguardente, enquanto o marido plantava e puxava cana para a AGASA. Disse ela: “Faço cachaça há uns 20 anos. O meu sogro fazia, e eu e meus filhos aprendemos com ele a fazer e seguimos o mesmo caminho, como ele seguiu o pai. Chegamos a vender cerca de mil litros por domingo. Mas a estrada nova prejudicou a fabricação.”214
A partir desse lastro da tradição, somado a uma tentativa agroindustrial original promovida por Hans André, conhecido na comunidade patrulhense como um inventor alemão, a expansão canavieira em Santo Antônio da Patrulha e Litoral Norte do estado estimulou outros projetos agroindustriais que foram implementados, sobretudo na segunda metade do século XX, e que serão apresentados em seguimento deste estudo.
2.3.1.2 Colônia São Pedro, de Torres
Fundada em 1826, a Colônia São Pedro215 encontrou na produção canavieira um esteio para resistir ao isolamento. Afinal, os passageiros e tropeiros ali encontrariam a aguardente,
213
BARROSO, Véra Lucia Maciel. Relatório do Levantamento das manifestações folclóricas de Santo Antônio da Patrulha. Porto Alegre, 1973. (Monografia datilografada). p. 28.
214
Idem, p. 34-35. A estrada nova trata-se da BR 290, também conhecida como Free-way.
215
Situada na estrada aberta, junto aos rios Mampituba e Verde. Depois de grande enchente, os colonos foram transferidos para terras entre as lagoas do Morro do Forno e Jacaré.
tão procurada por eles. A princípio, um mercado certo, ainda que insuficiente para fazer prosperar a colônia.
Para Jean Roche, a cana-de-açúcar foi imediatamente cultivada pelos colonos, favorecida pela Revolução Farroupilha (1835-45), provocando o aumento da procura local de açúcar e melaço, vindo a prejudicar, segundo ele, as importações do norte do Brasil.216 Passados cerca de 20 anos da chegada dos primeiros colonos, o ten. cel. Francisco de Paula Soares de Gusmão, comandante do Distrito de Torres, descreve em relatório de 1º de novembro de 1847 ao presidente da Província sobre a atuação dos alemães na área instalados: “Somente o fabrico de aguardente da cana bastaria para elevar a Colônia a um alto grau de opulência.”217 E adiante aponta os reveses que vinham enfrentando:
Esta via que até hoje seguem os colonos, moradores do Distrito de Torres para a exportação das suas aguardentes, couros e outros gêneros, diariamente se torna mais custosa pela exorbitância dos fretes das carretas, circunstância que os obriga a não exportarem as produções das suas lavouras, pois é o frete exigido, superior ao valor dos gêneros que podem trazer ao mercado.218
Advertia que, em virtude desse isolamento, a fome e a miséria ameaçavam os colonos de São Pedro de Alcântara. O pesquisador José Krás Selau, natural dessa colônia, hoje município de Dom Pedro de Alcântara, confirma e amplia esse quadro, dizendo em sua obra:
Este estado de coisas foi-se arrastando até o fim do século, quando alguns colonos, a partir de 1880, resolveram levar a cachaça para Porto Alegre. Dentre esses heróis-aventureiros se destacaram os Kreuzburg e os Magnus. [...] Foram idealizadas carretas de uma bitola com as seguintes características: um leito com até 13 palmos de comprimento, com nove palmos de largura, com duas rodas raiadas de até 10 palmos de altura por um palmo de largura. A altura das rodas e a largura eram para tornar a carreta mais leve, uma vez que a mesma enfrentava quase sempre estradas de areias fofas e profundas. Transportavam estas carretas até 3 mil litros ou 6 pipas de cachaça. Eram puxadas por 6 a 8 juntas de bois. [...] as pipas eram trazidas por cima da lagoa do Jacaré, em forma de jangada, ou seja, amarradas umas às outras e assim boiando nas águas da lagoa eram conduzidas até o Campo Bonito, onde eram carregadas nas carretas.[...] Quando as carretas chegavam a Porto Alegre, depois de uma viagem de uns 15 dias, mais ou menos, a cachaça era vendida em seguida [...].219
216
ROCHE, Jean. A colonização alemã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1969, t. 1, p. 251. Aliás, o autor destaca que a cana desempenhou importante papel nas colônias, especialmente nas de mais difíceis comunicações. Contudo, os pesados impostos sobre a aguardente e o monopólio do açúcar branco imposto pelo Nordeste foram obstáculos ao desempenho canavieiro entre os alemães. Os colonos protestavam contra a política e as medidas do Instituto Nacional do Álcool e Aguardente. Ilustra também o problema a matéria: PRODUTORES ameaçados. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 12, 05 dez. 1952.
217
Apud KRÁS BORGES, Mário. Curiosidades de Torres. Folha do Litoral, Osório, a. III, n. 100, p. 4, 04 abr.1980.
218
Idem. Ibidem.
219
Como os fretes e os intermediários absorviam quase todo o lucro do colono, informa Selau que, em 1911, alguns colonos, liderados por Manoel Baltazar, Bento Farias e Cincinato Borges, uniram-se e decidiram edificar uma destilaria de álcool, visto que quase toda cachaça de Torres tinha esse destino. Assim, a usina foi construída no Morro do Coco. Entretanto, essa tentativa regional foi uma esperança frustrada. O álcool do nordeste gaúcho posto em Porto Alegre era mais barato do que o custo da cachaça da Colônia São Pedro. A usina foi fechada, e, até a década de 1940, podiam ser vistas suas ruínas.
Mas os colonos de São Pedro não esmoreceram face às dificuldades de toda ordem. Lá pelo ano de 1933, destaca Selau, os colonos, novamente, se organizaram e fundaram a Cooperativa Torrense de Aguardente, presidida por Francisco Heinzenreder, que resistiu até a década de 1950. Em 1935, a Cooperativa, associada à firma Dreher e Cia., tentou a segunda usina de álcool na Colônia, considerada moderna e sofisticada na época. Ficava na Baixada, defronte à gruta de N. Srª. de Lourdes. Mas, só funcionou alguns meses. Houve outras tentativas no município de Torres: em 1946, no Porto Colônia,220 e, em 1958, uma destilaria de álcool e aguardente, em Morrinhos. Sobre a Usina de Morrinhos, diz Selau:
Pronta para ser inaugurada, os colonos eufóricos começaram a cortar cana. Os dirigentes mandaram moer 200 mil litros de garapa que foi depositada nas respectivas cantinas para fermentar. Quando a mesma ficou pronta para ser Destilada, aconteceu o desastre. A coluna da Destilaria não funcionava. Vieram os técnicos. O tempo passava e nada. Ninguém conseguiu fazê-la funcionar. Foi diagnosticada a impossibilidade de recuperação. Havia erros técnicos na montagem. Falou-se até em sabotagem. Conclusão: a garapa tornou-se vinagre que não pode ser aproveitado como tal, devido à grande quantidade. Por isso as cantinas foram abertas e o vinagre alagou o potreiro do Sr. Antônio Policarpo, destruindo uma vasta pastagem que, é claro, teve de ser indenizada. E assim encerrou-se o capítulo das tentativas de industrializar-se a cultura básica dos nossos colonos que cabisbaixos voltaram aos seus engenhos tocados a pescoço de bois, exatamente como faziam seus antepassados.221
Antes da industrialização da cana, as famílias da Colônia São Pedro adoçavam o café da manhã com o açúcar mascavo feito em fornalhas. Após moer a cana, queimavam o caldo numa grande bacia de cobre ajustado ao forno de tijolos. O líquido se evaporava, restando o farelo da cana no bacião. Para granular ainda mais, colocavam o farelo numa barrica e escorriam o melado.222
220
Não se obteve dados dessa iniciativa.
221
SELAU, José Krás. Colônia de São Pedro: um pouco da sua história. Torres: [s.n.], 1995. p. 33.
222
2.3.1.3 Torres
A produção de aguardente está presente na economia torrense desde o século XIX; dado comprovado pelas estatísticas. Roche, por exemplo, aponta que Torres tinha 29 destiladores no ano de 1866.223 Em 1859, havia 21 engenhos de açúcar, com a exportação de 1.616 arrobas, mais 451 pipas de aguardente e 50.600 unidades de rapaduras.224 Entretanto, os problemas sempre apontados na documentação são o isolamento e as dificuldades de comunicação para a venda da produção, a ponto de os deputados provinciais dedicarem muitos debates ao tema na Assembléia.
Proclamada a República, o quadro não mudou. Em 1915, a cachaça, registrada como principal produto torrense, atravessou séria crise, pelo baixo preço, há muito congelado, por 20 a 25$000 a pipa, além de o imposto do selo ser muito oneroso. O desânimo impunha-se, sobretudo, diante dos parcos recursos para a subsistência familiar. É que a falta de transporte fácil também não estimulava a hipótese da troca de produção por outra mercadoria mais rentável.225
No século XX, duas iniciativas no âmbito das comunicações foram importantes para a economia torrense, especialmente da cana, e o desenvolvimento regional: a ligação lacustre- ferroviária e a BR 101.226 Dos sucessivos projetos lançados na monarquia para integrar Torres, por terra, por mar ou lagoas, a República ficou herdeira, efetivando-se ali, no mandato do cel. Pacheco (1921-1925), obras para a sua inserção na via lacustre-ferroviária, implantada, no Litoral Norte, na República Velha.
223
ROCHE, Jean, 1969, v. 2, p. 538.
224
Quadros anexos ao ofício da Câmara Municipal de Conceição do Arroio ao presidente da Província em 30 set. 1859. Correspondência Ativa da Câmara Municipal de Conceição do Arroio em 1899. AHRS.
225
RUSCHEL, Ruy Ruben. A crise da cachaça em 1915. In: _______. Torres tem História. Porto Alegre: EST, 2004. p. 290-291. Textos compilados por Nilza Huyer Ely. A obra reúne, em 880 p., os artigos do Des. Ruschel, publicados na imprensa local ou regional, nos quais trata de diferentes e muitos temas e ciências que dominava.
226
Projetado desde a década de 1840, o Porto de Torres, logo que proclamada a República, ganhou projeção, mas não foi concretizado. No século XIX, caminhos foram abertos para a integração entre o Planalto e a Planície Costeira, o que efetivamente não se consumou. Iniciando o século XXI, estão em andamento as obras da chamada Rota do Sol, executando, em parte, os projetos do século XIX. Estudos das comunicações entre o Litoral Norte e a Serra são encontrados nas obras da série Raízes, da editora EST, em textos do Des. Ruy Ruben Ruschel, de Nilza Huyer Ely e de Véra Lucia Maciel Barroso. Desta, em especial, sua dissertação de Mestrado: Santo Antônio da Patrulha: vínculo, expansão e isolamento (1803-1889), 1979.
A navegação lacustre entre Osório e Torres,227 oficializada em 1921, ativou a prática comercial hidroviária da agricultura e da pecuária, atingindo diretamente os municípios de Torres, Osório e Palmares do Sul, complementada pela ferrovia. Da Lacustre participavam as famílias Diehl e Dreher.228 Outros transportadores lacustres também se estabeleceram, multiplicando a vida econômica da região, como destaca Ruy Ruben Ruschel:
A produção torrense conseguiu escoadouro muito melhor do que as primitivas e demoradas carretas. A cachaça, a banana e outros produtos da Colônia São Pedro eram embarcados no Porto da Colônia ou no Porto Guerreiro; seguiam até Osório por via lacustre, ferroviária até Palmares e novamente lacustre até Porto Alegre, podendo subir o Sinos até São Leopoldo. O mesmo acontecia com a produção de Três Forquilhas, a partir do Porto Alágio. A oriunda da Glória ou da própria sede de Torres, seguia de caminhão até o Porto Estácio, e dali, os rumos antes referidos. [...] também as viagens de pessoas se tornaram bem mais simples e cômodas, em vapores de passageiros até Osório e após, Palmares, sendo os trens entre Osório e Palmares também dotados de vagões de passageiros.229
Mais tarde, na década de 1950, Torres viveria um novo tempo com a abertura da estrada federal BR-101, o que incentivou outros projetos, inclusive assentados na cana-de-açúcar, como se examinará neste trabalho.230
2.3.1.4 Colônia Três Forquilhas, de Conceição do Arroio (Osório)
Situada às margens do Rio Três Forquilhas, a colônia dos protestantes231 melhor situada tinha a estrada da serra pelo vale, mais favorável ao comércio com os serranos que iam à casa
227
O naturalista Edgar Roquete Pinto realizou expedição na região com o objetivo de estudar seus sambaquis. Examinar: ROQUETE PINTO, Edgard. Relatório da excursão ao litoral e à região das lagoas do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS, 1962. Detalhes de sua incursão, através das lagoas, iniciada em 23 de outubro de 1906, saindo no vaporzinho Gustavo, de Porto Alegre, até chegar a Torres são oferecidos por RUSCHEL, Ruy Ruben, 2004, p. 242-243.
228
Para detalhes da empresa Lacustre, examinar SILVA, Marina Raymundo da. Navegação lacustre Osório- Torres. Porto Alegre: D. Luzzatto, 1985. p. 11. O turismo, com a Lacustre, foi também beneficiado, conforme as histórias de FORTINI, Archymedes. Porto Alegre: histórias da nossa História. Porto Alegre: Grafipel, 1966, p. 74. Ainda sobre a Lacustre, neste capítulo encontram-se mais dados.
229
RUSCHEL, Ruy Ruben. Torres: origens. Torres: Gazeta, 1995. p. 109. Ruschel realizou pesquisa demorada sobre os alemães das Torres, cuja contribuição é esclarecedora e dirimiu dúvidas até então presentes. É importante conferir sua produção historiográfica presente em várias obras, da Série Raízes e outras, como a que reúne seus artigos publicados em jornais, organizada por Nilza Huyer Ely. Destaque-se, sobretudo, RUSCHEL, Ruy Ruben. Os assentamentos alemães em Torres, na correspondência de seu inspetor. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 132, p. 123-132, 1998.
230
Sobre a BR 101 (seu asfalto concluído em 1º mar. 1968), examinar o interessante trabalho de ELY, Nilza Huyer. Dos primitivos caminhos à BR 101: Osório-Torres: a estrada da “Redenção”. In: BARROSO, Véra Lucia Maciel; ELY, Nilza Huyer. (Org.). Raízes de Terra de Área. Porto Alegre: EST, 1999. p. 388-398.
231
do colono adquirir diretamente os produtos que precisavam; “embora pagando mais caro ali o que compravam,” diz Manoel Bastos,232 que destaca:
[...] logo, compreenderam os colonos que a cultura mais rendosa lhes seria a cana- de-açúcar, não somente pela excelência das terras como pelo clima da região. A ela dedicaram-se, pois, levantando também seus engenhos para fabrico de aguardente e rapaduras, produtos muito procurados pela gente da serra. [...] Trinta anos depois da fundação da colônia contavam-se ali 21 engenhos de cana e 40 de farinha.233
Conforme Nilza Huyer Ely, os colonos tinham, com o açúcar mascavo e a rapadura vendida aos serranos, a maior fonte de retorno pecuniário.234 Na década de 1920 surgiram fábricas de pequeno porte. A mesma autora escreve sobre uma fábrica localizada nas
[...] proximidades do então cemitério ‘missouri’ [...] em terras de Marcelino König e que tinha como técnico o inglês mister Samuel Jhones, contratado, especialmente, para orientar no fabrico de açúcar, pois que tinha trabalhado em usinas de Pernambuco. Esta usina, em sistema cooperativo, chegou a funcionar por um breve lapso de tempo, mas, logo se foi esvaziando, apesar da excelente qualidade da matéria-prima. Não havia por certo tecnicamente condições de um produto de alto refino e a usina se tornou pouco rentável, principalmente devido à distância e jogos de interesses que inviabilizaram o seu funcionamento.235
Ely ainda menciona outra usina que não chegou a funcionar, no outro lado do rio Três Forquilhas, de propriedade de Carlos Frederico Voges Sobrinho. Prédios construídos e máquinas instaladas ficaram abandonados. Mas a experiência familiar de artesanalmente fazerem o açúcar de que necessitavam para sua doçaria era animada, sobretudo, no período natalino. O processo de branqueamento era operoso e com resultados satisfatórios.236
232
FERNANDES BASTOS, Manuel E. Colonização alemã no Rio Grande do Sul: a Colônia de Três Forquilhas. Revista do Museu Júlio de Castilhos e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: Imprensa Oficial do estado, a. 6, n. 8, p. 5-17, 1957.
233
Idem. Ibidem, p. 15.
234
Ver: ELY, Nilza Huyer. A saga do desenvolvimento econômico do Vale do Três Forquilhas. In: BARROSO, Véra Lucia Maciel et al. (Org.). Raízes de Torres. Porto Alegre: EST, 1996, p. 95. ELY, Nilza Huyer. A AGASA e a expectativa dos canavieiros do Vale do Três Forquilhas. In: BARROSO, Véra Lucia Maciel et al. (Org.). Raízes de Santo Antônio da Patrulha e Caraá. Porto Alegre: EST, 2000. p. 285.
235
ELY, Nilza Huyer. Vale do Três Forquilhas: veredas, vidas e costumes. Porto Alegre: EST, 1999. p. 38. Huyer e Marcos Witt têm pesquisado sobre a Colônia de Três Forquilhas. Em seus trabalhos apresentam o Pastor Voges como proprietário de uma venda, onde comercializava aguardente e rapadura. Destaque-se que a assimilação da tradição canavieira pelos alemães na região precisa ser mais pesquisada. Examinar também: WITT, Marcos Antônio. Política no Litoral Norte do Rio Grande do Sul: a participação de nacionais e de colonos alemães (1840-1889). 2001. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo. LUNCKES, Mariseti Cristina Soares. Um velho projeto com novos rostos: uma colônia alemã para a Ponta das Torres. 1998. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo.
236
Ver receita do branqueamento do açúcar caseiro em ELY, Nilza Huyer; GROSS, Lucy Maria Huyer. Preparando o Natal. In: ELY, Nilza Huyer. (Org.). Três Cachoeiras: marcas do tempo. Porto Alegre: EST, 2004. p. 247-248.
2.3.1.5 Conceição do Arroio
Dois nomes são basilares na historiografia inicial arroiense: Manoel Fernandes Bastos e Antonio Stenzel Filho. Se o primeiro definiu os marcos históricos iniciais da cultura