CHAPTER III POPULATION AND METHODS
6. Study variables
Nem sempre a cara revela o valor do indivíduo (FEDRO, 2006, p. 135).
O antissocial, esse personagem tão popular hodiernamente, que dá tanta audiência na mídia, é geralmente do sexo masculino, na proporção de 7 a 8 homens, para 2 ou 3 mulheres, em países ocidentais (SADOCK E SADOCK, 2007).
Para Ballone (2006), para estudar o anti-social estamos entrando em território difícil e temos que ter cautela, já que engloba as pessoas que não se enquadram nas doenças mentais já bem delineadas e com características bastante específicas, a despeito de se situarem à margem da normalidade psicoemocional ou, no mínimo, comportamental. As implicações forenses desses casos reivindicam da Psiquiatria estudos exaustivos, notadamente sobre o grupo de entidades com Transtornos da Personalidade.
Os transtornos de personalidade, que podem acarretar problemas de violência, crueldade, homicídios, corrupção e outros atos delinquentes são: o Borderline, o Histriônico, o Paranóide e, principalmente, o Antissocial. Existe uma característica comum entre eles: a falta de controle de impulsos, o envolvimento com drogas, a sexualidade promíscua, a impulsividade, as mentiras.
Excetuando-se o paranóide, que desconfia de tudo e de todos, para quem qualquer um pode ser um inimigo em potencial, os demais têm características que podem levar a atos de crueldade. O que é um transtorno de personalidade? Citando BALLONE (2006, p. 35), é quando a personalidade atinge padrões de condutas repetitivas, fixas, que não mudam com aprendizagem e terapia. São personalidades imaturas, infantis, envolvem os outros em confusões e apresentam graves problemas com a lei53.
Como não posso. nesta tese. abordar todos os transtornos de personalidade. focarei o antissocial, uma vez que interessa e muito ao nosso trabalho.
Seguindo Ballone (2006), estudar o potencial da destrutividade humana é bastante interessante e poderá esclarecer certos pontos em comum entre grandes manifestações de
53 Podemos conjecturar se Hobbes, quando descreveu o estado de natureza, não vislumbrou essas personalidades, ou, se Rousseau, ao falar do desvio, da contingência, não quis se referir a indivíduos com transtornos de personalidade. Neste exato momento, corro o risco de receber críticas destrutivas, por tentar psiquiatrizar autores clássicos e colocar palavras neles. Não é essa a intenção. Faço pontes, assim como uma história que se constrói, conjecturo os fios que vou tecer. Sou uma fiandeira. Mas, acredito que o homem do século XVII e XVIII foi inventado de acordo com sua época e para lidar com problemas da época. O que faço é pura hipótese. Como diz Foucault (2002, p. 78), jogos de verdade e poder-saber, Rizomas de Deleuze, fio das parcas, contos das velhas fiandeiras, que, ao redor da clareira, teciam suas histórias.
destrutividade, como são as guerras, os genocídios, as torturas, o terrorismo e, talvez, manifestações incomuns da personalidade humana, baseadas na psicopatologia, na psicologia e nas neurociências.
A evolução dos conceitos sobre a Personalidade Psicopática transcorreu, durante mais de um século, oscilando entre a bipolaridade orgânico-psicológica, passando a transitar também sobre as tendências sociais e parece ter aportado, finalmente, numa idéia bio-psico-social que, senão a mais verdadeira, ao menos se mostrou a mais sensata. (Ballone, 2006).
Desde o século XVI, já se tenta descrever essas personalidades sem alma . A psiquiatrização começa com Pinel e a Psiquiatria. Roudinesco (2008, p. 89) nos fala de Gilles De Rais: um assassino, pedófilo, sem nenhum remorso, que matava crianças em série na França do século XIII. O Marquês de Sade inaugura a literatura oficial sobre os perversos. No século XIX, temos Lombroso e seus discípulos que tentam encontrar características no crânio, para naturalizar o comportamento psicopata. Peter Gay (2001, p. 12) coloca que o século XIX, finalmente, cientificaria o mal . O psicopata atinge, com Lombroso, um estatuto biológico e tenta ser justificado cientificamente.
Vamos fazer um salto para a década de 80 do século XX. A partir daí, delineia-se o lugar do transtorno de conduta, na infância, e da personalidade antissocial, no adulto. A década de 90 solidifica a tendência, e entramos no século XXI falando de transtorno de conduta e dos anti-sociais. A mídia já havia descoberto, há muito tempo, o potencial de venda da imagem desse personagem. A indústria cinematográfica, aos poucos, substitui vampiros, lobisomens, múmias, por antissociais.
Que tem a nos dizer o antissocial com vista aos objetivos da nossa pesquisa?
Para Silva (2008, p. 79-99), condutas como impulsividade, autocontrole deficiente, necessidade de excitação, falta de responsabilidade, problemas comportamentais precoces, transgressão, ausência de culpa, sedução, manipulação, mentiras fazem parte do cotidiano do antissocial. Os antissociais estão espalhados em toda parte; existem em graus, que vão do leve ao moderado. Os homicidas talvez sejam apenas 5% a 10%. Quando estão em bando, são mais fortes. Os skinheads, por exemplo, são apenas a ponta de um iceberg. Antissociais manipulam grupos, criam redes, organizam crimes, estão infiltrados no Estado. Elegem políticos ou são eles próprios os políticos.
O antissocial não pode ser contrariado: manda matar, ou tirar de circulação; não tem limites. É o perfeito homem hobbesiano em estado de natureza. Tem a face de bonzinho, sedutor, mente para conseguir objetivos, frauda, desdenha da lei. Não sente remorso nem
culpa. Fraudar milhões e desviar dinheiro de refugiados, tudo isso nada significa para ele. Um bom almoço com boas companhias vale a morte de mil crianças refugiadas. Sem culpa nem remorso54.
É a sociedade de Rousseau que produz esses seres? Para a Biologia, existe a genética, o cérebro, o lobo frontal, as amígdalas, os neurotransmissores. Eles, biologicamente, não sentem emoção ou culpa, mas o ambiente reforça a crueldade. Não são maioria, tal como os ígneos de Hobbes, existe os temperados, mas um antissocial pode formar grupos com pessoas inseguras, frágeis, conseguir o poder do Estado, criar organizações criminosas. É o fator contingente de Rousseau. Mais uma vez podemos cair no erro de colocar uma lente de aumento e brincar de diagnosticar psicopatas em muitas pessoas. Uma brincadeira perversa que pode servir para vender revistas, filmes e livros, mas reduz o fenômeno a um universo que não corresponde à realidade.
Delumeau (2009, p. 355-507), remete ao medo de satã, da demonização da mulher, dos muçulmanos, todos ligados a ele, a partir do século XVII. A partir do século XIX, a classe operária, os pobres, os marginais, os loucos eram figuras de medo. Ligados a satã surgem vampiros, lobisomens, múmias, depois o nazismo, a guerra fria, os comunistas, e, hoje, os terroristas. O medo, tão presente em Hobbes, funda o Estado. Era o medo do homem ígneo, do sem limites, do violento, do cruel e do agressivo. Rousseau não fala em medo, mas em pequenos tiranos, em corrupção, em maldade: não é o estado de natureza, mas a sociedade civil que é antissocial para Rousseau.
Hoje, temos medo do antissocial. Como adverte Silva (2008, p. 147-148), estão nas manchetes, na TV, nos jornais. Para a autora, nossa cultura estimula o antissocial. O cinema faz deles heróis, e os noticiários de TV nutrem-se de notícias sensacionalistas, envolvendo crimes, corrupção, formação de quadrilhas.
Essa discussão sobre o antissocial não é apenas um recurso da vontade de saber-poder da Psiquiatria. Como já citei Hipócrates, por exemplo, traça uma biotipologia humana, que é utilizada por Aristóteles. Santo Agostinho fala, nas confissões, dos males da juventude. Hobbes usa os conhecimentos da anatomia e da fisiologia da época, para traçar perfis diversos. Rousseau, no Emílio, descreve o desenvolvimento humano, passo a passo, até a idade a adulta. Hoje temos a Biologia, a Psiquiatria, o antissocial.
54 Não podemos cair no erro de fantasiar o psicopata e dizer que ele responde por toda violência humana.
Ele é apenas uma parte. Existem psicopatas que se isolam, outros que transtornam a vida de poucas pessoas, não se envolvem em gangues, por exemplo.
A violência negativa e suas máscaras: a crueldade, a perversidade não é universal. Não se encontram em todos os homens. A violência não faz parte de uma natureza decaída, um pecado original, um estado de natureza que deve ser superado.
O poder é uma ameaça e uma solução. Temos o poder de mudar; isso nos faz humanos. Podemos até, com o avanço da ciência, detectar indivíduos que tenham uma arquitetura cerebral que não estimula a empatia e o sentimento de culpa, e tentar ajudar cuidadores a estimularem tendências opostas. O destino nunca está fechado. Se o psicopata mete medo, é porque a estrutura social investe nesse medo. Não são arautos da violência, mas um reflexo da sociedade em que vivem.
Passaremos agora a analisar fatores sociológicos que podem ajudar em nosso estudo sobre o tema. Focar no antissocial e em transtornos mentais pode parecer uma atitude reducionista e biologicizante. Entre constatar que existem indivíduos com a predisposição a um comportamento violento transgressor e colocar a origem da violência neles, sem passar pela sociogênese da formação do indivíduo, é não levar em conta a dimensão social do homem. Antes de existir o eu , o nós precede a formação da personalidade. Em função desses fatos, falaremos um pouco sobre alguns aspectos da sociogênese da violência. Utilizarei principalmente autores, como Elias, Clastres, Girard e Birman.