• No results found

CHAPTER II INTRODUCTION

1. General information about Tibet

Finalmente chegou à torre e abriu a porta do quartinho em que a rosa de urze dormia. Lá estava a princesa deitada, tão bonita que ele não conseguiu tirar os olhos dela. Então, curvou-se e beijou-a (JACOB e GRIMM, apud TATAR, 2004, A Bela Adormecida, p. 107).

La planéte dês singes, escrito por Pierre Boulle, em 1963, que narra a saga de um

planeta dominado por macacos, onde os humanos são escravos e perseguidos, virou sucesso em todo o mundo. Nessa obra de ficção, os macacos falam e usam cérebro e ferramentas, e os humanos são uma ameaça, em função da violência. Quando o astronauta Taylor descobre que o ser humano provocou a destruição do planeta, desespera-se. O Dr Zairus, literalmente, faz lobotomia e corta a língua dos humanos, pois é justamente do cérebro e da linguagem que vem o poder de destruição do homem, porém, quando os macacos adquirem essas habilidades, passam a ser tão destrutivos quanto os humanos. Por que o cérebro traz esse potencial destrutivo?

Antonio Damásio (1996, p. 34-76) fala de emoções e sentimentos que são regulados pela anatomofisiologia cerebral. Neurotransmissores, sinapses, hormônios, áreas cerebrais, tudo compõe um jogo intrincado, de onde surgem as emoções, que, para Damásio (2001, p. 36), precedem os sentimentos. Esse fato é explicado pela evolução biológica.

Se seguirmos Damásio (1996, p. 38-72), a emoção tem sua origem em processos metabólicos, que são químicos e físicos, seguidos por sistemas de defesa imunológicos e reflexos básicos. Esse é o ramo primeiro da árvore das emoções e segue um ramo médio associado à sensação de prazer e de dor, de punição e de recompensa, o qual provoca aproximação e afastamento.

Complexificando, Damásio (1996, p. 43-44) coloca que, só ao entrarmos no reino dos apetites, como fome, sede, curiosidade, sexo, comportamentos de busca e de condutas lúdicas, é que passamos a atingir o ápice das emoções. No cume, encontram-se a alegria, a mágoa, o medo, o orgulho, a vergonha e a vaidade. Essas emoções, à medida que se vão complexificando, tornam-se sociais, ou melhor, relacionais. Em nosso cérebro, ocorrem

reações químicas e físicas, das mais básicas às mais complexas, áreas são ativadas, outras desativadas, e tudo isso depende do gene. Emoções, para Damásio (1996, p. 48), são fontes de regulação de todo ser vivo.

Damásio divide as emoções em três tipos:

1) Emoções de fundo, que são pré-linguísticas, gestuais, sensório-motoras, que fazem o ser vivo sobreviver em nível básico;

2) As emoções de base, como medo, raiva, nojo, tristeza, felicidade, surpresa;

3) Finalmente, temos as emoções sociais: simpatia, compaixão, embaraço, vergonha, culpa, orgulho, ciúme, inveja, gratidão, desprezo, espanto e admiração.

Para Damásio (1996, p. 89), o mecanismo das emoções encontra-se no cérebro e os níveis de emoção se entrecruzam e influenciam-se reciprocamente (1996, p. 54-58).

Como estamos analisando, o homem tem diferenças que o separam de outras espécies. O cérebro é uma das principais. Fazendo uma paródia, imaginemos um carrossel: o cérebro. Vamos colocar um hipotético viajante, para andar por esse carrossel. Para Damásio (1996, p. 65), deve existir um estímulo emocional competente para desencadear a emoção. Digamos que o desejo de andar no carrossel seja o estímulo. No início da viagem, o personagem entra nos córtices visuais ou auditivos dos carros. Essa é a fase de apresentação, em que ele percebe a partida, o início da viagem pelo carrossel e sente as primeiras emoções. Agora ocorre uma corrente de estímulos, e o carrossel começa a andar por diversas regiões, que são os circuitos cerebrais, as conexões se formam, e, de súbito, o personagem encontra uma barreira e sente medo. Entramos na amígdala, situada nas profundezas do lobo temporal, uma parte do lobo frontal a que chamamos córtex pré-frontal ventro-medial, e uma outra região frontal no córtex do cíngulo e na área motora suplementar (DAMÁSIO, 1996, p. 66).

A amígdala é o centro do carrossel, que intercepta os estímulos, manda sinais para o córtex, desencadeia emoções como medo e raiva. Na amígdala, fecham-se e abrem-se as comportas de reações de medo, raiva, que fazem ligação com culpa, ataque, inveja, vaidade. Da amígdala, parte a execução da ação para o prosencéfalo basal, hipotálamo, tronco cerebral, nossas vísceras se alteram, assim como nossos músculos, e o viajante grita: pare o carrossel!

Tudo bem, dá para ver que viajante fala, grita, faz-se compreender, mas os circuitos cerebrais ativados podem ser os mesmos de um chimpanzé, porém o viajante fala, protesta, usa a lei, processa o dono do parque. Esse exemplo que tomei a liberdade de criar, é ficcional, mas ilustra como funciona a maquinaria cerebral. A amígdala do viajante é o centro de onde irradiam-se o medo, a raiva, a fuga, o grito. O mais importante desse mecanismo é que somos

um conjunto complexo de órgãos, interagindo através de substâncias químicas e estímulos físicos. Damásio (1996, p. 210-212) chama de marcadores somáticos a essas interações que ocorrem entre o organismo e o meio. O corpo é o receptáculo de todos os eventos. A amígdala do viajante interage como obstáculo ao carrossel. Nesse momento, o corpo fala. Em regiões cerebrais, são ativados neurotransmissores, hormônios são liberados, a musculatura reage, as cordas vocais entram em ação.

Algo acontece no cérebro: circuitos envolvendo amígdala, córtex, neurotransmissores e hormônios estão atuando diferentemente. Para Damásio (1996, p. 99), podemos observar esse aspecto da importância do cérebro em lesionados cerebrais. Quando uma determinada área é afetada, por exemplo, o cortéx-pré-frontal, o indivíduo passa a ter um comportamento desinibido, desafiante, agressivo, que antes não tinha. As neurociências, com o estudo de pessoas que sofrem lesão cerebral, mapeiam as áreas responsáveis por determinado comportamento. O que Damásio (1996) tenta realçar é que não podemos negar um componente neuro-anátomo-químico para as condutas perversas, para a crueldade, para o prazer em fazer o mal ao outro. Existe a psicopatia secundária, que ocorre em lesionados cerebrais, e a primária, que depende de fatores genéticos, de marcadores-somáticos, da interação gene e ambiente.

Não existe uma taxionomia ou teoria para as emoções50 que seja geral, ou aceita, de forma universal. Várias têm sido propostas, entre elas:

Cognitiva' versus 'não cognitiva'

"Emoções intuitivas" (vindas da amígdala) versus "emoções cognitivas" (vindas do cortex prefrontal)

"Básicas" versus "complexas": em que emoções básicas, em conjunto, constituem as mais complexas.

Categorias baseadas na duração: Algumas emoções ocorrem em segundos (ex. surpresa), e outras levam anos (ex. amor).

Existe uma distinção entre a emoção e os resultados da emoção, principalmente os comportamentos gerados e as expressões emocionais. As pessoas frequentemente se comportam de certo modo, como um resultado direto de seus estados emocionais, a saber: chorando, lutando ou fugindo. Ainda assim, se podem ter a emoção sem o correspondente

50 Emoção é uma experiência subjetiva, associada ao temperamento, à personalidade e à motivação. A

palavra em inglês 'emotion' deriva do francês émouvoir, que decorre do latim emovere, onde o 'e- (variante de ex-) significa 'fora' e movere significa 'movimento'. O termo relacionado motivação é, assim, derivado de

comportamento, então, nós podemos considerar que a emoção não é apenas o seu comportamento e muito menos que o comportamento não é a parte essencial da emoção.

Sentimentos, de forma genérica, são informações que seres biológicos são capazes de sentir nas situações que vivenciam. Por exemplo, o medo é uma informação de que há risco, ameaça ou perigo direto para o próprio ser ou para interesses correlatos.

A empatia é a informação sobre os sentimentos dos outros, a qual não resulta necessariamente na mesma reação entre os receptores, mas varia, dependendo da competência de lidar com a situação, e de como isso se relaciona com experiências passadas e outros fatores.

O sistema límbico é a parte do cérebro que processa os sentimentos e as emoções. A Medicina, a Biologia, a Filosofia e a Psicologia estudam o sentimento humano, as quais, para Damásio (2003, p. 92), são fundamentais. O sentimento engloba percepção sobre pensamentos, estados do corpo, emoções básicas. O mapeamento, no cérebro, de estados do corpo, a ativação de regiões cerebrais por estímulos externos que o atingem formam a matriz dos sentimentos. Um percurso que começa com um estímulo externo, passa por vísceras, atinge amígdalas, hipotálamo, mexe com pensamento, memória e termina no córtex, formando o circuito dos sentimentos, o qual, tendo componentes diferentes, com menor reatividade das amígdalas, por exemplo, ao medo, ou diminuição de serotonina, produz condutas cruéis, sem culpa nem remorso.

Damásio (2003, p. 138) nos faz perceber que o homem é corpo, utilizando, inclusive, Espinosa. O cérebro humano é bem mais complexo que o de qualquer primata. Somos primatas com consciência do eu, intencionalidade nos atos, que reconhecem a alteridade do outro. Chimpanzés podem ser agressivos, até matar outros, mas lhes falta a consciência do eu, a percepção daquilo que está fazendo, a culpa; a intencionalidade de que aquele ato é cruel e deliberado e parte da vontade consciente.

Conhecer a neurociência é importante para situar, no cérebro, a arquitetura das nossas emoções e sentimentos. Nosso cérebro é diferente do de outros primatas, e esse detalhe é fundamental, inclusive, não podemos deixar de citar a descoberta dos neurônios espelho , que fazem com que tomemos consciência da atitude e da intenção do outro. Apesar de encontrar esse mecanismo em primatas não humanos, o desenvolvimento pleno dos neurônios espelho encontra-se na nossa espécie; eles são a base da imitação, do aprendizado social e da empatia, os quais foram descobertos pelos pesquisadores Giacomo Rizzolatti, Vittorio Gallesw e Leonardo Fogasi, no início da década de 90. Para Katja Gaschler (2009, p. 46-51),

essa descoberta pode ser a chave para explicar o desenvolvimento da socialização humana, inclusive, para perceber a intencionalidade e a alteridade nos gestos de outro. Esses neurônios são responsáveis pela percepção do outro, que facilita a empatia e faz com que reconheçamos aquele que não faz parte de nós, ajudando o processo de pertencer a um grupo. Os neurônios espelho estão no início da pesquisa, mas já podem nos fornecer pistas sobre os processos de imitação, socialização e empatia51.

Nos humanos, pode ser observada atividade cerebral consistente com a presença de neurônios espelho no córtex pré-motor e no lobo parietal inferior. Alguns cientistas consideram esse tipo de células uma das descobertas mais importantes da neurociência, na última década, acreditando que eles possam ser de importância crucial na imitação e na aquisição da linguagem.

Para concluir, as neurociências fornecem pistas sobre o processo de humanização e o nosso cérebro. Não podemos negar que o processo de humanização tornou nosso cérebro o mais complexo entre todas as espécies. Seria tendencioso afirmar que somos violentos, em função de nossa estrutura cerebral, mas podemos colocar que o cérebro humano, que apresenta mecanismos responsáveis pelo processo de socialização e nos diferencia de outras espécies, tem um papel importante que nos singulariza como humanos. Talvez seja a ponte entre agressividade e violência. Com a apresentação empírica de alguns transtornos mentais, pretendemos aprofundar essa questão, ressaltando que, longe de biologicizar o homem, estamos tentando compreender sua natureza, trazendo para o debate a contribuição de outras áreas do saber.

Como Psiquiatra, com experiência clínica há 17 anos, não posso omitir-me em tocar nesse tema sob a ótica da Psiquiatria. A psiquiatria estuda os chamados transtornos do comportamento, podendo trazer contribuições para o estudo da violência. Mesmo sendo questionada como estratégia de saber-poder da biopolítica e controle social dos comportamentos, não podemos deixar de fazer um link com o que a psiquiatria tem a dizer sobre a violência, mesmo que seja para contestar.

51

Um neurônio espelho, também conhecido como célula-espelho, é um neurônio que dispara tanto quando um animal realiza um determinado ato, como quando observa outro animal (normalmente da mesma espécie) a fazer o mesmo ato. Dessa forma, o neurônio imita o comportamento de outro animal como se estivesse ele próprio realizando essa ação. Esses neurônios já foram observados de forma direta em primatas, acreditando-se que também existam em humanos e em alguns pássaros.