Estima-se que 80% das pessoas que param de fumar aumentem o peso em 2-3 Kg, ao longo do primeiro ano de abstinência (APA, 2002; USDHHS, 1990). Segundo Klesges e associados (1989) os fumadores têm, em média, menos 3-4 Kg que os não fumadores. Isto quer dizer que o ganho ponderal após a cessação, leva ao nivelamento do peso, aproximando-o do valor esperado para a pessoa, caso nunca tivesse fumado. Este aumento tem um ritmo mais acelerado nas primeiras semanas ou meses após a cessação, estabilizando por volta dos seis meses após a cessação (Hall, Ginsberg & Jones, 1986). Num estudo prospectivo que utilizou dados do National Health and Nutrition Examination Survey (Williamson et al., 1991), onde se comparam ex- fumadores de ambos os sexos, conclui-se que o aumento médio de peso é de 2,8 Kg nos homens e de 3,8 Kg nas mulheres. Cerca de 9,8% dos homens e 13,4% das mulheres ex-fumadores, porém, ganharam mais de 13 Kg. É importante notar que, com o aumento do número de anos sem fumar, diminui o índice de massa corporal, especialmente nas mulheres. Chen, Horne e Dosman (1993) observaram que a prevalência de obesidade era mais elevada em ex-fumadores que tinham parado há menos de dois anos, em comparação com os seus pares abstinentes há mais de dois anos, sugerindo que o ganho ponderal se pode limitar aos dois primeiros anos.
Segundo parece, a nicotina é o ingrediente mais directamente implicado no efeito anoréxico e, portanto, na redução de peso (Perkins, 1993). Na realidade, alguns dos fumadores usam os cigarros como estratégia para controlar o apetite e o excesso de peso (Hall, Ginsberg & Jones, 1986). Comparativamente com os homens, as mulheres recorrem com mais frequência aos cigarros como estratégia para controlo do
peso, o que também constitui um preditor do nível de dependência da nicotina (Soldz & Cui, 2001). Num grupo de adolescentes grávidas, estudado por Lawson (1994), os cigarros foram frequentemente usados como estratégia para evitar o ganho ponderal após o parto. Esta opção pode constituir uma estratégia para lidar com o medo de perder a popularidade entre os pares.
Por seu turno, os tratamentos tabágicos que incluem terapia de substituição nicotínica, podem adiar o ganho ponderal durante o período em que a terapêutica for usada (Dale et al., 1998; Russell, Raw & Jarvis, 1980). Existe também uma relação entre o aumento de peso após a cessação, o número de cigarros fumados antes de parar (Blitzer, Rimm & Giefer, 1977; Hall, Ginsberg & Jones, 1986) e a história pessoal de excesso de peso (Hall, Ginsberg & Jones, 1986). Num estudo desenvolvido por Swan e Carmelli (1995), as pessoas que aumentaram mais de peso, fumavam maior número de cigarros por dia, eram mais jovens e ingeriam uma quantidade elevada de bebidas licorosas. Este grupo foi composto por maior quantidade de pessoas solteiras e com menor acesso ao apoio de um parceiro. Outros factores associados ao aumento de peso, incluíram: (1) a normalização da taxa metabólica, passando a dieta habitual a fornecer excesso de calorias, (2) a ausência de modificações no padrão de actividade física, na sequência da cessação tabágica, (3) o aumento do apetite e prazer em comer, o que faz com que a pessoa coma em maior quantidade e (4) a tendência do ex-fumador para lidar com o aborrecimento, as situações de stresse ou de descontracção, comendo (NRTC, 2004; Perkins, 1993).
Os ex-fumadores que valorizam menos o ganho ponderal, também têm menor probabilidade de recair, em particular quando ocorre algum aumento de peso (Chen, Horne & Dosman, 1993). Curiosamente, a prevalência deste tipo de preocupações não é elevada nas pessoas que recorrem a clínicas para cessação tabágica, talvez porque aqueles que atribuem maior importância à questão não cheguem a procurar ajuda (Meyers et al., 1997). Este tipo de fumadores, nomeadamente as mulheres e as pessoas com menor peso, tendem a não tentar parar de fumar, devido ao receio de engordar, apresentando também maior propensão para recair (Chen, Horne & Dosman, 1993; Fiore et al., 2000; Meyers et al., 1997). Segundo Spring e colaboradores (2004), contudo, os benefícios de abordar as questões relacionadas com o aumento de peso, durante o processo de cessação tabágica, não se devem circunscrever às mulheres que valorizam mais esse tema, mas aos fumadores em geral.
Apesar do ganho ponderal constituir um problema importante para muitas das pessoas que pretendem atingir e manter a abstinência, as dificuldades impostas pelo ganho ponderal podem ser controladas através de abordagens clínicas, particularmente úteis, junto de fumadores com excesso de peso ou com receio de aumentá-lo (Pomerleau, Adkins & Pertschuk, 1978). Em termos da utilidade para a prevenção da recaída a longo prazo, tem-se discutido se é mais eficaz cessar o consumo de tabaco e simultaneamente proceder ao controlo do peso ou se é preferível actuar sequencialmente, abordando o ganho ponderal, após atingir a abstinência. Neste domínio, os resultados têm sido controversos, havendo investigações (Hall et al., 1992) que mostram que os fumadores submetidos a aconselhamento simultâneo para o tabagismo e controlo de peso apresentam taxas mais elevadas de recaída aos doze meses. Este estudo revela a ineficácia das abordagens simultâneas, eventualmente porque a restrição de calorias contribui para o aumento do sentimento de privação e, consequentemente, o desejo de voltar a obter o prazer associado a fumar. De forma oposta, um estudo conduzido por Spring e associados (2004), com 315 mulheres, demonstrou que a eficácia dos programas de cessação tabágica não é negativamente afectada pela introdução de componentes relacionados com o controlo de peso e, após a cessação tabágica, estas intervenções reduzem o ritmo do ganho ponderal. Existe, porém, uma certa tendência para desencorajar o controlo ponderal antes da abstinência ter estabilizado, preocupação considerada como regra de boa prática clínica (Fiore et al., 2000).
Apesar dos ex-fumadores manifestarem um aumento do apetite e da quantidade dos alimentos ingeridos, raramente se notam alterações significativas no balanço calórico. Aquilo que parece ocorrer é uma modificação no conteúdo da dieta, em resultado da cessação tabágica. Segundo Ockene e colaboradores (2000), enquanto os fumadores consomem alimentos fritos, mais saturados em gorduras, café e álcool, os ex-fumadores tendem a optar pela ingestão de fruta, vegetais e fibras, diminuindo o número de cafés e de bebidas alcoólicas. Um outro estudo, assinala aumentos marcados na ingestão de calorias (250-300 kcals/dia), durante as primeiras semanas de abstinência, embora esta tendência se esbata à medida que se alarga o período de abstinência (Perkins, Epstein & Pastor, 1990). Hall e colaboradores (1989), por seu turno, referem que as mulheres ex-fumadoras tendem a aumentar a ingestão de calorias, no período entre os três e os seis meses após a cessação, ao passo que nesse período os homens apresentam uma curva descendente.