Tendo em vista a inexistência de ações estruturantes para a melhoria das condições de vida e trabalho das/os catadores até as décadas recentes, em meados da década de 80 diferentes organizações, provenientes de sindicatos, igrejas e organizações não governamentais (ONGs) deram formas de articular estes trabalhadores para a organização de grupos de coleta seletiva, pautando desde o início das primeiras articulações a forma colaborativa de trabalho visando a constituição de associações e cooperativas. Ao longo do tempo, esta forma de organização veio se constituindo como a principal maneira de organização colaborativa entre catadores/as, que através do Movimento Nacional dos/as Catadores de Materiais Recicláveis, por meio de intensas mobilizações, colocou a pauta da reciclagem na agenda pública federal através de grupos organizados em cooperativas.
Desde a fundação do Movimento, ele apresenta, a autogestão e a democracia direta como princípio organizativo a das cooperativas, remetendo-se de algum modo, ao campo estruturado a partir da economia solidária (MOURA FÉ; FARIA, 2011). Com isto, a partir da base comum da propriedade coletiva dos meios de produção, o processo de trabalho é estruturado por relações de produção coletiva e igualitária. O que faz das organizações dos catadores/as serem compreendidas tanto como empreendimentos econômicos, como também, mecanismos para inclusão social, sendo comparáveis a instituições de resistência e imobilização social.
Como descreve Magera (2003), desde a primeira cooperativa instituída na Inglaterra em 1844, os idealizadores organizaram uma plataforma de princípios e valores que ainda hoje
regem ao que o cooperativismo visa. Dentre os aspectos, firmados podemos ressaltar que como doutrina o cooperativismo procura evidenciar e assegurar:
[...] a melhoria do nível de vida do seu cooperativado; e a partir do princípio da solidariedade do bem comum, pôr fim aos interesses individuais, criando, assim, uma política de grupo que visa a realizar aspirações e objetivos comuns, promovendo a harmonia social através da participação por funções e nunca pelo capital empregado (MAGERA, 2003, p.55)
Deste modo, a proposta da coleta seletiva solidária é materializada através de uma divergente proposta de con-viver em sociedade, sobremaneira, daquela que se faz manifesta em ações de filantropismo e de caridade. Estes dois modos de intervir na realidade figuram como expressões assistencialistas, cujo projeto de intervenção não contribui angularmente para a superação da situação opressora, ao contrário, cria uma dinâmica de dependência do/a beneficiado/a reforçada pelo estabelecimento de diferentes níveis de hierarquias e poder social. Distinta ao modelo macroeconômico, como o capitalismo virtual da bolsa de valores, a Economia Solidária se vincula à produção, distribuição e circulação de produtos, serviços tangíveis/concretos/reais, desde aquilo que come ao que se veste. Posto que a Economia Solidária:
É a economia que se estabelece a partir da associação, da cooperação, da comunhão, tanto entre indivíduos para a constituição de empreendimentos coletivos como entre empreendimentos para obter saltos de competitividade, em estruturas em rede que também podem ser compreendidas como empreendimentos coletivos (ARROYO; SCHUCH, 2006, p.63).
Esta outra economia, diferentemente da economia de mercado praticada pelo capitalismo, fundada no constante apelo à equidade nos meios de produção, distribuição e consumo, cresce e toma forma na medida em que aglutina utopias possíveis de serem realizadas, expressando um “inédito viável” (FREIRE, 2001, p. 156), ou de uma “futuridade a ser construída” (FREIRE, 2001, p.156) que emergem da procura pela extasia de não estar só, mas em movimento com a vida e com outrem, criando formas ao mundo que em dialeticidade criamos e somos por ele criados/as, no movimento de estar sendo-uns-com-os-outros-ao- mundo, emanando alternativas pautadas no gosto da partilha, com grande potência para transformação das opressões vividas. Neste sentido, Singer (2002), nos diz que a lógica da Economia Solidária se fundamenta na tese de que as contradições do capitalismo criam oportunidades de desenvolvimento de organizações econômicas opostas ao modo de produção
dominante, e deste modo mobiliza diferentes instâncias e entidades da sociedade em colaboração:
Cumpre observar, no entanto, que a reinvenção da economia solidária não se deve apenas aos próprios desempregados e marginalizados. Ela é obra também de inúmeras entidades ligadas, ao menos no Brasil, principalmente à Igreja Católica e outras igrejas, sindicatos e universidades. São entidades de apoio à economia solidária, que difundem, entre trabalhadores sem trabalho e micro-produtores sem clientes, os princípios do cooperativismo e conhecimento básico necessário à criação de empreendimentos solidários (SINGER, 2002, p.112).
A economia solidária é outra economia, baseada na alteridade, no cuidado com outrem e, bem como na corresponsabilidade por todos processos da cadeia produtiva, tem na autogestão e distribuição justa dos ganhos os seus princípios mais marcantes. Damke (1995) traduz a libertação como processo coletivo e individual ao mesmo tempo, apontando que tal processo está “ (...) intimamente ligado ao trabalho, através do qual o ser humano produz a cultura, a história e a si próprio” (DAMKE, 1995, p.53). Caminho em que a valorização da diversidade de formas de ver e viver com o mundo e com outrem, postas em diálogo, faz-se indispensável e que, de igual modo, a educação estética, fundamental, para a “sensibilidade, abrindo-se para o novo, para o outro” (GADOTTI, 2009, p.45).
Economia popular e solidária é aquela que acrescenta o desafio de, também como fator de desenvolvimento, ser germinada, brotada de dentro para fora, de baixo para cima, aberta para o mundo, mas com identidade própria, que possa estabelecer um diálogo em que o eixo é o equilíbrio, a distribuição, a justiça (...). Então, começa a se fundir, a se misturar com outros valores com os quais a economia atual não dialoga. A economia popular e solidária, para ser sustentável, tem também que se propor a ser avaliada pelos indicadores sociais. Não se pode avaliar o sucesso da economia apenas pelo PIB ou pelo saldo da balança comercial, é necessário avaliá-la também pelo número de meninos na rua, pelo grau de escolaridade da população, pela expectativa de vida etc. (ARROYO; SCHUCH, 2006, p.63).
Os vínculos e incentivos de políticas públicos ao fortalecimento de iniciativas em economia solidária são estratégicos para sua promoção, pois se realizam atreladas aos processos de desenvolvimento local e territorial, envolvendo muitas vezes amplas margens da sociedade que se encontram em situações de risco e ausência de oportunidades de emprego (ARROYO; SCHUCH, 2006).
Os equívocos existentes que dão formas a maneiras de se relacionar que fogem à solidariedade que buscamos no interior de diferentes grupos articulados aos moldes da
economia solidária, como as cooperativas de catadores/as, surgem das disparidades amplamente sistematizadas pelo capital hegemônico, e que imprimem no agir, ainda que no dos/as mais vulneráveis, o risco da manutenção das necessidades mais intrínsecas, como a fome – por exemplo. Pois, como Vincent Valla (2014) nos aponta, a forma do/a trabalhador/a exprimir sua visão de mundo, seu agir e sua “concepção de história e da sociedade em que vive, está estreitamente relacionada com a maneira com que se relaciona com o capital: de uma forma dinâmica ou de uma forma indireta e oscilante” (p.43).
Para se pensar as relações entre a economia solidária e o segmento da coleta seletiva (MOURA FÉ; FARIA, 2011), as cooperativas de catadores/as vem a assumir um papel estratégico pela potencialidade que possuem para inclusão social com base no trabalho associado, constituindo assim, uma ampla rede de organizações econômicas que vem enfrentando o desafio da autonomia e da autogestão nos empreendimentos.