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5.2 Discussion

5.2.2. Students‘ Opinions Regarding Practical Experiences with respect to Special Needs

A língua muda justamente porque não está feita, mas faz-se continuamente pela atividade lingüística.

(EUGENIO COSERIU, 1979)

Ao fazer a opção pela língua como unidade analítica da Linguística e relegar a fala a um segundo plano por enxergá-la como não passível de cientificidade, o linguista suíço Ferdinand de Saussure sofreu muitos questionamentos. Entretanto, não se pode negar a importância e as contribuições desse linguista para a institucionalização da Linguística enquanto ciência e, para que isso ocorresse, era necessário o corte epistemológico – langue/

parole – efetuado por Saussure, vez que a língua, segundo o teórico, por sua homogeneidade, era passível de sistematização, organização, o que resultou na primeira corrente linguística: o Estruturalismo.

De acordo com o linguista,

[A langue constitui] um todo em si e um princípio de classificação [...] conjunto de convenções necessárias adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade [da linguagem] nos indivíduos (SAUSSURE, 1969, p. 17).

Ainda segundo o genebrino, a língua se configura como um ―sistema de signos [e de regras]‖ inter-relacionados (SAUSSURE, 1969, p. 23), imposto a todos os falantes de uma língua, sem que estes possam, de forma consciente, mudá-lo, por isso, torna-se arbitrário.

A língua não constitui, pois, uma função do falante: é o produto que o indivíduo registra passivamente; não supõe jamais premeditação, e a reflexão nela intervém somente para a atividade de classificação (SAUSSURE, 1969, p. 22).

Por outro lado, a fala (parole) vista, a princípio, como ―frouxa‖, ―líquida‖ por suas variações, quer sejam regionais, históricas, culturais, etc., ou seja, por ser heterogênea, passou a ser vista por outros linguistas também como objeto de estudo da linguística, senão principal, o que contribuiu para o surgimento de inquietações frente ao recorte feito por Saussure e à língua enquanto único objeto de estudo da linguística.

[...] tomada em seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita; a cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, ela

pertence ao domínio individual e ao domínio social, não se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe como inferir sua unidade (SAUSSURE, 1969, p. 17).

Por sua instabilidade e por situar-se no reino da liberdade e da criação, a fala não poderia ser ―enquadrada‖ pelo linguista, por isso, este a considera ―inadequada‖ para figurar como objeto de cunho científico.

É provável que nenhuma outra perspectiva linguística até Saussure tenha construído uma bipartição entre a esfera individual e a esfera social de forma tão incisiva sobre o funcionamento da linguagem. Contudo, o genebrino nunca negou a existência e a ligação entre esses dois constituintes.

Sem dúvida, os objetos [langue e parole] estão estreitamente ligados e se implicam mutuamente; a língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; mas esta é necessária para que a língua se estabeleça (SAUSSURE, 1969, p. 27).

Assim, a escolha pelo estudo sincrônico não implica dizer que Saussure desconhecia a mutabilidade e a historicidade como elementos essenciais da língua, mas é a partir de tal fato que o linguista sente a necessidade de promover a distinção entre as questões relativas ao sistema linguístico e aos processos de evolução linguística.

As críticas lançadas a Saussure, muitas inconsistentes, não enterram seu mérito e sua importância e não o limitam à mera construção de dicotomias, mas sim, lhe mostram capaz de suscitar questionamentos epistemológicos, bem como de promover da institucionalização da Linguística enquanto ciência, seu feito maior.

Alguns desses questionamentos sobre a proposta do genebrino foram levantadas pelo linguista romeno Eugenio Coseriu, que ampliou a dicotomia saussuriana para sua tríplice formação, qual seja: a fala, como uso individual e inédito; a norma, que se caracteriza pelo uso coletivo; e a língua, enquanto sistema funcional que se configura como conjunto de possibilidades abstratas. Essa nova divisão objetiva aproximar língua e fala, sincronia e diacronia, preenchendo as lacunas deixadas por Saussure. Isso porque, de acordo com Coseriu (1979), como a bipartição se voltava apenas à imanência da língua, seus aspectos fixos, não apresenta dados que fundamentem e revelem o real funcionamento da linguagem. Desse modo, sugere um elemento intermediário – a norma – que se configura como ―leis‖ de caráter sócio-histórico-cultural, as quais regem e direcionam a fala, podendo promover a interferência desta no sistema.

Coseriu constrói, pois, essa tricotomia a partir do seguinte esquema:

Esquema 1: Tricotomia de Coseriu

Fala Norma Sistema

(COSERIU, 1979, p. 72)

O quadrado maior diz respeito à fala, aos atos linguísticos praticados pelos falantes de uma língua, trata-se da materialização dos dois outros referentes, ou seja, é o elemento concreto. A norma, situada no quadrado do meio, encontra-se no primeiro nível de abstração linguística, intermediário entre fala e sistema; trata-se, também, do uso coletivo da língua, já que representa a repetição de modelos convencionais, as estruturas tradicionais, sem, contudo, perder a dinamicidade da língua. Por fim, o quadrado menor aponta outro nível de abstração linguística, o sistema, o qual constitui um conjunto de regras convencionais, que apesar de figurar na mente de todos os falantes de uma língua, cada indivíduo ou grupo social não consegue abstraí-lo em sua totalidade.

A logística apresentada por Coseriu em seu esquema, em que o processo comunicativo/discursivo parte da fala para o sistema, sendo atravessado pela norma, tem uma lógica de ser, uma vez que, para o teórico, a língua precisa ser vista, a princípio, enquanto ―função‖, depois enquanto ―sistema‖. Isso porque, se a língua funciona, não é por ser um sistema; mas, ao contrário, a mesma constitui-se um sistema ao passo em que funciona; e seu funcionamento está vinculado a fatores históricos, os quais também trazem marcas impressas na organização sistêmica da língua, já que segundo o autor ―[...] não há nenhuma contradição entre ‗sistema‘ e ‗historicidade‘, ao contrário: a historicidade da língua implica a sua sistematicidade‖ (COSERIU, 1979, p. 16). Nesse sentido, o linguista defende a ideia de uma língua funcional (a que se pode falar) quando afirma que

O sistema é sistema de possibilidades, de coordenadas que indicam os caminhos abertos e os caminhos fechados de um falar compreensível numa

comunidade; a norma, em troca, é um sistema de realizações obrigatórias, consagradas social e culturalmente: não corresponde ao que se pode dizer, mas ao que já se disse e tradicionalmente se diz na comunidade considerada. O sistema abrange as formas ideais de realização duma língua [...], a norma, em troca, corresponde à fixação da língua em moldes tradicionais; e neste sentido, precisamente, a norma representa a todo momento o equilíbrio sincrônico (externo e interno) do sistema (COSERIU, 1979, p. 50).

Em vista disso, o linguista romeno diz que ―[...] a língua não pode ser isolada dos fatores externos – isto é, de tudo aquilo que constitui a fisicidade, a historicidade e a liberdade expressiva dos falantes‖ (1979, p. 19). Um exemplo disso é a manifestação do discurso do horóscopo em diferentes suportes como revistas, almanaques, cordéis, Internet, cada um apresentando uma construção imagético-discursiva própria, visando atender seu público, estando envoltos a um processo de criação e repetição dentro de uma mesma bacia semântica, o que será mais explorado nas análises dos suportes investigados nesta pesquisa.

A tripartição da língua trazida por Coseriu significa um marco importante nos estudos linguísticos, já que ao propor o conceito de Norma, suscita no âmbito das análises linguísticas, em especial nos estudos sobre a mudança linguística, a possibilidade de enxergar a língua enquanto processo histórico. Acerca disso, Coseriu diz que:

[...] a distinção entre norma e sistema esclarece melhor o funcionamento da linguagem, a atividade linguística, que é, ao mesmo tempo, criação e repetição (re-criação), dentro do padrão e segundo as coordenadas do sistema funcional (isto é, do que é imprescindível para que a linguagem cumpra sua função); movimento obrigado e movimento livre, dentro das possibilidades oferecidas pelo sistema (COSERIU, 1979, p. 79).

Assim, o que Coseriu trouxe de novo foi a inserção de modelos linguísticos situados num nível de abstração, os quais permeiam o campo social por estarem vinculados à história, à memória, à cultura. A norma se constitui, pois, como a constante retomada de modelos tradicionais de uso coletivo, ou seja, são realizações consagradas pela prática que ocorrem em determinadas circunstâncias linguísticas em sua funcionalidade, as quais estão vinculadas ao grupo social de que o falante faz parte e da região onde vive. Vale, contudo, pontuar que, para o linguista, os três níveis sistema/norma/fala não atuam de maneira isolada, mas sim numa relação de interdependência.

Podemos, assim, comparar a norma, como sugeriu Coseriu, às Tradições Discursivas, propostas por Kabatek, às Formações Discursivas e Ideológicas, propostas por Foucault e aos

Mitos, segundo Eliade; os quais se configuram como discursos de base numa sociedade, como

Diante dessas associações, iremos conduzir nosso trabalho levando em consideração essas três perspectivas teóricas, a fim não só de construir pontes entre elas, mas também de avançar teoricamente a partir de um direcionamento que as tenha por base. Para tanto, levantaremos o referencial teórico dessas linhas, bem como o aplicaremos analiticamente sobre nosso objeto de estudo.