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Nosso trabalho nasce do interesse no desenvolvimento da linguagem oral da criança, sobretudo no que tange às instâncias textuais-discursivas.

Com isso, reivindicamos os gêneros como unidades de análise para compreendermos melhor os processos que cercam a aquisição da linguagem, já que essas unidades são dotadas de uma complexa rede de elementos (ROJO, 2010), dentre os quais são salientes sua estrutura linguisticamente organizada e sua natureza discursiva.

Assim, os gêneros dizem respeito a elementos linguísticos que cumprem o papel de textualizar, mas também atingem as ações humanas, situadas em momentos únicos de interação, o que significa que o gênero vai além do texto, envolvendo todo o entorno de produção e recepção verbal.

Ainda a respeito dos gêneros, ressaltamos que o estudo em questão não determina um gênero específico a ser examinado. Partimos do princípio de que os gêneros, já no discurso da criança, são possíveis porque existe um sistema que lhes dá suporte. Tais gêneros, portanto, não estão isolados, mas se cruzam e se implicam, de alguma maneira.

Para ser possível o escrutínio desses fenômenos, adotamos uma pesquisa de natureza qualitativa, que visa a registrar momentos corriqueiros de interação em uma sala de aula da Educação Infantil.

Os dados compreendem oito sessões, que foram coletadas por meio de filmagens com uma câmera digital. As sessões possuem em torno de 20 a 40 minutos e tratam das mais diversas situações: aula expositiva, rodas de conversas, contação de histórias, aula de Artes, comentários sobre a festa junina, comentários sobre um livro lido em outro momento, dentre outras atividades. Dessa maneira, evidencia-se que nosso estudo não empreende um controle sobre as interações registradas, mas as deixa correr naturalmente.

Os sujeitos de nossa pesquisa ocupam dois papéis: 14 (catorze) crianças, na condição de alunos, com faixa etária de 3 a 4 anos de idade, e 1 (um) adulto, que assume a função de professora da turma participante.

A professora possui formação em Pedagogia e especialização em Psicopedagogia. Sua atuação como docente ocorre há 10 anos.

De modo a preservar a identidade dos sujeitos, utilizamos nomes fictícios para identificarmos cada um. Das 14 crianças, 5 são meninas e 9 são meninos.

Vale lembrar que, ao longo das filmagens, algumas crianças não se fizeram presentes, devido a motivos particulares (doença, viagem ou outra interferência).

Escolhemos uma escola da rede particular da cidade de João Pessoa, cuja linha pedagógica consiste em incentivar as crianças a se expressarem nas atividades desenvolvidas em sala de aula. Acreditamos que essa preocupação em estimular a participação da criança nas diferentes ocasiões em que a fala tem primazia confere à instituição um universo de pesquisa muito fértil. Além disso, a escola escolhida para o estudo possui uma infraestrutura bem organizada, com exploração de diversos espaços para fins específicos: existe espaço para as aulas de arte, jardim, horta, sala com grandes espelhos e salas de aula que não acompanham um modelo tradicional entre quatro paredes fechadas. Os espaços onde funcionam as turmas mais novas, inclusive as que pesquisamos, são abertos, integrados a outros espaços, havendo bom fluxo entre sala de aula, jardim e pátio. A configuração estrutural da escola sugere que há uma interação entre o espaço das aulas e a perspectiva do conhecimento como uma construção conjunta.

Levando em conta essa integração entre os espaços da escola, nossas análises acabam por se debruçar também sobre momentos que não pertencem à sala de aula. Fizemos o registro de uma cena em que parte do grupo estava brincando na hora do intervalo, em razão do interesse em encontrarmos produções que, de alguma forma, manteriam contato com os movimentos dos gêneros na sala de aula. É necessário pontuar, no entanto, que não visamos, sistematicamente, às interações fora do contexto de sala de aula. Isso não impede que nosso estudo seja desenvolvido sob um rigor metodológico, uma vez que delimitamos a grande parte da coleta e análise, privilegiando a sala de aula.

Os registros levantados foram transcritos seguindo um modelo baseado em Dionísio (2004), que tem como referencial a Análise da Conversação. Vejamos abaixo:

Quadro 2: Modelo de transcrição dos dados

SINAIS OCORRÊNCIAS

: Prolongamento da sílaba

/ Trecho truncado

((?)) Trecho incompreensível [ Falas sobrepostas - Silabação [[ Falas simultâneas Letras maiúsculas

Ênfase na palavra ou enunciado

( ) Comentários do transcritor Números Demarcação dos turnos

Itálico Termo pronunciado de forma peculiar pela criança.

SSI Sujeito sem identificação na filmagem (quando é possível captar apenas o áudio do sujeito participante)

Fonte: DIONÍSIO (2004)

Ao observarmos nosso corpus, empenhamo-nos em estabelecer algumas categorias de análise, por meio das quais é possível apontar regularidades nos processos investigados. Talvez a nomenclatura ‘categoria’ não seja muito produtiva para o enfoque que escolhemos, pois seu uso pode implicar um instrumental de exatidão ao que é discutido. Sendo assim, podemos afirmar que nossas categorias de análises estão mais para processos relevantes na construção que nos dispomos a entender.

Nesse contexto, prestaremos atenção, portanto, aos gêneros presentes nas interações, alocando-os nos processos de estabilização e de transição. Além disso, também retomaremos a ideia de jogos de linguagem, que se justifica pela presença de construções muito singulares na fala da criança, mas que desvelam aspectos importantes. Assim, dentro de um sistema de gêneros, esperamos encontrar funcionamentos que passariam pelo que nos propomos a designar de gêneros de base e gêneros subsequentes.

Essa classificação não se fundamenta em uma mera associação entre gêneros e tipos estanques, mas abre espaço para um debate sobre o funcionamento da ordem dos gêneros. Uma ordem que é aparentemente caótica, porém bastante dinâmica e rica.