Para meus interlocutores, a escuta terapêutica significa ouvir o que o paciente ―traz como demanda‖ e saber entender o que ―há por traz desse pedido‖. Esta relação de
escuta estabelecida entre os técnicos e o paciente pode ser intencional ou espontânea.
Intencional no sentido de que os técnicos escutam os pacientes cuidados por sua
miniequipe, ao mesmo tempo em que escutam os pacientes de sua referência, isto é,
aqueles sujeitos com os quais o profissional estabelece uma relação de transferência, pensada como um instrumento que permite o acesso a seu saber.
De acordo com a análise de uma psicóloga do CAPS, realizada em sua dissertação de mestrado, para Lacan (1998), a relação de transferência ocorre pela via da erotomania:
...o psicótico está numa posição de objeto do Outro. Está exposto a uma invasão sem barreira e, se o trabalhador da saúde mental não tiver conhecimento da singularidade dessa estrutura, poderá ocupar um lugar invasivo ou de perseguidor. Para o sujeito psicótico, quem sabe, quem tem certeza, é ele. Portanto, é importante operar com o saber do paciente e não com um saber sobre o paciente (...). Ciente de como a transferência se dá na psicose, fica mais fácil saber qual ferramenta utilizar naquele momento e para aquele caso (Vitullo, 2009: 28).
A clínica desenvolvida no CAPS caracteriza o sintoma como uma propriedade exclusiva do sujeito. Segundo a psicóloga da instituição, ―há sintomas típicos de cada estrutura, porém o sentido de um mesmo sintoma é distinto em sujeitos diferentes e está
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articulado às experiências individuais‖ (Vitullo, 2009: 32). Percebe-se, com isso, que a noção contemporânea de sujeito é reinventada, contemplando o seu sintoma. Desta forma, podemos dizer que os profissionais estão interessados em definir o sujeito, o que lhes possibilita um cálculo (supra 4.1.) eficaz da intervenção terapêutica, feita a partir da prática da transferência, que é utilizada como um instrumento para o estabelecimento da interação e da intermediação dos afetos. Uma psicóloga do CAPS falou-me a respeito da mediação verificada entre o técnico e o paciente, que implica uma relação de afinidade:
A clínica da psicose tem a ver com a construção da rede no interior da equipe. O paciente, quando chega, é apresentado para os profissionais de sua miniequipe. O paciente psicótico é diferente do neurótico, que só confia em um profissional para atendê-lo. O paciente Renato é um exemplo diferente, pois ele gosta de ser atendido por mim. E se eu estiver de férias, ele não conversa com ninguém. Ao contrário de outros que mantêm uma relação interessante com toda a miniequipe. É o paciente que escolhe com quem ele quer falar; se ele procura a gente, nós atendemos.
A psicóloga assumiu a posição política de atender o paciente que a procurou, mesmo não sendo ela a profissional de sua referência. Essa atuação é descrita como uma posição ética que se baseia no atendimento a todos aqueles que chegam procurando ajuda. No CAPS Esperança, o paciente é considerado um sujeito que deve ser respeitado e atendido por um técnico que com ele mantém uma ―boa relação de transferência‖ e que se tornará responsável por ele, em última instância.
Descreverei, a seguir, a atuação dos profissionais em um grupo de tratamento. Na própria dinâmica de funcionamento do grupo, pode-se perceber os elementos que compõem o sujeito e a lógica em que é inserido a partir de seu discurso. Em um grupo
de tratamento (do qual participavam os pacientes, a médica e mais dois outros profissionais da miniequipe), uma paciente afirmou que estava grávida. Ela falou para a
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mal à criança. A médica lhe respondeu que ela não poderia parar de tomar a medicação de forma abrupta. Vejamos parte desse diálogo:
A médica disse: ―Já tirei uns medicamentos e diminuí outros. O Haldol é o remédio mais indicado em casos de gravidez. Esse remédio que você está tomando não faz mal, pelo contrário, é o mais indicado para grávidas‖.
A paciente perguntou: ―Dra. Ângela, eu sou doente?‖
A médica respondeu de forma calma, mas com outra pergunta: ―O que você acha?‖ A paciente disse assim: ―Meu pai fala que eu e minha irmã somos doentes.‖ Nesse momento, outro paciente começou a rir.
A médica perguntou: ―Por que você riu Pedro?‖
Pedro respondeu: ―Eu não acho que ela é doente, só toma remédio para parar as perseguições.‖ A médica: ―Mas perseguições não é doença?‖
Pedro respondeu: ―Sim.‖
A paciente respondeu que se sentia melhor porque, antes, ouvia muitas vozes e agora isso não acontecia mais. Afirmou também que gostava muito de ir ao CAPS, pois tinha muitos amigos e, em sua casa, só tinha as filhas: ―Aqui, eu tenho amigos e, se não fosse ao CAPS, eu estaria em casa isolada‖.
Pode-se perceber, no discurso da paciente, a afirmação de que alguns sintomas lhe provocavam certo mal-estar, assim como a melhora de sua condição de existência a partir da afirmação de que se sentia melhor após ter iniciado o tratamento na instituição. A paciente afirmou que, ao ter seus sintomas controlados, conseguiu estabelecer relações de amizade com outros pacientes, relações estas que a impediam de ficar em casa isolada.
A relação de transferência é pessoal e estabelecida por meio de um vínculo de afinidade. Desse modo, é possível perceber que, em última instância, é ela que determina qual (ou quais) os profissional(is) da equipe irá (irão) escutar determinado
paciente. Esse vínculo, espontâneo e frágil, deve ser fabricado de forma ativa e
incansável. Nesse processo, a equipe adquire informações importantes e estratégicas visando formular o calculo terapêutico.
Segundo meus interlocutores, o médico atualiza as prescrições a partir das informações dos pacientes. No entanto, estes últimos reaparecem por meio dos sintomas e da doença para, em seguida, serem redefinidos como casos e reconstruídos como
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como ―indivíduo‖ é o resultado de uma configuração de múltiplas forças. Assim, sua subjetividade é produzida na própria relação terapêutica, o que possibilita ao
profissional entender o sujeito por meio da transferência. Sua vida é considerada uma
potência que pode ser identificada por meio de sua história de vida. Sua singularidade é indicadora de seus desejos e de suas possibilidades de transformação. Em resumo, os
profissionais refletem sobre a vida dos sujeitos, responsabilizando-se por situações
inesperadas que permitem pensar uma possibilidade para predizer um futuro sem
sofrimentos e digno de ser vivido (cf. Biehl, 2008: 423).
Sua posição na elaboração de suas práticas, principalmente àquelas relacionadas à produção de cidadania, autonomia e ao ponto de estabilização são assuntos que serão discutidos, a seguir, no próximo tópico.