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Stay or leave after graduation

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Nesta dissertação, procurei analisar o modo de funcionamento e de organização de uma nova tecnologia de cuidado colocada em prática pelos profissionais do CAPS Esperança. Em um primeiro momento, descrevi os acontecimentos que possibilitaram à instituição filantrópica Cândido Ferreira, na década de 90, criar uma Rede de instituições responsáveis pela assistência à saúde mental, como efeito das modificações decorrentes da crise nas grandes instituições de confinamento. Isto expõe a lenta ruína do modelo de funcionamento disciplinar (Foucault, 2002) que atualizou suas relações de controle, agora materializadas, segundo Deleuze, por um ―controle ao ar livre‖ (2007:220). Pode-se afirmar que a reforma institucional foi um efeito da reformulação das práticas terapêuticas, que produziram a experiência da ressocialização dos pacientes moradores do hospital psiquiátrico do Cândido Ferreira (ver capítulo 1). Para atender a

demanda de um grupo não mais confinado, foi criado um ambulatório, ainda nas

dependências do hospital, mas ele não comportou o número crescente de pacientes intensivos, em decorrência disto, seu atendimento foi reorganizado já inserido na comunidade como CAPS Esperança.

O objetivo principal da pesquisa foi o de analisar as práticas terapêuticas do CAPS operacionalizadas por duas ações: a escuta terapêutica e a medicalização do

paciente. Vimos que ambas organizam a forma de atuação dos profissionais. O processo

terapêutico já não vislumbra a cura da doença mental, mas o controle minucioso das manifestações mórbidas. A prática de cuidado funciona por meio de informações que permitem aos profissionais construírem o caso clínico, ou seja, um saber particular sobre o sujeito. Compõem esse saber todas as informações observadas, escutadas e anotadas no prontuário do paciente. O caso clínico atualiza a formulação do PTI (infra 4.2.), que se caracteriza por sua operação avaliativa, admitindo o exame contínuo dos

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O paciente é investido por intervenções terapêuticas que produzem saber e relações de poder. Portanto, os profissionais observam e analisam os efeitos terapêuticos nos corpos, nos gestos e nos comportamentos daqueles que são cuidados. Promove-se um controle que exige sua participação, firmada pelo contrato terapêutico, isto é, por um pacto democrático continuamente negociado no interior da relação de cuidado. A aliança firmada no processo terapêutico implica a responsabilização do paciente em cumprir as obrigações determinadas pelo vínculo de transferência com o profissional. As relações de poder são visualizadas em práticas como a escuta e a observação permanentes dos sujeitos. Nesse processo, a demanda é transformada em sintoma. Isto quer dizer que as queixas dos pacientes são caracterizadas como sofrimento. A medicalização o reproduz o sofrimento de forma artificial, já que o remédio produz efeito nos corpos, muitas vezes, efeitos colaterais. A forma de prescrição no CAPS Esperança reassume o discurso da psiquiatria clássica, pois investe nos sintomas. Os

profissionais, a instituição, as práticas de cuidados e o controle moldam-se às

particularidades de cada sujeito tratado. Os profissionais avaliam continuamente a experiência de interação do paciente com a medicação.

A observação de um comportamento individual constitui um saber acumulado e permanente sobre o indivíduo. Ao descrever o estado geral e as características dos

pacientes, os profissionais tornam o corpo visível por meio da escrita. O acesso às

informações, segundo meus interlocutores, ajuda em alguns casos como, por exemplo, na identificação de um sintoma indicador de um estado de crise. A partir disso, pode-se afirmar o caráter virtual do cálculo terapêutico (infra 4.1.) que prevê uma situação por intermédio da experiência anteriormente descrita e registrada sobre a individualidade dos pacientes. Decerto, o procedimento da escrita e da documentação das informações sobre o caso clínico permite aos profissionais um controle preventivo.

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A prevenção psiquiátrica materializa-se em práticas que permitem antecipar as urgências (crises). No CAPS Esperança, os profissionais procuram manter-se sempre atentos e/ou vigilantes para serem afetados (ver tópico 2.4.) por algo ―inusitado ou inesperado‖ ou por comportamentos imprevisíveis, de ―passagem ao ato‖ e agressividade. Para Castel (1987: 125), a imputação de periculosidade é estabelecida por um cálculo de probabilidade intuitiva do profissional. Ao avaliar um paciente, este último elabora possibilidades de correlação entre os sintomas atuais e um comportamento futuro. Ao antevê-las, os profissionais julgam e acionam as intervenções preventivas.

A atualização ou ―ajuste‖ da medicação é uma das intervenções que fazem parte do cotidiano dos pacientes no CAPS Esperança. O médico prescreve o remédio a partir de um saber elaborado sobre a experiência de interação do sujeito com a substância química. Essa forma de medicar necessita de sua participação e implicação (ver tópico 5.3.). Segundo meus interlocutores, essa relação de colaboração é importante para precisar a dose adequada da medicação, o que Pignarre denominou de ―arte da dosagem‖ (2006:190). O medicamento é absorvido por receptores67 de dopamina existentes no cérebro. Nesse processo, o cérebro é considerado uma propriedade exclusiva da pessoa. O médico prescreve a partir da pressuposição de que o sintoma é o resultado de uma disfunção neste órgão. De fato, a medicação antipsicótica provoca uma desaceleração das células de dopamina (Moreira e Guimarães, 2007:67). Essas células são responsáveis pela regulação e pelo controle dos movimentos musculares, pela cognição, pela capacidade de sentir sensações de prazer, ânimo e motivação. A medicação antipsicótica promove uma sedação e um controle dos sintomas, substituindo

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Os receptores seriam células que compõem o córtex cerebral, sendo este, por sua vez, responsável pela representação, pelo entendimento e pela razão.

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terapias como a lobotomia devido à contenção química que promove (ver tópico 5.2.). Ela foi igualmente indispensável para sustentar o processo de ressocialização e a Reforma Psiquiátrica.

Para meus interlocutores, a psicanálise ensina o profissional a escutar as indicações que cada paciente elabora como solução para seu sofrimento. Segundo uma psicóloga do CAPS Esperança, a atuação do profissional tem a intenção de ―permitir que o sujeito psicótico encontre seu próprio tratamento, inventando suas soluções particulares‖ (Vitullo, 2009: 26). Nesse processo, o sintoma é considerado uma elaboração particular do sujeito, ou como afirmou Tobie Nathan (1995:50) sobre a medicina dos brancos, ele é soldado ao sujeito, sendo considerado uma propriedade exclusiva da pessoa. Para os profissionais do CAPS, o paciente está contido de forma particular em seu sintoma. Eis o sujeito que, segundo Lacan, é ―como um sintoma que nunca se dissolve‖ (Sfatle, 2001).

O sujeito é constituído por seu sofrimento, como afirmam meus interlocutores, sendo, por um lado, o sujeito do desejo e, por outro, o sujeito da lei — algo como uma síntese de elementos estruturais que compõe e produz o aparelho psíquico, em uma relação de tensão entre o cérebro (biológico/químico/psiquiátrico) e o simbólico. Essa relação produz uma confluência entre o sujeito/pessoa e o sintoma/disfunção cerebral. O resultado desse movimento é uma diferenciação entre o sujeito e seus familiares ou pessoas próximas. O sujeito contemplado por seu sintoma vem a configurar um objeto de um pensamento especializado. No CAPS, tanto os médicos psiquiátricos quanto os

profissionais influenciados ou não pela psicanálise lacaniana concordam que o sintoma

deve ser proferido pelo paciente e, nesse sentido, ele é considerado uma

responsabilidade do sujeito.

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por meio de informações que permitam aos profissionais articular relações, laços de solidariedades, contratos, conexões, medicamentos, projetos e táticas para impedir que eles entrem em crise e sejam internados em um hospital psiquiátrico. O manejo ou a gestão da crise responsabiliza o paciente a participar de seu processo terapêutico, ao mesmo tempo em que responsabiliza o profissional por meio de uma noção de obrigação. Os profissionais do CAPS são obrigados a aprender sobre a complexidade de seus pacientes. Isso os transforma em tradutores de fatos que compõem versões de

Referências Bibliográficas