A reunião de planejamento, supervisionada pelo Prof. Dr. Sergio E. Mehry, possibilitou-me observar como, em determinado contexto, a equipe utilizava estratégias de avaliação de suas práticas institucionais. Na primeira que pude acompanhar, os
profissionais do CAPS discutiram sobre a prática do acolhimento (ou acolhedor) da demanda do dia (add). Nessa reunião, foi estabelecido que o add não mais faria triagem, permanecendo na convivência. Para os meus interlocutores, ―estar na convivência‖ significa ficar ―junto com o paciente‖, escutando atentamente uma
possível demanda espontânea. É a partir dessa última que costumam aparecer algumas informações importantes ou a chave para o entendimento do caso clínico, o que permite a elaboração em equipe de uma solução de cuidado. De certa forma, foi possível perceber a preocupação com esta escuta pelo que se depreende da fala de uma psicóloga do CAPS:
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Quando você está no add, por exemplo, e o paciente fala que gostaria de tomar um café na padaria, você sabe que pode surgir muitas coisas. Mas o problema é que você não pode sair, por que aqui [no CAPS] fica descoberto.43 E, na verdade, eu acho que aquilo que é a riqueza da clínica não está sendo possível fazer. Eu acho que a riqueza da clínica é o encontro que não tem hora marcada, que o paciente chega e fala: eu poderia falar com você? E você tem que dizer que agora não dá.
Foram duas as reuniões de planejamento das quais participei. Na primeira delas, a equipe discutiu a prática do add em sua função terapêutica de escuta do paciente e também de otimização da rotina institucional. A reunião começou com uma exposição de cada profissional sobre a prática, o que foi chamado pelo supervisor de ―ouvir as queixas da equipe‖. Logo depois, ele explicou que os profissionais sabiam a forma de
cuidado que gostariam de realizar: ―Daí, vocês fazem a seguinte queixa: ‗eu sei o
cuidado que deve ser dado, só que eu vivo a dificuldade de que ele não está acontecendo‘‖. A análise feita pelo supervisor pontuava uma questão surgida na fala dos
profissionais, que questionava o trabalho realizado e suas dificuldades. Dentre elas,
destacava-se a de realizar um acolhimento (vide supra 2.2.) que contemplasse as questões inusitadas, tendo em vista que a função de add seria justamente a de atuar diante do inesperado, daquilo que não está programado. O profissional deve exercitar sua capacidade de ser afetado (ver tópico 2.4.) por situações deste tipo e por demandas
espontâneas.
De volta à reunião de planejamento, os profissionais pontuaram algumas evidências que os impediam de realizar o acolhimento. Uma delas relacionava-se a uma forma de funcionamento da equipe, organizada a partir dos interesses individuais de cada profissional que mantinha alguma atividade fora da instituição. Outra evidência foi a da desativação de alguns grupos terapêuticos e a da forma de se trabalhar em dupla no
add. Esse rearranjo foi feito sem uma avaliação que seguisse a lógica do cuidado
43 Descoberto é um termo utilizado para indicar a falta do profissional que cumpriria as atividades na instituição.
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estabelecida pelos profissionais. A discussão sobre a dupla de add, ou melhor, dois
profissionais trabalhando juntos na prática do add, fica mais clara na fala de uma
psicóloga do CAPS:
Eu trabalho em dupla já há muito tempo; acho que nunca fiquei sozinha no add. E eu acho que funciona bem, porque nos casos em que eu tenho dúvidas, pode trocar uma ideia, tem essa tranquilidade pra fazer sozinha uma triagem. Eu acho que uma pessoa no add é pouco. A minha questão é assim: o que fazer depois, por exemplo, com a rotina do add?
A exposição da psicóloga fez com que a equipe pensasse não apenas na prática do add, mas em suas consequências para o processo terapêutico. Sua preocupação era a de normalizar as condições técnicas de funcionamento e organização institucional para realizar adequadamente a prática do acolhimento — passada esta primeira etapa, o
paciente deve ser encaminhado e integrado a uma rotina de atividades institucionais.
Esta inquietação era de todos os profissionais da equipe, mas ficou mais evidente no discurso daqueles que tinham uma formação em psicanálise, como se pode notar na exposição de uma enfermeira e psicanalista:
[…] Uma oficina em cada horário parceira desse add. Isto é, saber que eu estou acolhendo com a possibilidade de incluir o paciente no grupo de caminhada ou em outra oficina. Porque você fica acolhendo e não tem como resolver. Eu acho que a nossa equipe tem a capacidade de resolução. O
add é um dispositivo que a gente criou que avalia como é que está a nossa clínica. Eu colocaria ao
lado do add o triador. Eu gosto demais da ideia de ter um de cada equipe na roda. Uma oficina aberta operando em todos os horários. E o add responsável pela passagem de plantão com a equipe de enfermagem e na articulação da tarde.
O add, enquanto clínica do acolhimento e da escuta terapêutica, não deve estar sobrecarregado com os problemas institucionais. Desse modo, a equipe chegou à conclusão de que era melhor desmembrar algumas funções que ele acabava cumprindo, como a triagem, por exemplo. Com isso, ele assumiria a função de encaminhar os
pacientes para as oficinas. Nesse sentido, a reunião de planejamento também discutiu a
importância dos grupos no interior da rotina institucional. De uma forma geral, esses momentos são importantes, pois permitem ao profissional ―estar junto com o paciente‖,
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observando cuidadosamente algum sintoma ou efeito colateral da medicação, escutando-o e acolhendo-o. No interior da organização institucional, o add tem a função
de atender às demandas trazidas pelos sujeitos, no intuito de impedir que o paciente em
sofrimento perturbe o funcionamento das demais atividades institucionais.
A roda foi outra proposta levantada durante a reunião. No início de cada plantão, dela participariam um profissional de cada miniequipe e os pacientes que estivessem no CAPS. A função da roda é a de escutar os pacientes e detectar os problemas que devem ser resolvidos pelos profissionais da equipe de referência. Um paciente precisa, por exemplo, saber quem será seu acompanhante terapêutico (AT) em uma consulta médica na Unicamp. A roda minimiza o tempo gasto escutando o paciente e o encaminhando para o profissional de sua referência. Para meus interlocutores, o add ocupa um ―lugar de ponte‖, ou seja, ele é um canal de comunicação entre o paciente e os profissionais de sua referência.
Outro assunto discutido na reunião de planejamento abarcou as ferramentas que os profissionais devem ―criar para olhar o seu mundo do trabalho‖, ou seja, o cotidiano de suas práticas terapêuticas. Afirmou-se a importância de discutir a utilidade de algumas práticas e a inutilidade de outras, essa avaliação devendo ser contínua. Segundo a exposição de Emersom Merhy, médico sanitarista e supervisor da reunião de
planejamento:
Isso faz parte dos próprios saberes que o trabalhador tem no seu dia a dia; ele faz um exercício automático. Ele não precisa ficar fazendo reunião: ―vamos agora fazer um mapeamento do que é útil e inútil‖. Assim, esta discussão já começa a entrar absolutamente no cotidiano da avaliação, ou seja, a avaliação faz parte do saber que opera o cotidiano das equipes.
De fato, ao pensar a prática do add, a equipe procurou esclarecer suas funções. Os profissionais precisavam delimitar exatamente o que ela compreendia, que tipo de
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cuidado surgiu na tentativa de impedir que dois profissionais se ocupassem da mesma
atividade ou precisassem acolher o paciente, escutando sua queixa e o encaminhando para outro profissional que iria resolver seu problema. Pode-se notar um esforço no sentido de determinar a melhor forma de realizar uma prática, quer seja do ponto de vista clínico eficaz, quer seja de uma maneira rápida. A reunião de planejamento pode ser comparada a uma consultoria que incita os profissionais a pensar na otimização das práticas, na motivação dos funcionários para a prática de um trabalho criativo, eficiente e rápido, características essas de uma política institucional que se funda em moldes empresariais (Deleuze, 2007: 221).
Segundo uma interlocutora de pesquisa, o add fica muito ―puxado‖ quando aquilo que é programado como prática na instituição não funciona muito bem. Com efeito, é neste momento que ele deixa de ser o profissional que escuta e se afeta pela
demanda espontânea do paciente para se transformar naquele que resolve seus
problemas burocráticos, questões relacionadas ao transporte dos pacientes, rotinas institucionais como, por exemplo, levar a receita na farmácia para o paciente pegar a medicação, resolver quem será seu acompanhante terapêutico (AT) etc. Enfim, quando aquilo que é programado deixa de ser cumprido, o profissional que esta na função de
add é sobrecarregado, não conseguindo ajudar o paciente realizar sua clínica de forma
satisfatória. Conforme afirmam meus interlocutores, o profissional deixa de ser add para o paciente, passando a sê-lo para a equipe de profissionais, ou seja, ele volta-se para o atendimento dos problemas institucionais que deveriam estar funcionando de forma programática.
Ele deixa de ser o add pra fazer o acolhimento necessário do inusitado, para ser o gerente de cuidado de emergência. Na medida em que o que é programado fura, isso causa uma tensão em algum ponto, e aí deixa de ser add; é como se você assumisse a função de gerente. O add pode ser um observatório da equipe, ou para um furo ou para o inusitado. Ali no dia a dia, aparece como uma emergência daquilo que deveria ter funcionado e não funcionou. Mas isso pode denunciar uma falha em algum lugar.
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Quando colocado na posição de acolher as falhas da equipe, o add pode se tornar um observador crítico das práticas coletivas, na intenção de encontrar soluções para os problemas que o impedem de realizar sua clínica. Na verdade, o que minha interlocutora de pesquisa questionou foi a forma de organização da prática do
acolhimento como uma oportunidade de escutar e endereçar (ou encaminhar) o paciente para um cuidado eficaz. Pode-se afirmar que o modelo de gestão da equipe —
baseado no planejamento das práticas, nas técnicas disciplinares e no trabalho — é cada vez mais direcionado para a gestão de pessoas, redes e relações. Está presente no discurso dos profissionais, a importância dada à criatividade, as inovações sendo constantemente estimuladas para a elaboração de um trabalho coletivo que proporcione
autonomia, responsabilidade e liberdade para a invenção de ações práticas e rápidas.
Desse modo, verifica-se que a equipe é motivada a elaborar um trabalho que seja capaz de lidar com os imprevistos da clínica, ao mesmo tempo em que o profissional deve estar preparado para avaliar determinada situação e ser livre para tomar determinadas decisões. A reunião de planejamento pode ser comparada a uma forma de aprendizagem coletiva, em que são criadas novas competências afetivas, comunicacionais, intelectuais e a capacidade de julgamento e avaliação.
De acordo com os profissionais do CAPS Esperança, a equipe é capaz de redefinir uma posição no cuidado a partir das necessidades do paciente e da avaliação da eficácia de suas práticas, o que permite a possibilidade de experimentos e erros. Estes últimos estão diretamente ligados a um sistema de informação, ou seja, à busca inquietante pela avaliação correta. Este saber que compreende as informações sobre a vida dos sujeitos em seu funcionamento é elaborado no contexto da vida e em sua experiência. Ao afirmar um ―não saber‖, o profissional simultaneamente afirma um ―não domínio‖ sobre o paciente. Desse modo, os imprevistos obrigam a uma revisão das
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bases que dão sustento às práticas, possibilitando a produção de outras articulações a partir dos saberes do paciente. Existe uma tensão entre este último e o saber cientifico, o que, na prática, permite experimentações a partir da problematização feita no plano dos comportamentos. Ou seja, a prática experimental pressupõe o conhecimento dos fatos que constituem a vida dos pacientes por meio da interação estratégica entre as teorias e seus saberes individuais. Esta prática terapêutica experimental será descrita no capítulo sobre a medicação, mas antes de tudo, é necessário pontuar práticas de exame tais como a triagem e a consulta médica, detalhadamente descritas no capítulo a seguir.
Capítulo 4