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Structure validity

Chapter 4. Model analysis

4.2 Validation testing

4.2.1 Structure validity

Autonomização disciplinar da literatura.- Modelos de disciplinarização da literatura.- Afirmação da linguística e da literatura.- Da literatura aos estudos literários.-

A autonomização disciplinar da literatura na Europa desenvolve-se de acordo com três modelos de disciplinarização: o britânico ou generalista, o germânico ou científico e o francês. O primeiro gravita em torno das «belas letras» cujo fundamento é o discurso sobre o juízo estético e o gosto analisando-se em processos que visam transformar a crítica literária sob a forma de ensino da literatura. Assentava no ensino da retórica e nas categorias de género literário para a elaboração de antologias, fornecendo textos clássicos sem quaisquer critérios de ordem histórica com o único propósito de inculcar competências de expressão oral, leitura e escrita (Guillory, 2002: 32). O modelo britânico inspira-se nas ousadas iniciativas escocesas das universidades de Glasgow e St. Andrews que foram as pioneiras na institucionalização do ensino da língua e da literatura inglesas, já na segunda metade do século XVIII. Na Universidade de Edinburgh, Adam Smith iniciou o ensino da retórica e da literatura em língua inglesa. Os efeitos deste pioneirismo escocês são tardios em Inglaterra, França e nos Estados Unidos da América. É no século XIX que se dá a incorporação dos estudos da língua e da literatura inglesas no sistema educativo inglês quando o seu ensino chega a Oxford e Cambridge. À referida ocorrência está irremediavelmente ligado o nome de Matthew Arnold que durante períodos decisivos da história da educação inglesa acumulou as funções de «crítico literário e inspetor das escolas populares» (Hunter, 1988:113). Portanto, a «pedagogia literária moderna» e a «crítica literária» à luz do modelo britânico são fenómenos típicos de uma sociedade que regista mudanças. Ian Hunter explica as razões que aí subjazem:

First, the appearance of English literature at Oxford and Cambridge at the end of the nineteenth century provided neither the intelectual nor the administrative model for the rise of English in the educational system.This event can be regarded as a short-lived pedagogical incarnation of aesthetico- ethical criticism; it signifies a terminal mutation of the nineteenth-century man of letters, rather than a prefiguration of that distinctively twentieth-

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century personage the teacher-critic. Second, the developments which saw the emergence of modern English were not focused in the culture of the ancient universities, but in the apparatus of popular education, particularly in the machinery of teacher-training and its accompanying special techniques and knowledges (op.cit:111)40.

O segundo modelo organiza-se em torno da filologia, ciência que tem a vocação de realizar a unidade do conhecimento sobre a cultura e a generalidade da criação e produção do espírito humano. Entre a língua e a literatura estabelece-se uma relação incindível. Nesta coexistência, a língua ocupa um lugar central influenciando a constituição de novos departamentos das universidades onde durante muito tempo a literatura será marginal, além de representar apenas o contradiscurso da filologia que cederá lugar a uma disciplina autónoma com o apogeu do romantismo europeu e do ensino literário moderno no século XIX. Remonta a esse período a invenção do sentido atual atribuído à literatura, enquanto produto da criação imaginativa sem qualquer conotação com a ciência. A entrada em cena da história literária vai alterar a correlação de forças entre a língua e a literatura, na medida em que os filólogos passaram a recorrer aos métodos da investigação literária e a dedicar-se ao estudo das obras literárias. Ao analisar os limites que definem o campo dos dois modelos, John Guillory aponta a última década do século XIX como o momento a partir do qual se manifestam os fenómenos relevantes da organização curricular dos estudos da literatura sob a hegemonia do paradigma filológico. O ano de 1890 pode ser tomado como referência histórica para a filologia, pois data daí o início da utilização dos conceitos da história literária, negligenciando-se o uso de antologias de textos literários em defesa da combinação do ensino e da investigação, dos estudos linguísticos e histórico-literários. A filologia é surpreendida pelas combinações inéditas que semeiam as bases de uma nova disciplina cuja existência até aí era difusa, apesar da importância que ao modelo é conferido no contexto nacional alemão.

40 Em primeiro lugar, o surgimento da literatura inglesa em Oxford e Cambridge, no final do século

XIX não se traduziu nem em modelo intelectual nem administrativo para a introdução do inglês no sistema educativo. Este evento pode ser considerado como uma efémera encarnação pedagógica da crítica estética e ética; isso significa a última mutação do homem de letras do século XIX, mais do que uma prefiguração do professor-crítico, esta distinta personagem do século XX. Em segundo lugar, a evolução do ensino de inglês moderno não estava centrado na cultura das antigas universidades, mas no aparelho da educação popular, particularmente na formação de professores, bem como nas técnicas e saberes especiais que o acompanhavam.

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O terceiro modelo traduz a admiração e as resistências que o paradigma filológico suscita em França, apesar do papel que lhe é atribuído na formação de diversas disciplinas dos estudos literários e de outras da área das ciências humanas e sociais. Regista-se aí a insanável conflitualidade de duas perspetivas, uma normativa na linha da tradição retórica das «belas letras» e outra que obedece à ideia de historicidade. Werner admite a hipótese de o centro de tal conflitualidade ser ocupado pelas ciências sociais na sociedade francesa do século XIX, comparável ao da filologia na Alemanha (1990:178). Outro indício da especificidade do modelo francês reside no desenvolvimento eclético que a Linguística adquire em França quando se constitui a Sociedade de Linguística de Paris, reunindo seguidores da tradição francesa (Abbadie, Charencey,Chodzko, Schoeble) e da tradição alemã (Derenbourg, Opert, Gaston Paris, Ernest Renan, Michel Bréal). Segundo Werner, os estatutos desta associação científica estriba-se na cisão entre a crítica literária e a investigação sobre as línguas (op.cit.:179). Com efeito, o interesse marginal pela filologia em França confirma-se com o surgimento da Revue de Philologie Française em 1887, dedicada exclusivamente ao estudo do francês arcaico. Por outro lado, a paisagem académica vê-se enriquecida em 1894 com a criação da Sociedade da História Literária de França e da respetiva revista. Trata-se de uma disciplina literária praticada de modo diferenciado da Literaturgeschichte alemã que obedece aos postulados da escola histórica.

A tensão entre os três referidos modelos de estudo da língua e da literatura dominada pela variável proeminência do paradigma filológico repercute-se nas relações que opõem «especialistas» a «generalistas» de acordo com a categorização de Gerald Graff. O especialista representa o momento da profissionalização e o surgimento dos departamentos de línguas e literaturas, processos desencadeados durante o último quartel do século XIX. O filólogo alemão representa o tipo de especialista que melhor se adequa à necessidade da profissionalização. A imagem do seu contendor é veiculada pelo generalista, «comprometido com a ideia dos departamentos de inglês e línguas modernas, mas que mantém os ideiais da antiga escola da cultura liberal ou geral contra a visão estreita da investigação especializada» (Graff, 1987: 55). Apesar do recurso aos dispositivos da investigação histórico-literária, a filologia foi-se revelando incapaz de assegurar o desenvolvimento do estudo da literatura em bases científicas. O surgimento da linguística e a afirmação da literatura enquanto disciplinas no princípio do século

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XX parece constituir um forte indício desse facto. A este propósito, John Guillory afirma:

The fate of philology may no doubt be read in the implications of the complex relation between language and literature as disciplinary objects and for this reason we cannot say that philology declined only because its research program was exhausted (if indeed it was exhausted). The displacement of philology by linguistics is more mysterious, more involved with philology’s adventitious and at the same time necessary relation to literature […] Looking back on this disciplinary history a century later we are compelled to acknowledge that literature has been made to play a kind of allegorical role in the development of the disciplines, as the name of the principle antithetical to the very scientificity governing discipline formation in the modern university. For this reason belles lettres was able to contend with philology, despite its institutional weakness. (op.cit:37)41.

Para Guillory não se pode perder de vista o momento dialético que subjaz ao papel alegórico conferido à literatura quando se começa a manifestar o declínio da filologia. Na relação dialética que se estabelece entre as duas disciplinas, a literatura é o contrário da filologia, a antítese da cientificidade reivindicada pela filologia.

Portanto, a superveniente coabitação forçada da história literária, retórica e crítica literária, no contexto institucional do mesmo departamento nas estruturas universitárias, explica a falência do modelo filológico na sua pretensão de englobar os estudos literários. Na nomenclatura das disciplinas que constituem o seu campo interdisciplinar opera-se com vários critérios, muitos dos quais denunciam a herança das filologias nacionais. O que contrasta com a pretensão da sua validade

41O destino da filologia pode sem dúvida ser lido nas implicações da complexa relação entre a língua e a literatura enquanto objetos disciplinares e, por essa razão, não podemos dizer que a filologia tenha caído em declínio apenas porque o seu programa de pesquisa se tenha esgotado (se é que se esgotou). A substituição da filologia pela linguística é mais misterioso, revela um maior envolvimento da filologia numa relação com a literatura que é, ao mesmo tempo, necessária e contingnte [...] Num olhar retrospetivo sobre esta história disciplinar, um século depois, somos obrigados a reconhecer que a literatura tem servido para desempenhar uma espécie de papel alegórico no desenvolvimento das disciplinas, como o nome de um princípio em contradição com a própria cientificidade que rege a formação da disciplina na universidade moderna. Por essa razão as

belles lettres foram capazes de lidar com a filologia, apesar de sua fragilidade institucional. (op.cit: 37).

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universal. Por essa razão, vão-se tornando indeléveis as fronteiras que definem a singularidade das literaturas nacionais e suas respetivas filologias ou histórias literárias com o conjunto de saberes que constituem os estudos literários. Consumada a fragmentação do objeto da filologia, a investigação e o ensino da literatura adquirem autonomia plena42. Com o fim da hegemónica filologia regista-

se um outro fenómeno de autonomização disciplinar, quando se dá a fragmentação da literatura enquanto disciplina.

42 Vítor Aguiar e Silva admite que, numa perspetiva periodológica, as transformações referidas configuram um cenário ocupado pela «filologia pós-imperial» que tenha em conta os avanços da teoria e correntes literárias contemporâneas. E seja, ao mesmo tempo, capaz de reconhecer as consequências da hermenêutica de que a leitura é a dimensão mais fecunda (Aguiar e Silva, 2010:105-106).

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