Chapter 3. Model description
3.6 Emissions
Génese da filologia.- Implosão da filologia clássica.- Modelo filológico.- Filologia das línguas vernáculas e literaturas modernas.- Estudos linguísticos e estudos literários.-
Com a instauração de um sistema disciplinar moderno na Europa, nos séculos XVII e XVIII, a filosofia moral daria lugar às Humanidades. E a filologia que era uma palavra quase esquecida viria a ser recuperada em 1777 por Friederich Wolf, professor da Universidade de Göttingen. Caberá ao inglês Sir William Jones o mérito de lançar as sementes do método comparativo fundador da filologia clássica, quando em 1785 elabora um trabalho dedicado à comparação das línguas europeias com o Sânscrito, tendo como finalidade dotar o império britânico de uma capacidade para exercer um melhor controlo das populações da Índia a partir das similitudes prováveis com o inglês. O que tornará possível proceder à classificação das variações linguísticas. A mudança radical tem lugar quando Friedrich Schlegel publica, em 1808, o livro Von der Sprache und Weisheit der Inder (A Língua e a Filosofia dos Hindus). O seu propósito consistia em estudar o Sânscrito à luz do método comparativo. A partir daí a filologia adquire dignidade institucional sob os auspícios da reforma humboldtiana ao ser introduzida como disciplina na Universidade de Berlim em 1820. Constituía, além disso, a trave mestra do ensino humanístico, residindo o seu ponto de ancoragem no estudo das línguas e dos textos. Nesta fase os estudos literários seguiam o método da crítica textual aplicada aos manuscritos de que Karl Lachmann (1793-1851) foi pioneiro moderno. Ora, os ideais avassaladores do iluminismo setecentista que até aí orientavam o ensino e a investigação das Humanidades constitutivas da filologia clássica na Europa seriam contrariados pelo pensamento original de autores como Johann Gottfried von Herder (1744-1803) cujas teses serão desenvolvidas por Friederich Carl von Savigny e Jacob Grimm (1785-1863) aplicando o método filogenético-comparativo a domínios tão diversos como a linguística, o estudo das variantes textuais, a história literária, a história do direito, a literatura tradicional e as crenças populares, com a finalidade de determinar as suas origens mitológicas antigas. O termo Volksgeist é introduzido na língua alemã por Savigny para dar relevância à ideia segundo a qual
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«o sistema jurídico era a expressão direta da mentalidade específica da nação» (Id.:28).
O declínio da filologia clássica ocorre com a sua implosão e manifesta-se no princípio do século XX, através de um largo conjunto de indícios. Michael Werner admite que já no século XIX a filologia sofria os efeitos da erosão de três tipos de tensões. O primeiro tipo de tensão põe em confronto a orientação crítica e a orientação hermenêutica. Com a orientação crítica são criadas as premissas que conduzem à consolidação da crítica textual cuja ambição é estabelecer a filiação histórica dos textos e documentos, eliminando as marcas da interferência dos intérpretes ou copistas. A orientação hermenêutica aponta para a historicidade do exercício hermenêutico que exige o recurso às interpretações precedentes de modo a garantir uma compreensão global. O segundo tipo de tensão resulta da oposição entre a filologia das palavras (Wortphilologen) e a filologia das coisas (Sachphilologen) iniciada com a polémica entre K.O. Müller (1797-1840) e Gottfried Hermann (1772-1848) acerca das Euménides de Ésquilo (Combre, 1990: 30). A filologia das palavras defende o primado da língua e consequentemente a cientificidade das operações de caráter técnico a que se submetem os textos em obediência às regras da gramática e da retórica ou da métrica. O seu princípio basilar aponta para a disciplinaridade da língua e da literatura. E o seu triunfo deve- se ao Volksgeist, substrato político-ideológico dominante nos meios académicos alemães sobre o qual se apoia o Romantismo. Os cultores da filologia das coisas preferem concentrar o seu interesse sobre os referentes a que as palavras dão acesso. Neste sentido, a língua e os textos constituem um meio para conhecer as realidades culturais, religiosas e políticas das comunidades de que promanam. Os argumentos que subjazem à querela entre a «filologia das palavras» e a «filologia das coisas» configuram uma outra controvérsia tipicamente alemã que mobilizará dois professores universitários e eminentes filólogos, novamente Gottfried Hermann de Leipzig e August Boeckh (1785-1867) de Berlim. O terceiro tipo de tensão deve-se a duas tendências complementares: a canonização e a historicização (Werner, 2006: 181-183).
Os indícios da crise do modelo filológico têm o cerne na tensão do segundo tipo opondo defensores da Wortphilologen e da Sachphilologen, pois o abandono desta última, concentrada no estudo de textos da antiguidade greco-romana que na Alemanha andava associada ao projeto da Bildung, tem como consequência uma
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modificação no objeto da filologia clássica, passando a incorporar disciplinas que se foram autonomizando gradualmente. Surgem as filologias das línguas vernáculas e das literaturas modernas cujo desenvolvimento está vinculado ao conceito de literatura nacional difundido pelo projeto ideológico do romantismo europeu. A cisão da filologia clássica analisa-se na constituição e institucionalização de dois domínios disciplinares diferentes: os estudos linguísticos e os estudos literários. O período de incipiência da linguística enquanto disciplina académica, situa-se na primeira metade do século XIX, quando Franz Bopp (1791-1867), além da publicação do seu livro Über das Conjugationssystem em 1816, inaugura o seu ensino ao ser nomeado como professor de literaturas orientais e linguística geral (Orientalische Literatur und allgemeine Sprachkunde) na Universidade de Berlim, em 1821. Emprega pela primeira vez o termo «linguística geral» (Allgemeine Sprachkunde ou Allegemeine Sprachwissenschaft) (Hal, 2012:37). Um outro linguista alemão contribui igualmente para a sedimentação da disciplina. Trata-se de Hans Georg Conon von der Gabelentz (1807-1874) que a partir de 1878 se dedica à docência, primeiro na Universidade de Leipzig, lecionando Línguas do Extremo Oriente (1890 a 1893), e depois na Universidade de Berlim onde lecionou Línguas da Ásia Oriental e Linguística Geral. A publicação do seu manual Die Sprachwissenschaft, em 1891, constitui um momento importante do processo de formação da disciplina. Foi igualmente coeditor da primeira revista científica exclusivamente consagrada à linguística geral, a Internationale Zeitschrift für Allegemeine Sprachwissenschaft, publicada entre 1884 e 191 (Elfferes, 2012:58). Sob o impulso dos ideais românticos, os filólogos e linguistas alemães alargavam o seu interesse pelo estudo comparado das línguas orientais e das línguas africanas. Ex oriente lux (Do oriente vem a luz) era o slogan que coroava aquilo a que se chamou «renascimento oriental» (Karstens, 2012:108). De resto, o título do livro de Friedrich Schlegel vem comprová-lo. Relativamente a África, a história da classificação das línguas das várias regiões do continente regista os importantes contributos de linguistas alemães, como veremos no capítulo que aborda a história dos Estudos Africanos. A criação do Instituto das Línguas Orientais em 1887, bem como a publicação de revistas científicas, Zeitschrift für Africanische Sprachen e Zeitschrift für Africanische und Ozeanische Sprachen confirmam a existência de uma comunidade de linguistas especializados. Estas revistas contavam com a colaboração de um eminente linguista africanista como Carl Meinhof (1857-1944)
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que firma o seu prestígio académico quando publica um importante estudo sobre a descrição da fonética das línguas bantu a que se seguiu, em 1905, a atribuição do lugar de professor no Instituto das Línguas Orientais de Berlim. Sucede-se uma outra geração de linguistas africanistas alemães representada por Diedrich Westermann (1875-1956). Este notabiliza-se em 1911 com a publicação do livro Die Sudansprachen (As Línguas do Sudão), tendo sido titular da primeira cátedra de línguas africanas na Universidade de Hamburgo em 1919 e na Universidade de Berlim em 1925.
A influência da filologia clássica alemã chegou à vizinha França, tendo o seu sucesso decorrido entre 1830 e 1870 (Werner,1990:20). As condições para a institucionalização da filologia em França consideram-se reunidas em 1860. Ao facto estão associados os nomes de Gaston Paris (1839-1903) que estudou alemão na Universidade de Bona de 1856 a 1858, e Paul Meyer (1840-1917) que se interessava pelos estudos dos romanistas alemães. Criam a revista Romania, em 1872, inspirada no modelo da Germania, publicada desde 1856 na Alemanha. Ambos desenvolvem atividades académicas, respetivamente, como professores na Escola Prática de Altos Estudos e no Collège de France, contribuindo deste modo para a consagração da filologia (op.cit.:14-175).
Passados cerca de três décadas de apogeu, entre 1870 e 1900, desenhavam- se nas primeiras décadas do século XX os contornos do declínio e da morte definitiva do paradigma filológico que se concretizará por força da ação de dois linguistas, o suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913) na Europa e o norte- americano Leonard Bloomfield (1887-1949). O primeiro com o seu Cours de Linguistique Générale publicado a título póstumo em 191639.O segundo pela
responsabilidade que tem na difusão das teorias de Saussure nos Estados Unidos da América. Estes dois autores deram um contributo relevante ao desenvolvimento e autonomização da ciência linguística. No domínio dos estudos literários, a filologia foi abalada pela intervenção de vários autores e por todas as correntes teóricas que emergiram nas primeiras três décadas do século XX. Destacam-se o formalismo russo, o estruturalismo checo e o new criticism norte-americano que não deixam de fazer apelo às relações interdisciplinares dos estudos literários com outras disciplinas humanísticas.
39Ferdinand de Saussure, Curso de Linguística Geral, trad.José Victor Adragão, Lisboa, Publicações
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