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As décadas de 1960/70, período de grandes questionamentos e também de lutas por mudanças político-sociais, foi o momento histórico do surgimento e expansão em diversos países dos chamados novos movimentos sociais, como o ambientalista, o movimento gay, o movimento negro e o movimento feminista.

Segundo Carlos Brandão (2002, p.231), esses movimentos se diferenciam dos velhos movimentos porque

[...] realizam um afastamento diferenciado dos dois eixos políticos dominantes: a política liberal capitalista do Ocidente e a política estalinista do Oriente , ao mesmo tempo em que ampliam o valor político da militância, ao anexarem à sua dimensão objetiva uma outra, subjetiva . O sujeito individual se afirma como um ator de novos deveres e um sujeito de velhos e novos direitos humanos. [Além de favorecerem] as associações e os processos de ação regidos por uma ética da solidariedade espontânea e por uma lógica de múltipla vontade política.

O autor acrescenta, ainda, que esses movimentos recentes fundaram pouco a pouco uma teia de alternativas de inserção de pessoas, de abertura à participação e de redefinição de identidades sociais dificilmente encontráveis em outros campos de comunicações intersubjetivas e de práticas sociais (ibidem, p. 237).

Nesse sentido, como mencionado, o movimento feminista contribuiu, de modo vigoroso, para a redefinição da identidade social e pessoal das mulheres e, através do questionamento das relações vigentes entre mulheres e homens nos espaços privado e público e da sua luta por igualdade, provocou, de acordo com Luis Méndez (1998), uma modificação tão radical do lugar assinalado para a mulher na sociedade que, de modo complementar, levou os sujeitos masculinos a questionarem também o seu próprio lugar no mundo, ante as mulheres, ante os outros homens e ante eles mesmos.

29 A respeito da produção sobre homens e masculinidades, ver Daniel Welzer-Lang (2004), Luis Méndez

47 Assim, nesse contexto de inquietações, foi desenvolvida, ainda na década de 1970, uma série de atividades organizadas por homens nos países anglo-americanos30 e depois nos escandinavos, colocando a masculinidade31 como o tema principal de suas lutas e reivindicações. Nos anos seguintes, grupos e movimentos de homens começaram a surgir em outros lugares como França, Alemanha, Espanha, Portugal e países da América Latina, incluindo o Brasil, onde, a partir da segunda metade da década de 1990, a discussão em torno de homens e masculinidade começou a se firmar.

Luís Méndez (1998) refere que as ações dos diversos movimentos de homens existentes têm se tornado conhecidas, nos últimos anos, através de sua divulgação nos meios de comunicação e de publicações sobre o tema (tanto literatura de auto-ajuda quanto acadêmica). No entanto, tem sido a Internet o veículo de sua difusão de modo global. Assim, numerosos países hoje contam com algum tipo de atividade organizada pelos diferentes movimentos.

Apesar de constituídos sob perspectivas diversas, os movimentos de homens apresentam um traço comum: nenhum deles considera a masculinidade como algo garantido e natural, mas sim, algo a transformar ou conservar, algo que se há de defender ou pelo que se deve lutar [tradução minha] (MÉNDEZ, 1998, p. 2-3).

Devido à diversidade encontrada nesse campo, alguns autores têm buscado classificar os movimentos de homens de acordo com suas diversas abordagens e concepções a respeito das masculinidades e sua posição diante do movimento feminista. Além disso, parece não haver ainda um consenso de que existe apenas um movimento com diferentes ramificações (FONSECA, 1998) ou vários movimentos (MÉNDEZ, 1998; HERNANDEZ, 1996). Minha posição é de que, devido às diferenças de objetivos e posicionamentos frente ao feminismo (como exposto a seguir), é mais adequado falar em movimentos, no plural.

30 A origem dos men s groups ocorreu na Inglaterra, onde, nos anos setenta, um grupo de homens ligados

ao feminismo decidiu se reunir para pôr fim à violência contra as mulheres, desenvolvendo um trabalho similar ao das terapias de grupo.

31 Ana Fonseca (1998) registra que, até a década de 1980, falava-se apenas de masculinidade como uma

só, ignorando-se a diversidade nela existente. Hoje se fala em masculinidades, no plural, pois se compreende que há variadas maneiras de ser homem como também de ser mulher.

48 1.4.1 O movimento mitopoético

O movimento mitopoético, fundado pelo poeta americano Robert Bly, nos Estados Unidos, baseia-se na psicanálise e, desse modo, a masculinidade é concebida como fundamentada em profundos padrões inconscientes e arquétipos que são revelados mediante mitos, rituais de iniciação masculina e histórias com as quais se busca reencontrar a energia masculina . Sendo assim, não é uma corrente abertamente política, porém mais terapêutica, de crescimento pessoal, sendo majoritário em ambientes não acadêmicos. De acordo com Alfonso Hernández (1996), alguns participantes falam de uma nova masculinidade na qual se busca o profundo masculino , ou seja, o homem que é firme, mas não duro, que aceita suas emoções, sentimentos e sofrimentos, que descobre a emotividade que possui, mas não mostra, por não corresponder ao modelo masculino predominante.

No entanto, há um aspecto sobre o movimento que precisa ser considerado: a sua posição ante as políticas afirmativas nos Estados Unidos. De acordo com alguns dos colaboradores de Robert Bly no movimento, o americano branco e heterossexual sente- se discriminado em relação aos homens negros, aos homossexuais e às mulheres, devido à política americana de discriminação positiva que favorece esses outros grupos. Essas críticas resultam em campanhas (organizadas por homens brancos) de repúdio a qualquer tipo de resolução relativa à ação afirmativa do Congresso Americano (FONSECA, 1998).

1.4.2 O movimento das terapias da masculinidade

A atenção dos integrantes desse movimento está focada no isolamento e no sofrimento experimentados pelos garotos e pelos homens, através de sua socialização na virilidade. Por isso defendem que a vida dos homens é alienante, insana e empobrecedora e que estão feridos pelo papel sexual masculino, ou seja, os homens sentem-se oprimidos pelas cobranças que lhes são feitas para que correspondam ao modelo de masculinidade tradicional (forte, viril, destemida etc).

49 A principal forma de ação desse movimento são os grupos de auto-ajuda, nos quais seus participantes recebem apoio na reconstrução ou redefinição de sua identidade masculina ferida pelas mudanças sociais e femininas. Seu trabalho está centrado na abordagem e na diminuição dos prejuízos do papel masculino (MÉNDEZ, 1998). Outras formas de ação são a terapia e o aconselhamento e também ações públicas relacionadas a temas como a saúde dos homens e a violência.

1.4.3 O movimento dos direitos dos homens: men s rights

Esse movimento começou a constituir-se no final dos anos 1980, quando alguns homens começaram a considerar que estavam aumentando as situações sociais favoráveis às mulheres, mas contrárias aos homens, como se aposentar mais tarde do que elas e não ser beneficiários de ações afirmativas.

Alguns homens, dentro do Movimento de Direitos dos Homens, costumam atacar a existência de serviços específicos para as mulheres, como os de saúde ou centros de acolhida de mulheres vítimas de violência. Atacam também os governos federais e os lobbies estatais, além de desafiar os meios de comunicação que, para eles, estão dominados pelo feminismo.

De acordo com Luís Méndez (1998), dentro do movimento, o grupo que mais tem se destacado na atualidade é o do direito dos pais. Seus participantes afirmam que são discriminados durante os processos de divórcio e de guarda de filhos por causa da sua condição de homens. Por isso protestam contra os obstáculos legais ao exercício de sua paternidade por considerarem que as leis de família são mais favoráveis às mães. Nesse sentido, dentre as ações desenvolvidas no movimento, estão incluídas a assistência judicial e os grupos de apoio a homens em trâmites sobre custódia.

Apesar da posição firmemente antifeminista de alguns grupos ligados ao Movimento dos Direitos dos homens, há também outros que são defensores de direitos igualitários. Eles não buscam se confrontar com as mulheres. Sua ação está voltada apenas a chamar mais atenção para seus direitos a um serviço de saúde voltado para os homens ou a organização de protestos contra a obrigatoriedade do serviço militar masculino, por exemplo.

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1.4.4 Movimento dos homens igualitários/movimento antissexista ou pró-feminista

Esse movimento, favorável à luta das mulheres, surgiu no princípio da década de 1970, nos países anglo-saxônicos e escandinavos, associado aos movimentos em defesa dos direitos humanos. Luís Méndez (1998) afirma que seu objetivo principal é a produção de mudanças nos homens para a igualdade e para modelos masculinos pacíficos e antissexistas. Assim, desde o início do movimento, destacam-se atividades centradas na geração de estratégias de combate à violência contra as mulheres e de ações educativo-assistenciais para a mudança da masculinidade violenta.

O Movimento de Homens Igualitários apóia também as políticas anti-racistas e o pró-direito de pessoas homossexuais. E, habitualmente, desenvolve seu trabalho em colaboração com as feministas e com os serviços para a mulher, como casas de acolhimento para mulheres vítimas de agressão. Propõe também o ativismo social, a investigação acadêmica e a formação de grupos de reflexão de homens para desconstruir o modelo de masculinidade tradicional, romper com o sexismo e praticar a igualdade com as mulheres. (MÉNDEZ, ibidem)

A violência causada pelos homens tem sido um dos focos de ação mais importantes do movimento. Nesse sentido, foram organizados grupos contra a agressão sexual em muitos países e terapias para homens que praticaram violência. O movimento também é responsável por promover mundialmente a Campanha do Laço Branco, de combate à violência contra as mulheres, que hoje está presente em mais de trinta países. No Brasil, essa campanha é a principal ação da Rede de Homens pela Eqüidade de Gênero (RHEG)32. Além dessa preocupação com a violência de gênero, os grupos da Espanha e da América Latina centram sua luta também nos problemas da sexualidade e da saúde reprodutiva.

No âmbito educativo, alguns grupos têm se preocupado em trabalhar no desenvolvimento de currículos igualitários de gênero nas escolas, buscando contribuir para o fortalecimento da luta a favor da construção de uma sociedade igualitária.

32 O comitê gestor nacional da RHEG é formado por algumas organizações da sociedade civil, como o

Instituto Papai, o Instituto PROMUNDO, o Instituto NOOS de Pesquisas Sistemáticas e Desenvolvimento de Redes Sociais, a ECOS - Comunicação em Sexualidade, o Centro de Educação para Saúde (CES), o Pró-mulher, Família e Cidadania e a Rede Acreana de Mulheres e Homens.

51 No entanto, para que se torne possível a construção dessa educação escolar, capaz de contribuir para a eqüidade de gênero, é imprescindível entender como as relações de gênero são construídas e como se manifestam no cotidiano das escolas e suas implicações na trajetória escolar de alunos e alunas.