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Embora, nas últimas décadas, tenham ocorrido profundas transformações nas relações de gênero, principalmente a partir das mobilizações dos movimentos sociais da segunda metade do Século XX, especialmente do movimento feminista, e que, em conseqüência, as fronteiras de gênero e de sexualidade sejam, na atualidade, muitas vezes borradas, atravessadas e subvertidas (LOURO, 2000), os relatos dos alunos revelam a permanência e a atualização de modelos tradicionais do feminino e do masculino. Esses modelos apresentam lugares claramente definidos para homens e

79 mulheres, indicando a subsistência, ainda hoje, dos paradigmas naturalistas e da racionalidade científica, desenvolvidos no Século XIX que, de acordo com Eleta Freire (2002), preconizam naturezas distintas, papéis, funções e espaços de atuação para homens e mulheres, cabendo aos primeiros a esfera da produção e o espaço público, enquanto às mulheres, a esfera da reprodução e o espaço privado.

De acordo com Guacira Louro,

A demarcação de fronteiras tem importantes efeitos simbólicos, sociais e materiais. É preciso demarcar o lugar do outro simbolicamente, indicando o que significa estar lá; social e materialmente, excluindo e separando o sujeito que o ocupa. (LOURO, 2000, p. 70).

Em relação a essa assertiva, as memórias dos alunos apresentam a demarcação de fronteiras entre o feminino e o masculino, desde os jogos e as brincadeiras de infância, passando pela divisão sexual do trabalho no lar, até o cotidiano da escola. No entanto, para os fins deste trabalho, aqui serão analisadas as falas referentes a este último aspecto. Os demais apenas serão tratados quando estiverem, de algum modo, implicados com a vida escolar dos entrevistados.

Com base nas falas dos alunos, gostaria de destacar que, na escola, essas linhas divisórias entre os gêneros se manifestavam tanto de forma simbólica quanto física, sendo traçadas, algumas vezes, por professoras e/ou mães, e em outras, pelos próprios alunos.

A delimitação de lugares para o feminino e o masculino, por parte das professoras, é revelada quando surgem referências a procedimentos disciplinares utilizados na escola. Esses procedimentos consistiam na separação física dos alunos de acordo com o sexo, tanto na sala de aula, quanto em outros espaços, a exemplo do pátio do recreio, como atestam as memórias de Antônio sobre a escola na década de 1950 e as de Manoel sobre a sua vivência escolar durante os anos de 1990, respectivamente:

Aqui antigamente na sala de aula, a gente não podia conversar com ninguém não. Ficava os homem pra um lado e as mulher pro outro. Tá entendendo? [...] Separava pra não ficar se movimentando, né? [...] Pra não dar, pra não dar muito convercê . Pra não dar... pra não dar... pra não perder o estudo. Porque, a professora antigamente tinha ordem. Você é daqui, você senta aqui, aqui é você, aqui é você, aqui é você. O caba ia. Você senta desse lado, você senta desse. O caba tinha que atender a professora, tinha que fazer o que a professora quer. Ninguém conversava em sala de aula não. (ANTÔNIO)

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[...] Não era sala separada. Era em termos assim, na... em termos do intervalo, entendeu? Era sempre uma separação. Porque não dava

certo não, os homens com as meninas não. [...] Aqui [na escola

Recomeço] não tem esse muro? Aí era as meninas de um lado e os homens do outro, entendeu? [...] Porque é como eu tô dizendo, que muitas vezes as mães delas não queriam que a gente chegasse junto delas, já por conta do comportamento da gente, entendeu? [...] (MANOEL, grifo meu)

A partir das falas de Antônio e de Manoel, gostaria de destacar que a distribuição dos indivíduos no espaço, primeiro passo na disciplinarização, consiste em individualizar os corpos por uma localização, como, por exemplo, na separação dos alunos por sexo. Segundo Michel Foucault (2006, p. 123), lugares determinados se definem para satisfazer não só à necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil .

Assim, a marcação de lugares específicos para cada aluno e cada aluna (especialmente na fala de Antônio) permitia à professora uma vigilância mais geral e, ao mesmo tempo, mais individual, favorecendo, por exemplo, a percepção de focos de indisciplina . Isso constitui o que o Michel Foucault (2006) denomina de princípio da localização imediata ou do quadriculamento, que permite uma coerção sem folga, visando não apenas aumentar as habilidades ou à sujeição do educando, mas formar uma relação obediência/utilidade.

No caso, o foco de indisciplina , segundo Manoel, estava localizado nos meninos. Por isso as próprias mães solicitaram às professoras que não permitissem que meninas e meninos ficassem juntos durante o intervalo. Inclusive, Manoel parece concordar com esse procedimento, quando diz que [...] não dava certo não, os homens com as meninas não .

Antônio, por sua vez, embora não explicite quem era indisciplinado, justifica a separação dos meninos e das meninas pela necessidade de evitar a movimentação na sala e o convercê , pois isso perturbaria o andamento da aula. Assim, igualmente para a sua professora, fazia-se necessário delimitar fisicamente os lugares para garotas e garotos.

A partir do que Manoel coloca sobre a indisciplina dos meninos, destaco, aqui, a percepção dos alunos sobre a participação feminina e masculina na escola, tanto na sua vida escolar passada quanto na presente. Sete dos dez entrevistados parecem delimitar simbolicamente um lugar distinto para alunos e alunas: elas são freqüentemente associadas ao que chamarei de lugar do estudo , e os alunos, por sua vez, com o lugar

81 da bagunça , corroborando resultados encontrados por Marília Carvalho (2001; 2004), como expressam estes discursos:

As mulheres, elas procuram estudar mais, né? Já os homens, não. Os homens gostam de tá na... as vezes... poucas pessoas, não digo no geral, gosta de tá mais conversando, essas coisas. Mas as mulheres são mais da área dos estudos mesmo. (DAVI)

[...] porque mulher é sempre mais organizada um pouco. É mas ali, gosta mais de estudar. Tá sempre fazendo as tarefas, mais atenciosa com os deveres, tudo. E aí tem mais chance de passar. Já os homens não. Conversa muito, fica conversando, fica de bobeira, não presta atenção nas coisas. (FLÁVIO)

As mulheres ficam mais no canto delas, estudando, querendo aprender, né? Mas nós não, nós fica conversando uma coisa, falando sobre algum negócio, outros assuntos. (GERALDO)

Em um momento da entrevista, quando foi questionado sobre como pensava que deveria ser a maneira de um homem se comportar na escola, Geraldo responde: [...] ser igual a das mulheres, né? Mais comportados . Ou seja, para esse aluno, ficar comportado não é, a princípio, uma característica masculina, mas sim, feminina.

Essa resposta de Geraldo também indica que, embora ele considere o lugar do estudo como feminino, não exclui a possibilidade de os homens também ocupá-lo. Esse aspecto é bastante revelador, se for considerado que, na cultura do grupo social dos alunos, parece predominar o reforço a uma visão dicotômica das relações de gênero. Mas, ao cogitar a possibilidade dessa transgressão , Geraldo desvela outras maneiras de homens (e também mulheres) vivenciarem essas relações, posto que a masculinidade e a feminilidade não são essências naturais , são relacionais, plurais e mutáveis.

Além disso, os meninos e rapazes são apresentados em algumas falas como alunos mais rebeldes, que desafiam a professora por mera pirraça :

[...] Eles gostam de conversar. Assim, não tem um momento certo pra eles parar não. Eu acho até uma coisa: Quando a professora já não tá nem aí, não tá dando bola mais, aí eles param, aí vai fazer o exercício. Mas quando a professora tá pedindo pra eles pararem, eles continuam. [...] Faz por pirraça mesmo. E eles gostam de irritar a professora. (FLÁVIO)

Os meninos não respeita ninguém. Não quer dar o respeito à professora. O que os professor fala, ainda... Não tem aquele, aquela atenção com o professor. Não tem atenção ao professor... Se o professor falasse, você temia mais do que fosse sua mãe. Hoje em dia não, o povo não... Quer irritar professora. Quer reclamar a professora... os alunos. E naquele tempo ninguém via isso. [...] Porque

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antigamente a gente não tinha essa intimidade que tem agora não. O caba chega na professora, fala com desrespeito, mesmo que a mãe da pessoa, né? [...] Antigamente o caba tinha respeito com a professora. [...] Você tem mais respeito com a professora como se fosse igual a sua mãe. Desse uma ordem era ordem mesmo. (ANTÔNIO)

Nas lembranças de Antônio, o cotidiano escolar de ontem e o de hoje são confrontados, ressaltando as mudanças operadas nas relações professora-alunos (as) nas últimas cinco décadas. Assim, percebe-se que, embora o relato pessoal seja carregado de subjetividade (como também pode ser subjetivo o documento escrito), ele é capaz de transmitir uma experiência coletiva, uma visão de mundo tornada possível em determinada configuração histórica e social , como destaca Verena Alberti (2006, p. 163).

Tendo vivenciado uma época em que os valores patriarcais estabeleciam relações autoritárias entre adultos e crianças (que, algumas vezes, chegavam a ser marcadas pela opressão e pela violência), Antônio fala de um período em que o respeito à autoridade da professora era algo inquestionável. Desse modo, o aluno parece estranhar o comportamento de alguns garotos que não reconhecem a autoridade docente, que ele iguala à de uma mãe.

Além disso, algumas falas procuram apresentar uma teoria para explicar as diferenças no comportamento de alunos e alunas. Então, apelam para uma suposta natureza distinta entre homens e mulheres, revelando, assim, a permanência, no senso comum, do paradigma naturalista, formulado no Século XIX.

[...] Mas a maioria entre 100% e 98% das mulheres gostam de estudar mesmo. Acho que é já, né, é natureza mesmo né? É mais estudiosa do que o homem. (FLÁVIO, grifo meu)

[...] Acho que os meninos são mais danados. Gosta mais da bagunça. Tem uns ali na classe que ali... Meu Deus do céu! Dá dor de cabeça. Se eu ficar ali meia horinha ali... Falando direto ali, chega dói na cabeça. Eles são muito bagunceiros. Em vez de vir aqui estudar, não. Vem mais pra bagunçar mesmo. [...] Acho que é o instinto mesmo da

bagunça. Porque gosta. Mas não vê que futuramente vai ter um pouco

de má sorte [risos]. (FLÁVIO, grifo meu)

De acordo com Eleta Freire (2002), o paradigma naturalista postula que as diferenças de comportamento entre os sexos seriam determinadas biologicamente e que homens e mulheres possuiriam uma natureza própria. Assim, para Flávio e também para outros alunos, o natural é que, na escola, as meninas sejam estudiosas, e os meninos

83 baguncem, pois estariam agindo de acordo com a natureza ou o instinto que lhes são próprios.

Assim, cabe questionar se essas expectativas sobre a conduta escolar dos alunos e das alunas não estariam colaborando para que esses comportamentos sejam continuamente reproduzidos. Se o lugar do estudo é feminino, por natureza , como os garotos irão se identificar com ele?

Todavia, os estudos de gênero têm mostrado que não há comportamentos rígida e exclusivamente femininos ou masculinos, posto que o gênero é uma construção social, cultural e histórica. Assim, embora minoritárias, há outras falas que revelam a existência de meninas que bagunçam:

[...] Tem, tem muita mulher rebelde também. Assim ignorante. Tem homem também, né? Tem as duas partes, né? (ANTÔNIO)

Olha, não é todas, mas tem umas meninas também que é muito danadinhas. Tem umas que vem pra estudar e tem outras que não vem. Tem umas que vem pra bagunçar. É querer chamar a atenção dos homens. Querer chamar a atenção de outras colegas mesmo. (ANDRÉ)

Do mesmo modo, durante as observações, embora reconheça que os episódios de indisciplina tenham sido mais freqüentes e, por vezes, mais sérios entre os garotos, deparei-me também com garotas que conversavam em voz alta durante a aula, que colavam nas provas, que desrespeitavam as professoras e que tinham atritos com as (os) colegas. No entanto, entre os alunos, predomina a percepção de que o lugar da bagunça na escola é um lugar do masculino.

Marília Carvalho (2001, p. 571), ao comentar uma pesquisa sobre o comportamento de crianças de ambos os sexos, destaca que um dos motivos pelos quais a bagunça das meninas parece invisível é que a sua indisciplina se apresenta de modo diferente da dos meninos, estando mais ligada à conversa e a ações discretas e, por isso, pouco percebidas.

Acredito que outra explicação para os relatos associarem com maior freqüência as garotas com o estudo e os garotos com a bagunça esteja relacionada com a imagem que ainda existe no senso comum sobre o que seja um bom aluno (FERNÁNDEZ, 2001). Para muitos pais e mães, alunos (as) e até mesmo professores (as), o bom aluno é obediente, organizado, disciplinado, dedicado, características que, na nossa cultura, estão mais ligadas ao universo feminino. Talvez por isso os entrevistados

84 entendam esse lugar como sendo das garotas/mulheres. Esse aspecto também é destacado por Marília Carvalho (2001), numa pesquisa sobre os critérios de avaliação escolar de professoras. Segundo a autora, a imagem de bom aluno estaria mais ligada às meninas (na sua pesquisa, às brancas e orientais) e a certo perfil de feminilidade.

Gostaria, ainda, de destacar uma frase de André sobre as garotas que, segundo ele, não se comportam como o esperado socialmente. Ele inclui entre as bagunças das alunas o fato de algumas delas querer[em] chamar a atenção dos homens (ANDRÉ). Ou seja, as expressões da sexualidade feminina, na escola, são vistas como um comportamento inadequado. Eleta Freire (2002), em pesquisa sobre as representações sociais de gênero de professoras, discute esse preconceito, ao abordar o estranhamento que as manifestações de sexualidade apresentadas pelas meninas na escola causavam nas docentes que ela pesquisou. Para as professoras, essas manifestações, além de ser algo que desvalorizava a mulher, eram o que provocava e justificava o comportamento agressivo dos homens.

Portanto, é interessante destacar que, durante as observações, percebi que, embora os rapazes também expressem sua sexualidade na escola, chegando, algumas vezes, a ser desrespeitosos com as colegas, em momento algum, esse comportamento masculino foi apontado como inadequado. Na verdade, não foi sequer citado em qualquer das entrevistas, pois aquilo que se considera normal é tornado, de algum modo, invisível. O que foge à norma, diferenciando-se do padrão esperado, é o que se destaca (LOURO, 2000).

Além disso, durante a observação, identifiquei, nas escolas, alunos bem- comportados e estudiosos. Isso também aparece em algumas falas que destacam a diversidade de modos de conduta dos homens na escola:

[...] É, vai depender, assim, de cada pessoa, entendeu? Porque... Não de uma forma geral, entendeu? Porque de todos aí, tem uns que querem estudar, tem outros que querem não. Só vem pro colégio mesmo só por vir mesmo. Tem outros que vem pro colégio porque quer estudar e tem outros porque não querem nada com nada. (JEREMIAS)

Importa enfatizar que, em diversas aulas, tanto na Escola Recomeço quanto na Escola Esperança, percebi que os alunos costumavam ser mais participativos e questionadores no momento da exposição dos conteúdos do que as alunas. O mesmo se dava durante as aulas no laboratório de informática da segunda escola supracitada, pois eram eles os que apresentavam melhor desenvoltura nas atividades, talvez justificada

85 pela maior familiaridade com o equipamento, pois, algumas vezes, escutei conversas entre os rapazes sobre o hábito de freqüentar lan-houses, seja para jogar ou participar de sites de relacionamento.

Outros alunos, ao falarem sobre o seu próprio comportamento na escola, também evidenciam que não há uma única maneira de ser homem na escola. Há os que bagunçam, os que estudam e são comportados e alguns que conseguem manter certo equilíbrio entre o estudo e a bagunça.

[...] Eu gosto de brincar, mas não de tá em turminhas pra tá bagunçando, pra tá com gritaria, essas coisas. Eu gosto de tá na minha brincadeira. Mas, na minha, com minha turminha, só. Mas nada de tá popular demais, sabe? (DAVI)

[...] Eu gazeava aula pra jogar futebol do lado do colégio. [...] Eu era um aluno normal. [...] Eu bagunçava até o meu tanto e sabia ficar quieto também quando queria. (JOSÉ)

Isso significa que há uma diversidade de modos de ser homem, sendo impossível considerar a masculinidade no singular, mas apenas no plural, pois os indivíduos constroem versões distintas de masculinidade para além de uma definição hegemônica. Isso possibilita perceber diferentes arranjos e formas de convívio (VALDÉS; OLAVARRÍA, 1997).

Sobre isso, gostaria de destacar, como Davi, que pude observar, na sala de aula, como um aluno participativo e estudioso, mas, ao mesmo tempo, brincalhão e participante da bagunça durante as aulas, descreve seu comportamento: [...] Eu gosto de brincar [...]. Mas, na minha, com minha turminha, só. Mas nada de tá popular

demais, sabe? (DAVI, grifo meu). Davi reconhece que apesar de brincar com sua

turminha , há uma masculinidade mais popular entre seus colegas, na qual a bagunça é mais acentuada. Ele se coloca numa espécie de posição intermediária, não é

quietinho , mas também não é popular demais .

Marília Carvalho (2001, p. 567), ao tratar de garotos que conseguiam equilibrar um bom desempenho escolar com o modelo de masculinidade hegemônico da escola na qual realizava a pesquisa, destaca que esses meninos haviam aprendido a como desempenhar

[...] uma versão bem-sucedida de masculinidade dentro da sala de aula, ganhando assim tanto o reconhecimento de seus professores quanto o respeito de seus colegas. São garotos que desenvolvem a habilidade de equilibrar-se entre o mundo do pátio de recreio e da

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cultura dos meninos e o mundo da sala de aula, descobrindo ou inventando uma posição masculina bem-sucedida em meio a essa tensão.

Há, no entanto, outro aspecto sobre a observação do comportamento dos rapazes e dos homens na escola que considero importante colocar em relevo: quando havia episódios de indisciplina envolvendo alunos do sexo masculino, eles eram mais freqüentes entre os mais jovens do que entre os adultos. Nesse sentido, as entrevistas trazem igualmente algumas pistas sobre a relação dos alunos com a escola nas diversas fases da vida.