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4.4 Processes and Sub-Processes

4.4.3 Structural Verification and Optimization

O adepto, antes e depois de entrar para a doutrina, toma conhecimento de que necessita de participar de alguns rituais para sentir alívios de suas dificuldades. Naturalmente, antes de estar inserido na instituição, ele apenas poderia interagir nos rituais enquanto paciente, mas sendo adepto, há duas maneiras: participando das performances ou também, quando necessário, recebendo tratamento de alguma enfermidade espiritual. As vítimas de males espirituais são atendidas, primeiramente, no ritual de tronos para tomarem conhecimento dos outros dos quais podem necessitar atendimento, tais como, cura, junção, indução, linha de passe, defumação, randy, estrela sublimação, Estrela Candente e linha de passe da Vovó Marilu. Os médiuns podem participar da realização de todos estes rituais e ainda dos de abatá, Imantração, Unificação, Turigano e muitos outros nas mais diversas disposições. Estes, por si já são muito eficazes, tendo a função de atuar contra espíritos desobsessores de uma maneira direta e regular, através de rituais cênicos ou meramente convencionais e padronizados.

No entanto, muitos adeptos não encontram seus alívios nestes ritos tão formalizados, tendo que participar de outros mais impremeditados, que exigem certa dose de improviso. Um destes é o Angical. Há certos espíritos que apenas se submetem ao diálogo. Entidades que tiveram conflitos com o adepto em outras vidas, não se acalmam e não são elevados para os hospitais transitórios, enquanto não se retratam com seus antigos inimigos. Estas conversas ocorrem no Angical.

Na prática, o ritual de Angical acontece na segunda-feira mais próxima do dia 12 de cada mês e começa entre as 21:30 e 22:00 horas, podendo terminar aproximadamente

74 entre os horários de 00:00 e 01:00 hora. Na realidade, o doutrinador irá conversar com um espírito com o qual se envolveu em uma contenda em outras vidas, mas também poderá ter que lidar com espíritos que não necessariamente conheceu neste período, embora se mantenha próximo do médium, provocando dificuldades. Nestes dias, o templo não possui um lugar determinado para o ritual, estando quase todo liberado. Os adeptos se sentam onde podem em duplas, muitas vezes previamente estabelecidas, podendo conversarem sozinhas ou atendendo outro adepto. A incorporação começa depois que o comandante abre o trabalho. Neste momento, o médium de incorporação incorpora o Preto Velho e, inesperadamente, costuma vir a do cobrador, que conversará com o médium de doutrina.

4.1.1. Algumas breves impressões de integrantes sobre o Angical

Há muitas histórias que rondam o Angical, tantas quantas são os adeptos. Devido ao espaço reduzido que temos aqui, não poderemos explorá-las tanto. Porém, vou poder passear um pouquinho, para então mostrar um atendimento.

Nestes dias de Angical, os adeptos possuem duas preocupações básicas: primeiramente procuram conseguir bônus, obtidos pelas práticas dos rituais, para que a libertação seja possível, além do mais, procuram se precaver de algum acontecimento inesperado. Marielsi Gabarra, disse que muitas vezes seu filho já caiu em febre quando ela se preparava para sair para o ritual. Por isso, alguns fiéis nem gostam de marcar compromisso antecipadamente para este ritual.

Conversei com três mulheres que nunca participaram de um Angical, por opção. Cada qual por um motivo. Regina, 26 anos, da falange de Agulha Ismênia, doutrinadora, disse que teme ser ludibriada pelo espírito e não alcançar sua libertação. Leonor, 32 anos, doutrinadora, da falange das Mayas, disse que jamais vai participar de um Angical, porque acha que vai se impressionar com a história por vários dias. Disse que sua amiga tinha participado de um Angical e, no momento que o cobrador incorporou, ele deu uma risada tão assustadora que ela sentiu vontade de ir embora, mas teve que se controlar e doutrinar o espírito até o fim. Sua irmã, Teresa, 34 anos, disse que não queria saber o que ela tinha feito

75 no passado, por isso não participava destes ritos. Além do mais, ela não colocava crédito em algumas histórias de Angical que ouvia. Disse que todo mundo aqui no Vale do Amanhecer tinha sido rei ou rainha no passado. Falou que se cansou de ouvir um mestre falar em alta voz no ônibus, na terça da manhã seguinte ao Angical, dizer que tinha sido César, o imperador romano, em outra vida. “Por que ele não podia ser um escravo? Quantos reis o mundo teve? Logo César?”

Marcos Antônio contou-me que o templo fica repleto de médiuns trabalhando por todos os lugares nos dias de Angical: com poucas exceções, como o espaço da mesa evangélica, a cura, a junção, a indução e o castelo do silêncio, todos os demais são tomados por mestres sentados, sendo atendidos por espíritos incorporados. Nestes dias, conforme pude observar, o templo fica completamente distinto do quotidiano, onde os bancos que circundam os corredores, os demais disponíveis, os tronos vermelhos e amarelos ficam dispostos de outra maneira. Há diversas entidades conversando, Pretos Velhos ou espíritos cobradores, alguns calmos e outros gesticulando muito, demonstrando hostilidade, em um misto de amenidade e perigo. Por isso, Marcos Antônio não fica muito à vontade dentro do templo, afinal, sempre achava que um espírito iria chamá-lo para uma conversa. Ademais, Bálsamo Azevedo, antigo integrante da doutrina, falecido em Julho de 2007, disse-lhe que se deve andar com certa cautela no templo nestes dias, pois há muitas forças envolvidas. Esta paisagem lembra-nos muito o caminho da montanha repleta de espíritos e de perigos descrito por Taussig (1997).