Apesar de os médiuns não deixarem de participar da doutrina, a grande maioria se mostra insatisfeita com os acontecimentos recentes na ordem de sucessão do Vale do Amanhecer. Tentei apresentar aqui apenas um breve esboço que considera a legitimidade de poder na instituição.
No entanto, devemos compreender a quem de fato os adeptos se submetem. A fim de resolverem seus problemas, os médiuns não consultam o Trino Triada Presidente, que apenas toma decisões administrativas. Entretanto, se pensarmos que o gra nde interesse dos
31 rituais é o de transformar a condição emocional de cada um, que cada médium possui uma mediunidade que precisa ser manipulada nos rituais e que a comunicação de um Preto Velho irá explicar e ajudar a modificar a condição emocional do paciente ou do médium, então, chegamos à conclusão de que o Trino e sua sorte pouco afetam o médium diretamente. Deste modo, o Trino pode até mesmo procurar conciliações em caso de atritos ou agir com persuasão, mas ele não expressará domínio sobre o grupo. Situação semelhante é relatada na sociedade Ndembu, quando Turner se refere sobre a função do chefe (Turner, 1996: 79). Além do mais, o Preto Velho é quem explicará quais os rituais o médium deverá realizar, e como ele deve agir no dia a dia. Como Taussig (1997) já chamava atenção, o êxtase possui um poder de submissão e uma capacidade de exercer influência. Aqui, não pelo terror desempenhado pelos espíritos, mas pela credibilidade da comunicação da entidade.
Além do mais, devemos levar em conta mais dois aspectos básicos que podem justificar a motivação dos adeptos em vincularem-se mais aos rituais do Vale do Amanhecer do que aos Trinos. A primeira questão talvez seja esclarecida, se levarmos em consideração as qualidades de Tia Neiva na origem da doutrina do Vale do Amanhecer. A sua clarividência e seus poderes mediúnicos permitia-lhe realizar atendimentos específicos a cada paciente. Isto significava que ela englobava dois aspectos sociológicos de grande importância. Primeiramente, podemos afirmar que Tia Neiva possuía aquilo que Bailey dizia ser algo mágico, que era seu carisma, grande atrativo sobre as pessoas (Bailey: 1998). Afinal, ela era capaz de solucionar problemas de médiuns e de clientes. Além do mais, podia dar explicações personalizadas. Devido à sua clarividência, ela falava sobre situações de outras vidas para poder explicar as dificuldades atuais para, em seguida, encaminhar pacientes ou adeptos para os rituais adequados. Isto está de acordo com o que Bailey falou sobre Gandhi, ao explicar o motivo do seu poder de coerção à massa indiana. Segundo o autor, Gandhi seria como uma peça de colcha de retalhos, capaz de atrair diferentes interesses de diferentes grupos. No entanto, com a morte da Tia Neiva, deixou de haver um líder carismático como ela. Mas os Pretos Velhos já vinham exercendo papel semelhante desde antes da sua morte. Além do mais, estas entidades espirituais são inúmeras, variando de acordo com o quantitativo de médiuns de incorporação existentes. Eles agora substituem o líder carismático, orientam médiuns ou pacientes e os conduzem aos rituais adequados. Isto implica dizer que: as comunicações particulares que ocorriam à época da Tia, agora são realizadas pelos Pretos Velhos. Além do mais, como as soluções dos problemas dos pacientes ou dos adeptos serão encontradas também na participação dos ritos, isto implica
32 dizer que eles devem se manter institucionalizados para a obtenção da cura. Deste modo, não há motivo ou motivação para adeptos ou pacientes terem contatos, ou se preocuparem muito com a sorte dos Trinos, afinal, os ritos, em geral, são realizados com grande autonomia em relação a eles.
Outro assunto que deve ser colocado é sobre a legitimidade do poder de Michel Hanna, o 1º Mestre Sol Trino Sumanã, e o de Raul Zelaya, 1º Trino Herdeiro Ypoarã.
Quando Michel Hanna assumiu, ele destituiu de seus cargos, os quais estavam em postos vitalícios escolhidos pela própria Tia Neiva. Esta situação gerou um fato inusitado: após suas mudanças os afastados passaram a odiá-lo e os que não tinham oportunidades esperavam o momento correto para poderem realizar seus comandos. Além do mais, os médiuns que não tinham um posicionamento político na doutrina, entendiam que Hanna era o escolhido pela Tia Neiva e poderia realizar suas escolhas.
Em meio à insatisfação criada pelos afastamentos dos médiuns que já realizavam os mesmos rituais há mais de duas décadas, Raul Zelaya se sentiu com apoio necessário para tentar acumular o cargo de presidente da doutrina e o de Trino Presidente Triada. Assim, ele interditou o templo para pressionar a saída de Michel Hanna. Mas neste caso, provocou insatisfação entre a grande maioria dos médiuns. Afinal, em mais de trinta anos, o templo jamais havia sido fechado e, além do mais, Zelaya não tinha legitimidade para realizar tal função. No entanto, ele é filho da Tia Neiva, 1º Trino Herdeiro e Presidente da doutrina em registros civis. Tudo isto motivou Zelaya a tentar tomar a frente do templo.
Temos que pensar nestes dois fatos considerando o desrespeito de ambos a uma ordem tradicional. Os mestres que estão realizando certos rituais há mais de duas décadas e que, empossados pela Tia Neiva, foram retirados por Michel Hanna, e o Trino que foi colocado à frente da doutrina por leis estabelecidas pela clarividente, foi destituído por Raul Zelaya. Ou seja, foram vítimas de decisões que desconsideraram a tradição. Turner destacou que a comunidade Ndembu teve conflitos que estavam em torno de „normas, valores, crenças e sentimentos‟ que envolviam o parentesco (Turner, 1996: 90). No Vale, as questões estão associadas às mesmas condições, mas dentro das ordens tradicionais. Não nos esqueçamos que qualquer alteração do que havia sido determinado pela clarividente, pode ter repercussões espirituais e, por sua vez, na eficácia do s rituais. Este é um dos motivos de alguns mestres estarem insatisfeitos com tal disputa.
No entanto, Michel Hanna e Raul Zelaya utilizam argumentos para que possam receber apoio dos adeptos. O primeiro diz que ele foi colocado à frente da doutrina pela
33 clarividente. Já Raul diz que ele é o filho da clarividente e que Michel não estava respeitando as determinações de sua mãe. Seus argumentos estão de alguma forma relacionados à tradição.
Assim, podemos perceber que ambos, cada um por sua vez, apoiam ou desafiam o sistema tradicional ao qual o Vale do Amanhecer está alicerçado. Michel Hanna, por ter destituído os comandantes perpétuos e, Raul Zelaya, por ter desafiado uma decisão da clarividente. Deste modo, os adeptos aprovam um ou outro conforme os seus interesses pessoais (Turner, 1996), pois esta sustentação vai determinar, em linhas gerais, sua permissão em comandar certos rituais. Este também foi um aspecto considerado por Barth, ao analisar a grande liberdade de membros da sociedade Pathans para rea lizar suas opções políticas: “(...) these choices represent the attempts of individuals to solve their own problems” (Barth, 1959: 4).
No entanto, lembremos que Raul Zelaya, o Trino Ypoarã, e Gilberto Zelaya, o Trino Ajarã, criaram seus próprios estatutos para legalizarem, cada qual a seu modo, as suas lideranças. Raul criou o estatuto da OSOEC e o Beto o CGTA. Estas duas situações atualizam de alguma forma Victor Turner, afinal, o poder jurídico é acionado quando normas ou valores sociais estão em conflitos. “It would seem, at the present stage of anthropological enquiry, that jural machinery is employed when conflict between persons and groups is couched in terms of an appeal by both contesting parties to a common norm, or, when norms conflict, to a common frame of values which organize a society‟s norms into a hierarchy” (Turner, 1996: 122).
Apesar de Michel Hanna não possuir uma mediunidade semelhante à da Tia Neiva, ele, na condição de Trino, passa a receber forças que o capacitam na realização dos rituais. A sua posição hierárquica assemelha-se a energias espirituais, havendo a mescla entre uma escala política e outra espiritual. Gilberto e Raul Zelaya estariam na mesma situação enquanto Trinos. Turner destacou condição semelhante na sociedade Ndembu, ao dizer que o chefe do grupo também recebia poderes que eram capazes de provocar mazelas ou benesses, conforme a qualidade de sua índole. “If the headman himself is a sorcerer, in Ndembu belief, the village is in terrible danger, for it is thought that headmanship adds additional power both for good and evil to what a man already has in the way of mystical acquirements” (Turner, 1996: 112). No entanto, devemos entender que as benesses seriam realizadas quando os Trinos ou os adeptos preservassem boas virtudes dentro e fora dos
34 rituais. Porém, conforme falamos anteriormente, se há atitudes que atrapalhem os objetivos da espiritualidade, então, perigos podem ser gerados.
A disputa pela liderança da doutrina do Vale do Amanhecer tem demonstrado a necessidade de convencer o adepto sobre a legitimidade de seus líderes. Baseiam-se, cada qual, em algum fator referente à tradição da ordem para justificar suas permanências nos postos. No entanto, ademais, tratam a doutrina como um conteúdo político secular, pois afinal, os trinos se amparam em apoios jurídicos e populares para se manterem enquanto líderes.
No entanto, podemos perceber que a liderança é uma condição necessária ao Vale do Amanhecer, mas não é imprescindível para o adepto ou para a realização de uma grande maioria dos rituais. O Preto Velho, por exemplo, é quem recebe e avalia a condição do paciente. Vários ritos não exigem a presença do Trino, mas a doutrina exige sua existência, não apenas para tomar decisões práticas, mas para que a distribuição hierárquica esteja completa. O líder supremo é um elemento da estrutura que precisa existir, mas sua existência no funcionamento diário dos rituais não é tão absoluta.