O texto da Rita Laura Segato – O Santo e a Pessoa: Imagens que Articulam a sua Relação (1995:223-257) – estabelece um diálogo interessante com esta pesquisa, quando analisou a questão da cura dos praticantes de cultos de possessão, em xangô do Recife. Em sua análise ela disse que um filho-de-santo teria seu equilíbrio psíquico associado ao caráter do santo a que o filho pertencesse. Deste modo, a iniciação do filho-de-santo estaria relacionada a uma responsabilidade do pai ou mãe-de-santo. Entende-se que a escolha do santo do fiel apenas ocorreria mediante uma consulta ao oráculo e a uma avaliação por parte do iniciador sobre o aspecto psicológico do iniciante e o do santo, em seu conteúdo mitológico. O caráter psicológico de ambos deve ser coincidente, mesmo que este aspecto seja pouco saliente no iniciante. Outra questão levantada está no fato de haver poucos praticantes do culto que tenham apenas um santo – em geral eles possuem dois ou mais –, havendo um
114 principal – o dono da cabeça – e o ajuntó – em um papel coadjuvante. Sem querer entrar em maiores detalhes, mostro que a autora coloca a possibilidade de os santos disputarem a cabeça do filho, bem como de um santo ser escolhido erroneamente. Nestes dois casos o filho-de- santo sentiria consequências em seu aspecto psicológico: dando uma ênfase em um aspecto de sua personalidade, que é vinculada à do santo, quando no fim da contenda entre ambos; ou sentiria problemas sociais e psicológicos se não houvesse solução da briga entre os santos. A autora mostra que o equilíbrio emocional é um resultado de uma negociação do próprio filho- de-santo, do pai ou mãe-de–santo, considerando o aspecto da personalidade do filho-de-santo e o caráter mitológico do santo. Mostra ainda que a cabeça do fiel seria algo como um palco, um lugar onde “(...) existe uma série de personagens, entrelaçados num drama que reedita as intrigas mitológicas na esfera e com os elementos do psiquismo individual” (Segato, 1995: 244). O resultado deste drama mitológico, negociado com o filho e o pai-de-santo, influenciaria a personalidade do filho-de-santo, bem como o seu equilíbrio psicológico.
No Vale do Amanhecer, o equilíbrio e a cura do adepto também estão associados a uma relação mítica, mas o palco desta batalha está nos rituais ou no dia-a-dia e o adepto é um eixo em um conflito que deve ser desempenhado nos ritos e complementado em disputas com espíritos que acontecem no julgamento ou Angical. Assim como na pesquisa de Segato, o resultado da sorte do médium depende de sua participação neste conjunto de rituais, que simulam batalhas e até mesmo atualizam debates entre espíritos. A ausência prolongada nestas performances ou o fracasso em diálogos com cobradores pode implicar na permanência das cobranças espirituais ou na impossibilidade de suas curas.
A cura do adepto depende de sua completa inserção na cosmologia do Vale do Amanhecer. Isto implica dizer, que o médium deve se submeter a uma nova identidade hierárquica de forças, de entidades de proteção e de pertencimento a novos grupos. Passa a ter função importante no conjunto de rituais que protegem o Estado soberano do Vale do Amanhecer, conforme nossa interpretação, sendo submisso às orientações dos Pretos Velhos e à burocracia da instituição, podendo ser julgado por seus atos cometidos no passado, ao mesmo tempo em que é um instrumento de manutenção do Estado colonizador, por ser seu braço repressor, jurídico ou educacional118. Apenas inserido nesta cosmologia, sofrendo com
118 Dependendo do ritual que o adepto realize ele contribuirá de algum modo para a manutenção do domínio do
estado: através da atuação do médiu m em rituais que objetivam a defesa do território do estado – ritual de Abatá, Imantração -, por contribuir com o desejo de justiça – ritual de julgamento e Angical – ou recursos educacionais – mesa evangélica. Vale justificar que algumas vezes o julgamento e Angical podem salientar muito o esclarecimento, também.
115 o processo de usurpação, adquirindo seus bônus, avaliados em aparelho de captura, ele obtem recursos que o auxiliam na modificação de seus dramas sociais individuais.
Os espíritos não são submissos ao Vale do Amanhecer. Na verdade, eles reagem, provocando efeitos e sendo vítimas dos rituais tanto quanto os adeptos. Isto implica dizer que quando um adepto começa a sofrer determinada cobrança, dependendo da natureza da persistência do espírito, o médium pode passar por situações que podem durar anos, até conseguir elevar seu cobrador. Neste dia, o espírito espera que o médium tenha aprendido com o sofrimento, como o fiel tem de conseguir convencer o espírito a seguir o seu caminho e, para isso, a entidade tem que ter sofrido os efeitos do ritual. Adepto e cobrador sofrem a seu modo o efeito do ritual, ou seja, “Social dramas may draw their rhetoric from cultural performances; cultural performances may draw on social dramas for their plots and problems” (Turner, 1987: 42).
Isto apenas é possível porque adepto e espírito reconhecem no ritual elementos que provocam submissão. Não apenas o médium se submete aos tabus dos rituais, mas o espírito reconhece a força dos ritos e não ousa desafiar as entidades de proteção dos médiuns, como reconhece a estrutura do ritual de julgamento, realizando suas cobranças quando devem ser realizadas, não antes nem depois do momento adequado. O espírito que desafiou a adepta Avalciara, no capítulo III, foi levado até o ritual por causa das entidades de proteção da fiel. Já o espírito que era irmã de Graciara teve que esperar o momento adequado para lhe contar a narrativa mítico-cosmológica que envolveu-lhes. Isto permite-nos relembrar a citação que Tambiah fez de Bloch:
The ultimate inspiration for Bloch‟s view lies in seeing formalized modes of communication as the handmaid (perhaps even a basis?) of political authority, and in the further extrapolation that religion is an extreme form of political authority. Formalization in a political action context becomes an
engine of power and coercion, because it admits of no argument, and of no challenge to authority, except by total refusal to accept the conventions of authority. (Tambiah, 1985: 155).
Deste modo, temos um argumento que justifica a obediência aos rituais do Vale do Amanhecer. O fato de se manter a formalidade adequada aos ritos já garante a autoridade sobre todos os participantes. No entanto, no caso da desta etnografia, encontramos tais formalidades e, além disso, uma formalização política que funciona como um mecanismo de poder e coerção. Este duplo mecanismo age sobre todos os envolvidos, sobretudo sobre
116 sofredores e cobradores, mas também adeptos, provocando transformações que ocasionam elevações de espíritos e, por sua vez, a cura de fiéis.