As instituições, quando surgem, podem também estar representando uma resistência ao status quo. A instituição seria, então, uma forma de fluxo de força que estaria a serviço de um modo de pensar dissonante do pensamento vigente. Nessa mesma linha, conforme observam Machado-da-Silva et. al. (2003), as pressões isomórficas seriam responsáveis ora por manter, ora por modificar os valores e práticas culturais.
Em que pese sua importância para análise organizacional, a teoria institucional muito explorou, até hoje, os processos de institucionalização que valorizam a estabilidade, essa manutenção dos valores. Na nova lógica apresentada neste capítulo, no entanto, a mudança aparece sob outra perspectiva, mais dinâmica e que leva em consideração os significados construídos e reconstruídos socialmente.
Ao abordar a desinstitucionalização e conseqüente, talvez simultânea, re-institucionalização, levanta-se aqui a possibilidade concreta de estudar a mudança organizacional tentando entender como as pressões institucionais podem influenciar a mudança institucional, especificamente sua influência na desinstitucionalização e na (re) institucionalização de outras práticas.
Scott (apud Dacin, Goodstein & Scott, 2002, p.46) define esse conceito como “processo pelo qual as instituições enfraquecem e desaparecem”. Para Oliver (1992), é o processo de perda de legitimidade que se reflete numa descontinuidade de uma prática estabelecida. A reinstitucionalização, defende-se aqui, seria o processo como outras instituições se sobrepõem às instituições enfraquecidas ou em processo de enfraquecimento.
Oliver (1992) defende o quão é importante estudar mais a fundo o fenômeno da desinstitucionalização, apresentando alguns motivos a seguir expostos:
1 – pode explicar um espectro grande de mudanças nas organizações ainda não abordados pela vertente institucional, tais como os desafios ao status quo institucionalizado, o abandono de hábitos e costumes, a deterioração de um consenso organizacional sobre um valor antes legitimado;
2 - pode explicar quando pressões institucionais são menos propensas a exercer duradoura influencia nas organizações. Em que pese a tendência de teóricos institucionais enfatizar a persistência cultural de formas e processos organizacionais, o potencial para desinstitucionalização chama a atenção para a questão da estabilidade e longevidade de práticas e valores que, ao contrário, sob uma variedade de condições previsíveis ou predizíveis, processos e práticas poderiam ser vulneráveis aos desafios, ao re-acesso ou à rejeição. 3 - inclui a possibilidade de estudar processos políticos e o nível micro da mudança institucional, enfatizando também a visão cognitiva e social.
Berger & Luckmann (1976) postulam que o ser humano produz e reproduz a realidade social e assumiu-se esta premissa nesta tese, como já anunciado anteriormente: a existência,
construção e desconstrução de uma instituição estão inseridas inevitavelmente na dinâmica de uma rede de relações. A forma como estiver estruturada essa rede irá dar a tônica e a força dessa construção ou desconstrução institucional, levando a um processo de institucionalização ou de desinstitucionalização.
Oliver (1992) identificou três fontes de pressão nas normas institucionalizadas: a funcional, a política e a social. Este autor chamou essas pressões de antecedentes da desinstitucionalização e partiu do princípio que alguns fatores intra-organizacionais e inter- organizacionais podiam ser considerados determinantes críticos de um processo de desinstitucionalização. Defende a tese de que a entropia e pressões inerciais são propostas como inerentes à organização e são processos de competição que moderam o grau da desinstitucionalização: a entropia organizacional tende a acelerar a desinstitucionalização ao passo que a inércia tende a impedi-la. Essas pressões determinam a probabilidade de dissipação ou rejeição de uma prática organizacional institucionalizada. O quadro a seguir sintetiza alguns exemplos dos três tipos de pressao: funcional, política e social.
Quadro 4 – Antecedentes de Desinstitucionalização
Nível de análise Pressões políticas Pressões funcionais Pressões sociais Crise no desempenho Mudança na utilidade
econômica
Aumento na
fragmentação social ORGANIZAÇAO Interesses internos
conflitantes Aumento da especificidade técnica Redução da continuidade histórica Aumento de pressão para inovação Aumento da competição por recursos
Mudança nas regras e valores institucionais AMBIENTE Mudança na dependência externa Surgimento de eventos e dados Aumento da desagregação estrutural Fonte: Oliver, 1992, p.567
O quadro apresenta os tipos e exemplos de pressões políticas, funcionais e sociais que podem desencadear um processo de desinstitucionalização, ou seja, a perda de legitimidade ou utilidade de práticas organizacionais. Observam-se mecanismos intraorganizacionais e também fatores de pressão externos à organização.
Com relação à dimensão política, problemas de desempenho organizacional ou situações de crise podem criar uma falta de consenso político interno e levar a questionamentos sobre a legitimidade de uma prática organizacional. Há um rompimento da credibilidade da prática, ou seja, o que foi antes bem sucedido pode não funcionar mais. Quanto aos eventos externos, para que tenham o mesmo efeito de pressão sobre uma prática institucionalizada, eles têm que ser associados aos eventos internos (piora do desempenho) e à percepção das pessoas e o significado que atribuem a essa relação. Assim, uma crise de desempenho e de conflito interorganizacional pode extrapolar a desinstitucionalização para as relações de dependência entre organizações no mesmo campo ou setor institucional.
Durante um período de crise, valores são deixados de lado e substituídos, pois a lógica da confiança e coerência institucional que perpetuava as regras institucionalizadas, são quebradas e desestabilizadas, tais como expectativas compartilhadas da prática aceitável e legítima.
Sob essa perspectiva, caso se deseje uma mudança, as organizações poderiam desencadear um dissenso político para romper a unanimidade de acordo entre os membros sobre um valor ou uma prática específica. Tal conflito, no entanto, não emergiria fora de situação de crise. Em algumas circunstâncias, o dissenso aparece quando certos stake holders com grande poder ou visibilidade não possui qualquer interesse em sustentar alguma prática organizacional ou percebe essa prática como conflitiva com outros interesses, agendas ou crenças.
A desinstitucionalização consistiria, ainda, em uma resposta política às disputas e distribuições de poder. Além da discordância política, são também exemplos de fatores de desinstitucionalização: sucessão, mudança nos padrões de dependência entre as organizações de um campo, crescimento numa situação crítica, representação de membros que se opõem ao status quo – contracultura, ou uma reação de proteção para o que é percebido pela organização como uma ameaça iminente, falência ou obsolescência. Desinstitucionalização, sob essas condições, significaria um esforço político da organização em proteger seus próprios interesses e para acomodar ou resolver conflitos políticos que rodeiam o valor ou a legitimidade de uma prática organizacional institucionalizada.
As pressões funcionais, por sua vez, estão vinculadas à mudança na utilidade técnica ou instrumentalidade percebida no que se refere às práticas organizacionais. A título de ilustração, pode haver desinstitucionalização quando critérios sociais e econômicos do sucesso organizacional começam a conflitar significantemente com outras experiências organizacionais. Essa percepção está estreitamente associada às mudanças ambientais, como a competição por recursos e o surgimento de eventos inesperados. Outrossim, uma atividade institucionalizada pode descontinuar ou morrer porque sua perpetuação não é reforçada ou recompensada, ou seja, quando critérios econômicos de eficiência e efetividade começam a conflitar com significados compartilhados e institucionalizados de sucesso: muitas regras e procedimentos são percebidos como incompatíveis com a eficiência e eficácia organizacional.
Assim, a utilidade funcional de uma prática organizacional será reavaliada e corre o risco de ser desinstitucionalizada quando recompensas instrumentais para a conformidade forem retratadas, quando aumentar a clareza dos objetivos, a especificidade técnica, procura por eficiência e recursos ou quando tais práticas institucionalizadas forem incompatíveis com
objetivos econômicos e técnicos. Sob essas condições, a necessidade funcional de uma atividade institucionalizada será seriamente questionada e sua utilidade presumida será desafiada em sua base econômica.
Pressões sociais para mudança geralmente desinstitucionaliza atividades estabelecidas na ausência do reconhecimento consciente da organização ou controle dessas mudanças. Primeiro, a fragmentação social e descontinuidades históricas são causas de desinstitucionalização. Esses preditores incluem alta rotatividade, sucessão, aumento na diversidade da forca de trabalho, enfraquecimento nos mecanismos de socialização e mudança cultural nas relações interorganizacionais, como resultado de uma alteração na estrutura e padrão de interação entre organizações, por exemplo joint ventures, fusão, etc.
Novos membros com formação e experiências diferentes da realidade dos membros existentes carregam outros esquemas interpretativos e definições sociais de comportamento para a organização, que por sua vez atuam na redução do consenso e influenciam na reavaliação das práticas tomadas como verdade.
Em segundo lugar, pressões sociais externas, como mudanças nas leis do governo e valores ou expectativas sociais, podem causar o abandono gradual de práticas institucionalizadas.
Finalmente, definições compartilhadas da realidade social e entendimento sobre o que é aceitável e significativo em termos de comportamento geralmente dependem da proximidade física dos constituintes institucionais em que a construção de realidade é efetivada por meio da interação social, imitação e observação. A redução dessa proximidade entre organização e seus membros também constitui um fator de desinstitucionalização.
Em suma, a pressão funcional emerge de problemas práticos, especialmente focados em níveis de desempenho. As pressões políticas resultam de mudanças nos interesses e nas distribuições de poder que suportam e legitimam os arranjos institucionais. Pressões sociais dizem respeito às crenças e práticas sociais que divergem num grupo.
Para Johnson (1973), nenhum sistema social possui perfeita conformidade às normas, ainda que algumas dessas instituições estejam bem ajustadas. No entanto, salienta que o funcionamento do sistema está diretamente ligado ao conhecimento dessas instituições e sua aceitação. A institucionalização e reinstitucionalização dependem desse compartilhamento conjunto de signos e significado.
Muitos são os fatores que podem desencadear mudança institucional, segundo Dacin, Goodstein & Scott (2002): novas entradas, novos funcionários, novas políticas, novas demandas, novas variáveis, novas formas organizacionais, novos arranjos sociais, institucionais, de poder, etc. A desinstitucionalização, por sua vez, ocorre quando uma prática se “atrofia” pelo uso, enfraquecimento ou cai na indiferença; quando surge alguma ferramenta, método ou prática mais eficiente ou quando surge a paixão pelo novo; e quando há a perda repentina de credibilidade e confiança, ou seja, uma súbita decepção. A conjugação desses fatores poderia levar à reinstitucionalização de uma nova prática.
North (1994) afirma que a institucionalização de novas regras – i.e. a reinstitucionalização – depende da necessidade percebida e reconhecida de mudança nas interações sociais.
Os fatores que desencadeiam as mudanças podem ser exógenos mas a fonte de mudança mais forte e essencial é o aprendizado dos indivíduos que trabalham e são membros das organizações. A abordagem de North (1994) é cognitiva e social. Para ele, as mudanças
ocorrem porque indivíduos percebem que podem fazer melhor pela reestruturação das trocas e porque “aprendem ao longo do tempo”.
Nessa perspectiva, a reinstitucionalização, mais do que a institucionalização, seria então um processo de aprendizagem. Novas instituições apareceriam como fruto desse processo. A institucionalização, desinstitucionalização ou reinstitucionalização serviriam para melhorar as trocas sociais quando já não estiverem mais servindo aos interesses do grupo. Esses processos institucionais estariam diretamente ligados à percepção da necessidade de mudança nas interações sociais e à conseqüente aprendizagem quanto à busca dessa necessidade.
Ademais, ao acrescentar nos estudos sobre mudança institucional a dimensão cognitiva e social dos processos de desinstitucionalização e reinstitucionalização, acredita-se que se podem apresentar outras possibilidades de entendimento sobre a mudança organizacional. Os esquemas interpretativos possuem um papel fundamental na identificação de evidências particulares sobre arquétipos organizacionais. Quando organizações reconhecem a necessidade premente de transformação, valores e idéias prevalentes começam a perder legitimidade e vão sendo aos poucos desacreditados. Em seu lugar, outros esquemas interpretativos emergem, introduzindo diferentes padrões de comportamento e arranjos estruturais.
Qualquer que seja o tipo de pressão para desinstitucionalização e reinstitucionalização, o vácuo institucional é tido como resultado de um colapso dessa “deterioração gradual da aceitação e uso das práticas institucionalizadas” (OLIVER, 1992, p.58). A partir da desinstitucionalização total da prática, não haveria outra prática institucionalizada, acarretando um vazio institucional. Para entender melhor a questão, aprofunda-se no item a seguir essa discussão.