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O ambiente institucional passou a ser o centro das atenções na análise organizacional desde a teoria institucional, como é possível constatar a partir das pesquisas desenvolvidas por seguidores de Selznick (PERROW, 1986; FONSECA, 2003). Sendo entendido como um espaço simbólico de regras, por vezes tácitas, que são seguidas pelas organizações em troca de apoio e legitimidade, o conceito de ambiente institucional foi dicotomizado em ambiente técnico e institucional.

A natureza técnica diz respeito à dinâmica de troca de bens ou serviços, em que subjaz o objetivo de eficiência e eficácia (SCOTT & MEYER apud SCOTT, 1987). A dimensão institucional, conforme Scott & Meyer, apud Scott (1987), é entendida como o espaço simbólico em que regras e procedimentos são elaborados e compartilhados por aquelas organizações que buscam legitimidade.

Assim, a face institucional do ambiente reforça a necessidade organizacional de buscar outros fatores além da eficiência e eficácia para a sobrevivência no cenário competitivo. O apoio de outras organizações e da sociedade é fundamental para se manterem ativas e, para tanto, é preciso alcançar a legitimidade institucional.

Powell (1991) reviu o trabalho que fez em conjunto com DiMaggio e observou quão limitado era o modelo de campo formado em duas fases. No modelo ‘bifásico’, DiMaggio & Powell (1983) afirmavam que campos organizacionais possuíam, em época de formação, características de natureza técnica. Mais adiante, quando alcançavam a maturidade, o ambiente institucional era o orientador de suas ações. Todavia, o próprio Powell (1991) criticou essa idéia, observando que a conformidade a pressões institucionais não se dá tão facilmente e há custos embutidos que devem ser levados em conta. Tampouco estabelecer critérios para escolha de uma solução técnica é tarefa insignificante. Pode haver um leque de opções e essa decisão não é automática como faz parecer a proposta anterior. Enfim, Powell (1991) enfatiza que no modelo bifásico há pouca importância atribuída ao apoio institucional e à busca pela legitimidade10, centrais no novo direcionamento da Teoria Institucional.

Essa divisão, cujo propósito era facilitar a formulação analítica, provocou confusões quando se tratava de estudar empiricamente o ambiente institucional, conforme indicam Powell (1991) e Fonseca (2003). Assim, tanto ambiente técnico quanto ambiente institucional devem ser considerados “facetas de uma mesma dimensão”, como propõe Fonseca (2003, p. 56). A diferenciação apenas serve para facilitar o entendimento da natureza técnica e institucional do ambiente constituinte da organização.

Segundo Scott (1987), definições recentes de ambiente técnico e institucional têm facilitado a operacionalização desses conceitos. No entanto, Scott reflete com Meyer sobre a dificuldade em delimitar o que é técnico e o que é institucional (SCOTT e MEYER, 1991). Para eles, alguns elementos institucionais se assemelham a procedimentos técnicos – possuem um significado compartilhado e uma dimensão simbólica mas aparentemente são adotados pela

10 Legitimidade, para Meyer & Scott, apud Scott (1987), consiste na capacidade de suporte cultural a uma organização. Mais tarde, esse conceito foi expandido, refletindo também o apoio normativo e o ajuste às regras e

necessidade de eficiência e eficácia . Outros são procedimentos técnicos que com o tempo são institucionalizados e muitas vezes não se tem consciência da necessidade técnica que originou a prática.

De modo geral, organizações com orientação predominantemente técnica são as que valorizam mais eficiência no atendimento às regras de mercado para alcançarem a eficácia organizacional. São também as que usam ferramentas de coordenação e controle no sentido de disseminá-las e buscar aprimorar seu desempenho de mercado e são capazes de mensurar seus resultados. A essas organizações Selznick denomina de meros instrumentos racionais (PERROW, 1986).

Organizações que valorizam mais a dimensão institucional são as que usam conscientemente esses instrumentos de controle e estruturais para instituir valores e regular a ação organizacional. Estas são organizações institucionalizadas, ou seja, modeladas segundo critérios socialmente compartilhados, o que resulta no isomorfismo institucional (MEYER & ROWAN, 1977).

Meyer & Rowan (1977) asseveram que o elo entre a face técnica e a face institucional irá apontar o grau de alinhamento entre estrutura e valores e, ainda, mostrar o grau de institucionalização da organização.

Considerando a influência que as organizações exercem sobre o campo, Scott & Meyer (1991) combinaram o ambiente técnico e institucional, conforme sintetizado no quadro a seguir:

QUADRO 2 – Tipos de Organizações X Ênfase Ambiental

AMBIENTE INSTITUCIONAL

MAIS FORTE MAIS FRACO

MAIS FORTE Utilities

AMBIENTE Bancos Empresas

TÉCNICO Hospitais Gerais de manufaturas

MAIS FRACO clinicas de Saúde Mental Restaurantes

Escolas

Agências Legais

Igrejas

Fonte: Adaptado de Scott e Meyer, 1995, p. 124

A partir desse quadro, Scott & Meyer (1991) afirmaram que forte pressão técnica e institucional tende a estar relacionada a estruturas mais complexas e maiores. Em conseqüência, quando os ambientes técnico e institucional são pouco desenvolvidos, as estruturas organizacionais tendem a ser pequenas, instáveis e a possuir arranjos mais simples.

Cumpre destacar que, para os institucionalistas, é essa aceitação dos valores e normas institucionalizados, mais do que a busca por resultados e desempenho, que confere a permanência das organizações no mercado. No entanto, é oportuno atentar para o fato de que o sistema capitalista assume como pressuposto a busca de lucratividade e pode-se inferir que por trás da sobrevivência desejada existe predominantemente um propósito de lucro. Isso não implica no desprezo dos elementos institucionais, mas sinaliza que esses elementos institucionais continuam a servir à lógica instrumental e capitalista.

Fonseca (2003) concorda com Powell (1991) quando afirma que para cada campo organizacional há graus diferenciados de elementos técnicos e institucionais. Essa diversidade depende de vários fatores, o que permite afirmar que a mudança institucional pode surgir de diferentes maneiras em cada campo.

O conceito de campo organizacional foi explorado por DiMaggio & Powell (1983) com o propósito de explicar a homogeneidade organizacional em suas práticas e formas. Estudar a formação do campo, e não a organização isoladamente, indicava que poderiam alcançar outro entendimento em suas investigações.

Para tais autores, um campo organizacional seria o resultado de atividades de diversas organizações e, ainda, da homogeneização dessas organizações – e conseqüentemente dos novos entrantes – às práticas vigentes. Sua definição de campo consiste em um conjunto de organizações que constituem uma área reconhecida da vida institucional. Incluem-se em suas fronteiras: fornecedores-chave, consumidores de bens, serviços ou recursos, agências regulatórias e outras organizações que produzem serviços ou produtos similares. Entende-se que, ao pertencer a um campo, as organizações compartilham uma racionalidade específica que as orienta em sua estrutura e conjunto de valores.

O fato de usar o campo como unidade de análise ampliou o foco da pesquisa para os atores relevantes dentro da idéia de conectividade e equivalência estrutural11. Conectividade implica a existência de transações que ligam formalmente organizações umas às outras, enquanto equivalência estrutural diz respeito à posição semelhante ocupada na estrutura de relações. Explicam DiMaggio & Powell (1983, p.159):

“duas organizações são equivalentes estruturalmente se elas têm laços do mesmo tipo para o mesmo conjunto organizações, mesmo se elas não estiverem conectadas diretamente”.

Vieira & Carvalho (2003) coadunam com DiMaggio (1991) ao defenderem a relevância de entender os processos de estruturação do campo, como primeiro passo para compreender a

institucionalização. Daí se deduz que possivelmente a desinstitucionalização também é mais bem captada a partir dessa etapa inicial cumprida.

Assim, DiMaggio & Powell (1983) indicam que o processo de definição institucional do campo possui quatro elementos: aumento no nível interação entre as organizações no campo; surgimento de estruturas de dominação e de padrões de coalizão definidos claramente; aumento no volume de informação com que as organizações em um campo devem lidar; e finalmente o desenvolvimento de consciência mútua entre os agentes de um grupo de organizações, sobre o fato de que estão envolvidos em um empreendimento comum.

Quatro etapas de formação do campo foram desenhadas por Holanda e sintetizadas por Vieira & Carvalho (2003), conforme figura 1 a seguir.

Pré-formação Campo emergente Campo em expansão Campo institucionalizado Organizações isoladas e independentes Enlaces interorganizacionais e concentração Aumentam os enlaces e valores convergentes

Alto nível de enlaces interorganizacionais e valores compartilhados

Figura 1 - Etapas de formação de um campo organizacional Fonte: Vieira & Carvalho (2003, p.19)

11 O conceito de conectividade foi importado de Laumann, Galaskiewicz e Marsden (1978) e o de equivalência estrutural é oriundo de White, Boorman e Breiger (1976).

A primeira delas se intitula “Pré-formação”, sendo caracterizada por um conjunto de organizações isoladas e independentes. Ao longo do tempo, o campo vai se estruturando e as organizações iniciam um movimento de reconhecimento e alguns laços são estabelecidos. Esta fase é conhecida como “Campo Emergente”. O “Campo em Expansão” diz respeito a um terceiro momento em que esses laços se fortalecem, ampliando a interação e conexões existentes entre as organizações. Finalmente, na fase de “Campo Institucionalizado” há um alto grau de compartilhamento de valores e práticas tendem a ser isomórficas.

Quanto maior o grau de institucionalização e quanto mais o campo for estruturado, maior a dificuldade de adaptação a inovações e menor sua capacidade de mudança. Esta se restringe a manter os padrões de comportamento já institucionalizados, conforme Hasselbladh & Kallinikos (2000) observam.

A noção de campo organizacional sugerida por Leca & Demil (apud VIEIRA & CARVALHO, 2003) enfoca um problema comum que alinhava uma rede de organizações que interagem.

Sob esse enfoque, a noção de campo de Bourdieu (1996) complementa os conceitos aqui tratados, uma vez que este autor enfatiza a dimensão política inerente às relações interpessoais e interorganizacionais, ainda que não negue a natureza estruturalista de seu pensamento.

Ao investigar os diversos espaços sociais, Bourdieu (1996) buscou compreender sua gênesis, hierarquias e lutas internas, bem como a lógica de pensamento e de conduta de seus agentes. Assim, elaborou o conceito de campo como um espaço social que possui uma estrutura própria, relativamente autônomo em relação aos outros espaços sociais e com objetivos específicos que garantem uma lógica particular de funcionamento e de estruturação. Ademais, compreendem princípios, valores e um sistema de significados que organizam e regulam as

relações entre os atores. Defende que todo ator de um determinado campo deve ajustar-se ao seu esquema de pensamento e à sua lógica de funcionamento, ou seja, às exigências objetivas daquele espaço social.

Nessa linha de raciocínio, Bourdieu (1983, p.89) observa que:

“Para que um campo funcione, é preciso que haja objetos de disputas e pessoas prontas para disputar o jogo, dotadas de habitus que impliquem no conhecimento e no reconhecimento das leis imanentes do jogo, dos objetos de disputas, etc.”.

Os espaços sociais só podem ser entendidos a partir da relação dual de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade. O primeiro elemento remete à noção de habitus, em que os indivíduos, na produção e reprodução cotidiana de suas práticas, incorporam regras, símbolos, conceitos da realidade social a que pertencem e constituem. Nessa dinâmica, a estrutura de relações sociais e suas condutas se articulam num processo de mistura das dimensões subjetiva e objetiva.

Ao mesmo tempo é produto da evolução histórica do grupo e orienta a prática social. Uma vez incorporados os esquemas de pensamento, percepção e ação, é possível assegurar conformidade às práticas e regras, controle e padrão em função de experiências passadas. Há um componente inconsciente e cognitivo, mas não fica restrito a esse eixo, assumindo uma pluralidade de significações.

Misoczky (2001) sintetiza que o habitus é um corpo socializado, uma estrutura estruturante (BOURDIEU, 1996), uma vez que incorporou as estruturas de um campo organizacional – no caso deste projeto de pesquisa – e ao mesmo tempo fornece padrão para estruturar a percepção e a ação da realidade do campo em questão. Conforme Bourdieu (1983), é

necessário conhecimento prático do jogo: “toda história do jogo, todo o passado do jogo estão presentes em cada ato do jogo” (p.91).

Todavia, se por um lado a noção de habitus parece ser estável e imutável, garantindo a estabilidade das instituições, por outro, os indivíduos são capazes de reconstruir as instituições, ressignificando a partir do confronto das situações nos diversos espaços sociais, produzindo novas condutas para os agentes sociais. A essas situações conjunturais e contingenciais, impregnadas por forças influentes dos esquemas interpretativos – simbólicos dos indivíduos, Bourdieu (1996) denomina “campo”.

Para Bourdieu & Wacquant apud Misoczky (2001), um campo é uma arena de poder, em que se relacionam os diferentes tipos de capital com suas forças de intensidade distinta. No entanto, esse campo de forças é estruturalmente determinado pela estrutura de relações sociais. Assim, interesses e conflitos existem como parte da natureza do campo institucional:

“A estrutura do campo é um estado da relação de força entre os agentes ou as instituições engajadas na luta ou, se preferirmos, da distribuição do capital específico que, acumulado no curso das lutas anteriores, orienta as estratégias ulteriores” (BOURDIEU, 1983, p. 90)

O campo organizacional, nesta pesquisa, consiste no conjunto de atores e organizações que seguem práticas e padrões estruturais semelhantes, espelhando o conceito de Leca & Demil (apud VIEIRA & CARVALHO, 2003). A dimensão simbólica continua a ser traço forte no campo a ser estudado, uma vez que significados têm que ser compartilhados para que as práticas e ações se tornem isomórficas. Assume-se, portanto, que o campo organizacional da educação superior é composto por atores envolvidos numa temática comum. Possuindo tradicionalmente natureza institucional, atualmente, acredita-se que para alguns atores do

campo, haja a valorização da instrumentalidade como reprodução dos discursos presentes no campo. Isso pode estar sinalizando dimensões políticas diferenciadas no mesmo campo organizacional, subjacentes às práticas que ora se desinstitucionalizam e outras que se reinstitucionalizam. A essas dimensões políticas e interesses diversificados aqui denominamos campo organizacional.

Enfim, há que relevar como as organizações estrutura suas relações com os elementos externos e internos, bem como identificar os discursos que permeiam e constituem essas relações, dado que esses elementos influenciam sua estratégia e ação.

A valorização de uma das dimensões, técnica ou institucional, em função da natureza da organização pode facilitar ou dificultar a mudança. Conhecer seus limites e possibilidades pode ser o primeiro passo nessa direção. Adicionalmente, as redes nas quais estão inseridas as organizações são também fatores importantes uma vez é possível revelar os jogos de poder e interesses presentes no campo organizacional. Entender como se constitui esse campo pode, ainda, gerar pistas sobre a dinâmica do campo e seu funcionamento, seus mecanismos de institucionalização e desinstitucionalização. Obviamente que a esses se somam os atores- agentes e suas manifestações e reações, muitas vezes não tão previsíveis quanto se desejaria em um processo de mudança, especialmente institucional. Conforme Dacin, Goodstein & Scott (2002), a partir dos mecanismos de interpretação desses agentes e de suas conseqüentes decisões, eles são os responsáveis por legitimar, deslegitimar ou relegitimar uma prática (instituição). Cabe, a seguir, descrever um pouco mais sobre instituição e sobre o processo de institucionalização para, depois, abordar a mudança institucional.