4.2 Seismic interpretation of the main intervals
4.2.1 Basement
A discussão sobre a mudança institucional aponta para os complexos caminhos em que novas formas institucionais interagem com os arranjos institucionais existentes para criar “novas” estruturas e processos variados. Nesse nível, conforme afirmado antes, o processo de mudança passa pela dinâmica cognitiva e social e, tomando North (1994) como referencia, a base dessa “aprendizagem” dos novos ou renovados parâmetros está no entendimento do conceito de modelo mental.
Segundo North (1994), modelos mentais são representações internas que o sistema cognitivo individual cria para interpretar o ambiente. As instituições, por sua vez, são mecanismos externos à mente do indivíduo criados para estruturar e ordenar esse mesmo ambiente e, assim, dar sentido à realidade.
Pode-se afirmar, ainda, que tais modelos mentais moldam as percepções sobre o mundo, mas podem ser continuamente redefinidos com novas experiências, idéias, trocas interpessoais, realidades diferentes, dentre outros. A mente é capaz de ordenar e reordenar os modelos mentais a partir de suas origens para formas sucessivamente mais abstratas, de tal forma que tais modelos se tornam avaliáveis para processar outras informações.
O reordenamento implica um processo de desinstitucionalização e conseqüente reinstitucionalização e, segundo Oliver (1992), haveria como resultante o fenômeno do vácuo institucional. O vácuo institucional se vincula à idéia de ausência total de regras, como um vazio em que os elementos do campo ficariam perdidos, sem orientação alguma.
Uma ausência de regras, para Durkheim, possui diferente conotação. Durkheim, ao estudar o suicídio, analisou variáveis e condições sociais que estimulariam ou deteriam o ato, negando que seria uma decisão pura e exclusivamente individual. Assim, conforme Quintaneiro et. al. (2001) afirmam, as causas do suicídio seriam coletivas, ressonâncias o estado moral da sociedade:
“A maior coesão e vitalidade das instituições às quais o indivíduo está ligado, a intensidade com que se manifesta a solidariedade em seu grupo religioso, a solidez dos laços que o unem à sua família, a força dos sentimentos que o vinculam à sociedade política contribuem para preservá-lo de cometer um ato dessa natureza” (QUINTANEIRO et. al., 2002, p. 37-38)
Durkheim identificou três tipos de suicídio e o terceiro tipo interessa aqui, por carregar o conceito de anomia. O suicídio anômico seria causado por um estado de desregramento social no qual haveria ausência de normas ou falta de respeito a elas. Transportando para o nível macro, o estado de anomia numa sociedade ocorreria quando as relações entre grupos e órgãos não estivessem regulamentadas ou os órgãos sociais não mantivessem contato suficiente entre eles. Em conseqüência, a interdependência se amorteceria, as relações seriam mais precárias e as regras, vagas.
O conceito mais genérico de anomia está associado a essa ausência de regras, que levaria à anarquia. De acordo com a Enciclopédia Digital Master, o termo anomia é originário do grego, significando “sem normas”. A implicação direta consiste em uma situação em que as ações dos indivíduos não estariam mais dirigidas por normas claras e compartilhadas.
A necessidade de um padrão que forneça uma linha condutora é condição sine qua non de ordem, dentro de uma visão positivista e moderna. Conforme explica Morrish (2001), a visão marxista da estrutura social da sociedade fornece um padrão para o trabalho, para o
comportamento e para o estilo de vida das pessoas. Se esse padrão se fragiliza ou é contestado, na visão durkheimiana, emerge o caos, a desordem.
Em uma situação de crise, a sociedade se torna temporalmente incapacitada de exercer o poder moral de orientar as ações de seus membros. A própria coesão social se vê ameaçada e Durkheim vai mais adiante, afirmando que o mundo moderno se caracteriza por uma redução da eficácia de determinadas instituições (QUINTANEIRO et. al., 2001).
No entanto, conforme explica Cabral (2003), essas transições são naturais e esperadas, fazem parte do curso da humanidade. Durkheim argumentava que uma das tarefas dos sociólogos era estudar os determinantes sociais do comportamento — deveres, leis, e costumes — que unem e mantêm as pessoas em sociedade. Para ele, havia duas sociedades: a tradicional, regida pela solidariedade mecânica (instrumental e que não reconhece o homem como consciente de suas escolhas); e a sociedade industrial, orientada pela consciência coletiva, que se baseava em um sistema consciente e compartilhado de valores, normas e crenças. O sistema de divisão de trabalho e diferenciação funcional implicava, conseqüentemente, numa interdependência das partes. E Durkheim preconiza que o estado de anomia surgiria no processo de transição das sociedades tradicionais para as industriais.
Como se pode perceber, Durkheim se referia a instituições sociais numa visão funcionalista e positivista, enfatizando a dimensão macro e sociológica, como não podia deixar de ser dadas suas origens. Além disso, a relação era tratada unilateralmente, como se as regras fossem impostas e os indivíduos não pudessem refletir sobre elas. Apenas fatores externos poderiam modificar ou fragilizar essas regras. Sua premissa estaria baseada na visão de que a realidade é dada.
Em que pese essas observações, o conceito de anomia serve a esta tese para ampliar a visão da simples ausência de regras. A desordem não precisa ser necessariamente vista em seu lado negativo, pois poderia implicar um ressurgimento de uma nova ordem. É necessária a renovação de instituições para reconstruir e melhorar as relações sociais e, para tanto, o questionamento das instituições antigas e desinstitucionalização é inevitável. Ao questionar, ou seja, ao fazer jus ao uso agônico da razão, os indivíduos passam a pensar e refletir com outros esquemas interpretativos, já demonstrando que uma nova ordem está se formando. Nesse sentido entende-se que a presença de outros discursos paralelos aos discursos formais institucionalizados indicaria essa desordem, mas não um vácuo institucional.
3 METODOLOGIA
A pesquisa conhecida como qualitativa tem expandido suas fronteiras para além das investigações sociais, talvez como um reflexo da polêmica que gira em torno do excesso de técnicas presente no contexto acadêmico. Spink (1995) é de opinião que a busca frenética pela técnica e por métodos mais objetivos de pesquisa foi devido à necessidade de a investigação qualitativa se legitimar no cenário científico dentro de uma perspectiva positivista. O rigor de uma pesquisa acadêmica seria alcançado a partir do uso de critérios objetivistas, em que se valorizavam as leis gerais e a demonstração de teses por meio do teste de hipóteses. Cabe ressaltar, no entanto, que o uso de métodos quantitativos e qualitativos requer cuidados e conhecimento, para que não recaia no que Silva (2003) e Rocha (2004) denominam de abusos desse uso.
Atualmente, as ciências humanas e sociais vêm questionando esse paradigma dominante e resgata aos poucos sua natureza interpretativa e subjetivista. Conforme Morgan (1983), a escolha do método é conseqüência da visão que o pesquisador tem da situação a ser estudada, de suas concepções implícitas ou explícitas, dos valores inerentes ao pesquisador, expressos em suas opiniões e escolhas. Nesse sentido, o método utilizado deve estar associado à natureza do problema e objetivos almejados e, obviamente, à visão e valores do pesquisador.
Com base nesses argumentos, esta tese buscou apoio principalmente na investigação dita qualitativa, sem desmerecer os métodos quantitativos e, tampouco, perder o rigor acadêmico- científico. Neves (1996) explica que o rigor na pesquisa quantitativa advém de um planejamento estabelecido previamente, com claras hipóteses e variáveis a serem testadas e uso de instrumentos e técnicas estatísticas para análise dos dados. Silva (2003) e Vieira (2004)
complementam que o uso de métodos quantitativos não exclui abordagens qualitativas complementares, o que enriqueceria os resultados.
A opção pelo uso de métodos qualitativos, por sua vez, não implica falta de rigor, como se verá a seguir. Contudo, a forma como o rigor é alcançado e reconhecido segue critérios diferentes dos usados para métodos qualitativos.
Este capítulo, pois, foi estruturado para inicialmente apresentar algumas justificativas de se optar pela estratégia qualitativa. Feita essa contextualização, procedeu-se à caracterização da pesquisa aqui desenvolvida e, seguindo, o desenvolvimento da mesma.