• No results found

3.3 Funn fra kvalitativ undersøkelse om verdsetting, trivsel og stress

3.3.3 Stress

No início do oitocentos, os arredores da cidade da Parahyba já haviam sido definidos. Essa região foi o primeiro núcleo de povoamento da capitania e, consequentemente, suas terras foram distribuídas já no século XVI e no decorrer do XVII e XVIII127. Neste tópico iremos apresentar alguns dos principais nomes da elite

econômica da Paraíba, concentrados na capital, responsáveis pela exploração da mão de obra africana.

Viver como senhor de engenho no Brasil escravista era, sem dúvida, uma das posições mais privilegiadas que alguém poderia ocupar. Apesar das transformações econômicas e sociais no decorrer do século XVIII que levaram os negociantes a conquistarem mais espaço, o senhores de engenhos continuram tendo importante papel na hierarquia social128. Na Paraíba, essas mudanças sociais impactaram mais a partir da virada do século XVIII para o XIX, quando os negociantes passaram a ter maior influência na vida da capitania/província. Os donos das unidades produtivas de açúcar eram respeitados, bem relacionados, faziam-se presentes no aparelho administrativo do Estado como vereadores, capitãos de ordenanças etc (NASCIMENTO FILHO, 2006, p. 72-73).

Em 1856, a capital contava com dez engenhos. Se pensarmos as freguesias de Santa Rita e Livramento, que eram mais afastadas do núcleo urbano e próximas às várzeas do rio Paraíba, mas que pertenciam à jurisdição da cidade, o número sobe para quarenta e nove. Na região sul, nas freguesias de Taquara, Jacoca e Alhandra – área de influência da capital – somavam-se mais dez engenhos (SANTANA, 1990, p. 179-180).

127 Fernando Delgado Freire de Castilho contabilizou até o ano de 1798 a quantidade de 1.097 sesmarias

distribuídas pelo governo da Capitania da Paraíba. No início do século XIX, não mais houve concessão de datas de terras na região da cidade da Parahyba do Norte. Aliás, nesse período, a principal requisição era de posse sobre terras devolutas. Cf Tavares (1982).

Alguns desses – como o Gargaú, o Inhobim, Una, entre outros – funcionavam há séculos, tendo passado por vários donos e vivenciado as crises econômicas já narradas nos tópicos anteriores. Não vamos aqui elencar todas, mas tentaremos apresentar quais eram os principais engenhos da região, em que os africanos foram destinados a trabalhar e como estava distribuída a posse escrava.

Os primeiros destes estabelecidos na capitania na virada do século XVI para o XVII foram os engenhos de Nossa Senhora da Ajuda (depois chamado de Velho)129, o Gargaú, o Inhobim e o dos Reis (MACHADO, 1977, p. 129). Quase todos sobreviveram até a metade do oitocentos, apesar das crises e instabilidades narradas. Além desses, outros estiveram presentes na vida econômica da Paraíba desde os primeiros anos da colonização, como foram os casos dos engenhos Una, do Meio, do Cumbe (antigo São Cosme e Damião) e Tibiri.

Mesmo as propriedades sendo as mesmas, a mudança de donos era constante, seja por divisão de herança ou por venda/troca. Independente dos motivos que levavam às alterações de proprietários, os engenhos sempre circulavam entre as principais famílias da capitania/província130. Para se ter uma ideia, os Gomes da Silveira – que aparecem desde os primeiros anos da colonização – permanecem presentes como na figura de Joaquim Gomes da Silveira, senhor do Engenho Gargaú131 e o do Meio em

1856. Parte deste último engenho pertencia a Theresa de Jesus Vasconcelos, em 1835, e foi deixado em testamento para Ana Clara de São José, sua afilhada e filha de Joaquim, que era seu sobrinho (RAMOS, 2011, p. 81-84).

Além de Joaquim, encontramos também Manoel Gomes da Silveira, proprietário do engenho Genipapeiro. Não sabemos ao certo o grau de parentesco de ambos, mas provavelmente eram irmãos132. As informações que temos são que, no início do século XIX, um outro Manoel Gomes da Silveira, provavelmente pai, era Morgado e tinha parentesco com João Peixoto de Vasconcelos, senhor do engenho Pindoba (AHU_CU_014, Cx. 47, D. 3345). Tanto no testamento de Theresa de Jesus Vasconcelos, como nos registros de batismos da freguesia de Nossa Senhora das Neves,

Joaquim Gomes da Silveira aparece como “Capitão” e, depois, como “Comandante

129 Este engenho foi alvo de uma disputa entre seu proprietário, Duarte Gomes da Silveira, e Ambrósio

Fernandes Brandão. Sobre essa querela, ver Gonçalves (2007, p. 147-150).

130 Vamos apresentar apenas alguns importantes senhores de engenho pertencentes às famílias mais

abastadas da Paraíba até o século XIX. Análises mais aprofundadas sobre as relações de poder construída por tais, ver Lewin (1993) e Mariano (2013).

131 O engenho Gargaú foi adquirido por Joaquim Gomes da Silveira em 1845.

132 Em 1856, Manoel Gomes da Silveira aparece como proprietário desse engenho. Como há a

Superior” da Guarda Nacional, demonstrando como essas figuras ocupavam vários

espaços de poder133. Além dessas posses, outro membro da mesma família aparece

como senhor do Engenho Inhobim, também um dos mais antigos da várzea do Paraíba. Era Francisco Gomes da Silveira.

O referido engenho do Meio havia sido criado no século XVII por Ambrósio Fernandes Brandão134. Em documento assinado por senhores em 1792 para a rainha de Portugal D. Maria I, a referida propriedade pertencia a João Rodrigues Chaves. Quatorze anos depois, Amaro Gomes Coutinho Júnior, filho de um dos líderes do movimento de 1817, passava a ser o senhor do engenho (AHU_CU_014, Cx. 47, D. 3345). Além de senhor, ele assumiu o posto de Tenente coronel do Regimento de Infantaria Miliciana. Seu pai, também dono dos Engenhos Una, Barreira e Tibiri, era cavaleiro da Ordem de Cristo e Coronel do Regimento da Infantaria Miliciana. Sua influência econômica e política levou-o ao envolvimento com o movimento de 1817.

Os Caneiro da Cunha compunham outra importante rede familiar proprietária de engenhos e escravos. Em 1856, os engenhos Una e Tibiri estavam sob posse de Manoel Maria Carneiro da Cunha. A família Carneiro da Cunha foi uma das mais influentes e poderosas da Paraíba até o final do século XIX. Desde o final do setecentos, possuíam grande fortuna. Conseguimos identificar o inventário do Capitão Joaquim Manoel Carneiro da Cunha, que vivia nas proximidades do rio Abiaí, na divisa com Pernambuco. Sua riqueza circulou na faixa de 220 contos de réis, dos quais compunham 53 escravos, sendo um dos maiores proprietários da região. Essa família tinha influências também em Pernambuco. Manoel Maria Carneiro da Cunha foi um dos nomes dessa família. Além de grande proprietário, teve forte influência na política local, sendo um dos fundadores do partido Conservador (MARIZ, 1994, p. 142-143).

O engenho Una também foi criado por Ambrósio Fernandes Brandão. Ao final do século XVIII pertencia a Amaro Gomes Coutinho e, depois, passou a ser de Gregório José da Silva Coutinho, ouvidor da Paraíba no início do século XIX, a quem já fizemos referência. Este pode ter herdado a referida propriedade, devido ao casamento que fez Francisca de Morais de Aragão, filha de Amaro Coutinho. Por falta de herdeiros, o

133 Em 1840, ele foi nomeado Tenente Coronel da Guarda Nacional para o Comando Superior da Cidade

da Parahyba (COSTA, 2013, p. 187).

134 Ambrósio Fernandes Brandão é uma das mais importantes figuras da Paraíba no século XVII. Possuía

propriedades em Pernambuco e foi um dos participantes das expedições de conquista da Paraíba, onde se instalou com três engenhos. Era judeu e tinha seu capital associado não só a Pernambuco, como à Bahia e Angola, fazendo parte do chamado consórcio Brandão, que também se envolvia com o comércio na Ásia (ALENCASTRO, 2000, p. 102). Foi autor de uma das mais ricas fontes sobre o Brasil no Seiscentos: Diálogos das Grandezas do Brasil (2010 [1618]).

engenho Una pode ter sido vendido após a morte de Francisca, que ficou com os bens do falecido marido.

Apesar das mudanças de proprietários no decorrer do tempo, alguns engenhos permaneceram sob as mesmas mãos durante mais de meio século. Em 1806, João de Albuquerque Maranhão apresentava-se como senhor do engenho Espírito Santo, estando bem estabelecido e com escravos suficientes para trabalhar. Cinquenta anos depois, essa sua estabilidade permitiu que o engenho permanecesse com o mesmo dono. Em 1856, o referido engenho pertencia a João de Albuquerque Maranhão. Não sabemos se este nome era do mesmo proprietário ou seu filho. Independente dessa informação, o fato demonstra que o engenho Espírito Santo manteve-se sob a mesma família. Koster (2003, p. 106-107), ao viajar para a cidade de Natal, passou pelo engenho Espírito Santo na Paraíba. Descreveu a residência, a refeição que lá fez e a vida do engenho. Um dos momentos marcantes de sua narrativa foi ter afirmado que causou estranhamento entre os moradores da casa por ser um inglês.

O que podemos perceber com esses nomes é o acúmulo de engenhos nas mãos de uma mesma pessoa ou família. No início do oitocentos, Amaro Gomes Coutinho possuía dois: Barreiras e Tibiri, além de outras propriedades. Em meados do mesmo século, Joaquim Gomes da Silveira era proprietário do Gargaú e do Meio, enquanto Manoel Maria Carneiro da Cunha tinha autoridade sobre o Tibiri e Una. Esses eram os principais responsáveis pela produção econômica da capitania/província, controlando os maiores engenhos. Além disso, a força econômica das famílias influenciava vários espaços de poder, para além dos engenhos.

Neste capítulo, analisamos as condições econômicas da Paraíba e identicamos melhorias ocorridas desde o final do século XVIII e início do século XIX, apesar das oscilações e irregularidades do crescimento econômico da capitania/província. Deve-se ressaltar, entretanto, que mesmo sendo uma situação de privilégio, os proprietários da Paraíba não viviam em condições de fausto. Quando de sua visita, Koster (2003, p. 94) informou que parecia ter sido a cidade mais importante em tempos passados. Havia constante falta de dinheiro. As relações comerciais eram estabelecidas por intermédio da hipoteca de casas, terrenos ou escravos (NASCIMENTO FILHO, 2006, p. 117).

Essas questões ficam mais evidentes quando analisamos os inventários e testamentos do período. Nos 29 inventários pesquisados na primeira metade do século XIX, em apenas quatro casos conseguimos identificar a presença de dinheiro entre os bens. Destes, apenas um, Joaquim de Melo Azedo, era senhor de engenho. Nos outros

exemplos, um era negociante (Domingos Gonçalves Chaves) e duas mulheres (Maria Theresa e Anna Quitéria) haviam conseguido dinheiro devido a atividades específicas, como venda de uma casa e de fardamentos, respectivamente.

Contudo, dinheiro não era algo comum na vida cotidiana das pessoas no século XIX. Se formos pensar a cultura material do período estudado, percebemos ainda assim que os grandes abastados não possuíam grandes luxos. O maior proprietário de escravos que conseguimos identificar na nossa pesquisa foi João de Melo Azedo, um dos poucos que tinham dinheiro no momento de sua morte, como já referimos. Possuidor de 157 escravizados, de dois engenhos (Puxi de Cima e o Tabocas), além de fazendas em várias cidades do interior, o referido senhor de escravos somava uma riqueza de aproximadamente 211 contos de réis. Apesar da fortuna, os bens cotidianos de luxo não eram tantos. De ouro, João de Melo Azedo nada possuía. De prata, havia instrumentos doméstico como bule, cafeteira e talheres, que sem dúvida era um diferencial na região, mas que não eram muitos (INVENTÁRIO João de Melo Azedo, ACMF, 1851).

O mesmo se dava com outro grande proprietários, o já citado José Gregório da Silva Coutinho. De dinheiro, nada foi registrado. Entre os objetos de ouro encontrados em seus bens estavam um par de fivelas e brincos, além de uma cruz peitoral e um cordão. Os bens de prata também eram poucos e tinham funções domésticas como talheres (RAMOS, 2011, p. 13-16).

O capitão Joaquim Manoel Caneiro da Cunha parecia ser uma exceção a esses casos. Possuía muitos bens em ouro e prata e algumas alfaias. Fivelas, brincos, cordões para o braço e pescoço, botões, além de objetos de uso domésticos compunham o leque de utensílios da família que demonstravam o status social dos Carneiros da Cunha e certa condição de fausto (INVENTÁRIO do Capitão Joaquim Manoel Carneiro da Cunha, ACMF, 1808).

Muitos desses senhores de engenho dependiam diretamente do capital dos negociantes do Recife ou da Parahyba. Como já foi dito, a década de 1810 trouxe um aumento do número de comerciantes ingleses que se estabeleceram na Paraíba135. Alguns deles foram Mac Klakan, Carlos Holmes e Ricardo Roger. Este último era proprietário do sítio Rogers, que deu nome a um dos bairros da atual João Pessoa. Além de dono de terras, Roger também tinha escravizados. Entre as décadas de 1830 e

135 Esse fenômeno ocorrera em todo o Brasil e foi consequência da vinda da Corte para o Rio de Janeiro e

a abertura dos portos ocorridas no início do século XIX. Atuação dos comerciantes ingleses no Brasil do século XIX, cf. Guimarães (2012).

1840, o referido comerciante levou para batizar três escravas suas, duas das quais eram filhas de Gertrudes136, provavelmente africana, que também era sua propriedade.

Os dois primeiros estabeleceram-se e tiveram êxito na Paraíba. Como já afirmamos, as atividades de Mac Klakan chegaram a incomodar os negociantes do Recife, que tentaram por obstáculos a este. Ambos conseguiram autorização do Imperador, em 1825, para carregar em qualquer parte do Brasil gêneros de primeiras necessidades destinando-as à referida província, diante da seca e da consequente crise de abastecimento causada (CORRESPONDÊNCIA do Ministro dos Negócios do Império ao Presidente da Paraíba de 14 de novembro, AHWBD, Cx. 07, 1824-1825). Esse caso mostra a influência e importância que detinham tais negociantes.

Carlos Holmes, por sua vez, assumiu uma papel fundamental na vida econômica e social da capital. Na análise dos Livros de Notas da cidade da Parahyba do Norte entre os anos de 1841 e 1846, a figura de Holmes é uma das mais presentes, vendendo, trocando e comprando bens. As primeiras relações estabelecidas por este inglês com a província foi no período da independência, quando ele negociava armas e pólvora por pau-brasil (NASCIMENTO FILHO, 2006, p. 118). Não conseguimos fazer um levantamento dos bens de Carlos Holmes, mas identificamos duas escravizadas crioulas crianças na década de 1850, que eram sua propriedade (LB III, AEPB, 1853-55). Suas relações sociais foram construídas não apenas com a população branca, como com os negros livres e libertos137.

Além dos comerciantes ingleses, muitos tinham origem em Portugal e atuavam na Paraíba, estabelecendo contatos com o Recife. Um deles era Victorino Pereira Maia. Este casou-se na capitania na década de 1810, fundando uma firma, a Victorino Pereira Maia e Cia, que atuou até a década de 1870 com seu filho, controlando parte do comércio da Paraíba e emprestando, inclusive, dinheiro para negociantes de Pernambuco. Parte do capital que circulava entre os senhores de engenhos da região, advinham dessa casa de comércio (MARIZ, 1994, p. 162-163). Sua relaçõe talvez chegassem até a Bahia, como demonstraremos no próximo capítulo, onde Maia pode ter estabelecido vínculos para o comércio de africanos.

Este caso é parecido com o de José Luís Pereira Lima e seu filho (José Luíz Pereira Lima Júnior) que construíram uma Companhia de Comércio, emprestando dinheiro e negociando açúcar e algodão, os principais produtos da capitania/província.

136 Acreditamos que Gertrudes era africana por ter suas filhas sido registradas como crioulas. 137 Cf. LB I, II e III, AEPB, e LN da Cidade da Parahyba (1841-1846).

Além de negociantes, eram senhores do engenho da Graça desde a década de 1840 (NASCIMENTO FILHO, 2006, p. 119). Conseguimos identificar dezenove escravizados de José Luís Pereira Lima sendo batizados entre os anos de 1846 e 1860, o que já o caracterizaria como um proprietário respeitável na região.

Outro importante nome do comércio da Paraíba foi João de Albuquerque Maranhão que, além de negociante, era também senhor de engenho. Sua área de atuação iam além dos territórios da capitania, tendo laços estabelecidos em Pernambuco e Rio Grande do Norte (NASCIMENTO FILHO, 2006, p. 80). Quando, em 1808, a Corte portuguesa transferiu-se para o Brasil, uma nau arribou na praia de Lucena. O referido negociante ajudou-a pondo a diposição cem bois (PINTO, 1977, Vol. I, p. 236).

Além da chegada dos negociantes ingleses nas décadas de 1810 e 1820, que dinamizou mais o comércio da Paraíba, entre 1817 e 1824, muitas redes comerciais foram desfeitas e surgiram novas alternativas ao mercado com o Recife (NASCIMENTO FILHO, 2006, p. 114-118). Entretanto, isso não representa uma autonomia em relação a Pernambuco. Muitos negociantes desta capitania/província continuaram exercendo influência na produção e comércio da Paraíba. Não podemos esquecer o caso citado por Koster (2003) do senhor Joaquim (não sabemos seu sobrenome) que tinha negócios na referida capitania, apesar de ser de Recife. Além disso, ao tratar do comércio da região, o viajante inglês reitera a centralidade do porto desta última cidade, quando afirma que a população do Sertão se comunicava mais com Recife do que com a cidade da Parahyba.

Mesmo muitos sendo negociantes e proprietários de engenhos, os conflitos entre esses dois grupos eram constantes. As dívidas destes com aqueles eram cada vez maiores, aumentando a relação de dependência. Aos conflitos de interesses econômicos, somaram-se o de prestígio social, que crescia para os comerciantes (NASCIMENTO, 2006). As diferenças eram grandes entre estes. A Paraíba não tinha um grande comércio e, consequentemente, não desenvolveu muitos comerciantes representativos. Com exceção daqueles que já citamos, os demais atuavam em pequenas atividades. Entretanto, juntos formavam uma classe forte.

Em 1840, logo após D. Pedro II assumir o Trono, 105 negociantes enviaram uma representação ao novo Imperador prometendo obediência, em nome do crescimento econômico e da riqueza do Brasil. Dentre os que assinaram, estavam os já referidos Eduardo Rogers, Carlos Holmes, Victorino Pereira Maia, José Luís Pereira Lima, entre outros (REPRESENTAÇÃO dos Negociantes da Paraíba ao Imperador, BN, II-32, 31,

13, 1840). Na década de 1830, houve uma mudança na moeda que causou prejuízo aos comerciantes da Paraíba que se dirigiram ao presidente da província com queixas sobre a nova medida (NASCIMENTO FILHO, 2006, p. 119). Muitas vezes, atuavam em conjunto aos senhores de engenhos. Já citamos o caso inicial deste capítulo, em que negociantes e senhores enviaram ao Conselho Ultramarino pedido de isenção para a compra de africanos. O mesmo ocorreu cinco anos após a Independência, quando os dois grupos se unem para requisitar isenção do pagamento do dízimo do açúcar e subsídio do algodão (REPRESENTAÇÃO, com abaixo-assinado, dos agricultores e negociantes da Paraíba...,BN, II-32, 31, 17, 1827).

Eram tais senhores de engenho que requisitavam a mão de obra africana. Era por intermédio, muitas vezes, dos referidos negociantes que os escravizados eram trazidos à Paraíba, sobretudo, após ter passado pela Praça do Recife. O desembarque de escravizados vindos da África era algo público e, no caso de Pernambuco, a notícia se espalhava fácil entre as províncias vizinhas, atraindo negociantes.

Esses senhores e negociantes eram os reponsáveis pela posse escrava na cidade da Parahyba do Norte, concentrando boa parte de todos os africanos importados para a capital. A partir da análise de inventários, podemos identificar importantes características da distribuição dos escravos nas propriedades. Infelizmente, o acesso aos documentos cartoriais, a exemplo dos inventários e testamentos, são muito difíceis. Ainda assim, conseguimos fazer o levantamento de vinte e nove inventários para a primeira metade do século XIX, compreendendo não só a capital, como também as vilas de Alhandra e Conde. O total de inventários é pequeno para que possamos fazer uma análise quantitativa das fontes, porém, acreditamos que, mesmo sendo pequenos, alguns números, aliados a outros estudos sobre a Paraíba, podem trazer importantes informações138.

Dos vinte e nove inventários pesquisados, identificamos uma quantidade total de 352 escravizados, formando uma média de 12,13 escravos por inventário. A proporção era de dois homens para cada mulher, tendo 214 homens e 132 mulheres139.

138 Os inventários eram processos abertos após a morte de um indivíduo com o intuito de sistematizar

todos os bens para a partilha entre os herdeiros. Para mais características desse tipo de documento e as possibilidades metodológicas, ver Furtado (2013). Agradecemos aqui a Sirleide Lopes por ter-nos