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com este, transformando-o e alterando-o segundo nossos desejos e vontades. Preenchemos o espaço com aquilo que consideramos importante para nós e então ele passa a ser um

lugar, ponto de conforto e segurança, e também de identificação e reconhecimento. Ao considerarmos que a plataforma é o lugar da prática de financiamento coletivo estamos posicionando a tríade em seus aspectos mais relacionais. Na interação que é ali proposta pelo dispositivo, adotada pelos sujeitos e posta em prática através das conversações e de estratégias e táticas comunicativas, circulam os valores que transformam aquele amontoado de dados informacionais do ciberespaço em um ciberlugar permeado pelos valores da cibercultura. A análise do eixo local é, portanto, um olhar direcionado às manifestações destes valores nas ações do proponente, nas conversas estabelecidas entre este e os colaboradores, e também das possibilidades que a plataforma dá para a circulação destes valores. Por uma questão estrutural optamos por uma análise dividida a partir dos operadores, ao mesmo tempo focando a discussão de um aspecto específico, mas sem deixar de lado a relação íntima entre os operadores, já que analisamos aqui um processo, um movimento.

5.2.1 Convocação

“Olá, meu nome é Paulo Crumbim e eu adoro fazer quadrinhos”. Assim começa a apresentação do projeto Gnut: de maneira leve, informal e que estabelece um diálogo com os que ali passam que podem responder com um simples “oi” ou com um substancial apoio à campanha. O mesmo ocorre na bem humorada abertura do projeto Shogum dos Mortos, que reconstrói um discurso que boa parte das pessoas já ouviu no cotidiano: “Eu poderia estar trabalhando, estudando, cuidando dos meus filhos, ou até mesmo ganhando dinheiro. Mas ao invés disso, eu prefiro fazer quadrinhos, e estou aqui para pedir o seu apoio”. Em ambos uma semelhança: a exposição imediata do gosto pelos quadrinhos, pela sintonia com um séquito de amantes das HQ's que é crucial para o sucesso destes projetos e para o

boom dos projetos de quadrinhos no Catarse que apontamos anteriormente. De diferença,

certa timidez na apresentação de Crumbim, e a convocação direta do apoio dos sujeitos na fala de Daniel Werneck.

O crowdfunding é uma prática cujo sucesso depende da capacidade do proponente em chamar os públicos e a multidão a participarem. Tal processo de convocação é complexo no ciberespaço que, como já discutimos anteriormente, está cheio de caminhos e possibilidades de navegação para os ciberseres que o ocupam. Como atrair a atenção dos sujeitos num oceano de dados e de informação? Em especial fica a dificuldade de convocar

sujeitos para dispor de seu excedente cognitivo, temporal e financeiro para apoiar projetos independentes enquanto podem apenas gastar tempo vendo vídeos de gatinhos no YouTube, conversando no Facebook, acompanhando notícias do seu time ou assistindo pornografia nos diversos sites do gênero. Mobilizar públicos, quando falamos de movimentos sociais, é convocá-los a participar de algo capaz de mudar uma situação estabelecida a partir da junção de pessoas que compartilham valores, vontades e são afetadas de algum modo por tal situação (HENRIQUES et al, 2004).

Ainda que seja um processo marcado pelo consumo podemos traçar um paralelo com este conceito, em especial quando pensamos em projetos independentes como os da nossa análise. O crowdfunding propõe uma fissura nos modos de produção e consumo vigentes e se torna uma alternativa importante para o artista independente. Dois locais em que podemos perceber de que maneira o proponente trabalha a convocação à participação são as abas Sobre e Atualizações, presentes na plataforma. Ali o proponente pode explicar com clareza seu projeto, utilizar de recursos textuais capazes de fisgar o leitor, mantê-lo atualizado e constantemente mobilizado e motivado. Daniel Werneck, autor de Shogum dos Mortos, em seu texto de apresentação do projeto, demonstra a importância do

crowdfunding para os quadrinhos no Brasil e expõe um problema da produção

independente no país:

Fazer quadrinhos não é nada fácil. No Brasil, é mais difícil ainda: os custos são altíssimos e é muito complicado para nós produzir um gibi realmente legal para vocês poderem ler. Felizmente agora existe o crowdfunding, que permite que pessoas legais como vocês financiem projetos interessantes de pessoas malucas como nós! (Shogum dos Mortos, 2013)

Nos estudos sobre comunicação para mobilização social, Henriques et al. (2004) apontam que a coletivização das causas é um dos desafios da mobilização dos públicos. Coletivizar é, mais do que divulgar ou tornar visível um problema, gerar vínculos fortes de corresponsabilidade que tornem os sujeitos mais do que meros participantes, mas sim atuantes no processo; é retirar um problema do âmbito particular para o reconhecimento deste numa dimensão pública, coletiva. Werneck, ao dizer dos custos e da dificuldade de produção, tenta dar visibilidade a um problema e torná-lo público, algo fundamental à coletivização e que pode influenciar no sucesso da sua campanha.

estabelecer um duplo problema (do cenário dos quadrinhos independentes e seu problema pessoal da realização de Shogum dos Mortos), Werneck também busca a atenção dos públicos pela constante reafirmação da importância deles para o projeto e por apontar, mesmo nas entrelinhas, para valores mais amplos, outro ponto fundamental da coletivização. Os valores aqui são aqueles conferidos à cibercultura. Tomemos por exemplo este trecho da descrição do projeto: “Nós não estamos aqui em busca de dinheiro fácil nem de esmolas! Buscamos associados para financiar um projeto artístico independente” (WERNECK. Grifo nosso). Há um reforço dos valores de cooperação e colaboração através da produção colaborativa de algo independente, ou seja, que está fora dos grandes conglomerados do entretenimento e, portanto, é também permeado por certos valores que são vistos como positivos e engrandecedores, valorizando a democratização da produção cultural e do acesso à cultura. Um projeto como Gnut, de Paulo Crumbim, amplia ainda mais a importância dos valores na medida em que a própria obra é por si só um convite à participação e construção coletiva de uma história. No vídeo de apresentação do projeto vemos Crumbim ressaltando que, ainda que haja um roteiro que guie seus desenhos e sua história, o fato dos balões de diálogo conterem apenas imagens abstratas abre para o leitor a possibilidade que ele crie sua trama particular, ainda que guiada pelos desenhos e pela sequência de quadros.

O reforço da mobilização ao longo do período de captação, em ambos os projetos, se dá pelo uso constante da aba Novidades disponibilizada pela plataforma. Foram 18 postagens no projeto Shogum dos Mortos e 12 no projeto Gnut, informando sobre os diversos quadrinistas convidados do projeto, novas recompensas, presença na mídia, andamento do processo criativo, agradecimentos e atrasos do cronograma. Como estas atualizações são enviadas por e-mail para os colaboradores do projeto isto os mantém constantemente atualizados e potencialmente mobilizados. O projeto Gnut fez atualizações semanais, toda terça-feira, com o anúncio do nome de um dos quadrinistas convidados para a realização de uma das recompensas, o Livro Prólogo. Os anúncios eram feitos com uma pequena apresentação em quadrinhos de cada quadrinista, feita por Paulo Crumbim, utilizando um estilo de traço semelhante ao da obra Gnut, seguido por um texto contando alguns trabalhos do convidado e uma imagem que retrata o estilo de traço deles. Ao todo foram sete convidados, sendo que na última postagem foram apresentados o sexto e o sétimo convidados, por serem irmãos gêmeos. Na figura 5 vemos a apresentação do quadrinista Vitor Caffagi:

Fonte: Aba “Atualizações” do projeto Gnut

Acreditamos que este tipo de atualização é um importante aspecto de convocação à participação, especialmente para aqueles que ainda não contribuíram com o projeto, pois fornece mais informações capazes de capturar a atenção dos ciberseres que por ali vagueiam. Daniel Werneck também utiliza esta estratégia ao longo da sua campanha, em três postagens, feitas de maneira menos sistemática.

Há um esforço dos dois projetos em continuar o processo de convocação dos públicos utilizando a aba de Novidades, mantendo o interesse pelo projeto vivo, em especial na criação de novas metas a cumprir quando o projeto atinge o valor mínimo pedido. Tanto Gnut quanto Shogum dos Mortos ultrapassaram o valor inicialmente pedido, mas Shogum teve uma particularidade: em dois dias e meio alcançou a meta, estabelecendo um recorde na época. Isto abriu a possibilidade de criação de novos objetivos de arrecadação que ampliariam o escopo das recompensas, ao mesmo tempo em que amplia o desafio da mobilização: como manter o projeto vivo durante o período

restante em que ele estaria disponível no Catarse? Isto esbarra em algumas dificuldades, desde a possibilidade de criar ou melhorar as recompensas e o produto final até o desconhecimento parcial do processo e das pequenas burocracias do financiamento coletivo por parte dos colaboradores. Num post do dia 16/01/2013 intitulado “O que fazer nos próximos 59 dias?” Werneck informa que a meta já está praticamente batida, o que ocorre de fato no dia 17, e já apresenta três novas metas a serem cumpridas. Daniel Werneck usa a retórica do desafio para trazer os ciberseres a uma espécie de jogo que se estabelece a partir deste momento: “Para conseguir essa melhoria no livro, que vai beneficiar todos os apoiadores do nível dois para cima, ainda precisaríamos arrecadar o dobro do dinheiro que arrecadamos até agora. Será que vocês conseguem??”. Este tipo de apelo é recorrente nas postagens subsequentes, em que há sempre alguma frase que resgata o desafio das novas metas, inclusive com a criação de novas metas à medida que as antigas são alcançadas.

Em dois momentos Werneck aponta para uma paralisação na arrecadação. A primeira é logo após a meta ser alcançada, em post do dia 18/01/2013 - e isto é atribuído ao fato de algumas pessoas não entenderem que, apesar do sucesso rápido do projeto, ele continua aberto para novas contribuições até o final: “(...) depois que atingimos a nossa meta, a arrecadação simplesmente parou. Muita gente pensa que, depois que a meta é alcançada, o projeto fecha! Nós vamos continuar abertos até 15 de Março, e todo mundo que puder ajudar ainda pode contribuir”. Um segundo momento de paralisação ocorre na época do carnaval no Brasil. Em postagem feita no dia 14/02/2013 ele diz que “depois de um carnaval devagar quase parando, nossa campanha está ressuscitando, tal qual fênix negra fugindo das labaredas do inferno!!”. Na mesma postagem identificamos também elementos para convocar e remobilizar os sujeitos, mostrando a presença midiática do projeto (o que dá a ele mais visibilidade e importância), ensinando como os colaboradores podem subir de nível de contribuição e lembrando a próxima meta a ser alcançada. Por fim, há um pedido para que todos continuem a ser corresponsáveis pelo projeto, ajudando na divulgação da campanha. Isto ressalta a necessidade por parte do proponente de alcançar a coletivização de seu projeto, na medida em que a convocação passa a ser não só tarefa deste, mas algo apropriado pelos outros vértices da tríade. Na coletivização esperamos que as pessoas não apenas tenham a informação, mas possam incorporá-la e compartilhá-la e, no caso dos projetos de crowdfunding, se sintam mais do que apenas consumidores, como parte de uma experiência mais singular de produção e consumo.

5.2.2 Justeza do Processo

Pouco funcionaria a coletivização de um projeto e as artimanhas engendradas pelos proponentes para mobilizar as vontades dos ciberseres se faltar a este sistema cooperativo- comunicativo de produção-consumo seus aspectos de justeza, conforme propôs Benkler. De fato é difícil pensar que nos mobilizaríamos, dispendendo tempo, dinheiro e força vital por algo que consideramos injusto ou minimamente suspeito. Buscamos elencar alguns elementos disponíveis neste lugar que dizem das formas que os elementos de justeza são colocados no processo, tendo em conta o que foi discutido anteriormente quanto à justeza como algo que é avaliado a partir dos nossos valores e, neste caso, dos valores conferidos à cibercultura, tanto apropriados quanto difundidos pelo financiamento coletivo - lembrando que a sinceridade, honestidade e credibilidade do proponente e da plataforma influenciam na construção de confiança entre a tríade relacional do crowdfunding. Para orientar melhor nosso olhar, focamos primeiramente nos aspectos de justeza do processo sob o ponto de vista da transparência deste. Num segundo momento direcionamos o olhar para as recompensas para entendermos em que medida estas se apresentam condizentes com o projeto quanto a justeza do processo, dos resultados e das intenções. Por fim trabalhamos com a ideia da reputação como algo criado na relação entre a tríade e que interfere diretamente na percepção de justeza do processo por parte dos proponentes.

Tanto Gnut quanto Shogum dos Mortos pecam em não deixar acessível o orçamento detalhado do projeto, algo comum em outras campanhas. Gnut tem um pequeno gráfico que dá uma ideia visual do montante de dinheiro que será usado nas recompensas, nas taxas do Catarse e na criação do produto em si, porém acaba sendo pouco explicativo. Mesmo assim há certa transparência, senão nos números, no acompanhamento do processo e na abertura ao diálogo, que é perceptível nas postagens feitas na aba Atualizações e em algumas respostas na aba Comentários. Um trecho do texto de abertura de Daniel Werneck na aba “Sobre” é um bom exemplo de como a transparência está também na forma como o proponente se dirige aos potenciais colaboradores.

Nós não estamos aqui em busca de dinheiro fácil nem de esmolas! Buscamos associados para financiar um projeto artístico independente! Por isso vamos deixar todos os nossos

orçamentos e cronogramas disponíveis para visualização na internet. Cada centavo do dinheiro de vocês será contabilizado e vamos fazer uma prestação de contas pública para que haja transparência total no processo. (Projeto Shogum dos Mortos, 2013)

Importante notar que o autor fala da abertura do orçamento, algo que não ocorreu dentro da plataforma do Catarse. Tais informações ficariam disponíveis, a princípio, num

blog exclusivo aos que já colaboraram121. De toda forma dentro do nosso escopo de

análise, a ausência desta informação dentro da plataforma, se é por um lado problemática por não deixar transparente uma parte importante do processo, parece não ter afetado demais o vínculo entre proponente e colaboradores. O sucesso do projeto comprova que se estabeleceu inequivocamente uma relação de confiança entre os colaboradores e o proponente. Uma evidência desta relação está na aba de Comentários em que pudemos perceber que o autor do projeto, seja em seu perfil pessoal ou utilizando o da fanpage do projeto no Facebook, respondeu atenciosamente às duvidas e acatou algumas sugestões dos colaboradores, como podemos ver nos comentários copiados abaixo: