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3.2 Social exchange theory

3.2.4 Likeability, trust, and reciprocity

Vimos no primeiro capítulo como, para Tuan, conhecer o espaço é um processo de experiência, a “capacidade de aprender a partir da própria vivência” (TUAN, 1983,p.10). À medida que arriscamos mais e vamos impondo nossos corpos no mundo, o experimentamos de diversas formas e passamos a compreender melhor o espaço que nos cerca. Experiência é, pois, aprendizado: só conhecemos a realidade como um “construto da experiência, uma criação de sentimento e pensamento” (idem p.10). O ciberespaço é posto em movimento e ação por uma multidão de ciberseres, construtos de dados etéreos alimentados pela informação que nós, usuários, colocamos disponível ali. Mas quais as características de tal multidão cibernética? Podemos dizer que ela se equipara, em alguma medida, ao que os estudos sobre tal conceito trazem ao longo dos anos?

Para Tarde (2005, p.51), “as multidões não são apenas crédulas, são loucas”, e em sua loucura, são paradoxais e às vezes incongruentes, submetidas às forças da natureza. Acreditamos que a multidão pode apresentar comportamentos muito distintos e atuar no espaço de modos peculiares, ainda que sempre se mostre como algo generalizado, em que as partes que compõem o todo, ainda que únicas, são difíceis de particularizar. A multidão às vezes é temida, em especial por aqueles que estão no poder, enquanto os que dela fazem parte em geral a consideram um bem, uma representação da força do povo – como é comum em grandes manifestações por exemplo. Esta múltipla natureza das multidões é um debate que se inicia ainda na Grécia Antiga, com Platão e Aristóteles. Enquanto Aristóteles pensava a multidão como dotada de força, de poder de decisão, de presença política, Sócrates negava que a multidão fosse útil ao processo político por ser emocional, não ser dotada de uma consciência única, incapaz de dar respostas. Essa dualidade é marcante ao longo dos anos, encontra paralelos na idade média, com Maquiavel e Hobbes, e ainda hoje permanece como ponto tensionador (TORRES, 2010).

A experiência das multidões é dinâmica e cheia de oposições. Retomando o exemplo das manifestações que tomaram conta do Brasil durante a Copa das Confederações, podemos perceber como a multidão passou por momentos distintos de enquadramento, passando de baderneiros e vândalos para a voz da insatisfação do povo em plataformas móveis (tablets e smartphones). Uma das recompensas transformava o apoiador num personagem do jogo. Esta recompensa é bastante utilizada em projetos de jogos no Kickstarter e em projetos de quadrinhos no Catarse e oferece uma das experiências mais singulares e interessantes ao colaborador. http://catarse.me/en/feed-it-no-ipad

poucos dias – e retornando à predominância de um enquadramento vândalo, ao fim. Dizia Le Bon (1903), que uma multidão não pode se autoconduzir, que ela precisa de líderes carismáticos, capazes de controlá-la em alguma medida. Tanto a mídia quanto os governos passaram boa parte do período das manifestações buscando seus líderes, uma voz singular que reunisse as demandas da multidão de brasileiros que foi às ruas. Contudo, a multidão da qual falava Le Bon em seu tempo não é a mesma que se levanta num rompante nestes tempos ciberculturais. Hardt e Negri (2004) contestam Le Bon ao afirmar que “a multidão, embora se mantenha múltipla e internamente diferente, é capaz de agir em comum, e portanto de se governar” (p.140). O sociólogo Manuel Castells, em entrevista ao site Fronteiras do Pensamento82 no início das manifestações em São Paulo, ressaltou que a mudança fundamental está na auto-organização que desvincula a necessidade de lideranças:

O que muda atualmente é que os cidadãos têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia. Antes, se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. Mas, agora, a capacidade de auto-organização é espontânea. Isso é novo e isso são as redes sociais. E o virtual sempre acaba no espaço público. Essa é a novidade. Sem depender das organizações, a sociedade tem a capacidade de se organizar, debater e intervir no espaço público. (Castells, 2013. Entrevista. Fronteiras do Pensamento)

Este processo de auto-organização da multidão é facilitado pelos meios digitais. Boa parte das manifestações foi organizada através da criação de eventos no Facebook, com a adesão de milhares de pessoas, abrindo também fóruns para discussão das pautas de reivindicação. Não é nosso objetivo aqui entrar nos pormenores de tais discussões, mas a ausência de lideranças ficava patente nestas conversas, que pregavam a ojeriza aos partidos e a movimentos sociais “vermelhos”. Tanto a auto-organização quanto esta dificuldade em identificar causas perante a heterogeneidade de opções são características da multidão de ciberseres. Mesmo quando há um sujeito “organizador” da mobilização de uma multidão,

82 Castells esteve no Brasil para a conferência Redes de Indignação e Esperança, em São Paulo, no dia 11/06, poucos dias antes da manifestação que gerou a mobilização pelo país posteriormente. Contudo, em São Paulo as manifestações já vinham ocorrendo com uma presença considerável de cidadãos, chamando a atenção da mídia local e dos participantes da conferência.

sua figura não é vista como a de um líder.

O caso que abre o livro de Clay Shirky (2012), “Lá vem todo mundo: o poder de organizar sem organizações” é um bom exemplo disto: para encontrar um celular que sua amiga havia perdido em um taxi, Evan Guttman mobilizou online uma multidão de pessoas que se sensibilizaram com a causa para ajudar a recuperar o telefone, que continha informações preciosas sobre o casamento de Ivanna, a dona do aparelho. O caso tem algumas peculiaridades. Rapidamente se descobriu que o aparelho estava em posse de uma garota no bairro Queens, pois ao tirar fotos dela com o celular, estas eram enviadas automaticamente para o e-mail da dona do telefone, Ivanna. Ao tentarem entrar em contato e explicar a situação, Ivanna e Evan foram respondidos com dureza pela garota e sua família, recebendo inclusive ameaças. Indignado, Evan expôs as conversas na rede e aos poucos o caso se espalhou de tal forma pela rede que até a polícia de Nova York, que pouco iria fazer a respeito desse caso, se viu obrigada a agir indo atrás da garota que estava com o telefone. Segundo Shirky, ainda que tenha particularidades, o que este caso mostra é o poder da ação grupal:

A perda e a recuperação do Sidekick (modelo do celular) é uma história sobre muitas coisas – as tendências obsessivas de Evan, a sorte de Ivanna por tê-lo como amigo, o alto preço que os celulares alcançaram -, mas um dos temas que perpassam todo o caso é o poder da ação grupal, usando as ferramentas certas. Apesar de seus esforços heroicos, Evan poderia não ter conseguido recobrar o telefone se tivesse trabalhado sozinho. Ele usou a rede social que já possuía para divulgar a notícia, e ela, por sua vez, o ajudou a encontrar um enorme público para o problema de Ivanna, um público disposto a fazer mais do que apenas assistir da plateia (SHIRKY, 2012, p.11,12)

Evan não era percebido como um líder. Pelo contrário, o movimento de apoiadores fluía independente de seu desejo, crescendo de tal forma que foi difícil encontrar um fórum virtual capaz de armazenar todas as conversações geradas pela multidão que se filiou a seu apelo. Tais conversas também passaram a fugir do assunto principal, tratando de temas diversos e por vezes preconceituosos (Sasha, a garota do Queens que pegou o telefone, é negra).

Yi-Fu Tuan ao discutir o apinhamento, compara este à multidão por serem, ambos, resultado da profusão de corpos num espaço delimitado. Mas o autor também acredita que, muitas vezes, o apinhamento é benéfico, pois ele permite a ação conjunta: “quando as

pessoas trabalham juntas por uma causa comum, um homem não tira o espaço do outro, pelo contrário, ele aumenta o espaço do companheiro” (TUAN, 1983.p.73). Ao trabalharem juntos, os ciberseres da multidão não ocupam o mesmo espaço e nem o retiram, mas ampliam o alcance de determinada causa para uma espacialidade ainda maior, o que em casos como o de Evan e Ivanna, aumenta a pressão para que a polícia de Nova York faça algo. No caso do crowdfunding, o rompimento das barreiras geográficas graças à ampla penetração da web pelo mundo e a diminuição dos custos para organização das multidões (SHIRKY, 2012) permite que os espaços não sejam disputados, mas sim compartilhados, e assim a multidão pode vagar mais livremente e descobrir locais aos quais queiram dar atenção.

Um interessante aspecto das multidões que resulta dos fatores supracitados é a heterogeneidade de sua composição, que se intensifica ao longo dos anos e na web se torna de alcance global. Podemos ter pessoas de diversos cantos do planeta agindo em prol de algo, como foi o caso da multidão envolvida nos tuitaços anti-SOPA e PIPA, dos quais falamos antes. A multidão nem sempre foi assim tão diversa. Na Grécia Antiga, a multidão, fosse ela aristotélica ou socrática, era limitada tanto numericamente quanto em sua composição. Pertenciam à multidão aqueles mesmos que possuíam voz na ágora: os homens livres gregos. Se Sócrates acreditava que a maioria era má e era contrário à democracia da decisão majoritária, Aristóteles já se posicionava como defensor desta, integrando-a à vida da pólis e à política. A multidão nessa concepção passa a fazer parte da vida social e política, mas não completamente: “Para Aristóteles, o melhor modelo de democracia é aquele em que a multidão exerça certas funções eletivas, mas cabendo aos 'melhores cidadãos' ou aos 'especialistas' as funções governativas e judiciais” (TORRES, 2010, pg. 31). No caso de Evan em busca do celular de Ivanna, ou para ficar no exemplo deste trabalho, projetos de financiamento coletivo que apelam à multidão, todos têm a permissão para participar (ainda que limite-se, por outro lado, às questões de acesso à web), independente de gênero, cor ou credo.

Não falamos mais em “melhores cidadãos”, mas de uma diversidade de pensamentos na multidão, que refletem, por exemplo, o interessante posicionamento de Hardt e Negri (2004) quanto à multidão. Os autores a consideram como a força para mudança no regime democrático das nações. Ela seria beneficiada pelas redes telemáticas que formam uma comunidade global, para cumprir seu desafio que é esse novo projeto de democracia. A multidão é compreendida como um sujeito social ativo, composta não por

uma massa heterogênea e incoerente, mas sim por uma miríade de singularidades, “um sujeito social cuja diferença não pode ser reduzida à uniformidade, uma diferença que se mantém diferente” (HARDT, NEGRI, 2004, p.139). O processo de financiamento coletivo pode ser entendido como um ato tático que, a partir de bases capitalistas, busca uma via alternativa para a inserção dos sujeitos no mercado (no caso de projetos musicais, de cinema e empreendedores, por exemplo), ou viabilizar o financiamento de causas que afetem a cidade, a sociedade e as dinâmicas da política e da democracia. Neste sentido o apelo à multidão é uma forma de ressaltar a singularidade, o potencial de ação individual destes ciberseres que, juntos, são capazes de realizar mudanças pontuais, porém significativas, em diversas instâncias da sociedade. Contudo, os sujeitos sociais da multidão possuem uma singularidade relativa, que sozinha pouco pode fazer. São ainda parte da generalidade típica da multidão, que só exercem de fato sua força singular quando fazem parte do coletivo, da ação generalizada que é típica ao movimento das multidões.

O exercício das singularidades da multidão revela outra característica destes ciberseres: sua presença num contexto de multiterritorialidade (HAESBAERT, 2004). Como discutimos anteriormente quanto aos processos de des-re-territorialização que permitem a existência de uma multiterritorialidade, acreditamos que isto se dá principalmente pelas apropriações que os sujeitos fazem destes terrenos virtuais. A multidão de ciberseres ocupa todo o ciberespaço. Mesmo quando estamos dormindo, nossos rastros de ação estão presentes nos territórios da rede, nossos lugares (blogs, perfis,

e-mails) continuam ativos e abertos ao olhar do outro. Esta presença multiterritorial é

fundamental para entendermos o porquê de crowdfunding: o apelo é feito a essa multitude de seres presentes no ciberespaço e seus territórios. Não dizemos aqui que a multidão se vincula a diferentes territórios mas sim que ela passeia por todos eles, pode ser convocada a apropriar-se de cada canto do vasto ciberespaço. Fazendo-o, os sujeitos componentes da multidão podem se apropriar deste espaço indiferenciado como lugares ou territórios, o que não retira deles a qualidade de membros da multidão de ciberseres, mas pode, sim, movê-los para ter também uma experiência como públicos quando se vinculam a lugares e territórios específicos.

Tentamos até aqui explorar algumas características que estão presentes nas teorias da multidão ao longo dos anos, mas focando em especial naquelas que acreditamos serem parte fundamental às multidões de ciberseres que nos interessam mais diretamente. A multidão possui uma natureza múltipla, pode ser percebida como boa, como má, como

capaz ou incapaz, como decisiva ou apenas um ruído. A ausência de lideranças e a possibilidade de auto-organização, a singularidade dos que a ela pertencem e sua presença em múltiplos (ciber) territórios são elementos que nos permitem crer que a multidão experiencia o mundo de uma maneira diferente dos públicos.

A multidão é marcada por um tipo de experiência fortemente emocional, que tem algo de animal diria Tarde, um “feixe de contatos psíquicos essencialmente produzidos por contatos físicos” (TARDE, 2005, p.6). A multidão experiencia no rompante, no apinhamento de seus corpos (físicos ou em forma de dados83), que se reúnem num espaço ou ciberespaço e compartilham um determinado momento. Tuan (1983) ao discutir a questão da espaciosidade e do apinhamento vai dizer que o primeiro é da ordem da liberdade e da solidão, condição para sentir a imensidão, enquanto o último remete ao aprisionamento causado pelo alto volume de corpos. Mas Tuan vai dizer também que a multidão, resultante do apinhamento, pode ser “divertida”, pois as vidas humanas “são um movimento dialético entre refúgio e aventura, dependência e liberdade” (TUAN, 1983, p.61), e dá o exemplo dos shows ao ar livre, que possuem ao mesmo tempo um aspecto libertário - do céu acima e visível e do campo aberto - e do apinhamento, da multidão de fãs enlouquecidos das bandas. A experiência da multidão no ciberespaço se aproxima desta ideia de Tuan, da ambivalência humana quanto às sensações de espaciosidade e apinhamento, que superam seus significados etimológicos. Fazemos parte voluntariamente de uma multidão de ciberseres que compõem os volumes de dados na tríade ciberespaço- lugar-território, apropriando-nos destes. Como membros da multidão, podemos ser convocados a participar e interagir em diversos terrenos cibernéticos, a mudar nossa forma de experienciar esse espaço: a deixar de ter apenas a intensa e sentimental experiência da multidão, um tanto disforme e psíquica, para ter também uma outra experiência, como públicos mobilizados e convocados, afetados.