83 O apinhamento em forma de dados se manifesta por exemplo numa tática hacker para derrubar sites do governo, algo que ocorre durante grandes manifestações e protestos de cunho político. Os hackers usam o apinhamento de dados na forma de ataques DDOS que consiste na utilização de conexões simultâneas da multidão de ciberseres que enviam dados para um site específico, sobrecarregando aquele território e derrubando o acesso a ele. De forma menos organizada, o apinhamento é também percebido em qualquer site que receba um grande número de acessos ao mesmo tempo, como ocorre na venda de ingressos para grandes eventos como o Rock In Rio.
Poderíamos dizer que os públicos são um Godzilla domesticado, se pensarmos como Gabriel Tarde, para quem “a formação de um público supõe uma evolução mental e social bem mais avançada que a formação de uma multidão” (TARDE, 2005, p.9). Os públicos, agrupamentos mais definidos e específicos, dependentes dos vínculos que geram a partilha das ideias e vontades, são capazes de ter uma experiência coletiva mais organizada, pois se prendem à “ilusão inconsciente de que nosso sentimento nos era comum a um grande número de espíritos” (idem, p.7). Multidão e público compartilham características – o contágio invisível, a importância de uma liderança ainda que difusa, a partilha de uma causa e de seus valores, etc. – mas se diferenciam quanto à forma e capacidade de ação. A multidão age no rompante, carregada pelo emocional e pelo apinhamento no espaço. Os públicos funcionam por outra lógica: a da formação de vínculos e a afetação pela experiência com as coisas do mundo.
Alguns autores são fundamentais à nossa conceptualização de públicos, como Gabriel Tarde, John Dewey e Louis Quéré. Em comum, há uma percepção dos públicos como um grupo mais organizado, ainda que o compartilhamento de um espaço físico não seja necessário. Tarde, por exemplo, aponta que o surgimento dos públicos se dá a partir da criação da prensa capaz de espalhar escritos literários e jornalísticos, capazes do “transporte do pensamento a distância”, de tal forma que seus leitores formariam os primeiros públicos. Num primeiro momento, tal público é literário e não filosófico, pois este:
só se delineia a partir do momento, difícil de precisar, em que os homens dedicados aos mesmos estudos foram em número demasiado grande para poderem se conhecer pessoalmente, percebendo que os vínculos de uma certa solidariedade entre eles só se estabeleciam por comunicações impessoais de uma frequência e regularidade suficientes (TARDE,2005, p.11).
Para Tarde, os indivíduos podem pertencer a diversos públicos simultaneamente. No ciberespaço exercemos esta múltipla filiação como públicos de multiterritorialidades e multilugares, como vimos anteriormente com Haesbaert (2004). Estas múltiplas filiações como públicos não se dão apenas pela adesão a um novo território ou pela valoração de terrenos transformando-o em lugar. O processo de formação de um público é dependente de dois outros fatores: a afetação e a experiência.
partir da dicotomia entre público/privado. Segundo Almeida (2009, p.18), para Dewey “o que diferencia a vida pública da vida privada são as consequências das ações aí realizadas”. A natureza pública de determinada ação existe a partir do momento em que as consequências afetam sujeitos para além daqueles envolvidos diretamente na ação, no âmbito privado do agir. A afetação indireta é fundamental para o conceito de públicos de Dewey. Os sujeitos sofrerão algo e a partir disso irão agir, e tão somente na ação, chamados a serem (call into being) é que serão públicos.
Nós tomamos nosso ponto de partida do fato objetivo que os atos humanos têm consequências sobre outros, que algumas dessas consequências são percebidas, e que sua percepção leva ao esforço subsequente para controlar a ação de forma a garantir algumas consequências e evitar outras. Seguindo esta pista, somos levados a observar que as consequências são de dois tipos, aquelas que afetam as pessoas diretamente engajadas numa transação, e aquelas que afetam outros além daqueles imediatamente concernidos. Nesta distinção encontramos o germe da distinção entre o privado eu público84 (DEWEY, 1954, p.12, tradução nossa)
Dewey aponta que somos tocados por algo para então agir, e esse toque pode se dar de maneira inconsciente ou não. São estes “indireta e seriamente afetados para o bem ou para o mal”85 aqueles capazes de formar um “grupo distinto o suficiente para requerer reconhecimento e um nome86” (DEWEY, 1954, p.35, tradução nossa), no caso, O Público.
Esta distinção que forma o público é retomada por Quéré (2003) para quem os públicos são uma modalidade da experiência. Para o autor o público vive experiências, sofre algo – a fruição estética ou um acontecimento, por exemplo – e são afetados nesse processo.
Além de pacientes, públicos são também agentes. Diante disso, pensar a experiência dos públicos é pensar um processo em que aqueles que são afetados e se posicionam na interação avaliam-se a si mesmos e ao mundo, conformando suas perspectivas, pontos de vistas e formas de intervir nos domínios da vida prática. (ALMEIDA, 2012, p. 69-70)
84 We take then our point of departure from the objective fact that human acts have consequences upon others, that some of these consequences are perceived, and that their perception leads to subsequent effort to control action so as to secure some consequences and avoid others. Following this clew, we are led to remark that consequences are of two kinds, those which affect the persons directly engaged in a transaction, and those which affect others beyond those immediately concerned. In this distinction we find the germ of the distinction between the private and the public
85 indirectly and seriously affected for good or for evil 86 group distinctive enough to require recognition and a name
Os públicos agem coletivamente, e a experiência singular do indivíduo é peculiar, tornada própria, e compartilhada, sempre, pois é nesta partilha do sentido, na afetação mútua e na capacidade de ação que se forma um público. Um grande acontecimento capaz de romper o tecido social, como o “11 de Setembro”, afetou de diferentes maneiras um grande número de pessoas pelo mundo, o que gerou o surgimento de públicos diversos que compartilhavam experiências semelhantes quanto àquele acontecido e agiam sobre ele: os que perderam parentes no acidente, os que se mobilizaram para ajudar, os sobreviventes, os anti-islâmicos, os apoiadores do terrorismo, dentre outros. As questões espaciais pouco importam, não precisamos compartilhar uma mesma geografia para sermos parte de um público. Tampouco a temporalidade é exata, já que o acontecimento reverbera no tempo e os sujeitos são afetados em diferentes momentos. O que os une como público é a partilha de sentidos, o sofrimento que leva a ação, que toma distintas formas a depender da experiência vivida e partilhada
Os públicos existem no âmbito das interações. São, em essência, algo comunicacional: são convocados e afetados por algo na/da sociedade, dialogam dentro e fora de seu agrupamento, sofrem as interferências do mundo e agem sobre ele, interagem com ele. É neste ato da interação, aliada à própria experiência, que os públicos surgem. Nesta perspectiva, os públicos não existem a priori, mas são chamados a ser no momento de sua ação. Nossa experiência como públicos, é que nos torna “parte de” algo e não “apenas mais um”, e ser parte de um projeto, ser corresponsável pelo seu sucesso é o que move e sustenta a prática de financiamento coletivo, por exemplo.
3.4 Reconfigurando os públicos: a economia afetiva e a mudança na relação