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Strengthening the Norwegian capacity for global health and vaccination research

3.3 Programme achievements

3.3.1 Strengthening the Norwegian capacity for global health and vaccination research

a. Atividades

As atividades dos escritores são fundamentais, não somente na avaliação de status, como também na avaliação de valor e na organização discursiva do texto, como veremos adiante. Entretanto, é na avaliação de status que elas têm um papel determinante, já que definem a função comunicativa das orações e restringem o tipo de status que lhes pode ser atribuído.

A Tabela 1 mostra as ocorrências das 14 atividades no corpus, em números e em porcentagem. Como se pode ver, a atividade mais freqüente nos abstracts analisados foi narrar evento, com 193 ocorrências, ou 30,7% do total de atividades. A predominância dessa atividade demonstra a grande importância dada pelos médicos, autores dos

abstracts, à seção Metodologia. Conforme mencionei no capítulo anterior, além da atividade narrar evento, que utiliza o tempo pretérito simples para, literalmente, narrar os eventos relacionados à metodologia da pesquisa em sua ordem cronológica, a metodologia também pode, nos abstracts analisados, ser descrita com a utilização do tempo presente, em cujo caso a atividade é a de descrever a metodologia. No entanto, a análise das atividades revelou que esta atividade ocorreu em bem menor escala, com um total de 10 ocorrências, ou 1,6% do total.

O exemplo (1), abaixo, mostra uma ocorrência da atividade narrar evento, enquanto o exemplo (2) ilustra uma atividade descrever a metodologia:

(1) Foram selecionados 61 pacientes portadores de nódulo tireoidiano, (...) (ENDOC05)

(2) Padrões quantitativos são extraídos de pelo menos 2 minutos de dados livres de artefatos, (...) (NEUROP04)

Categorias número porcentagem narrar evento 193 30,7 apresentar resultados 93 14,8 interpretar resultados 84 13,4 afirmar fato 78 12,4 generalizar 51 8,1 estabelecer objetivo(s) 49 7,8 apresentar a pesquisa 24 3,8 estimar (método/pesquisa) 21 3,3 fazer recomendação 13 2 descrever a metodologia 10 1,6 citar pesquisas anteriores 6 1,0

formular hipótese 5 0,8

fazer previsão 1 0,2

TOTAL DE ATIVIDADES 628 100

Tabela 1: ocorrências das atividades nos abstracts

A segunda atividade mais freqüente no corpus foi apresentar resultados, com 93 ocorrências, ou 14,8% do total. Interpretar resultados, por sua vez, ocorreu 84 vezes, ou 13,4% do total. Os exemplos (3) e (4) ilustram, respectivamente, uma ocorrência de

apresentar resultados e uma de interpretar resultados:

(3) As subclasses foram detectadas em 33/42 (79%) das amostras. (HEMAT07)

(4) O coágulo sangüíneo apresentou uma quantidade mínima de radiação. ( HEMAT08)

Enquanto a oração do exemplo (3) apresenta os dados brutos (ou seja, o número exato encontrado), no exemplo (4) os autores oferecerem sua interpretação do resultado; o que, para esses pesquisadores, representa uma “quantidade mínima de radiação”, para outros, talvez, não fosse considerado como tal.

É interessante notar que, ainda que somemos as ocorrências das duas atividades relacionadas à seção Resultados, o total de ocorrências destas será 177, o que demonstra que a seção Metodologia recebe maior destaque, nos abstracts analisados, do que a própria apresentação dos resultados. Se pensarmos que os autores dos abstracts dispõem

de um espaço bastante limitado no qual resumir suas pesquisas, o fato de que estes dedicam tanto desse espaço à narração detalhada da metodologia adotada parece ir ao encontro da noção da Latour de encenação, discutida na seção 1.2, ou seja, a estratégia utilizada pelos escritores cientistas para evitar a refutação de suas proposições através do detalhamento minucioso das “provas” pelas quais passaram suas teorias.

Igualmente, a grande ocorrência das atividades apresentar resultados e interpretar

resultados também pode ser considerada como um exemplo de encenação, especialmente considerando que a primeira, que envolve relatar os resultados em sua forma mais bruta, foi predominante: novamente, a opção dos autores dos abstracts de apresentar, num espaço tão limitado, os números brutos antes de interpretá-los, é sugestiva de uma estratégia de encenação, já que os números comprovam as interpretações, oferecendo, assim, ainda mais uma “prova” pela qual passou a teoria apresentada pelos escritores. Discutirei em maiores detalhes a função dessas atividades no modelo de avaliação de Hunston quando apresentar a análise da avaliação de valor.

A quarta atividade mais freqüente foi afirmar fato; essa atividade ocorreu tanto na introdução dos abstracts quanto na sua conclusão, embora sua freqüência nas introduções tenha sido bem maior (85% das ocorrências totais). Por outro lado, a atividade estimar (a pesquisa ou o método) ocorreu somente em 3,3% do total. Esse resultado confirma o que é esperado de textos científicos, ou seja, que haja uma quantidade bem maior de fatos do que opiniões, bem como a teoria de Hunston (1993: 193), de que a avaliação, nesses textos, é expressa de modo implícito, evitando a linguagem atitudinal.

Por outro lado, a atividade formular hipótese ocorreu somente 5 vezes no corpus analisado, indicando que, contrariamente ao que se poderia esperar em relatos de pesquisa experimental, os abstracts de artigos médicos não seguem o paradigma quantitativo, baseado no raciocínio dedutivo.

b. Grau de comprometimento dos escritores

Através da análise da avaliação de status, é possível verificar o grau de comprometimento dos escritores de um texto, tanto em relação às suas proposições (no sentido hallidiano) quanto em relação às suas propostas (idem). Esse comprometimento é expresso através do grau de certeza ou incerteza (hedging) adicionado a cada proposição, e, no caso das propostas, através do valor da modulação (alta, média ou baixa). Irei discutir cada caso separadamente.

Proposições: certeza X incerteza (hedging)

A Tabela 2 demonstra o status das proposições contidas nos abstracts com relação ao seu grau de certeza. Considerei, nesta análise, somente as proposições cujo status fosse sabido, certo, provável ou possível, excluindo, desse modo, as opiniões (atividades

estimar a pesquisa e estimar o método). Nos termos hallidianos, as categorias de status

certo, provável e possível correspondem, consecutivamente, às modalizações alta, média e baixa (ver Quadro 3, na página 34 deste trabalho).

Categoria número porcentagem

CERTO (modalização alta) 490 82,5

SABIDO 78 13,1

POSSÍVEL (modalização baixa) hedging 19 3,2

PROVÁVEL (modalização média) 7 1,2

TOTAL DE ATIVIDADES 594 100

Tabela 2: graus de certeza nas proposições, em número e porcentagem

Como se pode ver na tabela acima, a certeza é o status predominante nas proposições contidas nos abstracts estudados, representando mais de 80% do total. Deve-se lembrar, entretanto, que, conforme discutido no item anterior, as atividades mais freqüentes nos

necessariamente, status de certeza. Por outro lado, o hedging, ou a incerteza relacionada às proposições, aqui representados pelas categorias de status possível e provável, é utilizado em somente 4,4% das proposições.

Na maioria dos casos, a incerteza nos abstracts é expressa em termos da probabilidade da proposição ser ou não verdadeira; no entanto, em duas instâncias ela é expressa em termos de freqüência, através da utilização da locução adverbial em geral:

(5) Os resultados de potência, fornecidos lote a lote, em geral, cumprem as especificações farmacopéicas (...) (HEMAT02)

(6) Em pacientes com suspeita de demência, o EEG é em geral bastante informativo. (NEUROP04)

Nos dois casos acima, considerei o status da proposição como provável, já que tomei a locução em geral como sendo sinônima de normalmente, o que indica, segundo Halliday (1994), que as proposições que a contêm são, também, exemplos de

modalização média.

Nos termos de Latour (1987), apresentados no capítulo 1, pode-se dizer que a certeza representa o que o autor chama de modalidade positiva, e o hedging corresponde à

modalidade negativa. Vale a pena lembrar que, para Latour, no caso de artigos de pesquisa, é importante que haja um equilíbrio entre as modalidades positiva e negativa, para evitar que o artigo fique “audacioso” demais, por um lado, ou “tímido” demais, por outro.

Propostas: modulação alta média e baixa

Como apresentei no Quadro 3, na seção 1.6.1, Halliday (1994) propõe, para o tipo de modulação expressa graus de obrigação, os seguintes valores:

Modulação alta necessário Modulação média esperado Modulação baixa permitido

No entanto, a única atividade encontrada nos abstracts que é diretiva e cujo status, conseqüentemente, é realizado por uma modulação, é aquela na qual os autores dos

abstracts fazem recomendações. Como ao recomendar algo não estamos permitindo, mas sim sugerindo, aconselhando ou estabelecendo uma necessidade ou ainda uma obrigação, dependendo do grau de urgência da recomendação, ao analisar as recomendações dos escritores encontrei somente os valores alto e médio, já que a modulação baixa expressa permissão (Halliday, 1994: 358).

Conforme discuti no capítulo Metodologia, nem sempre a obrigação é expressa da forma congruente, isto é, através de um verbo auxiliar modal ou de um adjunto modal. No caso dos abstracts analisados, 5 recomendações são expressas de modo congruente, contra 8 expressas metaforicamente. O exemplo (7) ilustra uma recomendação realizada de modo congruente através de um verbo modal, enquanto o exemplo (8) mostra uma recomendação realizada de forma metafórica:

(7) Sendo normal o cariótipo, a pesquisa de mosaicismos crípticos em outros tecidos deve ser considerada. (ENDOC04)

(8) Os resultados apresentados enfatizaram a necessidade da associação de várias metodologias para a identificação da Hb D Los Angeles, (...) (HEMAT06)

Além da nominalização ilustrada no exemplo (8) acima, outro modo metafórico de expressão de uma recomendação encontrado no corpus foi através do uso do verbo “demandar” e do verbo performativo “sugerir”, como ilustram, respectivamente, os exemplos (9) e (10):

(9) O diagnóstico de HG nos pacientes com CH demanda (que se dê) atenção médica contínua. (ENDOC02)

(10) Sugere-se que outras variáveis sejam analisadas conjuntamente, (...) (HEMAT07)

No capítulo 3, mencionei que nem sempre é fácil distinguir se uma modulação é alta, média ou baixa, em especial quando ela é expressa metaforicamente. No caso do português, essa dificuldade é agravada pelo fato de que há poucos estudos que enfocam a modalidade em nossa língua segundo uma orientação hallidiana. Entretanto, os

exemplos contidos em Halliday (1994: 360, 361) me auxiliaram em quase todas as instâncias. Naqueles casos que diferiam grandemente da língua inglesa e, portanto, não se encaixavam com os exemplos acima mencionados, tive que lançar mão de minha própria interpretação, o que faz com que os resultados em questão sejam, na verdade, somente uma sugestão.

Um desses casos é aquele ilustrado pelo exemplo (9), citado na página anterior. O verbo “demandar” pode ser considerado um sinônimo de “requerer”. Entretanto, nos exemplos de Halliday, o verbo “require” é usado sempre na voz passiva, e é um exemplo de uma realização congruente de modulação alta objetiva implícita através da expansão do predicado. Entretanto, conforme eu apontei na seção 1.6.1, essa construção passiva no português não é possível. Conseqüentemente, optei por considerar a oração contida no exemplo (9) como sendo uma realização metafórica, já que não se dá por uma expansão do predicado e, sim, através de uma outra oração. Além disso, essa oração serve ao propósito de tornar a proposta explicitamente objetiva e, segundo o próprio Halliday (1994: 362), todas as formas explicitamente objetivas ou subjetivas de modalidade são metafóricas. Mantive, entretanto, sua classificação como sendo modulação alta, já que, semanticamente, os verbos “demandar” e “require” são semelhantes.

A Tabela 3 apresenta as ocorrências de modulação alta e média, objetiva e subjetiva nos

abstracts analisados.

Categoria número porcentagem

modulação objetiva alta 9 69,2

modulação objetiva média 2 15,4

modulação subjetiva alta 1 7,7

modulação subjetiva média 1 7,7

TOTAL 13 100

Tabela 3: as quatro formas de modulação nos abstracts

Como a tabela acima demonstra, a modulação objetiva tem grande prevalência sobre a subjetiva, o que mais uma vez confirma o caráter altamente objetivo que os autores dos

bastante superior à média (no total, houve 10 ocorrências de modulação alta, contra somente 3 da média). Esse fato parece contrastar com a objetividade dos abstracts, já que quanto mais alta a modalidade, maior o comprometimento do autor. É interessante, porém, notar que a grande maioria das modulações altas é objetiva; é como se, ao expressar um alto grau de comprometimento (subjetivo) através de uma forma lingüística objetiva, os autores dos abstracts estudados buscassem “disfarçar” seu envolvimento subjetivo com relação à recomendação expressa.

De modo geral, a análise da avaliação de status nos mostra que, nos abstracts estudados, a modalidade alta prevalece, tanto nas proposições quanto nas propostas. O grande predomínio da certeza sobre a incerteza parece, em um primeiro momento, confirmar a afirmação de Myers (1989) de que nos abstracts a cautela não é necessária. No entanto, uma análise mais detalhada da função pragmática da certeza e da incerteza nas diferentes seções discursivas dos abstracts, que apresentarei na seção 3.4, irá demonstrar que esse nem sempre é o caso.