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caso, também, a função do hedging é basicamente a de mecanismo de polidez, no sentido de buscar minimizar conflitos. A esses fatores interpessoais, Hyland deu o nome de condições de aceitação. Um exemplo é:

We do not know the reasons for the discrepancy between our results

and those of Ngernprairitsiri et al, but it might reflect genetic differences in the cultivars employed. (1996:447)

Segundo o ponto de vista de Hyland, hedgings podem ajudar a projetar uma persona e demonstrar aderência às “regras” da comunicação, mas isso se dá simplesmente para alcançar funções de maior poder no ganho de aceitação a asserções de conhecimento, e não para estruturar relações interpessoais per se. Nesse sentido, Hyland vê o hedging muito mais como recurso persuasivo do que como recurso de polidez.

Quanto às realizações lingüísticas do hedging, o autor é contrário a classificações rígidas, já que para ele “a principal característica do hedging é a indeterminação” (1996:449). Ainda assim, propõe alguns elementos que são mais comumente associados a esse fenômeno, resumidos no Quadro 4.

Orientados para o conteúdo

Orientados para o leitor Orientados para a precisão Orientados para o escritor

Circunscrevem o conteúdo proposicional Circunscrevem o comprometimento do escritor Circunscrevem a assertividade Tipo atributo Advérbios de precisão: • disjuntos de conteúdo • disjuntos de estilo • redutores de intensidade Tipo confiabilidade

• verbos lexicais epistêmicos • adjetivos modais epistêmicos • substantivos modais epistêmicos • advérbios disjuntivos de conteúdo • conhecimento limitado

Verbos lexicais epistêmicos: • de julgamento • evidenciais Expressões impessoais: • voz passiva • “abstract rhetors” • sujeitos “vazios” Atribuição à literatura Referência impessoal a: • método • modelo • condições experimentais

Verbos lexicais epistêmicos: • de julgamento • dedutivos Atribuição pessoal Referência pessoal a: • métodos • modelo Oferta de alternativas: • condicionais • artigos indefinidos Envolvimento do leitor • perguntas diretas • referência a possibilidade de exame Suposição de objetivos comuns “Hipotéticos” (futuro do pretérito), por ex. iria

Quadro 4: Resumo das funções do hedging e seus principais elementos realizadores (traduzido e adaptado de Hyland, 1996:450)

Como se pode concluir pelas propostas de Hyland e Salager-Meyer apresentadas nesta seção, o hedging inclui, porém não se atém a elementos lingüísticos típicos da expressão da modalidade, quais sejam, os verbos modais, advérbios e adjetivos epistêmicos. Verbos chamados pelos autores de epistêmicos também são incluídos (por exemplo, “sugerir”), além de vários outros elementos que não seriam, normalmente, incluídos sob o título de modalidade, como, no caso de Hyland, orações condicionais e artigos indefinidos; já na classificação de Salager-Meyer estão expressões claramente avaliativas, como “extremamente importante”.

Quanto à função do hedging, não há um consenso entre os pesquisadores a esse respeito. Embora a maioria deles pareça ter partido da definição de Lakoff, citada anteriormente, de que hedges são elementos lingüísticos que “tornam as coisas mais ou menos vagas”, sua interpretação dessa definição, por si mesma bastante vaga, tem diferido grandemente. Um ponto segundo o qual todos os lingüistas que estudam o hedging parecem concordar, entretanto, é que este tem um papel importante na escrita científica, quer sua função seja persuadir, mitigar possíveis ameaças à face do autor ou de seus colegas e leitores, ou ainda buscar ser o mais preciso possível dentro da imprecisão inerente à ciência.

Tendo abordado algumas visões com relação à modalidade e o hedging na escrita acadêmica e científica, apresentarei em seguida o modelo de avaliação no discurso científico de Hunston (1993, 1994), em que me baseei para efetuar a análise do meu corpus de pesquisa.

1.7 O modelo de avaliação de Hunston

Para Hunston (1993, 1994), o sistema de valores, que é um aspecto importante da ideologia, pode ser descrito lingüisticamente em termos da avaliação presente em um texto. A autora define avaliação como sendo qualquer elemento lingüístico que indique a atitude do autor com relação ao valor de uma dada entidade no texto. Ela nos lembra que, embora considerada como sendo a opinião pessoal do autor (Hoey, 1983, é um dos defensores desse ponto de vista), o sistema de valores envolvido não é pessoal, mas

social ou institucional e, portanto, a avaliação de itens desse sistema deve ser expressa de modo metafórico, ou impessoal (ver a discussão a respeito da metáfora interpessoal segundo Halliday, na seção 1.6.1.). Para Hunston, isso ocorre em especial na escrita científica.

A visão de Hunston contrapõe-se àquelas que julgam ser contra-produtivo analisar a avaliação em textos científicos, pois vêem tais textos como factuais e impessoais, cujo único objetivo é o relato objetivo de eventos. A autora, por sua vez, argumenta que a função principal desses textos é a de persuadir a comunidade acadêmica a aceitar uma nova asserção. Quando essa asserção é baseada em um experimento, a persuasão envolve a avaliação desse experimento como sendo superior a outros experimentos rivais. Cada seção do artigo de pesquisa utiliza a avaliação para efetuar parte dessa persuasão. Hunston resume o objetivo persuasivo de cada parte do artigo conforme demonstra o Quadro 5:

Seção Persuade o leitor de que...

Introdução a pesquisa realizada é necessária e tem valor, com base no fato de que existem lacunas no conhecimento a respeito de um tópico importante. Metodologia a pesquisa foi bem realizada, especificamente que os sujeitos

representavam os grupos que deveriam representar e o método experimental evitou distorções.

Resultados as tabelas estatísticas utilizadas foram úteis e informativas.

Discussão os resultados fazem sentido e se encaixam com outras pesquisas, levando a um corpo de conhecimento consistente.

Quadro 5: objetivos persuasivos de cada seção de artigos de pesquisa experimental (traduzido de Hunston, 1994:193)

Para explicar como esse objetivo persuasivo e sua avaliação concomitante podem se reconciliar com a natureza aparentemente objetiva do artigo de pesquisa, Hunston cita Latour e Woolgar (1979:240):

The result of the construction of a fact is that it appears unconstructed by anyone; the result of rhetorical persuasion in the agnostic field is that participants are convinced that they have not been convinced.

Desse modo, a avaliação pela qual a persuasão é efetuada deve estar muito implícita, inclusive evitando a linguagem atitudinal normalmente associada ao significado interpessoal (Halliday, 1994).

Hunston vê a avaliação como realizando três funções distintas, que portanto devem ser analisadas separadamente: as funções de avaliar status, valor e relevância.

a. Avaliação de status

Segundo Hunston,

The status of a proposition shows the writer’s perception of the relation between that proposition and the world. A ‘fact’ represents the world, an interpretation or a hypothesis represents a possible world. (1994:195)

Além da função acima, a avaliação de valor, na visão de Hunston, “coisifica” a oração à qual se refere, transformando-a em um objeto que pode, posteriormente, ser avaliado em termos de seu valor, e essa avaliação dependerá do status da oração. Por exemplo, uma oração avaliada como sendo uma hipótese, cujo status é possível, poderá ser, mais tarde, avaliada como sendo correta ou incorreta; já uma oração avaliada como fato, cujo status é sabido, não poderá ser posteriormente refutada. A escolha do status restringe, portanto, as avaliações futuras (1993: 61).

Ao abordar a análise da avaliação de status em um texto, a autora afirma que se deve considerar duas opções como unidade de análise: a proposição ou a oração. Ela lembra que algumas orações podem conter até quatro proposições, o que torna a análise de um texto inteiro complexa demais, especialmente se um dos objetivos da análise é a verificação da organização do texto. Hunston propõe, então, que se considere como unidade de análise a proposição mais gramaticalmente saliente da oração, que representa a contribuição, no nível da sentença, à organização do texto. Desse modo, em sua análise ela considera cada oração principal como uma unidade de análise, desconsiderando as proposições individuais que ela possa conter.

As características distintivas da função de status da avaliação são: 1. A escala da avaliação é certo-incerto. As categorias de certeza são:

• sabido; • certo; • provável; • possível; • improvável; • falso; • não sabido.

2. O status é identificado pela atividade do escritor; no corpus analisado pela autora, as