Fonte: STAMM (2005, 2013) com base em dados do IBGE, Censo Demográfico (1970, 2010).
É relevante destacar que, de acordo com Sposito (2009), o critério populacional não seria determinante para definir se uma cidade é do tipo médio. Sposito (2009, p. 13-14) se questiona: “[...] será que essas duas expressões (pequena/média) são boas para designar um tipo, um padrão, um conjunto de cidades que desempenham vários e diferentes papéis numa divisão de trabalho que se estabelece?” Por conseguinte, define-se cidade média pelo papel que ela desempenha na rede urbana, como intermediária de fluxos econômicos, pessoas, conhecimentos, entre outras condições (SPOSITO, 2007).
Pode-se, desse modo, falar de uma metropolização contemporânea da “desmetropolização”, fenômenos que se dão simultaneamente. O perfil urbano se torna complexo, com tendência à onipresença da metrópole, através de múltiplos fluxos de informação que se sobrepõem aos fluxos de matéria e são o novo arcabouço dos sistemas urbanos. Mas há, também, uma certa “involução metropolitana”, o crescimento econômico das grandes cidades sendo menor que o das regiões agrícolas dinâmicas e respectivas cidades regionais [...] ( SANTOS, 2009, p. 10).
É importante frisar que a desmetropolização sentida nas últimas décadas, com a instalação de um processo vigoroso de interiorização da urbanização no Brasil, esteve associada a outros fatores que não somente a desaglomeração da produção nacional de bens
industriais e de serviço. As mudanças tecnológicas, no Brasil, tendem a reforçar o processo de reaglomeração urbana, especialmente naquelas cidades dotadas de boas condições locacionais, com destaque para as cidades de porte médio que, de fato, dão uma nova configuração de rede urbana.
Os estudos sobre os diferentes portes de cidades em diferentes regiões do país representam um dos caminhos necessários para avançar na compreensão da complexidade da realidade brasileira contemporânea, já que vêm ocorrendo mudanças no padrão de concentração de urbanização, com o crescimento maior das cidades médias. Ferreira (2014, p. 3) afirma que “[...] a metropolização do espaço não se restringe à região metropolitana, incorpora as cidades médias e pequenas [...]”.
Ribeiro (2007, p. 21) argumenta também nessa direção acerca das transformações no contexto contemporâneo das metrópoles brasileiras: Com certeza, há um reconhecimento de uma nova realidade, que cada vez mais deixa imprecisos os limites entre a cidade e o campo e entre as próprias cidades (FIRKOWSKI, 2013). “Se nas áreas de economia avançada os limites das cidades tornam-se cada vez mais fluídos e, portanto, é cada vez mais difícil precisar onde termina o espaço da cidade” (SOJA, 2000, p. 148). Nesse contexto, uma tendência verificada no processo de urbanização brasileira é que a própria diferenciação entre o campo e a cidade é cada vez mais fluida36, na medida em que os avanços dos meios de comunicação e transportes têm possibilitado uma acentuada densificação de fluxos do capital em diversos níveis geográficos.
De acordo com Rojas (2005, p. 35): “A América Latina e o Caribe caracterizam- se pela alta taxa de urbanização, de que resulta a formação de elevado número de cidades com características metropolitanas”. Já Moura (2012, p. 5) assegura: “O estágio contemporâneo da metropolização latino-americana37, tendo em vista as relações facilitadas pelos meios de comunicação e informação, particulariza-se por configurações espaciais que transcendem a noção do urbano ou do urbano aglomerado [...]”.
36 O campo fica sucessivamente mais sujeito a absorver características peculiares dos espaços urbanos, tanto em termos técnicos quanto culturais. Essa “urbanização do campo” é verificada, principalmente, nas regiões onde as atividades econômicas se mostram mais dinâmicas, com um processo mais intenso de penetração capitalista no espaço agrário. É isso justamente que garante toda uma disseminação de modernidades e urbanidades no espaço agrário. Essa disseminação de urbanidades no espaço rural é mais facilmente percebida na porção centro-sul do país, considerada grande espaço da produção, da circulação e do consumo nacional. Com a expansão dos sistemas de objetos voltados a dotar o território de fluidez para os investimentos produtivos, ocorre uma descentralização da produção, acirrando a divisão territorial do trabalho, resultando em redefinições urbanas e regionais de várias naturezas (PEQUENO; ELIAS, 2010).
37 As cidades da América Latina e da Ásia são marcadas por extensas áreas urbanas, sustentadas por acirradas discrepâncias socioeconômicas. Essa condição espacial encontrada, principalmente (não exclusivamente) em ci- dades latino-americanas, promove a necessidade de se interpretar os espaços urbanos através de múltiplas escalas (PINTO, 2009, p. 61).
Assim, o processo de metropolização tem se reportado à era global, ou seja, à era da comunicação. No período fordista, a dinâmica das metrópoles estava muito atrelada à concentração industrial. Segundo Harvey (2004), com a compressão do espaço-tempo diante dos avanços das redes técnicas, sobretudo no campo informacional e da logística, o papel das metrópoles muda – ocorre uma desindustrialização relativa e um aumento dos serviços avançados na economia. Essa mudança, da metrópole industrial para a metrópole informacional, representou uma profunda transformação na estrutura de emprego.
Nessa etapa da pesquisa, buscou-se realizar uma convergência de leituras com base analítica constituída de diversos enfoques da temática no bojo da contemporaneidade em torno dos conceitos de metrópole, metropolização e região metropolitana, através de um caráter de diálogo interdisciplinar, utilizando diversos autores com visões múltiplas que possibilitaram um eficaz intercâmbio acadêmico, na perspectiva da dinâmica metropolitana brasileira e seus desdobramentos.
Nesse contexto, no Brasil, no ano de 1973, foram delimitadas e criadas as primeiras nove regiões metropolitanas brasileiras, através da Lei Federal Complementar n° 14/73. Nessa ação fora estabelecida a RMF. A criação da RMF foi do tipo compulsório, instituída e definida por força legal.
Nesse caminho, o próximo capítulo irá focar a formação e as transformações da RMF, discutindo as principais atividades econômicas responsáveis pelo crescimento e consolidação da capital cearense, com um olhar especial aos shopping centers no constructo da metrópole.
2.5 O espaço metropolitano fortalezense em metamorfose
O processo de urbanização brasileira foi marcado pela formação das regiões metropolitanas, com uma alta intensidade de fluxos, sendo um aglomerado de várias cidades em que se destaca uma cidade principal. Esta região é locus de aprofundamento dos processos econômicos e sociais. É qualificado como área ou região metropolitana aquele território mais ou menos urbanizado que fica em torno de uma grande cidade e depende dela. Avaliando-se qualitativamente, pode-se considerar que se trata de um território colonizado por uma grande cidade. A cidade principal é chamada de metrópole (ROBIRA, 2005).
Nesse sentido, na visão perspicaz e densa de Silva (2005), considera-se Fortaleza uma metrópole regional, uma das principais aglomerações da rede urbana brasileira.
Desenvolve-se como um núcleo centralizador caracterizado por uma diversidade de funções (multifunções) e possui relações econômicas com muitos centros urbanos no patamar nacional e internacional.
A metrópole fortalezense se expressa como centro de processos e funções, concentrando atividades econômicas, sociais, culturais e administrativas, possuindo, assim, uma centralidade metropolitana polarizadora não só da região metropolitana como também de todo o território cearense. Nessa linha de raciocínio, Pereira Júnior (2015) ratifica as concepções de Silva (2015) e considera que os espaços metropolitanos são resultado da influência de uma metrópole sobre amplas dimensões territoriais, extrapolando os limites político-administrativos e configurando tecidos urbanos contínuos ou descontínuos.
Assim, a metropolização se apresenta como uma realidade territorial dominante, caracterizada pelos seguintes fatores: a mobilidade das pessoas e dos bens e serviços materiais e imateriais; a diversidade espacial das cidades-territórios ligadas à metropolização e à grande dimensão das áreas abrangidas; o alargamento das bacias de emprego; o grande tamanho das bacias midiáticas, culturais, de consumo e de serviços (FERRIER, 2001, p. 43).
Nesse bojo, a formação e o crescimento de Fortaleza como metrópole estão diretamente relacionados ao desenvolvimento do setor terciário, que tem a primazia sobre as demais cidades (Gráfico 1). Concentrando o excedente do setor primário, a cidade se constitui em centro de coleta da produção agrícola e distribuidor de bens e serviços a uma vasta área, que extravasa os limites do estado.
A RMF atingiu 62,6% do PIB cearense em 2013, com destaque para os polos industriais de Fortaleza: Maracanaú e Caucaia. Em relação às demais regiões do estado, ressaltem-se o noroeste (9,4%), impulsionado pelo polo industrial de Sobral; e o norte (7,6%), com ênfase na importância do complexo industrial e portuário do Pecém, em São Gonçalo do Amarante.
Gráfico 1 – PIB de Fortaleza em 2015
Fonte: IPECE, 2015.
O predomínio do setor terciário de Fortaleza fez com que a sua configuração espacial urbana tivesse influência nas relações da cidade com sua região metropolitana bem como com o exterior (SOUZA, 2005). O setor terciário incorpora grandes redes nacionais e internacionais, e uma quantidade de micro e pequenos estabelecimentos familiares, necessitando de um grande número de trabalhadores. Fortaleza, tradicionalmente, absorve a maior parte da população economicamente ativa (PEA), aproximadamente 80% dos empregados (Gráfico 2). Agropecuária 0% Indústria 20% Serviços 80%
FORTALEZA
Agropecuária Indústria ServiçosGráfico 2 – Pessoas ocupadas por setor em Fortaleza 2007-2013
Fonte: IPECE, 2013.
A expansão da urbanização cearense, encabeçada por Fortaleza, teve como característica o desenvolvimento de atividades comerciais, sendo a indústria menos importante para o condicionamento dos processos econômicos (SOUZA, 2005).
O comércio e a prestação de serviços, que lhe conferiram historicamente a condição de polo regional, ao extrapolar os limites administrativos do estado do Ceará, se expandiram, nas últimas décadas, gerando novos fluxos e impactando na diversificação e consolidação do espaço metropolitano. Complexifica suas funções, desenvolve os setores da sua econômica urbana, e, desse modo, se insere hierarquicamente no contexto nacional e internacional, à medida que se apoia em uma base territorial [...] (COSTA; AMORA, 2015, p. 35).
0 100000 200000 300000 400000 500000 600000 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Ressalta-se o poder regionalizante das atividades terciárias38 da capital cearense, que se dá em função do comércio e dos serviços, e seu raio de influência se estende em direção a cidades vizinhas. Pereira Júnior (2015, p. 82) afirma, também, que “[...] a indústria teve menor influência na evolução da organização espacial e na projeção dos centros urbanos no Ceará. Além disso, quando se desenvolveu, ela o fez subordinada à expansão urbana e comercial de centros como Fortaleza [...]”.
O terciário influencia fortemente as cidades, de modo que as relações pautadas entre comércio e cidade vão ganhando uma complexidade de análise, pois se percebem práticas socioespaciais de diversos agentes, promotores imobiliários e produtores/fabricantes e comerciantes. As mudanças no comércio possuem relação com o espaço urbano, bem como com a cultura e os valores das sociedades (SALGUEIRO, 2001; ORTIGOZA, 2008; PINTAUDI, 2004).
Nessa lógica, os pesquisadores, Rolnik e Frúgoli Júnior (2001) apontam que a metrópole do terciário avançado é formada por torres dos centros empresariais e edifícios de escritórios mesclados a shopping centers, hotéis, centros de convenção e salas de espetáculo – o que constituiria a imagem mais visível e evidente de uma nova ordem urbanística. Tal evidência em Fortaleza ganha força e novas facetas nesta última década dos anos 2010, com a entrada massiva de capital internacional e nacional em sociedade e/ou parceria com o capital local, possibilitando novas materializações no espaço metropolitano fortalezense.
As sociedades urbanizadas passam por um processo profundo de inovações dos fenômenos espaciais. Nesse contexto, a economia urbana tem um direcionamento às atividades terciárias, ou seja, há uma situação de terciarização das economias, com base na tecnologia da informação e do conhecimento técnico-científico.
Como bem salientado por Cachinho (2002) e Salgueiro (1992), o tempo contemporâneo é a época do terciário, pois se assiste a uma enorme multiplicação e progressiva diferenciação de atividades que adquirem uma maior complexidade. Vive-se, de acordo com Ascher (2012), a passagem do capitalismo industrial para o capitalismo cognitivo, característica da terceira fase de modernização.
As mudanças econômicas em curso tornam evidente que as sociedades ocidentais começam a sair do industrialismo, ou seja, de um sistema econômico baseado principalmente na indústria definida como “o conjunto das atividades econômicas que têm por objetivo a exploração das matérias-primas, de fonte de energia e a sua transformação, assim como os produtos semiacabados e bens de produção ou de
38 No Ceará, o comércio varejista é o principal segmento, posto que gerou 67,4% dos salários, retiradas e outras remunerações (R$ 1,6 bilhão), tendo sido responsável por 78,3% do pessoal ocupado em empresas comerciais no estado (206,8 mil) e por metade da receita bruta de revenda de mercadorias (R$ 25,4 bilhões), no ano de 2010.
consumo”, e que elas entram numa economia cognitiva baseada na produção, apropriação, venda e uso de conhecimentos, de informações, de procedimentos. Isso não significa que a indústria tenda a desaparecer. Mas, da mesma forma que, com o capitalismo industrial, a agricultura ficou dependente do modelo industrial que lhe terá redefinido quer as suas finalidades quer os seus métodos e valores, também a produção industrial depende cada vez mais das lógicas e dos poderes da economia cognitiva (ASCHER, 2012, p. 49).
Face ao enorme desenvolvimento das atividades terciárias e o seu crescente papel nas economias desenvolvidas e em via de desenvolvimento, identifica-se que as grandes metrópoles têm como marcas, dentre outras, o aumento do comércio proveniente da busca das pessoas pelas mercadorias (cultura do consumo) e a procura incessante de informações e serviços.
Se as cidades já eram o motor de crescimento econômico e de um determinado modelo dominante de sociedade, a partir do pós-guerra o modelo territorial dominante passa a ser a cidade metrópole. Foi sobretudo este modelo territorial que permitiu o sucesso do modelo fordista-keynesiano, dando lugar ao crescimento dos serviços nas economias, os quais, concentrados nas grandes cidades metrópoles, conduziram ao que se designou de terciarização da economia e da cidade, mas também a um amplo crescimento dos setores sociais intermédios na hierarquia social, as classes médias (RODRIGUES, 2010, p. 54).
Dessa maneira, o espaço metropolitano de Fortaleza ganha uma significativa dinâmica com os shoppings, que se apresentam como novos espaços de consumo e lazer e têm um papel inovador no urbano tanto no que se refere à questão simbólica como à questão de estruturação urbana. Com a expansão desses empreendimentos na capital cearense, adentrando os municípios vizinhos da RMF, eles passaram a ocupar parcelas significativas do tecido urbano, provocando alterações na estrutura morfológica da metrópole e do entorno metropolitano. A relação estabelecida entre centralidade e estrutura urbana pode ser entendida com o surgimento de múltiplos elementos urbanísticos, destacando-se entre eles os equipamentos de grande porte – os shopping centers.
Com a expansão do espaço urbano, e a tendência de multiplicação de estruturas comerciais, os shopping centers, diante das interfaces no mundo globalizado atrelado ao terciário avançado39, ligados às alternativas e às estruturas diferenciadas, possuem um nível de resposta que veio de certa forma gerar uma ruptura da hegemonia dos centros tradicionais de compras da metrópole, caso evidenciado em Fortaleza.
O S.C. materializa a associação-combinação de diversos interesses. Via de regra, até o momento, é o setor privado que tem tido a iniciativa de sua construção. Constituído numa experiência, mas fruto da concentração de capital em poucas mãos
39 Observa-se claramente um padrão de desenvolvimento do terciário moderno, com o gradativo desaparecimento dos espaços públicos, articulado a um forte modelo de exclusão territorial, atendendo a interesses do capital imobiliário (ROLNIK, FRUGOLI JR, 2001, p. 44).
[...]. Os shopping centers não são obra do acaso (o primeiro pode até ter se privadas e de sua necessidade de reprodução contínua e ampliada, não importando se a sua origem é imobiliária, financeira ou comercial). O importante é que este grande capital construiu um local comercial de forma concentrada e encontrou uma maneira de reproduzi-lo melhor através da manutenção do espaço de vendas. O grupo empreendedor garante a exploração do shopping center através de uma administração que funciona junto ao empreendimento [...]. Enquanto empresa de grande capital, ele surge no momento em que as condições de desenvolvimento do capitalismo necessitam do monopólio do espaço para a reprodução contínua e ampliada do capital, porque é através do poder de mercado que são equacionados os problemas da acumulação do capital [...] (BIENESTEIN, 2001, p. 57) (grifo nosso).
Padilha (2006, p. 24) observou que o shopping tem se tornado cada vez mais um local das seguintes características:
a) de busca da realização pessoal pela felicidade do consumo; b) de identificação — ou não — com os grupos sociais; c) de segregação mascarada pelo imperativo da segurança; d) de enfraquecimento da atuação dos seres sociais e de fortalecimento da atuação dos consumidores; e) de materialização dos sentimentos; f) de manipulação das consciências; g) de homogeneização dos gestos, dos pensamentos e dos desejos, e, o mais grave, h) de ocupação quase integral do ‘tempo livre’ das pessoas (a televisão parece ser a concorrente mais forte).
Dessa maneira, as transformações do urbano-metropolitano fortalezense estão atreladas às dinâmicas recentes do mundo globalizado em que o capital se derrete em meio a vários mecanismos das diversas atividades econômicas, podendo partir do capital financeiro ao capital produtivo e comercial de modo diagonal, algo que até então não era tão fácil de presenciar. De Mattos (2001) afirma que, nas últimas décadas, os efeitos combinados e simultâneos das novas tecnologias da informação, da reestruturação econômica e da globalização estão processando um conjunto radical de transformações da economia mundial. Essas transformações começam a materializar-se a partir das crises capitalistas da metade da década dos anos setenta, alterando profundamente o cenário da ação social, tanto em suas dimensões econômicas, sociais, políticas e culturais como em sua expressão territorial. As metrópoles têm se consolidado como "centros neurálgicos", articulando a dinâmica de acumulação, crescimento e modernização dos distintos componentes de uma economia em acelerado processo de globalização.
Pode-se afirmar que em Fortaleza o comércio ligado ao imobiliário-financeiro vem acompanhando ou antecipando alterações espaciais e sociais da RMF, por exemplo: mudança nas perifeiras urbanas incentivadas por suas políticas de liberalização econômica e de desregulação, e a penetração de novas tecnologias da informação, contribuindo para produzir uma nova arquitetura produtiva estruturada. Assim, o movimento do capital não pode ser separado da população e do surgimento de novos dispositivos de polaridades
econômicas e culturais. Esse movimento espacial não pode ser considerado somente por si próprio, mas é também um aspecto de transformação social de grandes empresas mundiais que moveram a formação da sociedade de consumo diante dos dispositivos atuais urbanísticos de complexidade de uso e ocupação dos espaços comerciais, de lazer, de serviços e de moradia.
Na contemporaneidade, os shoppings tornam-se importantes para refletir sobre novas ferramentas do capitalismo que têm fortes implicações no direcionamento do processo de urbanização e metropolização brasileira bem como fortalezense. De tal modo, com o extravasar da metrópole, requerem-se estudos aprofundados relativos à expansão da infraestrutura, aos equipamentos públicos, à valorização de certas parcelas da metrópole, a rupturas e à descontinuidade no nível do tecido urbano.
Essa forma de atividade comercial-imobiliária centralizada (shopping), congregando em um mesmo ponto espacial lazer, consumo e grande número de serviços, teve um forte poder de atração. Assim, o imobiliário ligado ao terciário em Fortaleza vai se espraiando pelo tecido urbano, dinamizando a estrutura da cidade, razão pela qual Lefebvre (2002) diz que essa sociedade urbana só pode ser concebida ao final de um processo no curso do qual explodem as antigas formas urbanas herdadas de transformações descontínuas.
No bojo do pensamento lefebvriano a respeito do processo de implosão-explosão da cidade, Lefebvre (2004) explica o fenômeno urbano que se estende sobre grande parte do território, já mencionado anteriormente. O autor revela sinais notórios na elaboração do raciocínio acerca da metropolização a partir principalmente da “urbanização completa da sociedade”, quando afirma que, a “urbanização completa” terá efeitos profundos na produção do espaço social. Por conseguinte, nesse raciocínio teórico, percebe-se que a “urbanização completa” está intrinsecamente ligada à metropolização, cujo desenvolvimento está relacionado aos processos e à práxis de transformações que se desdobram: no meio rural, na expansão do tecido urbano e na explosão das grandes cidades e na transformação de cidades pequenas e médias.
De acordo com Pereira (2004), essa verdadeira “explosão da cidade” resultou na dispersão territorial dos fluxos pelo território e na modificação das atividades nos núcleos urbanos, podendo mesmo equiparar-se a uma metropolização, cujas principais características são: incremento exponencial da superfície ocupada; proliferação da habitação unifamiliar; emergência de novas centralidades e estruturação funcional; mobilidade pluridirecional; uso intensivo dos espaços naturais.
[...] na cidade antiga, o uso e o valor de uso ainda definem o emprego do tempo. Nas formas tradicionais da cidade, a troca e o valor de troca ainda não romperam todas as barreiras, nem se apoderaram de todas as modalidades do uso. É nesse sentido