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4. Empiri

4.3 iTet AS

4.3.4 Strategi

A unificação ontológica retoma a condição de comum-pertencer entre homem e ser e entre homem-mundo. O homem é, propriamente, uma relação de correspondência. Ao movimentar-se para habitar o mundo, vivencia condições autênticas e inautênticas, descobre os entes, desvela-se e se oculta, buscando sempre ser mais próprio.

O ser-aluno, habitando o mundo da prática educativa de enfermagem, depara-se com a obscuridade de seu mundo, o distanciamento do seu ser, sua estranheza e busca a conformidade com os entes no mundo circundante. Essa trajetória está descrita em dois movimentos:

  Habitando o mundo na obscuridade

5.2.2.1

H

ABITANDO O

M

UNDO NA

O

BSCURIDADE

Para Heidegger, a distância entre o ente e o ser é a origem do obscurecimento do mundo. O filósofo fala da estranheza do mundo como o não pertencer ao lar, não estar em casa. Esta falta de morada nos impele a procurar um lar, buscar sentir-se em casa (INWOOD, 2002).

Neste movimento, abordarei a vivência do ser-aluno na estranheza do mundo, gerando sentimentos de incapacidade, insegurança e incertezas.

Para a gente tudo era tudo muito diferente... Como que ia ser a tal da prova? Como que ia ser a avaliação? A cobrança... E, por mais que fosse explicado tudo era sempre aquela coisa assim... Aquele medo de não saber o que vinha pela frente. (a-4)

Eu acho que no começo eu sentia um pouco de angústia, acho que angústia seria a palavra para dizer que não sabia se ia dar certo. Parecia que era tudo falho, parecia que a gente não tinha assimilado nada. (a-2)

Já chorei muito porque no começo era muito angustiante. Você tem uma personalidade, e no começo elas queriam meio que forçar, você tinha que falar, participar, então era meio angustiante. Mas hoje vejo que foi bom, que deram oportunidade para eu estar trabalhando com isso. Sentia muita angústia porque a gente não sabe, não sei se está dando certo o currículo. A gente tem, elas passam os feedback pra nós, falando que em comparação com as outras turmas vocês estão melhores, assim em termos de conhecimento, de busca de conhecimento, mas a gente não tem uma certeza, não tem dados para gente estar vendo se está indo ao rumo certo ou não, por ser uma experiência nova. Então, a gente não sabe. Sinto angústia, muita angústia, será que está valendo a pena mesmo? (a-3)

O ser-aluno, ao estar vivenciando a prática educativa do Currículo Integrado, não ocupa somente posição nesse espaço mas, através da interpretação que faz, estando e sendo neste mundo, é que direciona e

aproxima-se mais ou menos dos entes neste mundo. Ele vivencia a sua inabilidade em ser aprendiz na nova prática apresentada. Sente-se estranho, inseguro, sofre, chora, teme e não encontra familiaridade com o mundo a ser habitado. Fica imerso na obscuridade das dificuldades, sente-se fora de casa e, portanto, mais distante do destinar-se na obra de aprender.

O ser-aluno vivencia também o sentimento da raiva:

No começo eu senti muita raiva... Primeiro não entendia como que aconteciam as coisas. Aconteciam os três momentos, mas para a gente estava tudo meio perdido. Não sei se foi falta de explicação, acho que a gente enquanto não vivenciasse, não iria aprender mesmo... Talvez eu não lembre, mas acho que falaram, como que ia ser, e a gente não tenha lembrado. Esta foi uma questão, a mudança, o medo do desconhecido e que agora pra mim já passou, já vejo de uma maneira bem diferente. (a-4)

Eu espero que me dê satisfação depois, mas ainda eu não sei se eu vivi esse sentimento de satisfação ainda, mas eu espero que traga. (a-2)

O ser-aluno percebe que somente vivenciando, ou seja, existindo no mundo, é capaz de interpretar e compreender o sentido da nova proposta.

A vivência do processo de avaliação também remete-o à incerteza, à obscuridade presente em seu cotidiano.

Eu não gosto de avaliar outra pessoa. Eu fico nervosa, começo a tremer, não sei nem falar... Eu morro de medo de falar uma palavra.

(a-2)

Na auto-avaliação é que sou um pouco injusta comigo mesmo, mas sinto bem. Muito justa é ser meio perfeccionista. Às vezes, é angustiante você vai se auto avaliar, pega a folha dos objetivos e vê,

não correu atrás disso, vou correr atrás então, às vezes, é muita autonomia que dá no currículo, é um pouco angustiante. (a-3)

Esta questão de avaliar as nossas atitudes é uma coisa que me incomoda um pouco, porque acho que é difícil, nem é só pelo julgamento, mas acaba sendo, porque os docentes... não sei qual o preparo que eles têm para avaliar uma outra pessoa. Você avaliar na técnica e no conhecimento é uma coisa, agora avaliar se essa pessoa se dá bem no grupo, se ela faz isso ou aquilo é outra coisa. Então, como que uma pessoa que também tem milhares de defeitos, talvez também têm dificuldades, consegue avaliar as outras pessoas? (a-4)

No momento em que se sente cobrado e avaliado e também precisa avaliar e auto avaliar-se, o ser-aluno fecha-se em sua verdade, em seu temor. Ele deprecia a revelação do outro, do docente ou do colega, considerando que este, por também ser um ser em desenvolvimento, coexistindo na prática educativa, nada tem a contribuir com ele. Também se auto deprecia, considerando-se incapaz de olhar para si mesmo e para o outro e contribuir com o seu desenvolvimento e o do outro. Tem dificuldade em lidar com a nova liberdade colocada, assim como com a responsabilidade correspondente.

5.2.2.2

B

USCANDO A

C

ONFORMIDADE COM O

M

UNDO

C

IRCUNDANTE

A conformidade com o mundo circundante é o que dá liberdade aos entes já que, previamente descobertos, eles se fazem presentes no mundo através dos modos de referir-se do homem. À medida que o aluno se familiariza com o mundo, o interpreta e compreende, movem-se as suas referências com os entes da nova prática educativa.

Nesse movimento, o ser-aluno ora se fecha, ora se abre para novas possibilidades de referência, prendendo-se em limites estabelecidos e em comparações.

No primeiro e no segundo ano, eu não gostava nem um pouco, principalmente no primeiro ano, que eu acho que assim, o conteúdo não era o que a gente esperava. Porque a gente não teve uma preparação que ia ser totalmente diferente, porque a gente saiu do vestibular e entrou aqui. Então, era uma coisa totalmente diferente, eu não gostava, eu não gostei dos módulos do primeiro ano, até dos módulos do segundo ano eu não gostei, lógico que foi um susto. (a-1) Eu imaginava que eu ia chegar, a gente ia estudar logo fisiologia, anatomia, sabe?! Nem que a gente não fosse para o campo, mas que a gente ia começar assim e não foi nada disso. E a gente queria, mas quando que a gente vai começar? E na verdade os módulos ainda não estavam construídos assim, o que eu sentia era pior ainda. Então a professora, não, ainda não é o próximo, não é o próximo e a gente sofria bastante. E ainda não sabia se ia dar certo. (a-7)

Nesse mundo da educação as coisas externas se refletem na face interna do ser-aluno. As teias de relações das disciplinas ainda não são visíveis, apesar de terem nexo para atender aos objetivos do Currículo Integrado, por isso não faz sentido para ele.

A imersão do ser-aluno na prática educativa do Currículo Integrado caracteriza-se por um movimento de vencer a estranheza da proposta e de ganhar familiaridade.

A gente se cobra por natureza e lá fora estão cobrando de você também, e quando você terminar o curso, daí você experimenta, vai ter muita gente olhando como é que vai ser o profissional do currículo integrado, então nós vamos viver certos momentos de incerteza. Eu já sou exigente por natureza, também daí outros exigem, daí fica complicado. (a-6)

O ser-aluno vivencia momentos de inautenticidade, voltando-se para a opinião externa, preocupando-se com as cobranças sociais e o reconhecimento do outro. Tal condição o afasta de seu próprio ser e da sua verdade.

5.2.3

H

ABITANDO AS

R

ELAÇÕES

O ser-aluno, enquanto um ente no mundo, tem a possibilidade de dialogar, questionar, buscando o que ele é. Isso acontece porque o ser-aí, sendo um ser-no-mundo, constrói o seu modo de ser no cotidiano. Essa realidade vivida é que possibilita abrir canais para interrogar e refletir sobre aquilo que se é, para que se destina, qual a obra a ser construída.

Esta unificação ontológica está sub-dividida em três movimentos:

ƒ O mover-se nas relações

ƒ O olhar para a realidade

ƒ O apropriar-se do mundo vivido

5.2.3.1

O

M

OVER

-

SE NAS

R

ELAÇÕES

Neste movimento, o ser-aluno começa a ter percepção da realidade da prática pedagógica na qual está inserido e habita, de maneira mais expressiva, seu mundo percebendo-se estando com os outros nesse mundo.

Uma coisa que eu acho lindo nesse currículo é a aproximação do aluno e professor. Ficamos muito próximos, porque somos pequenos grupos. Então, fazemos muitas amizades, muito legal, tanto aluno e professor quanto aluno e aluno. (a-2)

O ser-aluno ressalta a vivência da proximidade na relação docente-aluno, a partir da configuração dos pequenos e médios grupos de trabalho. Situando-se junto ao ser-docente expressa como o vê nessa relação:

Eu acho que os professores têm um papel fundamental no direcionamento e muitas experiências para contar. Porque a gente vê muita coisa no livro que não está se usando mais, ou que até se usa, mas, de uma forma diferente... Então, a prática do profissional professor é muito importante. Teve uma diferença gigante quando a gente começou a ter as aulas só com especialistas. Então, não é a questão de ser individualista...Mas eles destacam-se nas suas áreas.

(a-4)

O professor é uma peça chave no aprendizado, não pra mim pegar tudo nele, mas sempre uma coisa que ele conta, uma dúvida que ele tira, a experiência de vida dele, isso enriquece o aluno. Porque a teoria é importante, mas a experiência de vida que o professor chega e conta que você nunca, nunca viveu aquilo ainda, é muito importante. Você vai guardando aquilo na sua bagagem. Têm uns que parece que tem mais facilidade, pela própria proposta do currículo, parece que estão mais adaptados, assim, então é mais fácil para eles tirarem a sua dúvida. Outros, a gente vê que tem ainda uma certa dificuldade, acho que é a questão de dar atenção. (a-6)

Eu acho que tem professores que te passam bastante segurança também, a gente vê que alguns são meio contrários a certas coisas, mas mesmo assim eles passam segurança. Passam segurança sim, em relação ao conteúdo, que é quando você está meio preocupado com isso, a gente tinha muita preocupação na 1ª turma, e aí vem os professores e te dão segurança, não, vocês estão aprendendo. (a-8)

O ser-aluno enfatiza a presença do ser-docente e o quanto ele representa na construção do seu saber. Valoriza o docente também como um ser–no-mundo em seu horizonte de experiências e elogia a atuação do professor