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Heidegger fala do obscurecimento do mundo provocado pela apropriação e exacerbação da técnica no tempo moderno. Através das forças produtivas instauradas, a existência começa a resvalar por um mundo destituído de brilho e profundidade. Tal acontecimento, para ele, é fruto da sombra projetada sobre o mundo, advinda de três fenômenos que estavam em marcha

desde o início da modernidade, mas que, no presente, ganharam uma força muito grande: a devastação da terra, a massificação do homem e a fuga dos deuses (MICHELAZZO, 1999).

A devastação dos campos, das florestas e dos mares, esgotam as forças da terra de que mais dependemos para nossa sobrevivência: o ar, as águas e os alimentos. O homem, na esteira voraz da produção e do consumo, mistura-se com a matéria prima e torna-se o melhor dos recursos para a produção e o consumo do mundo capitalista. O obscurecimento do mundo é completado pela falta de Deus, significando que nenhum Deus reúne mais, de forma visível e clara, os homens e as coisas em torno de si, deixando o vazio.

Tudo isso leva à compulsão do homem moderno e ao esquecimento do ser. Essa distância entre o ente e o ser é para Heidegger a origem do obscurecimento do mundo e que lança o ser-aí nos sofrimentos da apatridade, isto é, exila o homem do , de sua pátria essencial, empurrando-o na direção do abandono e na distância do ser (MICHELAZZO, 1999).

Neste movimento me aterei a abordar a distância do ser, a vivência da estranheza do mundo, gerando sentimentos de incapacidade, insegurança e incertezas.

Ao estar vivenciando a prática educativa, o ser-docente não ocupa somente posições dentro desse espaço, um local definido, mas, através da interpretação que faz estando e sendo neste mundo, é que direciona e aproxima-se mais ou menos dos entes deste mundo e de si mesmo, construindo existencialmente seu tempo e seu espaço para fazer contato com o mundo a ser habitado.

Na vivência das experiências iniciais ocorreram mudanças de alocações dos docentes, buscando a integração das áreas para assegurar a continuidade da seqüência gradual de construção do conhecimento do aluno. Este princípio, quando discutido em seus fundamentos teóricos, deixa bem claro a importância de se respeitar os níveis crescentes de complexidade do conhecimento e as sucessivas aproximações necessárias para a apreensão gradual deste. Mas, ao colocar estes princípios em operacionalização, muitos obstáculos surgem e demandam muita discussão e reflexão para sua concretização. Assim, os docentes, em determinados momentos, formados em uma outra lógica e colocados no processo de trabalho até então como especialistas, vêem-se diante de outro desafio que trata da formação do enfermeiro generalista. Mais uma vez ele tem de correr na frente, estudando e aprendendo para poder alcançar a proposta estabelecida pelo Currículo Integrado.

E realmente houve uma mudança muito grande de paradigma, porque a gente foi lançado ou colocado para atender e fazer acompanhamento em unidades não tão conhecidas. E isso para mim era uma coisa perdida no tempo e no espaço. Foi uma experiência muito estanque na minha vivência. Então, foi um período de ter que estudar, de tentar correr atrás, tentar entender uma série de coisas que não fazia muito sentido para mim ou, não na minha realidade profissional. (d-1)

Mas eu não tinha conhecimento. Então eu não sabia conduzir o aluno. Não sabia qual era a dinâmica do serviço. Eu não sabia o que o aluno tinha que fazer direito. Eu não sabia nem o que eu tinha que fazer direito tinha hora. Então ficava mais difícil ainda falar para o aluno vai fazer isso ou aquilo e direcioná-lo. (d-2)

Você se sente meio incapaz, porque são muitas coisas novas para aprender, para resgatar com os alunos, na verdade está formando um enfermeiro generalista, mas você não é um generalista. (d-6)

Antes eu tinha uma certa insegurança, se chegar lá e daí não saí as questões, não saí o que a gente estava prevendo ou o grupo não estudar ou o grupo não responder de acordo com a proposta que você, eu tinha essa preocupação. (d-9)

Ter que aproximar-se do novo é torná-lo familiar, o que já está em movimento e, ao por em prática esse conhecimento dá-se a liberdade para o ente ser o que é.

Estas falas expressam os sentimentos de contato com a nova realidade da prática educativa do Currículo Integrado, a vivência da insegurança e do sentimento de incapacidade. O ser-docente percebe sua inabilidade, seu desconhecimento ou sua pouca familiaridade com este mundo. Esta percepção o leva a uma imersão no conhecimento teórico da concepção do currículo integrado, agora estabelecido como desafio em seu cotidiano. As falas retratam o estudo individual e em grupo, as discussões coletivas, enfim, a busca através de leituras, cursos, oficinas, reuniões para estar se apropriando dos entes agora postos em seu mundo.

Daí nós passamos por uma fase de muito estudo. E às vezes eu não entendia direito o propósito daquele estudo. E sou assim, sou essencialmente uma pessoa prática, e aquela discussão toda, às vezes eu ficava me perguntando qual seria a aplicação prática daquilo. Eu lembro daquela oficina para tentar montar os esqueletos do currículo e tentar entender o que é problematização. Eu, o tempo todo ficava tentando buscar dentro de mim, assim o que eu era, e o que aquilo era diferente do que eu era, do que estava por trás. Naquelas oficinas que a gente fez algumas tentativas de problematização tentando ver como é que aquilo funcionava. (d-1)

Exige muito estudo do docente...Estar assumindo que, às vezes, não sabe e ir em busca do prejuízo, estudar e batalhar para poder estar conseguindo lidar melhor com todas essas mudanças. (d-6)

A partir do momento que eu comecei a participar do currículo integrado e da construção dele, eu tive uma imersão enorme em termos de capacitação pedagógica propriamente dita. (d-8)

Estas falas trazem expressões como esqueleto, prejuízo,

batalha que podem estar significando a obscuridade em que o ser-docente sente-se imerso nessa busca da familiaridade com o mundo da educação que está habitando. Evidenciam a estranheza deste novo mundo.

Critelli (1988) traz o conceito de inospitalidade do mundo para Heidegger, aquele estado em que nos revela o próprio mundo não mais como ilusoriamente o pensávamos, como um ente, como uma coisa, como um conjunto e um complexo de coisas naturais e artificiais que estão por aí e onde acreditávamos estar perfeitamente integrados. Quando as coisas mudam, quando o mundo manifesta sua estranheza, sua inospitalidade, pode ocorrer a evasão do sentido que ser faz para nós.

A vivência mais próxima ao aluno, a consciência dos limites próprios e dos alunos, a franqueza no diálogo expõem o ser-docente de uma forma que ele ainda não tinha experienciado. É um momento em que vivencia sentimentos de incerteza da proposta.

Estou aprendendo muito neste currículo. A gente tem só que tomar cuidado, muito cuidado para não ser uma aprendizagem dramática. Eu acho que é esse o risco que a gente se expõe quando está trabalhando dessa forma, e que é difícil... Porque da outra forma a gente ficava muito mais protegido, você não ficava exposto nesse grau e era mais fácil. É, você não expõe suas fragilidade, você não corre tanto risco de errar. Você faz aquilo que tem certeza, só. E quando você se dispõe a fazer uma avaliação olhando um na frente, um para o outro, é...você tem risco. (d-5)

O currículo mostra quais são as nossas falhas, os pontos fracos, os pontos fortes, ele deixa extremamente na cara. Às vezes, é duro de enxergar isso. Eu acho que o currículo deixa muito à vista. De um lado é bom que você tem que tentar superar, por outro é ruim, porque, às vezes, cria muita ansiedade. (d-2)

O ser-docente limita suas possibilidades diante da percepção do movimento constante da nova prática educativa desenvolvida e sofre diante do estranho, do novo. Estar nesse mundo é a primeira condição para descobri-lo, o docente pode abrir-se para aquilo que o convoca para poder responder e dar conta do que o currículo propõe.

É que o novo era novo sempre. E não dava tempo para esse novo acomodar, e eu me apropriar. A gente sabia que ia ser um processo difícil, que ia ser um processo doloroso. Que todo processo de mudança é, você passa por sofrimento e depois tem o período de acomodação, mais de adaptação. Mas que eu sentia que não tinha tempo de acomodação, porque logo tinha uma nova onda de mudança.

(d-1).

Outro sentimento vivenciado é o de finitude, fechando em si mesmo outras possibilidades, sentindo-se sem oportunidades para estar existindo.

Muitas vezes cheguei a pensar em voltar para a área assistencial, porque acho que não é a minha praia, não é o meu lugar, porque não estou sabendo ensinar tudo isso... Porque muitas vezes sinto que as pessoas ficam muito em cima do muro, uma hora acham que o currículo não é bom, que não traz grandes vantagens para o aluno, para gente, traz só sofrimento, por outro, às vezes, a gente ouve as mesmas pessoas falando bem dos nossos alunos, nossa que coisa boa! Então, as pessoas estão nessa, em cima do muro mesmo, não sabem para que lado vão. (d-6)

Eu acho que não tive pernas para que pudesse estar caminhando na avaliação. Então, o desenho era definido pelo gestor, redefinido pelo gestor e eu ia atrás cumprindo as determinações do desenho. Entendo

também que se estivesse nesse grupo, possivelmente, também faria a mesma coisa. Estaria gerenciando, administrando. Só que no lado de cá, senti falta de momentos em que a gente realmente rediscutisse isso. Não sei se teria feito diferente... Então, que houvesse momentos para essa catarse, porque senti essa tensão crescente de diversas maneiras.

(d-1)

O ser-docente busca desocultar-se no seu próprio ser-aí diante do mundo de mudanças, tendo ante os olhos muitas interrogações, destinando- se a fazer novas relações neste novo contexto no mundo da educação em enfermagem. Voltando-se para si mesmo, o ser-docente retoma seu sonho, sua utopia, o sentido que o moveu nesta jornada:

Meu sonho é ver uma enfermagem científica, assim de cuidado mesmo com o paciente. É firme e não parecendo uma areia movediça. Hoje a gente pisa e puxa, parece que vai lá para baixo. Eu queria que a gente pisasse mais em terra firme. (d-2)

Nesse movimento de habitar o mundo da prática educativa do Currículo Integrado, o que caracteriza o presente do ser-docente é a incerteza, a obscuridade, o desejo de terra firme, representando a sua inserção na profissão hoje como areia movediça.

Quando a pre-sença descobre o mundo e o aproxima de si, quando ela abre para si mesma seu próprio ser, este descobrimento de mundo e esta abertura da pre-sença realizam uma eliminação das obstruções, encobrimentos, obscurecimentos, como um romper das deturpações em que a pre-sença se tranca contra si mesma.