Os cursos de história da filosofia da linguagem. 1.3. Tipos de questões. 2. A problemática da linguagem na diacronicidade.
2.1. As raízes históricas da filosofia da linguagem.
3. A valorização coseriana da abertura filosófica grega. 3.1. O sistema tripartido de Heraclito. 3.2. A relação φύσει e hέσει em Platão. 3.3. A abertura aristotélica. 3.4. Os estóicos.
4. A modernidade do pensamento de Santo Agostinho. 5. Juan Luis Vives e a “língua viva”.
6. Wilhelm von Humboldt e a linguística moderna.
A filosofia entendida como a “arte do λόγος”, numa contínua recriação, gera uma história com um sentido que está por efectivar na leitura / interpretação. Relacionado com a energueia do logos, o discurso filosófico incita o pensamento num rumo diferente do pensamento quotidiano determinado pela linguagem comum. Neste sentido, apresenta-se o registo coseriano na sua história da filosofia da linguagem: 1) conhecer os conceitos, 2) entender o seu funcionamento, 3) assumir funcionalmente conceitos, estratégias e visões com finalidades criativas em vários tipos de discurso.
1) Uma disciplina didáctica torna-se vocação em Coseriu
1.1. O papel heurístico dos filósofos foi substituído pelo didáctico em domínios de estudo muito restritos e especializados e a vocação dedicada à sabedoria do homem torna-se uma profissão mais ligada aos métodos e objectos de estudo especializados. No contexto actual de atomização do conhecimento e investigação científica, o Professor Eugenio Coseriu recuperou a condição filosófica nas suas ágoras. O seu trabalho
académico sobre a história da filosofia da linguagem comprova a funcionalidade da energueia na abordagem das reflexões sobre a linguagem numa reconstrução, ao nível cognitivo, das heranças da tradição. A partir da linguagem, Coseriu desenvolve a construção da identidade do sujeito que se relaciona semanticamente com o mundo, o outro e as realidades espirituais humanas numa dimensão histórica.
O seu pensamento filosófico dialoga com as reflexões de importantes pensadores e gera uma teoria coerente da linguagem que edifica uma perspectiva particular ao revalorizar a atitude activa187 do factor humano na história. Segundo ele, uma teoria deve servir o objectivo proposto, senão deve-se criar outra, pois, como energueia, o rumo é exactamente o que se constrói, não um dado fenomenal. O seu curso de história da filosofia da linguagem constitui-se como uma problematização de fontes, interpretações e afirmações várias existentes desde a Antiguidade até à contemporaneidade. O objectivo não é apresentar uma base informacional, mas constituir uma investigação através de múltiplas leituras de textos filosóficos, como um modelo interpretativo passível de recompor a complexidade e a simplicidade de qualquer doutrina filosófica na perspectiva de relacionar o lado conceptual com o da necessidade racional de entender a essência, isto é, afirmar a universalidade de cada item numa actualização histórica. Na sua interpretação filosófica, Coseriu é rigoroso ao delimitar os planos conceptuais, as várias percepções do mesmo fenómeno cultural, os tipos complementares de conhecimento, a carga constitutiva de conteúdo semântico dos tópicos que contêm a relação da linguagem com os contextos culturais, históricos e textuais. A actividade das ideias difere da vida dos homens e tem o poder de dissolver a dimensão diacrónica a fim de fomentar a sincronicidade do ser humano. O seu discurso crítico foca o valor cognitivo duma dada teoria, não julga ideias e concepções, mas opera uma classificação inteligível didáctica. No seu curso, assume a filosofia como actividade188, lembrando Kant e Wittgenstein189. Para ele, a filosofia não se restringe a
187 Hegel trata o aspecto da criatividade ligado ao conceito de “desenvolvimento”: “Para compreender o
que significa o desenvolvimento devem distinguir-se, por assim dizer, dois estados diversos: o primeiro é o que é conhecido como disposição, capacidade, o ser em si (como eu chamo), potência, δύναμις; o segundo é o ser por si, a actualidade, actus, ἐνέργεια.” G.W. F. HEGEL, Introdução à história da filosofia, trad. António Pinto de Carvalho, Precedida de um preâmbulo sobre Hegel e o conceito de
história da filosofia por Joaquim de Carvalho, Coimbra, Arménio Amado, Sucessor, 1980, 4ª ed., p. 61.
188 “Man kann keine Philosophie lernen, wohl aber philosophieren lernen.” Immanuel KANT, Reflexion
zur Logik, n. 1652; Ak. Vol. XVI, apud José BARATA-MOURA, “Filosofia e Filosofar. Hegel versus Kant?”, Philosophica. “Ensino da Filosofia. Filosofia do ensino”. Revista do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, nº 6, Novembro, 1995, p. 66. “Ensinar filosofia e fazer filosofia deveriam ser a mesma coisa”, Carlos João Nunes CORREIA, “Os Usos da Filosofia”,
um constante questionamento sobre a estrutura e dinâmica do conteúdo semântico do pensamento190, é um acto complexo de criação. Considera necessária a abordagem
filosófica para o entendimento das coisas e em especial das ciências, dando um relevo particular à “Weltanschauung” (imagem, visão do mundo) de qualquer filosofia e, mais importante do ponto de vista formativo, o continuar a filosofar, uma vez já familiarizados com o seu discurso.
1.2. A filosofia da linguagem desenvolvida por Coseriu está presente nas suas conferências e cursos independentes191, mais especificamente, nos cursos de História da
Philosophica. “Ensino da Filosofia. Filosofia do ensino”. Revista do Departamento de Filosofia da
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, nº 6, Novembro, 1995, p. 38, ideia desenvolvida e justificada neste artigo.: “Philosophy is not a theory but an activity. A philosophical work consists essentially of elucidation. The result of philosophy is not a number of “philosophical propositions”, but to make propositions clear”. Ludwig WITTGENSTEIN, Tractatus Logico-philosophicus, 4, 112. Veja-se igualmente o estudo de Rudolf CARNAP, “On the Character of Philosophical Problems”, in Richard Rorty ed. The Linguistic Turn..., (nota 81), pp. 54-62, toma uma posição anti-metafísica, e trata sobre o sentido das proposições lógicas da ciência em “Are the propositions of the Logic of Science Meaningless?”, pp. 55-56. Moritz SCHLICK, “The Future of Philosophy” in Richard RORTY, The
Linguistic Turn…, pp. 43-53 apresenta a filosofia numa descendência socrática na sua busca do sentido
(“The Pursuit of Meaning”, p. 48, como “a rainha das ciências” (“The Queen of Sciences” p. 51) e fundamentalmente como actividade, interpretando a mesma afirmação de Wittgenstein.: “Sem dúvida que
nos mostra o desenvolvimento de determinada actividade, caracterizada, entre outros traços, pela interrogatividade, pela argumentação, pela investigação regressiva dos fundamentos – e mostra-nos também a permanência dessa actividade.” António Pedro MESQUITA, “O que é a Filosofia? Sentido
filosófico e virtualidades pedagógicas de uma definição de filosofia”, Philosophica. ‘Descartes e o
Círculo Cartesiano’. Revista do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa, nº 8, Novembro de 1996, p. 116.
189 “O objectivo da filosofia é a clarificação lógica dos pensamentos. A filosofia não é uma doutrina,
mas uma actividade. Um trabalho filosófico consiste essencialmente em elucidações. O resultado da filosofia não é «proposições filosóficas», mas o esclarecimento de proposições” Ludwig
WITTGENSTEIN, Tratado lógico-filosófico. Investigações filosóficas… & 4.112 (p. 62).
190 “Cada tipo de objecto de pensamento pode ser pensado de diversas maneiras, mas há, para cada um
deles, uma maneira de pensar que exprime com maior rigor (exactidão, akribeia) a sua natureza.” Paulo
TUNHAS, “Akribeia, maneiras de pensar e objectos de pensamento. O exemplo da descoberta” in Adelino CARDOSO e José M. de Miranda JUSTO, Sujeito e Passividade, Lisboa, Edições Colibri, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2003, p. 30. O autor oferece uma síntese dos dados da filosofia da mente e da teoria do conhecimento na apresentação da diversidade dos modos do pensar imaginativo ou abstracto.
191 Veja-se Eugenio COSERIU, "Filozofia limbajului", Prelegeri şi conferinţe..., pp. 7-26. Existem
também várias conferências: “Linguistic Change does not Exist” apresentada nos Estados Unidos em Los Angeles no mês de Maio de 1982 no «UCLA Conference on Causality and Linguistic Change» e publicado em Linguística nuova ed antica. Revista di linguística clássica medioevale e moderna, anno I, 1983, pp. 51-63, ou encontros com os professores onde trata sobre o problema da interdisciplinaridade e a linguagem: Idem, “Interdisciplinarità e linguaggio”, in G. Braga, V. Braitenberg, C. Cipolli, E. Coseriu, S. Crespi-Reghizzi, J. Mehler, R. Titone, L'accostamento interdisciplinare allo studio del
linguaggio, Milano, 1980, pp. 43-65, ou sobre o ensino da língua e literatura: Idem, “Acerca del sentido
Filosofia da Linguagem192 e da Filosofia da Linguagem Alemã193 e, dum modo geral, em toda a sua obra.
Destaca a proeminência do pensamento sobre a língua na cultura, na filosofia que tem a sua história e nela se constitui mas, sem ser essa história, uma vez que ela não é histórica194. Figuram-se-lhe três realidades ontológicas: a linguagem, a filosofia e a história. Em primeiro lugar, devem-se destacar os domínios da ciência, como história, da ciência em e do geral e da ciência no sentido filosófico195. Na sua acepção a “ciência” não é uma técnica, refere-se à “sabedoria”’, ao nosso “conhecimento” e “domínio conhecido”, “o entendido”.
1.3. Deve-se aplicar especial atenção à construção do questionar, como se elaboram as questões e especialmente a sua natureza conceptual, visto que existem questões históricas, do conhecimento geral e filosóficas196. Para um melhor esclarecimento, Coseriu exemplifica o modo de construção e a abertura cognitiva operada ao nível interrogativo. Ultrapassa-se o nível da construção retórica e visa-se a própria constituição do cognitivo: as questões históricas realizam-se com o objectivo de individualizar um elemento doutros, especialmente o enquadramento temporal e espacial197. As questões do nosso conhecimento geral evidenciam o significado da língua, mais concretamente a explicação dos conceitos criados pertencentes à cultura através do conhecimento comum da linguagem, procurando uma explicação do
Subdirección general de formación del profesorado, Ministerio de Educación y Ciencia, pp. 13-32 e outros.
192 As suas notas de curso foram publicadas em Eugenio COSERIU, Die Geschichte der
Sprachphilosophie von der Antike bis zur Gegenwart. Eine Übersicht … vol. 1; Idem, Die Geschichte der Sprachphilosophie von der Antike bis zur Gegenwart. Eine Übersicht,… vol. 2.
193 Idem, Die deutsche Sprachphilosophie von Herder bis Humboldt… vol. 1, 2, 3.
194 “O que a história da filosofia nos mostra é pois propriamente nenhuma história – é um conjunto de
sistemas” […] “mantendo-se antes como propostas paradigmáticas de formulação dos problemas sobre os quais se interrogam. A história da filosofia é assim o quadro sobre o qual se “sucedem”, na reiterada contemporaneidade da presença àquele que lhe assiste ou nela participa, tais propostas na sua perenidade intrínseca”, António Pedro MESQUITA, art. cit., pp. 116-117.
195 “Segundo o modo ou natureza da questão, podem-se distinguir três modos da ciência: uma ciência
como história; uma ciência do geral; uma ciência no sentido filosófico“ - “Je nach Art oder Wesen der Frage können wir zwischen drei Arten von Wissenschaft unterscheiden, zwischen: einer Wissenschaft als Geschichte; einer Wissanschaft vom Allgemeinen; einer Wissenschaft in Sinne der Philosophie.” Eugenio
COSERIU, Die Geschichte der Sprachphilosophie von der Antike bis zur Gegenwart. Eine Übersicht …, I, p. 11.
196 “Historische Fragen, allgemein wissenschaftliche Fragen, philosophische Fragen.” Ibidem, p. 12.
Veja-se Idem, Die Geschichte der Sprachphilosophie von der Antike biz zu Gegenwart. Eine Übersicht …, pp. 5-7.
conteúdo, do funcionamento, da forma e outros dados físicos e constitutivos198 e, finalmente, as questões filosóficas que surpreendem a essência ontológica199 nas
formulações linguísticas. A respeito destas, prosseguindo o pensamento do ensino de tipo medieval, Coseriu discorre sobre as ciências naturais que estudam os objectos externos ao homem, como objecto exterior, com uma determinada substância, uma matéria cristalizada numa estrutura e forma próprias; as ciências da cultura ou humanistas, formas da consciência que exprimem uma existência interna e empregam uma “substância” específica para se concretizarem no mundo e se tornarem intersubjectivas, como a linguagem, a arte e a religião. As ciências matemáticas são, para Coseriu, as que estudam os objectos e as relações puramente formais.
A filosofia pertence a um outro nível, é “ciência” no sentido mais abrangente possível e necessário, levanta questões relativamente à essência da essência. Ao nível ontológico, a linguagem é o fundamento do ser e de qualquer ciência, visto que a própria língua cria e torna possíveis os objectos da história, ciência e filosofia.200