Young (1990) começou por criticar os limites de um conceito universal de justiça espacial. Isso correspondeu a ignorar o individualismo rawlsiano que tinha nesse individualismo uma forte base para a construção da sua teoria universal da justiça. Young afirmou, pelo contrário, não poderem os indivíduos ser considerados isoladamente na sociedade, porque se integram em grupos sociais nos quais é possível encontrar afinidades, determinantes do seu agrupamento, pese embora possam ser classificados como dinâmicos e heterogéneos.
Da mesma forma que recusa a posição de Rawls ela critica a concepção distributiva da justiça característica dos marxistas. Como se poderão distribuir segundo critérios qualitativos bens como a liberdade de expressão, interroga-se Young (Lehman- Frisch, 2009).
Na sua proposta é evidente a existência de uma clara consciência das limitações associadas a uma abordagem apenas socioeconómica da justiça, e à defesa de uma política justa capaz de abolir, por si só, a opressão sob todas as formas. A sua proposta baseia-se numa concepção da justiça capaz de reconhecer a alteridade e de propor uma política territorial atenta aos direitos dos grupos organizados pelas suas afinidades e não tanto por opções de base comunitária. Nesta perspectiva, uma mesma pessoa pode pertencer a diferentes grupos de acordo com as suas afinidades. As diferenças que fundamentam a identidade dos grupos não é fechada/hermética, ela resulta das interacções sociais e por isso é dinâmica. Desta forma dentro de grupos sociais podemos encontrar diferenças e mesmo conflitos potenciais (Gervais-Lambony, 2009).
Young distingue duas famílias de injustiças espaciais: a dominação que impede certos grupos sociais de fazerem escolhas e a opressão que impede certos grupos sociais de adquirir os meios de fazer essas escolhas. Na concepção da autora toda a opressão implica uma dominação embora a inversa não seja verdadeira. A opressão manifesta-se sob cinco formas que podem ou não combinar-se:
- A exploração. Corresponde à opressão das classes sociais desfavorecidas. Não apenas as classes que não beneficiam de um adequado rendimento pelo seu trabalho, mas também aquelas excluídas dos processos de tomada de decisão, impedidas de fazer escolhas sobre o seu modo de vida:
―The central insight expressed in the concept of exploitation, then, is that this oppression occurs through a steady process of the transfer of the results of the labor of one social group to benefit another. The injustice of class division does not consist only in the distributive fact that some people have great wealth while most people have little. Exploitation enacts a structural relation between social groups. Social rules about what works is, who does what for whom, how work is compensated, and the social process by which the results of work are appropriated operate to enact relations of power and inequality. These relations are produced and reproduced through a systematic process in which the energies of the have-not are continuously expended to maintain and augment the power, status, and wealth of the haves.‖(Young, 1990, p.49)47
- A marginalização. Inclui todos os que por estarem fora do mundo do trabalho são excluídos do funcionamento da sociedade. Inclui os desempregados, os velhos, os sem-abrigo, aqueles que perderam mesmo a auto-estima apesar de poderem beneficiar de uma forma de remuneração que lhes permita sobreviver.
- A ausência de Poder. Inclui todos os que estão excluídos de qualquer tomada de decisão. Excluídos por razões espaciais, pelo seu local de trabalho ou pelo seu local de residência.
- O Imperialismo cultural. É o processo pelo qual um determinado grupo é tornado invisível.
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“ A ideia central contida no conceito de exploração, é a de que essa opressão concretiza-se através de um processo efectivo de transferência dos resultados do trabalho de um grupo social em benefício de outro. A injustiça da divisão de classes não consiste apenas na questão distributiva de algumas pessoas terem uma enorme riqueza enquanto a maioria são pobres. A exploração representa uma relação estrutural entre grupos sociais. As regras sociais acerca do que é o trabalho, quem faz o quê para quem, como é compensado o trabalho, e sobre o processo social pelo qual os resultados do trabalho são apropriados operam para determinar as relações de poder e desigualdade. Essas relações são produzidas e reproduzidas através de um processo sistemático no qual as energias dos que nada têm são continuamente dispendidas para manter e aumentar o poder, estatuto, e riqueza dos que têm tudo.” Tradução do próprio.
―Cultural imperialism involves the universalization of a dominant group´s experience and culture, and its establishment as the norm. Some groups have exclusive or primary access to (…) the means of interpretation and communication in a society. As a consequence, the dominant cultural products of the society, that is, those most widely disseminated, express the experience, values, goals, and the achievements of these groups.‖(Young, 1990, p.59)48
- A Violência. Trata-se da violência exercida sobre um grupo. A violência como práctica social, eventualmente considerada como aceitável, por exemplo, quando incide sobre as minorias étnicas.
A partir desta reflexão de Young uma situação social poderá ser considerada injusta quando um grupo de cidadãos é vitima de pelo menos uma destas formas de opressão.
Harvey reflectiu sobre as propostas de Young tendo considerado que elas possibilitam-nos actuar quando confrontados com uma situação concreta. No entanto, recusa a ideia da não universalidade já que, no seu modelo, busca-se uma nova ordem global que substituirá a actual ordem global capitalista. Harvey acrescenta às cinco formas de opressão propostas por Young uma nova forma de opressão que é a opressão ambiental. Segundo o autor essa opressão exerce-se, sobretudo, sobre as gerações futuras e resulta da degradação, para ele irreversível, do ambiente.