5 Simulation of cobweb model
5.2 Stochastic model simulation
Ao recebermos o caso em nossa equipe de referência, logo realizamos uma conversa com Bentinho durante nossa reunião para elucidá-lo sobre essa mudança na configuração do seu tratamento. Com a participação da gestão local nesse processo de construção, genericamente, explanamos nossas justificativas dessa intervenção em virtude de avançarmos na proposta de tratamento oferecida para qualificarmos seu projeto terapêutico singular.
Inicialmente, Bentinho se mostrou reticente, desmotivado e pessimista diante dessa proposta, uma vez que já havia ocorrido outras apostas parecidas da equipe geral em outras circunstâncias. Colocou-se de forma indiferente e lançou uma fala blasé de um “tanto faz, eu não tenho jeito...” que se atualizava conosco.
Posteriormente, como de alguma maneira já esperávamos que ocorresse, Bentinho continuava perpetrando a toada anterior a essa mudança. Ocorreram seguidos episódios de intercorrências no interior da unidade, conforme já descrevemos no trecho II: o circuito drogas-hostilidade-transgressão-resistência colocava à prova a sustentação do nosso empenho em cuidar.
Inúmeras vezes ao dia, (às vezes o dia inteiro) nossa equipe era solicitada para intervir nessas situações e, mais do que isso, era cobrada por não conseguir impor os chamados “limites” necessários na esfera de uma certa “ortopedia moral”. Dessa forma, nas minúcias das vontades por vezes expressadas por parte da equipe, criava-se uma espécie de “clima de torcida” para que nós, que assumíamos a condução do caso, exercitássemos nossas intervenções junto ao usuário com soberania. Havia expectativa concreta nessa atitude como uma produção eficaz de uma “pedagogia da sociabilidade” de Bentinho, assim como na manutenção do modo de produção de subjetividade massificador e restritivo de sua singularidade e suas diferenças em curso nesse estabelecimento de saúde mental. Por várias vezes ouvimos: “Vocês não põem limites e o Bentinho faz o que ele quer!” Aqui, tomamos de empréstimo as palavras de Foucault sobre:
O que é fascinante nas prisões [hospitais psiquiátricos] é que nelas [neles] o poder não se esconde, não se mascara cinicamente, se mostra como tirania levada aos mais ínfimos detalhes, e, ao mesmo tempo, é puro, é inteiramente “justificado”, visto que pode inteiramente se formular no interior de uma moral que serve de adorno ao seu
exercício: sua tirania brutal aparece então como dominação serena do Bem sobre o Mal, da ordem sobre a desordem. (1999b p. 73, adições minhas)
Não desistimos, persistimos.
Todavia, é necessário dizer que, em nossa compreensão, não se tratava de autorizar o usuário a realizar todas as suas vontades na hora em que ele quisesse, como quisesse ao seu bel prazer. Ao contrário, tratava-se de oferecer contornos necessários pela via do acolhimento à crise, possibilitando inclui-lo na construção de uma expressividade com efeito apaziguador para sua angústia que, desbussolada e avassaladora, se investia no outro mais próximo. Para tal, intervir impositivamente com um “não pelo não” seria tão somente negar a multiplicidade que se coloca em jogo no ato dos encontros e dos acontecimentos do cuidar, impedindo Bentinho na experimentação de um uso compartilhado na produção de signos com função simbolizante de apaziguamento, mediadora das/nas relações, intercambiável no circuito de trocas.
Assim, nossa estratégia nesses momentos era de atendimentos compartilhados entre duas pessoas da equipe de referência, os atendimentos em dupla cuidadora. Esse agir se balizou pela oferta de contorno via escuta-diálogo-contratuação em difusão de duas figuras de referência. Especificamente, essa tática se mostrava potente na medida em que, partindo de nossas avaliações, apostamos que a conexão dirigida somente a um cuidador, nesse primeiro momento captaria e incorporaria alta tensão na relação cuidadora, podendo colocar “tudo a perder” (como, por exemplo, a construção de um vínculo precarizado ou danoso a Bentinho, a possibilidade do usuário não contornar sua angústia e, assim, realizar novamente alguma investida agressiva contra si mesmo, etc.).
Entretanto, quando nosso investimento cuidador guiado pela tecnologia relacional do encontro se mostrava fragilizado e insuficiente, recorríamos ao uso alguma medicação. E por que não?!
Lentamente, fomos mapeando movimentos importantes nesse processo. Alguns deles: Alta capacidade do usuário adaptar-se ao uso cotidiano da sua mão esquerda, dado que ele não era canhoto. Acompanhávamos a diversa e refinada capacidade do exercício desse uso de membro, pois viríamos conhecer posteriormente a fina habilidade de Bentinho em realizar desenhos de figuras de histórias em quadrinhos (HQ).
Ressaltamos que, ao ser oferecido o uso de prótese de mão associado ao tratamento de reabilitação física, essa oferta foi negada pelo usuário. Fato produtor de instigação da equipe e gerador de processos de desconstrução.
O efeito dessa escolha singular trouxe incômodos e pontos de tensionamento entre os profissionais da equipe envolvidos na micropolítica do cuidado. Não é demasiado lembrar que, nesse momento, o tratamento se delineara numa unidade hospitalar psiquiátrica com “tendência” à abertura para a Atenção Psicossocial, mas sem garantias ou diretrizes locais claras nessa perspectiva. Dessa maneira, a escolha de Bentinho intervia em ato como afrontamento-desmontagem do aparato da racionalidade das práticas e procedimentos médico- hegemônicos instaladas e efetuadas nesse dispositivo médico. A disputa pela gestão e produção do cuidado (Merhy, 2007) ficava evidente e acirrada, pois:
Pode-se dizer que todo processo de trabalho em saúde, para produzir o cuidado, tem de primeiro produzir atos de saúde, e que esta relação em si é tensa. Produzir um procedimento é produzir um ato de saúde, mas isso pode ser feito dentro de um certo modo de cuidar, que não é necessariamente “cuidador.” (Merhy, 2007, p. 161)
Sendo assim, foi em posição de humildade, simplicidade e perseverança, através do refinamento na escuta-acolhimento de Bentinho, que pudemos respeitá-lo em sua escolha, valorizando suas potencialidades atuais, que em muito se diferenciavam dos nossos referenciais existenciais, por muitas vezes capturados em processos de naturalização da vida. Reconhecemos, aqui, fundamental importância na estratégia de cuidado como exercício de força fraca (e não de fraqueza) conforme proposto por Costa:
No estado de dúvida, a posição do sujeito é bem diversa. Quem duvida e não perde a fé dificilmente teme as dúvidas do outro. Ao admitir a contingência de sua crença, admite que ela possa ser refutada ou transformada ao longo do tempo.
Dúvida não é convite à inação. É o que nos faz reconhecer a dignidade do outro, pois só a igualdade diante da dúvida nos define como seres capazes de agir eticamente. (2010, pp. 72-73)
Outro movimento apresentado foi seu protagonismo nas oficinas expressivas de música realizadas num Ponto de Cultura25 próximo, onde expressava sua criatividade em criar letras de rap, como fizera no passado, quando iniciou sua internação. Nessa via, Rauter sublinha:
25 Unidade com oferta de produção de atividades culturais comunitária. É um projeto que nasceu da parceria da
Cultura com a Saúde Mental. Contudo, atualmente, esse Ponto de Cultura “Maluco Beleza” se mantém exclusivamente sob financiamento da Saúde Mental e gestão do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira. Encontra-se alocado fisicamente no complexo da sede do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, onde também se encontra o Núcleo de Retaguarda.
As oficinas serão terapêuticas ou funcionarão como vetores de existencialização caso consigam estabelecer outras e melhores conexões que as habitualmente existentes entre produção desejante e produção da vida material. Caso consigam conectar-se com o plano de imanência da vida, o mesmo plano com base no qual são engendradas a arte, a política e o amor. (2000, pp. 269-270)
Aliás, essa produção artística-existencial foi revisitada em várias supervisões clínicas realizadas antes de nossa entrada formal no caso. Em geral, podemos inferir que essas supervisões almejavam alcançar maior elucidação sobre o caso, visando construção de hipótese diagnóstica psiquiátrica/psicanalítica, atrelando outros direcionamentos no tratamento.
Nesse caminho, nossa presença foi se tornando possível. Bentinho geralmente nos acessava para pedir cigarros, objetos de consumo pessoal, como pequenos rádios, fones de ouvido, óculos de sol, roupas, etc. Solicitava saídas acompanhadas do setor de internação para consumir alimentos numa lanchonete do hospital26 ou para acessar internet no espaço do Ponto de Cultura. Um pedido surpreendente foi que ele gostaria de encontrar-se com seu irmão, especialmente para conhecer sua sobrinha porque referia gostar de criança.
Raramente discorria relatos sobre si, sobre sua história de vida, exceto quando perguntávamos. No entanto, apresentava-se perseguido e ameaçado quando tocávamos no assunto de ampliar sua circulação fora do espaço de internação. Dizia que, pelo acontecimento trágico em sua vida, as pessoas na rua ou alguém poderia matá-lo. Inclusive, ao direcionar o pedido de encontro com seu irmão e sobrinha, destaca a importância dele realizar-se no espaço físico do hospital.
Contudo, suas demandas cresciam em torno dos pedidos já explicitados, mas nossa rotina de trabalho, somada às resistências na unidade, por vezes nos impossibilitava de articular a viabilidade desses pedidos num plano estendido à toda a equipe. Mais além, avaliamos que tais pedidos se dirigiam a nós de maneira muito singular, nos incluindo em sua zona relacional, em seu território existencial. Aí pensamos: hora de mudar! Por que não acompanhá-lo fora do hospital na efetuação desses pedidos dirigidos a nós?
Outro momento, novas construções.
26 Essa lanchonete faz parte de uma oficina de geração de renda da unidade NOT (Núcleo de Oficinas de