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3 Modeling

3.1 Cobweb model

Foi uma longa passagem de caso em nossa reunião de equipe de referência no mês de julho de 2010.

Estavam presentes, além de nós, outra equipe que conduzira o caso até então e a gestão da unidade, alinhavando e pactuando contratuações no redimensionamento do projeto terapêutico singular (PTS) do usuário.

23 Em linhas gerais, o conceito equipe de referência na Saúde Coletiva designa um arranjo organizacional. Nele,

essa equipe se responsabilizará integralmente pela condução do tratamento em seus processos de produção de cuidado ao usuário num maior nível de transdisciplinaridade possível, de maneira a garantir o vínculo. Ressaltamos que a unidade Núcleo de Retaguarda emprestou esse arranjo para a constituição de seu processo de trabalho. Contudo, assinalamos que, apesar de amplo esforço, na prática, esse arranjo geralmente funcionava de forma segmentária, fragmentada, compartimentalizada, burocratizada com relações de poder hierarquizadas definidas por categoria profissional, distorcendo e fraturando a potencialidade de sua proposta inicial. No entanto, observamos que, por vezes, ocorriam experiências pontuais de alguns funcionamentos efêmeros e integrados de equipe de referência. De qualquer modo, optamos, aqui, pela utilização desse conceito apenas como um orientador.

Em clima amistoso e solidário, ouvíamos a equipe que acompanhava Bentinho em sua responsável e obsessiva narrativa. Tranquilos, fomos acolhendo a parceria e também coletávamos a infinidade de dados sempre recheados pelos insondáveis enigmas na história de vida do usuário. Algumas linhas de expressão do caso se mostravam mais evidentes e regulares, como: as incertezas na configuração psicopatológica (dúvida diagnóstica, uso de SPAs, manifestação sintomática, etc.); na condução do caso do ponto de vista jurídico-legal (por exemplo: que condutas assumir mediante a afirmação não confirmada de assassinato? Como ampliar e consolidar o cuidado contínuo se respaldando do ponto de vista jurídico caso se efetivasse a alta hospitalar?); na dificuldade em relação à família; como acessá-la e até que ponto contar com ela nessa rede de cuidados?

Aos poucos, notávamos que a complexidade apresentada pelo caso compunha um cenário como se fosse um labirinto em multiplicidade, onde as saídas possíveis se efetuariam com muito esforço e trabalho coletivo, na micropolítica molecular, acentuando a singular presença em ato de Bentinho se tornasse engrenagem fundamental desse/nesse processo. Em seu território existencial, apostávamos que ele contribuiria na produção das saídas de capturas e aprisionamentos tensionados no condicionamento desse movimento labiríntico e de se coprodução de si nas malhas institucionais. Acreditávamos que a potência do cuidado no entre dos encontros poderia movimentar-se em multiplicidade de deslocamentos transformadores de uma subjetividade-existência fechada nesse circuito instituído por platôs enigmáticos nas infindáveis dúvidas sobre Bentinho e, simultaneamente, profusivo em discursividade codificante massificadora. Apostas na singularização como linhas-de-fuga.

O caso já estava em andamento, aliás; antes mesmo dele vir para a internação, algumas ações já haviam sido realizadas. Duas diligências policiais acompanhadas pela equipe anterior; perícia do INSS (com necessidade de atualização a cada dois anos para renovação de benefício concedido); um primeiro contato com seu familiar (irmão), que se tornou um pouco mais permeável à situação de Bentinho em virtude dele se encontrar internado.

Outro questionamento que a equipe pregressa colocava seria pensar na possibilidade de interdição judicial mediante curatela, o que, para nós, era uma decisão precoce e, ao nosso modo de compreensão, com fundamento contraditório, pois precisávamos encontrá-lo, nos relacionarmos com ele para embarcarmos em outras propostas de tratamento, outros processos de cuidado. Naquele momento, tínhamos apenas um objetivo: trabalhar incessantemente para construção da alta hospitalar e posterior continuidade do cuidado.

É relevante destacar a importância o papel do trabalho em equipe na saúde mental. Segundo Yasui:

A equipe é o principal instrumento de intervenção/invenção/produção dos cuidados em saúde mental. Trata-se de uma produção que se dá no agenciamento de afetos para produzir vínculos, na negociação de interesses divergentes, na pactuação para um projeto de cuidado, enfim, nas relações que emergem no encontro entre a demanda e o sofrimento do usuário com o trabalhador, sua subjetividade e sua “caixa de ferramentas.”24 (2007, p. 143)

Nossa equipe de referência ia, aos poucos, se sintonizando nas frequências vibráteis de Bentinho anteriormente ao encontro com ele. Mais do que uma pura e simples divisão de tarefas, num primeiro momento, esboçávamos planejar estratégias e traçar algumas linhas de cuidado em conexão com a evolução do caso em curso. Entrar em contato com a família, compartilhar o caso com o Ministério Público e ajudá-lo em sua lida cotidiana na gestão de seu benefício tornaram-se as primeiras linhas na configuração de outras paisagens de cuidado. Também tivemos o início de um constante trabalho com a equipe em geral, especialmente em relação ao grupo profissional dos técnicos de enfermagem, tão próximos ao contato com o usuário. De acordo com Merhy:

Na micropolítica do processo de trabalho, não cabe a noção de impotência, pois se o processo de trabalho está sempre aberto à presença do trabalho vivo em ato, é porque ele pode ser sempre “atravessado” por distintas lógicas que o trabalho vivo pode comportar. Exemplo disso é a criatividade permanente do trabalhador em ação numa dimensão pública e coletiva, podendo ser “explorada” para inventar novos processos de trabalho, e mesmo para abri-lo em outras direções não pensadas. (2007, p. 61)

Fizemos do momento das passagens de plantão entre turnos um instante precioso para atualizar as mudanças no tratamento de Bentinho, provocando abertura para o aparecimento dos conflitos em jogo no desenrolar do cotidiano. Era entre a delicadeza e flexibilidade de uma bailarina associadas à astúcia, habilidade e precisão de um destemido toureiro madrilenho, somados à absorção da paciência de um monge tibetano, que nós exercitamos escuta interventiva ao passo de elucidação fugitiva aos modos cristalizados do cuidar. Driblamos as marcações e os bloqueios da moralidade vigente na cultura institucional para abrir as defesas e os “portos-seguros” da rotina repetitiva, protocolar e burocrática das

24 Entendido aqui no sentido utilizado por Merhy (2002) como o conjunto de saberes de que se dispõe para a

mazelas de alguns modus operandi manicomiais. No jogo do cuidado produzido em rede, marcávamos vários gols.