4 Empirical estimation
4.1 Dataset
Os delírios verbais me terapeutam.
Manoel de Barros
6.1 Dois instrumentos-perspectivas opcionais de navegação na leitura dos trechos: trecheirização e clarões-flashbacks
Para prosseguirmos nosso caminhar na pesquisa, se faz necessário um breve esclarecimento preliminar acerca de alguns instrumentais cartográficos utilizados nesse momento do percurso: trecheirização e clarões-flashbacks. Eles funcionarão como importantes pontos de orientação ao leitor, mas também como instrumentos de geraproliferação21 potencial na produção de múltiplos sentidos das linhas intensivas componentes na imanência simétrica do agenciamento B< ≈ >P. Dito de outra maneira, esse instrumental cartográfico corrobora na leitura dos trechos, descarta alguma pretensa relação de neutralidade e, ao mesmo tempo, se impossibilita de determinar algum vetor de sentido fechado em si. Assim, a produção de sentido dos/nos trechos fica a critério do leitor em seu processo de nomadização.
A palavra trecheirização vem do verbo trecheirizar e, para melhor compreendê-la, recorremos ao sujeito da ação: o trecheiro. Nos estudos de andarilhos desenvolvidos por Justo e Nascimento:
A grande referência identitária desses sujeitos é o próprio trecho. Embora carregando a história de vida, as lembranças das experiências vividas, o nome, os marcos da origem e das fundações de sua pessoa e apesar de se reconhecerem por essas ancoragens, o trecho subsiste como referência pessoal mais imediata e sólida. Eles se autodenominam trecheiros e se reconhecem e são reconhecidos fundamentalmente por habitarem esse espaço de trânsito.
O trecho pode ser o caminho percorrido pelo itinerante por diversas estradas, cidades, estados atravessando fronteiras internas e estrangeiras, até o modo de viver a transitoriedade e o movimento. Pode ser, também, uma alusão à sua casa no sentido de um lugar habitado que, nesse caso, tal como a carapaça de uma tartaruga, acompanha o sujeito por onde quer que vá. (2005, p. 178)
21 Neologismo proveniente desta escrita em curso no transcorrer do trabalho. Aqui, essa palavra significou a
junção das palavras geração e proliferação. Contudo, ela não remete a um ponto inicial, tampouco a uma finalidade, mas sim aos instrumentais cartográficos enquanto potência na produção de sentido.
Pretendemos tomar de empréstimo o agir trecheiro como elemento nodal na contribuição do percurso de leitura de nossa experiência cartográfica. A trecheirização designa o ato de um viajante que percorre uma estrada, um caminho, de trecho em trecho.
Nesse trabalho, o movimento de Bentinho em seu transitar trecheirizado nas redes de cuidado produz certos mapas existenciais com suas rotas de navegação, onde se torna possível, pela via dos agenciamentos em jogo, o acompanhamento no processo de produção da composição das múltiplas paisagens existenciais como: moradia, lazer, tratamento, arte, etc. A trecheirização convida e orienta o leitor a um “ir junto” como um despretensioso- implicado, seguindo os efeitos inacabados do acontecimento Bentinho em nós em suas vicissitudes trecheiras. Ao leitor, menos expectativa e previsibilidade, mais atenção e abertura nos movimentos dos trechos inacabados.
Outro instrumento de orientação são os clarões-flashbacks. Essa expressão composta traz duas dimensões importantes na relação com os relatos dos trechos a seguir no próximo tópico: a visibilidade e a temporalidade.
Em consonância com a estratégia metodológica proposta pela cartografia, os clarões se referem à capacidade de visibilizar momentaneamente os trechos por onde Bentinho percorre. Fazendo uma aproximação, é como se, durante uma noite escura, andássemos por algum terreno desconhecido, desprovidos de qualquer artefato produtor de luminosidade (como lanterna, vela, farol, refletor, etc.) e, de repente, se formasse uma tempestade com relâmpagos. Nessa situação, ao relampejar, aproveitamos oportunamente o clarão para visibilizar esse território geográfico, facilitando nossa locomoção, assim como para nos relacionarmos com ele de forma menos perigosa, mas sem dominá-lo plenamente.
Já os Flashbacks remetem à temporalidade em curso nos trechos de Bentinho. Emprestamos de Deleuze e Parnet uma explanação sobre o real e o virtual, para nos ajudar em nosso esclarecimento dos flashbacks:
Objeto atual e imagem virtual, objeto tornado virtual e imagem tornada atual, são as figuras que já aparecem na ótica elementar. Mas em todos os casos, a distinção do virtual e do atual corresponde à cisão mais fundamental do Tempo, quando ele avança diferenciando-se conforme duas grandes vias: fazer o presente passar e conservar o passado. (1998, p. 178)
A temporalidade desenrolada na sequência dos trechos engendra capacidade de atualização de territórios existenciais habitados por Bentinho, o que, por exemplo, ocorre com
certa regularidade nos encontros em ato realizados por ele em sua circulação nômade pelas redes de cuidado em saúde. Desse modo:
O presente é um dado variável medido por um tempo contínuo, ou seja, por um movimento que se supõe em uma única direção: o presente passa à medida que esse tempo se esgota. É o presente que passa, que define o atual. (Deleuze e Parnet, 1998, p. 178)
Todavia, simultaneamente, os deslocamentos de Bentinho em seu caminhar nômade produzem intensidades vibráteis não visibilizadas nas composições de paisagens do cuidado. Seu movimento na cadência de suas paradas, por vezes, pode condicionar a sensibilidade e percepção do leitor a ponto de produzir sensação de interrupção e de cristalização dos trechos. Contudo, embora essas intensidades se façam presentes nas conexões de Bentinho em suas redes de territórios existenciais, as mesmas ainda não ganharam materialidade necessária no plano de consistência dos regimes de visibilidade das paisagens do cuidado. Elas se delineiam na nomadização e descontinuidade dos traçados e contornos expressivos em multiplicidade de signos agenciados nos trechos.
Mas o virtual aparece, por seu lado, em um tempo menor do que aquele que mede o mínimo de movimento em uma direção única. Por isso o virtual é “efêmero”. Mas é no virtual também que o passado se conserva, já que esse efêmero não para de continuar no “menor” seguinte, que remete a uma mudança de direção. O menor tempo que o mínimo de tempo contínuo pensável em uma direção é também o tempo mais longo, mais longo que o máximo de tempo contínuo pensável em todas as direções. (Deleuze e Parnet, 1998, p. 178)
Então, inferimos que a temporalidade enquanto ponto orientador da leitura cartográfica dos trechos abarca um paradoxo constitutivo do tempo em duas perspectivas de imagem: atual e virtual.
Os dois aspectos do tempo, imagem atual do presente que passa e a imagem virtual do passado que conserva, se distinguem na atualização, tendo, ao mesmo tempo, um limite inassimilável, mas se permutam na cristalização, até se tornarem indiscerníveis, cada um tomando emprestado o papel do outro. (Deleuze e Parnet, 1998, p. 179)
Agora, esperamos que o leitor desejante se aventure avidamente na experiência dos trechos a seguir. Almejamos que sua experimentação possa munir-se pelos instrumentos de apoio nessa navegação, além de outros criados na própria experiência-leitura. Manifestamos
nosso desejo de favorecer uma leitura-viagem segura, porém, não sem riscos, traçada pelos rastros nômades de Bentinho.
Como ressalva, sinalizamos que as narrativas-trecho não se constituem como nossa narrativa pessoal fechada em si mesma ou de Bentinho como objeto descrito, sobre ele, como se fosse uma interpretação nossa sobre os fenômenos apresentados por ele em seu percurso no cuidado. De outro modo, conectamos nossa narrativa em agenciamento do acontecimento Bentinho em nós devires-cartógrafos, sedentos por linhas de fugas em permanente processo de reterritorialização. Para fins “didáticos”, é também digno de nota que as narrativas serão desenvolvidas nas passagens de paisagens intensivas do cuidado em pseudo-cronologia temporal, uma vez que compreendemos aqui o movimento princípio-meio-fim como linha de captura que enclausura nosso trecheirar.
6.2 Os trechos
Trecho I < ≈ > Meu primeiro encontro com Bentinho