Component Selection
CHAPTER 4. COMPONENT SELECTION
4.2. STEERING COMPONENTS
Em “Escavação”,107o poeta anseia algo, mas apenas o ato de criação faz com que se sinta a “luz harmoniosa”, porém a criação produz um alívio passageiro, que se esvai rapidamente. A partir daí, identificamos presença marcante do grotesco apenas na estrofe final do poema. “Um cemitério falso sem ossadas” remete-nos à imagem de um corpo (o cemitério) falso, ilusório — que não desempenha efetivamente seu objetivo (estar sem ossadas). Assim, sem realizar o que se pede de um cemitério, o efeito é o que M. Bakhtin denominou de inversão topográfica. Desse modo, o cemitério se faz grotesco por estar circundado por uma atmosfera dupla: a inversão e uma idéia de cemitério absurdo, o que nos remete à teoria de W. Kayser no que diz respeito ao fantasmagórico.
As “bocas esmagadas”, também presentes no poema “Escavação”, não fazem parte de um lirismo ao qual estamos acostumados. Pelo contrário, seguem a tradição decadentista de falar de um corpo deformado, chaguento, condizendo com uma corporalidade grotesca relacionada à deformação corporal. Além disso, temos a utilização da boca enquanto orifício corporal que relaciona o interior com o exterior, o pessoal com o universal e o microcósmico com o macrocósmico.
[...] todos os órgãos e lugares essenciais do corpo grotesco, todos os acontecimentos importantes que afetam a sua vida, são desenvolvidos e descritos em torno da imagem central da boca aberta. Essa é a expressão mais patente do corpo aberto, não fechado. É a porta de duas folhas aberta sobre o subsolo do corpo. Sua abertura e profundidade são acrescidas do fato de que a boca abriga todo um mundo habitado e que os homens descem ao fundo do estômago como a uma mina subterrânea.108
Além de “Escavação”, identificamos a partir de “Álcool” um interseccionismo absoluto que abrange todos os outros poemas que aparecem depois dele em Dispersão. Porém, identificamos algumas imagens estranhas que analisaremos sob a ótica da corporalidade grotesca. O poema posterior é “Vontade de dormir”.
107 Todos os poemas citados aqui estão anexos ao texto. Ver anexos. p. 233.
108 BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 4ª edição. São Paulo-Brasília: Edunb-Hucitec, 1999, p. 296-297.
O título “Vontade de dormir”109 nos fornece uma atmosfera de sonho e este aparece sob muitos aspectos vinculado ao grotesco. Compreendemos a teoria de W. Kayser como uma espécie de fio de Ariadne entre o sonho e o absurdo, o fantasmagórico, o assustador, etc. O poema é todo fragmentário, mas sua imagem inicial tem uma relação muito íntima com a corporalidade grotesca. “Fios de ouro puxam por mim / A soerguer-me na poeira – / Cada um para o seu fim, / Cada um para o seu norte...”.110 Os fios que puxam o eu-lírico são como os fios de um teatro de marionetes (ou uma mão que controla os bonecos de fantoche) em que uma entidade superior controla o boneco constantemente. É interessante notar que o eu-lírico descreve no final a presença da beleza com a situação descrita, mas se sente preso aos fios (dedos das mãos que controlam no teatro de fantoche), afinal não pode transmigrar a beleza contemplada.
Meyerhold apreciaba altamente la expresividad del cuerpo. Hacía la demostración con una muñeca de guiñol: introduciéndola sus dedos, obtenía los efectos más diversos. A pesar de su máscara fija, la muñeca expresaba, unas veces, alegría – los brazos abiertos –; otras, tristeza – la cabeza inclinada –, o el orgullo – la cabeza echada hacia atrás –. Bien manejada la máscara puede expresar todo lo que expresa la mímica.111
Além disso, o poema possui linhas pontilhadas que semioticamente carregam o sentido de atmosfera de sonho, entretanto essas linhas não pertencem ao código de comunicação humano.
No poema “Dispersão”112, percebe-se o emprego de uma construção muito parecida com a do poema “Álcool” (analisado anteriormente). Há uma poética do espelho retorcido que deforma a alma, mas o corpo grotesco é um lampejo de imagem que o leitor tem quando lê uma alma personificada em um castelo desmantelado no final do poema.
No poema “Estátua falsa”113, identifica-se no segundo verso uma imagem que causa estranheza — “Sou esfinge sem mistério no poente”. A esfinge “é a guardiã das
109 Ver anexos. p. 231.
110 SÁ-CARNEIRO, Mário de. Dispersão. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995, p.
60.
111 MEYERHOLD, V. F. Teoria teatral. Madrid: Editorial Fundamentos, 1971, p. 200. 112 Ver anexos. p. 234.
entradas proibidas e das múmias reais; escuta o canto dos planetas; à beira das eternidades, vela sobre tudo o que foi e tudo o que será”,114assim sua experiência é limítrofe, como a vivida pela esfinge-eu-lírico do livro-poema “Dispersão”. Esta experiência foi analisada em outro poema acima (“Partida”) com um adjetivo que designa também uma escola de vanguarda da qual Sá-Carneiro faz parte — Interseccionismo.
Além da esfinge, a última estrofe do poema também causa estranhamento pelos substantivos utilizados para auto-definição por parte do eu-lírico. A “estrela” que ilumina e demonstra o caminho através das trevas está “ébria” e “perdeu os céus”, ou seja, a estrela, sempre elevada, cai e se torna algo comum e regular. A “sereia” antropófaga está “louca”. A sereia é a mistura do humano com o animal (ave ou peixe, segundo a mitologia) e a mescla é grotesca por si só — cria um ser deformado. A loucura também é um elemento grotesco pela ambivalência que carrega na própria acepção da palavra. Destarte, a junção que Sá-Carneiro faz se realiza na corporalidade grotesca.
Compreender o termo “louco” como uma pura injúria, ou ao contrário como um puro louvor [...], equivale a destruir todo o sentido dessa litania. Aliás, Triboulet (personagem da obra de Rabelais – sic!) é qualificado de “morósofo”, isto é, “ tolo- sábio”. Conhece-se a etimologia cômica dada por Rabelais ao termo “filosofia”, eu seria a fin folie (bela loucura). Tudo isso é um jogo sobre a ambivalência da palavra
e da imagem do “louco”.115
O templo, representação da crença, está por ruir, ou seja, tudo o que se acredita está fissurado, machucado. A partir da imagem do templo, percebemos um universo metafísico que passa à materialidade e ela se mostra grotesca — ruída, fissurada, machucada, portanto, deformada. Destacamos que a imagem do templo abandonado (deformado) aparece também no poema “Quase”116.
Em “Estátua Falsa”, a estátua (representação do eu-lírico) é concreta, empírica, contudo a sua existência é “falsa”. O grotesco da situação é novamente motivado pelo intelecto: um eu-lírico apaixonado por si mesmo que ao mesmo tempo se despreza. A ambigüidade da situação nos faz refletir sobre um motivo grotesco, o
114 CHEVALIER, Jean. e GHEERBRANT, Alain. Op. cit., p. 389. 115 BAKHTIN, Mikhail. Op. cit., p. 374.
conflito celebração X ridicularização que acontece ao mesmo tempo no poema. Destacamos que Bakhtin aponta esta ambigüidade em duas situações: a discussão durante o banquete e diálogo da praça pública (louvor-injúria), porém a obra de Sá- Carneiro está inserida em um contexto moderno e, como ressaltamos em capítulos anteriores, o grotesco moderno ocorre de maneira diferente daquele que Bakhtin estudou (o medieval).
[...] A palavra pertence de alguma forma ao próprio tempo, que dá a morte e a vida no mesmo ato; por isso, a palavra tem duplo sentido e é ambivalente. Mesmo na forma mais estrita e fixa do simpósio – em Platão e Xenofonte – o elogio conserva a sua ambivalência, incluindo a injúria (embora edulcorada); pode-se, falando de Sócrates, referir o seu físico monstruoso, e Sócrates pode celebrar-se a si mesmo (em Xenofonte) como um intermediário. Velhice e juventude, beleza e disformidade, morte e parto fusionam muito freqüentemente em uma figura de dupla face. Mas durante a festa, a voz do tempo fala principalmente do futuro. O triunfo do banquete toma a forma de antecipação de um futuro melhor. Isso confere um caráter particular às palavras do banquete, libertadas dos olhos do passado e do presente.117 Em “Como eu não possuo”118vislumbra-se a imagem de um mundo concreto e dinâmico em que as pessoas “sentem” e essa sensação traz “espasmos golfados”, ou seja, algo análogo ao vômito. Assim sendo, o eu-lírico se eleva / rebaixa a uma condição diferente, afinal “falta-me egoísmo”, “forçoso me era possuir alguém que estimasse” — com isso, percebemos que se em um primeiro momento o sentir é uma elevação, depois ele traz um rebaixamento e este é motivado pela percepção posterior que se tem às mesmas sensações apreendidas pelo seu corpo fisiopsicológico: “castrado de alma e sem saber fixar-me, / tarde a tarde na minha dor me aprofundo”. Novamente a contradição grotesca de sentir-se superior, mas concluindo-se inferior a todos os seres em um momento subseqüente.
Nesse mesmo poema, temos ainda outras imagens, a partir da segunda parte, que remetem à corporalidade grotesca. Há uma mulher “que ali vai na rua” tratada com enlevo e desprezo que o eu-lírico quer liquefazer, devorá-la nos moldes pantagruélicos, mas só o faz quando altera seu estado de corpo concreto. Na estrofe posterior (sétima), a mulher nos rememora à Salomé (musa dos decadentistas) pela simples citação dos
117 BAKHTIN, Mikhail. Op. cit., p. 250. 118 Ver anexos. p. 232.
véus. Ela tem “carne estilizada” ou simplesmente modificada (podendo se tornar uma carne grotesca ou uma sugestão do grotesco Frankenstein). Seus seios são deformados (“transtornados”) e seu sexo “aglutinante” nos remete ao mito do andrógino (que não deixa de ser uma imagem grotesca).
Fica evidentemente mais claro que “Como eu não possuo” só se transformaria em posse na última estrofe quando: “É que eu teria só, sentindo e sendo / Aquilo que estrebucho e não possuo”, ou seja, a posse só ocorreria quando houvesse uma mescla total dos sentidos e da existência com uma passante qualquer — para enfim atingir uma androginia absoluta. Esta só se efetiva completamente, conforme citação abaixo, quando se respeita a união dos contrários. A contrariedade por si mesma é um elemento da corporalidade grotesca — é o sublime e o grotesco que se unem formando um mundo novo, ou nas palavras de Bakhtin, “um mundo às avessas”.
Sobre a caracterização do andrógino, temos várias explicações esclarecedoras. Vejamos algumas delas:
O andrógino inicial não é senão um aspecto, uma figuração antropomórfica do ovo cósmico. Encontramo-lo ao alvorecer de toda cosmogonia, como também no final de toda escatologia. No alfa como no ômega do mundo e do ser manifestado situa-se a plenitude da unidade fundamental, onde os opostos se confundem, quer sejam ainda nada mais do que potencialidade, quer se tenha conseguido sua conciliação, sua integração final. [...] O andrógino é muitas vezes representado como um ser duplo, possuindo a um só tempo os atributos dos dois sexos ainda unidos mas a ponto de separar-se. [...] O andrógino, signo de totalidade, aparece portanto no final e no começo dos tempos. Na visão escatológica da salvação, o ser reintegra-se a uma plenitude na qual a separação dos sexos se anula; e isso é o que evoca o mistério do casamento em inúmeros textos tradicionais [...].
Todavia, essa crença tão universalmente afirmada na unidade original a que o homem se deve reintegrar post mortem está acompanhada também, na maioria dos
sistemas cosmogônicos, de uma necessidade imperiosa de diferenciar totalmente os sexos neste mundo. Porque – e, neste caso, as crenças mais antigas unem-se às lições mais modernas da biologia – o ser humano não nasce jamais totalmente bipolarizado [...].
Tornar-se uno é a finalidade da vida humana. Orígenes e Gregório de Nissa distinguiram um ser andrógino nesse primeiro homem criado à imagem de Deus. A
deificação à qual o homem é convidado faz com que ele reencontre essa androginia, perdida pelo Adão diferenciado e restabelecida graças ao novo Adão glorificado.119
Para concluir, a ocorrência da dispersão é fornecida ao leitor aos poucos. Após a realização de um movimento de separação do próprio ser, temos uma conclusão que o autor nos transmite apenas no último poema do livro — a queda, mas a partir do poema que intitula o livro já fornece indícios de onde quer chegar. “Estátua falsa” nos remete a um elemento da realidade empírica/concreta, mas é falsa. O poema “Quase” sugere um evento frustrado. “Como eu não possuo” emprega o advérbio de negação antecedido ao verbo e passa uma idéia de desistência. “Além-tédio” tem o primeiro termo do substantivo composto remetendo ao metafísico. “Rodopio” apresenta um título em efeito de espiral que se direciona para um corpo metafísico ou para a metafísica do corpo. Há, na verdade, um efeito de junção do corpóreo e do transcendental. Encerrando o conjunto do livro, temos “A queda” que nos remete ao inferno dantesco. A falta de algo relacionado ao empírico no conjunto dos títulos dos poemas faz com que o fantástico e a inconsciência sejam elementos presentes no texto. É importante ressaltar que o fantástico e o inconsciente são matérias tipicamente utilizadas pela materialidade grotesca.
3.5. O HOMEM SANTO DESSACRALIZADO NA IMAGEM DO ANDRÓGINO EM