• No results found

Conhecer parte da história das B.E’s de Londrina é reconstruir um pouco do passado e trazer à memória o percurso percorrido e as pessoas que colaboraram para a consolidação e o fortalecimento desses espaços de leitura e conhecimento. Segundo Bosi (1994, p.55), “Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado.” Para a autora, a lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão agora à disposição, no conjunto de representações que povoam a consciência atual. O fato de lembrar o passado no presente exclui a identidade entre as imagens de um e outro e propõe a sua diferença. Para reforçar as ideias de Bosi (1994), é possível recorrer a Heler (1993, p. 53), que considera toda recordação passada: “Uma interpretação ou uma reconstrução do passado, as experiências que tivemos, nossos interesses, sinceridade e insinceridade,

tudo isso modifica aquilo que reconstruímos, o modo pelo qual fazemos e o tipo de significação que atribuímos ao passado reconstruído”.

Assim, Almeida (2004) afirma que a biblioteca, como bem cultural, não está isolada dos acontecimentos sociais, e também não se encontra, em hipótese alguma, imune às interferências presentes no mundo que está ao seu redor. Desse modo, constrói-se história e memória, o que reforça a importância de se relatar a trajetória das B.E’s de Londrina.

Resgatar parte do percurso dessas B.E’s foi algo enriquecedor para mim. Procurar os caminhos para o resgate histórico, um desafio. Contudo, nas minhas idas a Londrina, e após o contato com pessoas que vivenciaram esses momentos e, as várias leituras, pude obter material e suporte para compor um pouco da história das B.E’s do município de Londrina.

De acordo com Silva (2006), no ano de 1971 foi criada a primeira B.E na rede municipal de Londrina. Essa biblioteca foi instalada na escola Carlos Kraemer. Em 1974, pela Lei/DEC nº 761, mais três B.E’s foram criadas, e até o final da década de 70 mais duas bibliotecas foram inauguradas, totalizando seis B.E’s neste período. Ainda, segundo Silva (2006), no início da década de 70, com o intuito de descentralizar o atendimento na Biblioteca Pública Central, foram criadas as Bibliotecas Sucursais20

, dessa forma, o objetivo era levar bibliotecas para os bairros e as escolas se tornaram espaços ideais para a abertura das mesmas.

Na década de 80, mais 26 B.E’s foram criadas, já na década de 90, mais nove, chegando a um total oficial de 41 bibliotecas na rede municipal de ensino de Londrina. Mesmo que nesta época (décadas de 70, 80 e 90), as bibliotecas precisassem de melhorias, é valido destacar, que só o fato de se ter mais de quarenta bibliotecas instaladas nas escolas nesse período, já era um grande avanço, que necessitava de pessoas dispostas a aprimorarem as atividades nesses espaços.

Um exemplo dessa necessidade de aprimoramento, é que, conforme Silva (2006), nesse momento, a Biblioteca Pública atendia de forma insuficiente o trabalho realizado nas B.E’s, pois se preocupava apenas com a manutenção e conservação do acervo. Enquanto as práticas de leitura, no espaço da biblioteca, restringiam-se a uma

mediação utilitarista, em que o texto era usado apenas como pretexto, para a realização das atividades, o que limitava a formação de leitores críticos e reflexivos, além de dificultar o processo de apropriação dos mais variados discursos.

3.1.1 O Projeto Palavras Andantes: Um Marco na História das Bibliotecas Escolares de Londrina

Neste processo de resgate histórico das B.E’s de Londrina, é importante destacar o Projeto Palavras Andantes, implantado na rede municipal, no início dos anos 2000, pelo Prof. Dr. Rovilson Silva21

. Naquela época, ele era docente da rede municipal de ensino e vivenciava toda realidade das B.E’s da rede municipal, dessa forma, embasado em sua experiência de leitura literária no ensino fundamental, constatou as dificuldades para a mediação de leitura literária nas bibliotecas da rede, além da necessidade de investimentos na compra de acervo, mobiliários e na infraestrutura desses espaços.

Diante dessa realidade, o prof. Rovilson estruturou no ano de 2002, o projeto de leitura intitulado “Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes”, que apresentava como proposta central: a formação do mediador de leitura que atuava nas B.E’s. Segundo Silva (2006, p.18), esse projeto circunscreveu-se a quatro pilares: “formação do professor que medeia à leitura literária na escola; realização semanal da Hora do Conto; ampliação do acervo; e readequação pedagógica e arquitetônica da biblioteca escolar”.

O projeto foi tomando forma e se tornou pesquisa de doutorado do Prof. Rovilson, que por meio da pesquisa-ação coletou dados a respeito da mediação de leitura, nas B.E’s de Londrina e Barcelona (Espanha), estabelecendo uma correlação do processo de mediação entre as duas cidades.

É possível afirmar que a implantação do “Palavras Andantes” foi um marco na história das B.E’s de Londrina, isso porque por meio desse projeto, inúmeros professores foram qualificados para atuar nas bibliotecas e todas as escolas da rede

21Estruturou e coordenou o Projeto Palavras Andantes de 2002 a 2009, nas escolas rede municipal de Londrina. Em 2008, recebeu o prêmio

Viva Leitura com o Palavras Andantes. Atualmente, é Professor Adjunto do Departamento de Educação - UEL

foram contempladas com uma B.E, além da renovação do mobiliário e do acervo dos espaços. A prova da eficácia do projeto foi que, em 2008, o Palavras Andantes foi o vencedor do prêmio Viva Leitura, premiação reconhecida e respeitada em nível nacional. Isso confirmou a excelência do trabalho desenvolvido e a importância de fundamentar a prática do professor mediador com novas propostas para a formação de leitores.

Até o ano de 2009, as B.E’s de Londrina eram coordenadas pelo Prof. Rovilson, que após assumir cadeira na Universidade Estadual de Londrina (UEL), deixou a coordenação, que atualmente está sob a responsabilidade da Profª. Márcia Batista de Oliveira, que deu sequência aos projetos de leitura das B.E’s e ao Palavras Andantes.