6.3 Gesture parameter prediction
6.3.1 Model training
6.3.2.5 Statistical error evaluation
Na conceituação política do termo integrado, destacamos a politecnia e a escola unitária como elementos constituintes desse termo. Saviani (2003, p.18) comenta que o conceito de politecnia deriva basicamente do trabalho como princípio educativo como proposto por Marx (1983). Politecnia é a superação entre trabalho manual e trabalho intelectual, entre instrução profissional e instrução geral. “O ideário da politecnia buscava romper com a dicotomia entre educação básica e técnica, resgatando o princípio da formação humana em sua totalidade, defendia um ensino que integrasse ciência e cultura, humanismo e tecnologia, visando o desenvolvimento de todas as potencialidades humanas” (FRIGOTTO et al. 2005, p 35).
O pensamento marxiano de educação politécnica é retirado das Instruções aos Delegados do Conselho Central Provisório da Associação Internacional dos Trabalhadores de 1868 (apud, MARX & ENGELS 1983, p. 60):“afirmamos que a sociedade não pode permitir que pais e patrões empreguem, no trabalho, crianças e adolescentes, a menos que se combine esse trabalho produtivo com a educação”. Marx ainda explicita a sua compreensão de educação:
Por educação entendemos três coisas: Primeiramente: Educação mental. Segundo: Educação física, tal como é dada em escolas de ginástica e pelo exercício militar. Terceiro: Instrução tecnológica, que transmite os princípios gerais de todos os processos de produção e, simultaneamente, inicia a criança e o jovem no uso prático e manejo dos instrumentos elementares de todos os ofícios (MARX & ENGELS 1983, p. 60).
Marx e Engels (1983) ainda apontam a finalidade dessa proposta educacional:
A combinação de trabalho produtivo pago, educação mental, exercício físico e instrução politécnica, elevará a classe operária bastante acima do nível das classes burguesa e aristocrática (p. 60).
Machado (1989) menciona que Marx e Engels concebiam as atividades de trabalho e de educação como integrantes de um único processo, com articulação entre teoria e prática pela chamada educação politécnica, através da qual seriam transmitidos os princípios gerais e de caráter científico de todo o processo de produção, além de uma iniciação no manejo das ferramentas elementares das diversas profissões, acreditavam que seriam atingidos três objetivos: a intensificação da produção social, a produção de homens plenamente desenvolvidos e a obtenção de poderosos meios de transformação da sociedade capitalista.
Na concepção de Marx, o ensino politécnico, de preparação multifacética do homem, seria o único capaz de dar conta do movimento dialético de continuidade- ruptura, pois não somente estaria articulado com a tendência histórica de desenvolvimento da sociedade, como a fortaleceria. O ensino politécnico seria, por isso, fermento de transformação: contribuiria para aumentar a produção, fortalecer o desenvolvimento das forças produtivas, e intensificar a contradição principal do capitalismo (entre socialização crescente da produção e mecanismos privados de apropriação). Por outro lado, contribuiria para fortalecer o próprio trabalhador, desenvolvendo suas energias físicas e mentais, abrindo-lhe os horizontes de imaginação e habilitando-o a assumir o comando da transformação (MACHADO 1989, p.126-127).
Machado (1989) ainda comenta que, como fermento da transformação, o ensino politécnico, além de contribuir para o desenvolvimento das condições objetivas, atua de modo concreto na formação do individuo. Marx acreditava que todo esforço na produção de homens plenamente desenvolvidos resultava na obtenção de meios poderosos de transformação da sociedade atual. Com o ensino politécnico poder-se- ia caminhar em direção a este objetivo, pois como proposta pedagógica ele significa a unificação dos conteúdos, dentro de uma perspectiva metodológica integralizadora.
Seguindo esse raciocínio, Saviani (1989, p. 15) menciona que a politecnia “deve estar dentro de um processo em que o trabalho se insira em uma unidade indissolúvel”. Ele entende que o pressuposto dessa concepção de politecnia é que:
Não existe trabalho manual puro, e nem trabalho intelectual puro. Todo trabalho humano envolve a concomitância dos exercícios dos membros; das mãos, e do exercício mental, intelectual. Isso está na própria origem do entendimento da realidade humana, enquanto constituída pelo trabalho. Se o homem se constitui a partir do momento em que age sobre a natureza, adaptando-se a si, ajustando-a as suas necessidades (e ajustar às necessidades significa plasmar a matéria, a realidade), segundo uma intenção, segundo um objetivo, que é antecipado mentalmente, então o exercício da função intelectual já está presente nos trabalhos manuais os mais rudimentares, os mais primitivos. A separação dessas funções é um produto histórico-social, separação esta que não é absoluta (SAVIANI 1989, p. 15).
Nesse sentido, Silva (2007) argumenta que a politecnia busca promover a superação do produto histórico-social produzido pela divisão capitalista do trabalho. De acordo com Saviani (1989), todo o trabalho, seja ele de maior profundidade manual, envolve parcela intelectual do cérebro para desenvolvê-lo, pois a partir do cérebro é que se podem montar os estratagemas a ser desencadeados pelas habilidades psicomotoras do ser humano.
Desta forma, no ensino politécnico todos os componentes do currículo devem ser de conhecimento de todos os profissionais que atuam na escola. Portanto, o conhecimento dos conteúdos do ensino deve ser apreendido de forma integrada. Esse é o sentido exato da palavra politecnia, como o ensino capaz de fazer com que o homem desenvolva as suas potencialidades, que ele se construa na sua dimensão intelectual, ativa, física, ética, artística, etc.
Além da politecnia, está presente no conceito politico de ensino integrado a perspectiva da escola unitária, que tem sua fundamentação teórica em Gramsci (1982). Sua proposta educacional parte da critica à escola tradicional que dividia o ensino em clássico e profissional, este último destinando-se às classes instrumentais e o primeiro às classes dominantes e aos intelectuais.
Bressan (2006) comenta que a partir da crítica da dualidade do sistema de ensino Italiano, que compreendia dois tipos de escola, a primeira, humanista com o fim de desenvolver a cultura geral dos indivíduos da classe dominante, e a outra para preparar os alunos das classes dominadas para o exercício de profissões, Gramsci propõe a superação desta divisão através de uma escola crítica e criativa, a Escola Unitária.
Esse modelo de escola deveria ao mesmo tempo, ser clássica, intelectual e profissional e, para sua concretização, propôs um princípio educacional que prezava a capacidade das pessoas trabalharem intelectual e manualmente numa organização educacional única, ligada diretamente às instituições produtivas e culturais.
Santos (2000, p. 62-63), ao analisar a proposta de Gramsci, destaca que: “o conceito de Escola Unitária pauta-se na unidade dialética entre atividades intelectuais e manuais, entre ciência e técnica, teoria e prática”. É a escola que pretende contrariar a divisão social entre trabalho manual e trabalho intelectual, divisão esta, decorrente, em nossa sociedade, de outra
divisão fundamental, entre capital e trabalho. O capital detém o domínio intelectual do trabalho, enquanto os trabalhadores detêm apenas o domínio técnico.
Para Gramsci (1968, p. 125), “o advento da escola unitária significa o início de novas relações entre trabalho intelectual e trabalho industrial não apenas na escola, mas em toda a vida social”. O principio unitário, por isso, refletir-se-á em todos os organismos de cultura, transformando-os e emprestando-lhes um novo conteúdo. Ao analisar essa citação de Gramsci, Machado (1989) menciona que:
Gramsci entende este principio unitário não como uma relação imediata entre ensino e produção, pois não haveria, necessariamente, exigência de um envolvimento direto do aluno com a atividade produtiva no período compreendido pela escola única. Esta escola corresponderia a um período prévio à entrada do indivíduo na atividade de trabalho, e nela o principio unitário não só deveria estar presente, como serviria de fio condutor de todo o ensino. Portanto, “a escola unitária ou de formação humanista (entendido este termo, ‘humanismo’, em sentido amplo e não apenas em sentido tradicional) ou de cultura geral deveria se propor a tarefa de inserir os jovens na atividade social, depois de tê-los levado a um certo grau de maturidade e capacidade, à criação intelectual e prática e a uma certa autonomia na orientação e na iniciativa (GRAMSCI 1969, p. 121 apud. MACHADO 1989, p. 146-147).
Nessa perspectiva, a escola única ou unitária proposta por Gramsci deveria formar homens omnilaterais, que possam se inserir nas atividades sociais após terem sido elevados a certo grau de maturidade de criação intelectual e prática. Essa escola, dizia Gramsci (1968), deve integrar as funções e os dispersos princípios educativos da desagregação escolar atual e deve apresentar-se, ao mesmo tempo, como escola de cultura e de trabalho, isto é, da ciência produtiva e da prática complexa.
Ao propor uma nova alternativa para a educação da classe trabalhadora, Gramsci apoiou uma escola “desinteressada”9 do trabalho, essencialmente humanista, com atividades
formativo-culturais. Afirmava que a crise da escola tradicional era consequência da morte da sociedade tradicional, pelo advento da sociedade industrial.
Essa escola, na compreensão de Gramsci, não deveria estar presa a uma concepção de mundo idealista, típica de programas escolásticos. A escola “desinteressada” do trabalho
9Bressan (2006) destaca que o termo desinteressado não quer dizer neutro ou interclassista. E uma expressão difícil de traduzir para a língua portuguesa e, mesmo em língua italiana, esse termo, tomado em abstrato, não traduz o sentido que Gramsci lhe dá. Por isso, frequentemente ele mesmo põe o termo entre aspas e quase sempre tenta explicita-lo: “desinteressado é o que não é imediata e individualmente utilizável, mas que é útil a muitos, a toda coletividade, historicamente e objetivamente, a longo alcance” ( NOSELLA, 1991,p.I37).
deveria ser baseada na filosofia da práxis10, num coroamento de todo um movimento de reforma intelectual e moral.
Por meio da análise desses três elementos conceituais do ensino integrado, é possível constatar que cada um desses aspectos constituem também a intenção dessa modalidade de ensino que é a de formar o indivíduo completo (omnilateral) no sentido de desenvolver suas potencialidades intelectuais e manuais (politecnia) dentro de um contexto escolar (escola unitária) que lhe permita um aprendizado não fragmentado, capaz de compreender a realidade de forma critica dentro do seu contexto social (totalidade).
Como já havia sido sinalizado anteriormente, esses elementos não são distintos entre si, eles se relacionam, complementam-se e agregam o trabalho como elemento fundamental e indispensável nesse processo de formação integral. Porém será que esses elementos conceituais estão sendo materializados na execução da política? Antes de responder essa questão, analisaremos quais são os outros princípios das politicas de ensino integrado e quais são as suas possibilidades de gestão no contexto do estado do Pará.
1.4. PRINCÍPIOS DAS POLÍTICAS DE ENSINO MÉDIO INTEGRADO E SUAS