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Statistical analysis

3. Materials and methods

3.9 Statistical analysis

O campo de estudo da perceção do risco é caracterizado por várias perspetivas teóricas e metodológicas. Contributos significativos de diversas áreas tornam este tema deveras abrangente, onde antropólogos, geógrafos e sociólogos juntam-se a psicólogos, e economistas para explorarem a perceção do risco (Bickerstaff, 2004; Slovic, 1987).

No campo da psicologia têm sido abordados o processo cognitivo e a atitude de interpretar e representar o risco a nível individual, as formas como determinados tipos de perigos podem ser vistos e os fatores que influenciam a admissibilidade de determinados riscos (Bickerstaff, 2004). Uma das abordagens da perceção do risco é o paradigma psicométrico, abordagem do campo da psicologia, que investiga a influência de determinadas variáveis sobre a perceção do risco. Os estudos psicométricos permitem avaliar as preferências expressas pelos indivíduos relativamente às fontes de risco, tendo sido Fischhloff et al. (1978) a iniciarem esta investigação, através de

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questionários. Segundo Slovic (1987), o primeiro impulso a este paradigma foi realizado por Starr (1969) ao desenvolver um método de avaliação dos riscos e benefícios de uma atividade ou tecnologia, através de preferências reveladas. Para tal, pressupõe a utilização de dados históricos ou atuais de riscos (custos) e benefícios, de modo a revelar padrões de trade-offs riscos/benefícios aceitáveis.

A perspetiva socio-cultural (designada por Bickerstaff, 2004), associada a antropólogos, geógrafos e sociólogos, defende a construção da perceção e da resposta ao risco num contexto caraterizado por fatores sociais, culturais e políticos. Cada vez mais, a abordagem da psicologia tem reconhecido a importância de fatores sociais e políticos (tais como a confiança, o processo de poder e democrático) e de fatores culturais (tais como as várias visões do mundo) (Bickerstaff, 2004). Normalmente, a divergência entre a perceção do público (leigos) e a de especialistas é atribuída à falta de conhecimento técnico do público. Todavia, o autor atribui também a fatores relacionados com poder, valores, confiança e localização, as razões deste desvio de perceção.

Renn (2004) admite que a perceção do risco é determinada pelo contexto no qual o risco é experimentado. Embora o risco seja real, ele é socialmente construído (Slovic, 1999). As características sociais, culturais, económicas e políticas de um determinado contexto social influenciam o comportamento desenvolvido perante situações de risco. Sendo assim, contextos diferentes induzem a distintas perceções de risco, a diferentes níveis de aceitação do risco, a diferentes formas de aderir a medidas de mitigação e a diversas formas de intervir na gestão (Figueiredo et al., 2009).

Existem várias condições, quer a nível social, quer a nível individual, que contribuem para o modo de percecionar o risco e para a forma de lidar com o mesmo. Estudos científicos têm abordado diversos aspetos que ajudam a entender o comportamento do público perante o risco, estudos como Slovic (1987), Slovic, et al. (1981),Carlton e Jacobson (2013), Figueiredo et al. (2009) e Filatova et al. (2011). Figueiredo et al. (2009), Lima (2004a), Slovic (1987), Slovic, et al. (1981) e Renn (2004) apontam alguns fatores relevantes inerentes à perceção do risco:

- Grau de conhecimento do risco (se o risco é novo, se é conhecido, se as suas consequências são visíveis). Quanto maior a possibilidade do risco ocorrer, maior a capacidade de conviver com o mesmo;

43 - Capacidade de controlo do risco e dos danos (capacidade de controlar

individualmente ou perceção de que existe quem controla);

- Efeitos do risco (se o risco é imediato, se é catastrófico, se tem efeitos nas gerações futuras).

- Equidade e justiça na distribuição dos impactos; - Reversibilidade ou não do risco;

- Confiança nas entidades e nas fontes de informação. Quanto maior a fiabilidade nas técnicas de controlo maior a capacidade de conviver com o risco.

Slovic (1999) refere fatores tais como género, raça, perspetivas políticas, afiliação, emoções e confiança. Segundo o autor, o género está fortemente relacionado com a perceção do risco, o género masculino tende a avaliar o risco como mais reduzido e menos problemático, do que o género feminino.

Estudos da perceção do risco evidenciam que os riscos são considerados maiores quando o perigo é visto como involuntário, incontrolável, potencialmente catastrófico e criado por tecnologia (Lima, 2004a).

No contexto de riscos ambientais, as abordagens socio-culturais da perceção do risco têm dado ênfase a fatores como localização, poder de controlo, equidade,

confiança e comunicação (Bickerstaff, 2004). Segundo Figueiredo et al. (2009), a

existência de instrumentos técnicos e políticos de controlo e gestão do risco, assim como a sua credibilidade, são dos fatores mais relevantes na construção social do risco. Carlton e Jacobson (2013), embora não tenham encontrado uma relação estatisticamente significativa, salientam a importância da influência que a confiança depositada nas entidades governamentais, no âmbito da gestão do risco, possa ter na perceção do risco ambiental. Os autores referem que, por norma, os indivíduos com níveis de confiança nas entidades governamentais mais elevados tendem a percecionar menos riscos ambientais.

Por outro lado, níveis de confiança elevados podem não contribuir para a mitigação do risco. Filatova et al. (2011), ao estudarem a gestão de riscos costeiros na Holanda, constataram um aumento da sensação de segurança devido ao sucesso das intervenções de prevenção à erosão costeira e como resultado, um abrandamento da consciência do risco, que segundo os autores, poderá acarretar aumento dos riscos. Ao definir o risco de inundação como função da probabilidade da ocorrência do evento e dos potenciais efeitos causados (danos), de acordo com os autores, é possível diminuir o

44 risco de inundação se os potenciais efeitos do evento diminuírem. Filatova et al. (2011) consideram que uma eventual forma de diminuir estes potenciais efeitos/danos de inundação é aumentar a consciência individual do risco. Existe evidência de que a consciência do risco altera as decisões de ocupação do solo e desta forma influencia os riscos costeiros. Estudos de preços hedónicos justificam a influência do risco de inundação nos preços do solo. Se os agentes económicos estiverem conscientes do risco de inundação em zonas costeiras, então a proximidade à costa funciona como um fator repulsivo e consequentemente o preço do solo diminui, assim como a avaliação económica do efeito/dano da inundação. Uma reduzida consciência de risco leva os indivíduos a adquirirem propriedades em zonas vulneráveis a inundações. Deste modo, Filatova et al. (2011) argumentam: se os indivíduos tiverem consciência dos riscos que correm quando se localizam em zonas costeiras, o risco de inundação diminui (mesmo que a probabilidade de ocorrência do evento permaneça constante). Os autores destacam algumas medidas que influenciam positivamente a consciência do risco costeiro de inundações, tais como, experiência pessoal, comunicação do risco e instrumentos do mercado imobiliário. Os mecanismos do mercado imobiliário resumem-se a: instrumentos financeiros - obrigatoriedade de seguros contra inundações em áreas propensas a tal ocorrência - e instrumentos técnicos - construir em níveis mais elevados - que diminuirá diretamente o dano e funcionará, no mercado, como sinal de potencial ocorrência de inundação.Apesar da eventual existência de riscos costeiros, o facto das zonas costeiras serem caracterizadas por um conjunto de forças económicas, ambientais e sociais que promovem a sua atratividade, a ocupação e o uso do solo nestes territórios nem sempre é a mais favorável no que se refere à gestão destes riscos.

No que diz respeito à capacidade de aceitar voluntariamente o risco, Figueiredo et al. (2009) referem que esta capacidade relaciona-se com os benefícios percecionados. Em alguns contextos, a população mostra-se disposta a conviver com os riscos, porque ponderam potenciais benefícios superiores a potenciais prejuízos. Os autores investigaram o modo como as populações expostas ao risco o percecionam e a forma como essa perceção tem sido incorporada no processo de gestão do mesmo. Para tal, os mesmos exploraram o risco de inundação no concelho de Águeda, tendo concluído que, embora a população sofra danos com os acontecimentos de cheias, a mesma reocupa os edifícios deteriorados e retoma as atividades que foram prejudicadas. O principal fator que predispõe a população a conviver com o risco é a localização privilegiada dos

45 edifícios e das atividades comerciais desenvolvidas, apesar da exposição ao risco. Numa ponderação custos/benefícios, a localização manifesta-se compensadora dos prejuízos aquando da avaliação dos impactos das cheias. Os autores acrescentam que a familiaridade com a fonte do risco, a avaliação custos/benefícios e a perceção de que o impacto das cheias é não catastrófico e controlável predispõem a população a tolerar e a conviver com o risco. O mesmo estudo revela uma grande dependência estatística entre a memória, por parte da população, de acontecimentos suscetíveis de risco e a vulnerabilidade da localidade ao risco. Quando a exposição ao risco aumenta, a percentagem de respondentes com memória de algum acontecimento (neste caso, de alguma cheia em particular) também aumenta. Neste contexto, Luís et al. (2015) sugerem que os acontecimentos mais devastadores podem ser relembrados com maior facilidade e mais atribuídos como causas de problemas ambientais. Trata-se da heurística da disponibilidade. Tversky e Kahneman (1974) consideram que em determinadas situações de incerteza, os indivíduos avaliam a probabilidade de um evento pela facilidade com que as ocorrências vêm à mente.

No que concerne à localização, Bickerstaff (2004), considera-a um fator relevante para a perceção do risco, no âmbito das alterações climáticas e da poluição do ar. O carácter ameaçador dos riscos depende da distância espacial e temporal dos efeitos dos mesmos. Alguns estudos apontam a distância à linha da costa como determinante fundamental da perceção das alterações climáticas como eventual causa de problemas ambientais, tais como inundações e recuo da linha da costa (Luís et al., 2015, Milfont et al., 2014). Os ensaios chegaram à conclusão que, quanto maior a distância à linha da costa, menor a crença nos impactes das alterações climáticas, ou seja, menor a atribuição causal dos problemas ambientais às alterações climáticas. Carlton e Jacobson (2013) salientam igualmente a influência que a proximidade ao risco (no caso de riscos costeiros, proximidade à costa) possa ter na perceção do risco ambiental, embora não tenham constatado uma relação estatisticamente significativa.

Luís et al. (2015) estudaram a perceção e as crenças de atribuição causal dos problemas ambientais às alterações climáticas. O estudo explora as diferenças na perceção dos indivíduos quanto às causas dos problemas ambientais, tendo em conta o efeito espacial, ou seja, a distância à linha da costa. Para o efeito foram analisadas duas zonas, o Baixo Vouga Lagunar (situado a 10 km da linha da costa) e a zona costeira mais próxima (uma zona costeira centro, na região de Aveiro, tratada em Pinho (2012)

46 onde são visionados problemas costeiros sérios). Na zona do Baixo Vouga Lagunar foi abordado o problema ambiental inundações e na zona costeira de Aveiro tratou-se o problema do recuo da linha da costa. Luís et al. (2015) realizaram entrevistas a atores chave e inquéritos a residentes do Baixo Vouga Lagunar e compararam estes resultados com os de Pinho (2012). Na investigação de Pinho (2012) foram utilizados questionários à população residente e entrevistas a responsáveis pelas instituições locais com intervenção na gestão da zona costeira em estudo. Pinho (2012) baseando-se na análise da perceção social, pretendia avaliar a perceção do risco costeiro e de gestão do território e recolher conhecimento comum sobre a dinâmica costeira.

Luís et al. (2015), ao analisarem a correlação entre a atribuição dos problemas ambientais às alterações climáticas e a perceção de risco nas duas zonas em estudo, constataram-na apenas na zona costeira. A atribuição causal dos problemas ambientais às alterações climáticas é, deste modo, mais pertinente quando se trata de problemas costeiros, nomeadamente o recuo da linha da costa. Sendo a perceção de risco uma variável fundamental na motivação de comportamentos inerentes à proteção e adaptação ao risco, os autores consideram que aquela correlação torna-se bastante relevante. Uma população que tem a perceção do risco e reconhece a causa desse risco, possivelmente estará mais apta a alterar comportamentos no sentido de prevenir e atenuar os efeitos do risco. Milfont et al. (2014) mencionam que, por norma, a perceção de maior risco pessoal aumenta a preocupação e a disposição a agir.

A influência socio-cultural na perceção do risco e a problemática dos vários processos de alteração da costa portuguesa, em virtude do processo de erosão, para o qual as alterações climáticas têm contribuído, motivou Schmidt et al. (2014) a explorarem a perceção de residentes e de stakeholders sobre as alterações da costa, em três zonas costeiras portuguesas (Vagueira, Costa da Caparica e Quarteira). A complexidade dos processos físicos, sociais, políticos e económicos que afetam as zonas costeiras varia de acordo não só com a geografia mas também com a experiência histórica, daí os autores terem abordado três casos de estudo em locais diferentes e com problemas de erosão.

No sentido de captarem as perceções públicas do risco de erosão costeira e das alterações climáticas, Schmidt et al. (2014) realizaram entrevistas a instituições responsáveis pela gestão da costa e a stakeholders locais (pescadores, surfista, associações de moradores e de empresários, promotores turísticos, proprietários de

47 restaurantes) e inquéritos à população. A investigação pretendia analisar a perceção do risco, assim como o conhecimento e confiança nas intervenções costeiras, o envolvimento e participação nos processos de decisão e as visões e preocupações futuras inerentes à proteção costeira. Os resultados revelaram que a maioria dos inquiridos tem consciência do risco de erosão costeira e para grande parte dos inquiridos o fenómeno das alterações climáticas, além de ser conhecido, é visto como forte influência nos problemas costeiros. A população considera importante manter a linha da costa e portanto defendem que a costa deve ser protegida, todavia, cerca de 48% dos inquiridos manifestaram falta de confiança na forma como os problemas têm sido enfrentados. Quanto aos níveis de participação, menos de 5% dos respondentes revelaram participar em discussões sobre a gestão da costa, salientando que têm consciência da sua reduzida influência nas decisões públicas. No que diz respeito ao envolvimento do público, os autores evidenciaram a necessidade de melhorar o processo de participação e a confiança nas políticas de gestão costeira.

3.4 A Importância da Integração da Perceção do Público na Tomada de Decisão