Estudiosos da área de projeto de arquitetura que acompanham o movimento do desenhar sistemas vêm a algum tempo propondo as suas interpretações sobre os processos e a lógica de desenvolvimento do projeto. Geralmente estão associados a representações de esquemas aplicados no processo de criação do objeto como os diagramas de ordenação de afinidades de uso, estudos volumétricos e pré-dimensionamento dos ambientes.
O processo de materialização da ideia é único e se diferencia a cada projeto, pois o conhecimento, valores, habilidades e reinterpretação do desejo de terceiros são inerentes a cada ser humano. A forma reducionista aplicada à fase de criação não permite identificar os riscos e perigos contidos nas funcionalidades, atividades dos usuários, interdependências entre os sistemas construtivos, principalmente quando se utilizam as tecnologias solares.
O projeto de uma edificação é um trabalho coletivo e por isso, termina por imprimir a cultura desse grupo. Dai o papel transformador do profissional da arquitetura quando ordena, hierarquiza e define prioridades. Ao definir antecipadamente o desejável e as situações indesejáveis [riscos ou perigos] o projetista passa a conhecer as múltiplas variáveis envolvidas, reduzindo assim, a dificuldade de integrar e materializar as soluções de projeto. O programa de necessidades pautado na analise de risco torna-se a principal ferramenta proativa. Ao negar a estrutura de avaliação por requisitos de desempenho durante o processo de criação e desenvolvimento tende-se a fragmentação da integração entre sistemas colaborativos e a arquitetura. Isso significa a perda da linguagem arquitetônica, restando apenas sobreposições que impõem riscos diversos ao usuário e ao meio.
Os estudiosos que mais se destacaram na sistematização do processo de projeto são: Durand (1805) Alexander (1971,1979); Boudon (2004); Lawson (1997b, 2000); Jonas (1993, 2002), Cross (1984), Simon (1969,1991).
Tabela 3.2: Estudiosos que interpretaram a lógica do desenvolvimento do projeto sob a perspectiva da teoria dos sistemas.
Autor Fundamentação Legitimação Justificativa
Jean-
Nicolas-Louis DURAND
Estabelece preceitos científicos à atividade de projeto de modo a estabeleça uma ordem pragmática, em termos de “função” e “utilidade”.
Traz para as atividades de projeto a dinâmica da análise por meio da combinação entre as parte de forma linear e sistêmica.
Demostra a relação objetiva e racional entre um sujeito conhecedor e um objeto a ser conhecido.
Faz “a progressão do simples em direção ao complexo, do conhecido ao desconhecido, o caminho para o passo seguinte e se lembre de seu antecessor”3.
Representação espacial através do uso de malhas ordenadoras.
Considera com a única forma o conhecimento.
Afasta procedimentos baseados na intuição, no sobrenatural ou em qualquer forma de dogmatismo.
Trabalha a coordenação dos espaços por meio dos aspectos construtivos da edificação levando em conta economia na organização do espaço e no uso de materiais. Christopher
ALEXANDER Fase 01
Automação como estratégia de projeto.
Estrutura formulada a partir da matemática e da lógica.
Representações de estruturas [1) tenham igual alcance, 2)sejam tão independentes entre si como possível, e 3) que sejam de alcance tão pequeno e, portanto, sejam tão específicos e talhados e numerosos quanto possível]4.
Pesquisa da forma dentro de uma cultura.
Demostrar as listas de requisitos, tabelas de interconexão entre eles ou diagramas no formato de árvores [mais simplificados] e em semitramas [mais complexo].
Busca um método unificado para a consecução da forma.
Fazer projeto é resolver problemas.
• 3 DURAND27, citado por VILLARI, 1990, p. 36). • 4 (ALEXANDER, 1969, p. 113).
Autor Fundamentação Legitimação Justificativa Christopher
ALEXANDER Fase 02
Fundamenta-se na metafísica. Estruturando padrões que são
palavras e as redes que são frases. Todos organizados em infinitas combinações.
“[...] extrai ordem somente de nós mesmos; não pode alcançar-se: ocorrerá espontaneamente, se o permitimos”5.
O acesso à qualidade se chegaria pelo afeto.
O método apresenta-se como modo intemporal de construir, devendo empreender dedicação para compreendê-lo e executá-lo.
As qualidades nos espaços se ajustam bem aos padrões da cultura onde está inserido.
Trabalha com a noção cartesiana da divisão de um problema em partes menores, possibilitando a emergência da solução por meio de agrupamento das soluções.
Christopher ALEXANDER Fase 03
Fase 03
Ordem auto regenerativa que e auto regula e evolui.
Busca pela harmonia do espaço
físico. Simplicidade na forma e na organização como meio para a obtenção de um ambiente harmonizado.
Nega a necessidade de processos complexos para a elaboração do projeto.
Herbert SIMON [economista]
Analisou a arquitetura.
A arquitetura trabalha com o contingente, ou seja, como a forma e o espaço deveriam ser.
Poder predizer [simular] o comportamento do objeto.
Vê o projeto como solução de problemas.
Permite a construção de possibilidades teóricas no estudo da concepção.
• 5 (ALEXANDER, 1979, p. 11)
Autor Fundamentação Legitimação Justificativa Nigel
CROSS A proposição surge a partir do conhecimento, do pensamento e da ação.
Identifica a diferenciação fundamental no trato das questões relativas ao processo criativo arquitetônico.
Nega a diferenciação entre forma e conteúdo.
Valorizar o processo de criação do projeto e o uso de diversas técnicas incluindo o uso de axiomas.
Traz para a análise do projeto elementos ou situações de
incerteza, instabilidade, exclusividade e conflito de valores.
Trata-se da subordinação a procedimentos criativos.
Busca os fundamentos das questões relacionadas ao processo criativo arquitetônico.
Bryan
LAWSON O processo de projeto é uma sequência de atividades guiadas por construção de ideias.
Envolvem tanto o raciocínio caótico quanto o sistemático.
O processo de projeto pode ser compreendido como uma atividade investigativa.
“constrói sua estrutura na imaginação antes de erguê-la na realidade”6.
Processos de criação como “processo mental sofisticado capaz de manipular muitos tipos de informação, misturando-os em um conjunto coerente de ideias e, finalmente, gerando alguma concretização dessas ideias”7.
Não indicar procedimentos para sua execução. Contudo indica que a atividade de projeto envolve um ciclo interativo de análise, síntese e avaliação que permite compreender problemas e propor soluções em graus diferentes de hierarquia.
• 6 MARX, O capital, citado por LAWSON, 1997b, p. 14. • 7 LAWSON, (2000, p. 10).
Autor Fundamentação Legitimação Justificativa Philippe
BOUDON “a concepção não é uma atividade de resolução de problema, mas de produção de algo que possa ser apresentado como solução do problema”8
Trata-se de uma atividade comunicável e se constitui de um conjunto de operações identificáveis.
Identifica as transformações às quais uma imagem está sujeita, sendo necessário considerar as operações inscritas nesse processo que se faz por meio de conjunções ou sínteses.
Sistematiza o conhecimento da concepção arquitetônica, para que essa seja passível de ensino e transmissão.
Trabalha com a sequência de operações na concepção do projeto. A sistematização das operações permite o conhecimento da concepção arquitetônica para que seja passível de transmissão. Em projeto, os problemas são múltiplos, mutáveis e vinculados uns aos outros.
Wolfgang
JONAS O projeto é o próprio, “fundante”, ou seja, ele é o fundamento, pois tem uma causa, origem, justificação e supostas verdades. Inventar hipóteses a fim de
descobrir o potencial ou a necessidade de dissolução e ou recombinação da proposta.
Trabalha com hipóteses que vai tomando forma e se estruturando paulatina e reciprocamente.
Opera as interfaces entre o contexto e artefato [arquitetura ou sistema construtivo].
Nada é evidente, por isso pode ser pensado a partir do instante em que se apercebe do problema ou da condição.
Os fundamentos e procedimentos científicos estão subordinados aos procedimentos criativos.
Permite o uso de métodos para solucionar as questões.
Fonte: Tabela elaborada a partir de Brandão O. C. S.(2008). Sobre fazer projeto e aprender a fazer projeto. Tese /USP.
A importância desses autores se deve a formalização de discussões objetivas sobre o processo criativo em arquitetura. Eles abrem a “caixa preta” e se defrontam com as limitações da retenção e hierarquização das múltiplas variáveis. E ainda, de que é necessário, de alguma forma, planificar o processo.
Essas proposições continuam a ter importância para as equipes de projeto. Quanto mais se compreendem as relações do processo cognitivo, mais fácil fica a construção da lógica do projeto. Infelizmente para muitos arquitetos a discussão se encerra na "caixa preta" preferido fazer uso de modelos reducionistas deixando para a engenharia a resolução do detalhamento da arquitetura. Dessa forma tentam fugir a responsabilidade das consequências de seu processo criativo sobre o objeto a ser usado e integrado ao meio e a sociedade.