O Programa de Necessidades [PN] tem uma estrutura que permite agregar conceitos, princípios de projeto, requisitos e critérios de desempenho.
Os conceitos se associam ao desejo do usuário em sua mais ampla complexidade sócio cultural e econômica. Os princípios de projeto se associam as relações do entorno, tecnologias e da forma representada pela arquitetura. Já os requisitos de desempenho estão associados aos diversos condicionantes que suporta a construção da edificação segura e salubre para o usuário. Por fim os critérios que averiguam as condições e o comportamento em uso dessa edificação.
O Programa de Necessidades consolida as informações que serão materializadas durante o processo de projeto, incluído o partido arquitetônico. Quando incompleto exige um trabalho de verificação, requalificação e complementação das partes.
Sua importância reside no fato de que é nessa fase que se estabelece as prioridades de atendimento que nortearão todas as ações de projeto. Trata-se da construção do conhecimento, ou seja, a síntese teórica da futura edificação. As falhas ou falta de informação nessa fase tem como consequência futura conflitos entre sistemas construtivos, falhas de projeto e desvios de norma. Além disso, à medida que se avança no processo de desenvolvimento do projeto os custos relacionados à decisão vão se tornando mais altos. Isso se deve a reformulação das propostas já consolidadas.
Para Corrêa (s/d, p.7)
"[...] a contextualização sistematizada do programa de necessidades pode se tornar um importante instrumento para se desvendar a "caixa preta" que marca a atividade de projeto".
"[...] frente à quantidade de ideias possíveis que colocam em uma situação à qual não se sabe como reagir, por não saber por onde começar ou por não saber estabelecer parâmetros próprios que possam embasar suas decisões projetais".
Para Moreira (2007 p. 83) o "Programa de necessidade é uma síntese onde os dados sobre o contexto são organizados para atender ao processo de projeto." suas considerações são firmadas por ideias, tais como:
"permite compreender as relações funcionais entre o contexto e o espaço físico", "o usuário do edifício é o elemento ativo do contexto [...] identificar as características físicas, psicológicas e culturais [...] suas atividades desempenhadas no espaço a ser projetado, e seus valores."
"Ao trabalhar o contexto, o arquiteto se vê diante de uma situação complexa, pois o número de variáveis é grande e de difícil organização. Ao projetar o edifício, o arquiteto analisa e verifica várias organizações do contexto, e confere graus de prioridade para certas variáveis ou elementos." (Moreira, 2007, p.72).
Moreira (2007) acredita que a representação formal da abstração do contexto permite que o arquiteto compreenda situações complexas, recombine as
informações para representar o contexto real e verifique a viabilidade das alternativas do projeto.
Hershberger, (1999, p.74) propõe o Programa de necessidades a partir do que ele considera "valores mais importantes", são eles: Humano: adequação funcional, social, físico, fisiológico e psicológico; Ambiental: local, clima, contexto fontes e gastos; Tecnológico: materiais, sistemas e processo; Econômico: financeiro, construção, operação, manutenção e energia; Segurança: estrutural, fogo, químico, pessoal e vandalismo; Temporal: crescimento, mudanças e permanências; Estético: forma, espaço, cor e significado; e Cultural: histórico, institucional, político e legal. Sua forma de representação sugere certa hierarquia ao mesmo tempo em que parece indicar algumas inter-relações entre as partes.
Por exemplo, o fator humano que trata do usuário, aparece como valor absoluto no topo da lista e mantém relação direta com o quarto nível [econômico], o quinto [segurança] e o oitavo [cultural]. A ordem de apresentação não implica, necessariamente, a ordem de importância definida por Hershberger (1999). No entanto, essas associações firmadas pelo autor [conscientes ou não] demostram os valores a serem configurados no processo de projeto.
Kumlin (1995, p.121) alerta para o problema do uso de estruturas conceituais na construção do programa de necessidade:
"[...] elas procuram ser universais e elegantes. [...] os dados, muito deles divididos ou distorcidos [...] para adequar à estrutura". Para ele "[...] apenas duas áreas nas quais a informação disposta em estrutura conceitual é de alguma ajuda: 1) considerações e noções abrangentes e universais sobre a qualidade – objetivos, aspirações, conceitos e necessidades, e 2) o processo de compreender, recuperar, sintetizar e expressar as informações".
Essa preocupação se deve a tendência em fechar o sistema de informações em reticulas, perdendo as interações com a realidade.
Moreira (2007, p.89) conclui "uma estrutura conceitual para o programa arquitetônico é um procedimento para orientar o raciocínio e estabelecer uma conduta de trabalho no levantamento das informações sobre o contexto”.
Os autores Peña; Parsahll, (2001) enfatizam que a programação é um processo que conduz a uma declaração explícita de um problema arquitetônico que para ser compreendido deverá realizar a síntese das funções, forma, economia e tempo. Eles entendem que:
"O formato de uma declaração do problema pode variar de acordo com os designers individuais, mas é uma boa prática para reconhecer o significado e condições específicas e estabelecer uma direção geral para o projeto. Embora cada condição deva ser precisamente dita, a direção (o que deve ser feito) deve ser ambígua o suficiente para evitar a sensação de estar preso a uma solução. Este direção deve ser feita em termos de desempenho, de modo a não fechar a porta para soluções alternativas nem diferentes expressões na forma arquitetônica". (Peña; Parshall, 2001, p. 93).
Peña e Parshall (2001, p.12 e 25) entendem que o PN só pode ser construído a partir da identificação de problemas (Problem Seeking); para tal, cinco condições ou cinco passos devem ser atendidos, são eles:
Estabelecer metas e objetivos. O que o cliente usuário deseja alcançar e por quê?
Coletar e analisar os dados e fatos. O que sabemos? O que é dado? Descobrir e testar conceitos. Como é que o cliente quer atingir as
metas?
Determinar necessidades. Quanto dinheiro e espaço? Qual o nível e qualidade?
Estados do Problema. Quais são as condições significativas que afetam o desenho do edifício? Quais são as instruções gerais que o projeto deve levar?
O resultado final tenta chegar a um acordo sobre a forma de como os edifícios propostos devem responder àquelas necessidades e desejos Peña e Parshall, (2001, p.59). Eles explicam que a chave para a compreensão dos conceitos programáticos [relacionados a problemas de desempenho] e conceitos de
projeto [relacionadas a problemas arquitetônicos] está associada à capacidade de interpretação das correlações.
Para facilitar a interpretação das correlações os autores propõem as seguintes palavras-chave:
Prioridade [ranking de valores do cliente] Hierarquia [simboliza níveis de autoridade]
Caráter [imagem em termos de valores do cliente] Densidade [Nível de interação entre as partes]
Agrupamento de serviço [centralizado ou descentralizado - avaliar ganhos e riscos dentro do objetivo]
Agrupamento de atividade [integradas ou atividades compartimentada – avaliar privacidade e segurança]
Agrupamento de pessoas [organização funcional - derivado das características físicas, sociais e emocionais]
Configuração básica dentro do ambiente [espaço de uso individual, compartilhado, temporário, alternativo compartilhado]
Relacionamentos [afinidades funcionais – entre atividades] Comunicações [rede ou padrões de informações]
Vizinhos [integração, dissociação, símbolo]
Acessibilidade [facilidades – identificação, mobilidade]
Fluxo separado [segregação intencional – circulação, ambiente, setores]
Fluxo misto [oportunidade em promover a integração – pessoas, circulação, ambientes]
Fluxo sequencial [relacionado a dependências objetiva entre atividades, circulação, ambiente, setores]
Orientação [relacionado a um ponto de convergência, de identidade local]
Flexibilidade [expansibilidade, conversibilidade, e versatilidade] Tolerância [capacidade em atender a outros usos]
Segurança [intrusão, vandalismo, incêndio, emergências, produção / normal – uso, operação, manutenção]
Controles de Segurança [medidas passivas utilizadas para manter a integridade das pessoas e sistemas]
Controles ambientais [soluções de arquitetura que mantenham a eficiência dos sistemas em relação à luz, insolação, ventos, humidade, temperatura]
Conservação de Energia [medidas passivas instaladas – controle de materiais de revestimento e estanqueidade do ambiente]
Faseamento [capacidade ser construído em partes ou módulos sem prejudicar as funcionalidades]
Controle de custos [manter-se dentro das previsões]
Esses autores apresentam um modelo que auxilia o projetista a pensar sobre o que ele denomina de "problemas do projeto". Essa estrutura orienta um projeto que colabora de modo favorável à segurança do usuário. Os conceitos e valores explicitados nos itens em negrito comprovam essa preocupação e mesmo não havendo uma hierarquia de importância eles permeiam todas as interações.
Independentemente do modelo ou método adotado pelo projetista para desvendar os condicionantes impostos pelo contexto, a participação multidisciplinar pode facilitar o processo de busca de informações e ganho de conhecimento. Não se pode esquecer que a elaboração de um programa de necessidades acompanhado por projetistas [arquitetura, sistemas prediais, engenheiros de segurança do trabalho e de produção] tende a oferecer resultados favoráveis às ações de construção desse documento que materializa e organiza as necessidades do cliente.