Uma das questões norteadoras das nossas narrativas era que as monitoras apontassem alguns motivos que as levaram a participar do Projeto MOVA-Brasil, além do fator indicação, já evidenciado neste trabalho, através das parcerias, que se apresentam como um dos eixos estruturais do Projeto, realizadas em nível nacional (IPF, FUP e Petrobrás) e ampliadas nos Estados e municípios onde são desenvolvidas as ações.
Assim, entidades, governos locais e sindicatos são mobilizados mediante a implantação do Projeto e o representante dessas instituições, geralmente, torna-se o parceiro responsável para, entre outras atribuições, indicar os monitores. Desde já, entendemos que a forma de ingresso oficial no Projeto é a indicação, sendo os demais critérios secundários (conforme apresentado no segundo capítulo desta dissertação), agregados a outros motivos mencionados pelas monitoras egressas. Logo, constatamos o seguinte:
[...] comecei no programa MOVA-Brasil eu entrei nesse programa com a
curiosidade de saber como é trabalhar com jovens e adultos e pela
curiosidade do povo, das pessoas dizer que era muito difícil que a formação era muito difícil todo mundo tinha medo então eu fui [...]
Maria, em 07/10/15 (Grifos nossos).
Bom, em 2012 quando fui selecionada pra o programa Mova Brasil fiquei feliz, porque além de ser uma oportunidade de emprego, não podemos
omitir, já se tinha ou já se ouvia falar num histórico de que era um programa
muito bom e que havia uma preparação.
Maria José, em 18/10/15 (Grifos nossos).
[...] é, é, é.... quando participei, a proposta foi para participar do programa, de início foi pela necessidade de trabalhar, mas também como oportunidade
Sofia, em 16/10/15 (Grifos nossos).
Como podemos perceber nas falas em destaque, das seis colaboradoras da pesquisa, três mencionaram explicitamente os motivos que as levaram a participar da seleção, a saber: curiosidade, oportunidade de emprego, necessidade de trabalhar aliada à aquisição de experiências e conhecimentos. Nas falas acima, não estão latentes os critérios e as competências exigidas para o preenchimento de requisitos para atuar no Projeto como monitor(a), o que nos faz refletir sobre as condições que são postas para que se indique uma pessoa para alfabetizar jovens e adultos, em um Projeto que tem como arcabouço teórico os princípios freireanos.
As nossas inferências dizem respeito à ação de inserção que os monitores contratados pelo Projeto devem ter: “[...] no mínimo, o Ensino Fundamental completo (priorizam-se candidatos com Ensino Médio), experiências de trabalho em movimentos sociais, afinidade com a proposta de educação popular e disponibilidade para assumir os compromissos estabelecidos pelo Projeto [...]” (GADOTTI, 2013, p. 103).
Algumas questões são pertinentes em relação à indicação dos monitores: qual a garantia que a pessoa indicada atende aos requisitos solicitados? Quem atesta os requisitos?
A respeito das condições para indicação dos monitores, Gadotti (2013, p. 33) destaca: “Os alfabetizadores precisam ser competentes pedagogicamente, eticamente e politicamente”. Sobre o parceiro, autor enfatiza: “[...] faz a indicação de pessoas para a pré-seleção [...] e asseguram, como contrapartida, espaços adequados para o funcionamento da sala de aula [...]” (GADOTTI, 2013, p. 89). Entretanto, concluímos que o fato de se viabilizar um local para a realização das aulas é condição para fazer a indicação dos monitores, independentemente da sua formação. Logo, o Programa funciona com pessoas sem formação para o magistério, portanto, os monitores são professores leigos, ratificando o que Silva (2011) descreve em sua tese como “herança maldita”.
Como já mencionado, nas narrativas não observamos falas referentes às competências para se atuar com a alfabetização de jovens e adultos, atestando que somente o domínio dos conteúdos é suficiente para tal prática, como reforça Silva (2011, p. 349-350):
[...] a competência não se restringe apenas ao ato de dominar determinados saberes (linguagem e a matemática) e os procedimentos metodológicos adequados aos alunos da EJA. Constitui-se, no entanto, também no ato político de identidade com a classe social de seus alunos e a luta política em favor de
sua emancipação, assim como a sensibilidade enquanto dispositivo capaz de gerar no professor, no contexto de sua profissionalização, a empatia ou a identidade com os seus alunos.
Nesse sentido, o que realmente prevalece para a inserção do monitor(a) é a indicação, (ficando em segundo plano questões como: formação, competência ou identificação com classe social) em prol do benefício de um(a) amigo(a), parente ou correligionário.
Salientamos que esse processo de seleção fica sob a responsabilidade de cada polo, a partir da articulação com os parceiros locais, sendo os nomes dos monitores escolhidos e enviados posteriormente para o Instituto Paulo Freire, para homologação. A esse respeito, indagamos: quando, mediante seleção e decorrer da etapa, o (a) monitor(a) escolhido(a) não corresponde às expectativas do Projeto? Como será que a coordenação pedagógica avalia essa situação? O(A) monitor(a) é convidado(a) a sair ou permanece? Essas são questões que merecem uma reflexão por não serem mencionadas pelo Projeto, pois comprometem a qualidade do trabalho de alfabetização.
Outros questionamentos devem ser perseguidos: a participação no Projeto por indicação não compromete a qualidade da prática pedagógica alfabetizadora? As dificuldades dos monitores serão sanadas com o processo de formação? Há formação específica para saneamento das dificuldades apresentadas pelos monitores do Projeto? Segundo Maria José, “já se tinha ou já se ouvia falar num histórico de que era um programa muito bom e que havia uma preparação”, ou ainda, conforme a fala de Maria: “das pessoas dizer que era muito difícil que a formação era muito difícil todo mundo tinha medo [...]”. A fala dessa monitora deixa
transparecer sua pouca identificação com o Projeto, principalmente por ouvir dizer de outras pessoas que já passaram anteriormente pela formação. Sobre esse tipo de seleção, compartilhamos do mesmo pensamento de Silva (2011, p. 266), quando assevera: “Estes mecanismos também possuem dupla função, dependendo da intencionalidade”. Ou seja, a indicação das pessoas para participar do “processo de seleção” era feita de forma subjetiva pelo articulador local, podendo este ter interesses políticos e usar o Projeto como “cabide de emprego”. Entretanto, esse mesmo critério, se realmente utilizado de modo impessoal, poderá incluir excelentes monitores, uma vez que, sendo o articulador local conhecedor da comunidade, este tem plena capacidade de fazer uma indicação justa e benéfica voltada aos objetivos do Projeto em estudo.
Reportamo-nos a esses fatos por compreendermos que se a inserção no Projeto acontecesse de maneira mais democrática, respeitando os princípios constitucionais que norteiam a administração pública (Art. 37, da CF), em razão do aporte de verbas de natureza
pública (Petrobras), através de abertura de um processo de seleção, além da imprescindibilidade da formação superior para os monitores – com certeza os resultados divulgados pelo Projeto MOVA-Brasil seriam melhores e alcançariam os objetivos perseguidos. O que se constata, portanto, é que a forma de ingresso dos monitores no Projeto não é democrática e acaba por comprometer a qualidade dos resultados, levando em consideração que os critérios de seleção perpassam o campo da subjetividade através do fator indicação, com interesses políticos.
4.1.2 As bases teóricas freireanas em evidência
Em todo programa, projeto ou campanha de alfabetização direcionado para jovens e adultos em nosso país, é comum se oferecer uma formação inicial para seus alfabetizadores, na maioria das vezes (para não dizer sempre) de maneira aligeirada e paliativa, o que na nossa visão torna o fazer pedagógico bastante vulnerável e distante de uma prática social concreta, em que os conteúdos são geralmente pensados e trabalhados de forma descontextualizada e desarticulada. Essa ainda é uma velha prática que se repete na EJA (principalmente quando se trata da alfabetização) e significa um descompromisso social com os jovens e adultos, como enfatiza Silva (2011).
Na realização dos estudos acerca do Projeto MOVA-Brasil, observamos que um dos aspectos mais divulgados é a formação oferecida aos seus monitores e coordenadores, configurando-se como um dos objetivos a serem alcançados e como uma de suas principais atividades. Entretanto, são imprescindíveis a significância e a consistência dessa formação para quem vai alfabetizar jovens e adultos. Na construção das narrativas, solicitamos que as monitoras pesquisadas mencionassem sobre a formação inicial e os conhecimentos adquiridos durante esse momento. Nesse sentido, constatamos o seguinte:
[...] na formação inicial não achei o bicho papão que o povo, que o povo
chamava, era estudo, a teoria de Paulo Freirejá tinha algum fundamentos
na teoria já conhecia algumas coisas só aprimorei mais a teoria que era pra
trabalhar a realidade dos educandos mas estudamos várias apostilhas [...] a
primeira semana foi cansativo porque era de manhã e a tarde só estudos mais isso fez com que a gente desenvolvesse bastante a teoria de Paulo Freire para poder conseguir aplicar ela em sala de aula.
Maria, em 07/10/15 (Grifos nossos).
Daí né, a partir da seleção acontece o que eles denominam de formação