da formação superior para os monitores – com certeza os resultados divulgados pelo Projeto MOVA-Brasil seriam melhores e alcançariam os objetivos perseguidos. O que se constata, portanto, é que a forma de ingresso dos monitores no Projeto não é democrática e acaba por comprometer a qualidade dos resultados, levando em consideração que os critérios de seleção perpassam o campo da subjetividade através do fator indicação, com interesses políticos.
4.1.2 As bases teóricas freireanas em evidência
Em todo programa, projeto ou campanha de alfabetização direcionado para jovens e adultos em nosso país, é comum se oferecer uma formação inicial para seus alfabetizadores, na maioria das vezes (para não dizer sempre) de maneira aligeirada e paliativa, o que na nossa visão torna o fazer pedagógico bastante vulnerável e distante de uma prática social concreta, em que os conteúdos são geralmente pensados e trabalhados de forma descontextualizada e desarticulada. Essa ainda é uma velha prática que se repete na EJA (principalmente quando se trata da alfabetização) e significa um descompromisso social com os jovens e adultos, como enfatiza Silva (2011).
Na realização dos estudos acerca do Projeto MOVA-Brasil, observamos que um dos aspectos mais divulgados é a formação oferecida aos seus monitores e coordenadores, configurando-se como um dos objetivos a serem alcançados e como uma de suas principais atividades. Entretanto, são imprescindíveis a significância e a consistência dessa formação para quem vai alfabetizar jovens e adultos. Na construção das narrativas, solicitamos que as monitoras pesquisadas mencionassem sobre a formação inicial e os conhecimentos adquiridos durante esse momento. Nesse sentido, constatamos o seguinte:
[...] na formação inicial não achei o bicho papão que o povo, que o povo
chamava, era estudo, a teoria de Paulo Freirejá tinha algum fundamentos
na teoria já conhecia algumas coisas só aprimorei mais a teoria que era pra
trabalhar a realidade dos educandos mas estudamos várias apostilhas [...] a
primeira semana foi cansativo porque era de manhã e a tarde só estudos mais isso fez com que a gente desenvolvesse bastante a teoria de Paulo Freire para poder conseguir aplicar ela em sala de aula.
Maria, em 07/10/15 (Grifos nossos).
Daí né, a partir da seleção acontece o que eles denominam de formação
nessa formação se recebe [...], os cadernos de formações e ali existe uma orientação teórica pra que a gente possa desenvolver na prática, sempre baseado nos princípios, o que contribui muito porque se você é leigo sobre essa teoria pedagógica, você vai adquirindo uma certa intimidade de como deveria ser a experiência de alfabetização com jovem e adulto, Então, pra quem aproveita as formações iniciais que acontece no Projeto Mova Brasil, ajuda sim no processo de alfabetização, contribui sim para realização de
atividades, pra a chamada consciência crítica [...] além de conhecer as letras
e os números né.
Maria José, em 18/10/15 (Grifo nosso).
[...] fiquei curiosa em relação à formação inicial [...], mas gostei bastante apesar de ser muito cansativa, era duração de 5 dias, onde enfoca em desenvolver uma prática pedagógica, promovendo a dignidade humana,
baseando na leitura de mundo dos educandos, preparando também o
monitor para desenvolver o seu trabalho em sala de aula. A mesma estava
baseada na metodologia freireana, onde não trabalha só o letramento e sim
o meio de onde a mesma convive, sua cultura, sua história, a personalidade
de cada pessoa.
Sofia, em 16/10/15 (Grifo nosso).
[...] a primeira semana de formação, que foi a formação inicial eu já senti a
diferença, porque começou-se a trabalhar dentro do principio que o aluno
venha conhecer, fazer a leitura do contexto em que ele está inserido, fazer a leitura dele pra depois fazer a leitura de mundo dele, pra depois fazer a leitura das palavras, isso assim, já me deixou bem, achei bem interessante esse ponto.
Juliana, em 18/10/15 (Grifo nosso)
Percebemos nas falas acima a prevalência de um consenso ao se mencionar a teoria freireana nas formações, mas, de modo muito geral – com exceção dos termos leitura de mundo e consciência crítica enfatizados por Juliana e por Maria –, não são especificados outros princípios freireanos. Por essa razão, reportamo-nos ao diálogo como princípio que deve permear a relação educador e educando, pois “o diálogo se faz numa reação horizontal, em que a confiança de um polo no outro é consequência óbvia” (FREIRE, 2014, p. 113), e que a partir dessa premissa o educando deve ser visto como sujeito e não como objeto do conhecimento, constituindo-se, a partir de então, numa educação libertadora. Portanto, essas são ações que devem transformar a sala de aula num espaço de troca de saberes e ainda ajudar a combater a reprodução de antigas práticas alfabetizadoras que reforçam uma educação bancária.
Mediante as afirmações das monitoras, fica aparente que a teoria freireana permeia o Projeto em foco, principalmente nas formações iniciais, considerando a lista de objetivos que se pretende com essa primeira formação (aligeirada). Reconhecemos que a proposta
metodológica do Projeto MOVA-Brasil está fundamentada no arcabouço freireano, partindo da dinâmica de funcionamento até a compreensão dos instrumentais de registro e sistematização (fichas de acompanhamento do processo de aprendizagem e relatórios). Contudo, se esses princípios não influenciarem diretamente a prática pedagógica em sala de aula, não terá sido válida a formação, seja inicial, seja continuada.
Um elemento importante que não foi mencionado pelas monitoras são os aspectos históricos, políticos e sociais da EJA no nosso país, ou mesmo características e dificuldades dessa modalidade na atualidade. Esse conhecimento é considerado necessário na formação de alfabetizadores, para que, assim, todos possam “compreender esta modalidade de ensino no Brasil, seus desdobramentos no final do século XX e os dilemas e desafios que tem lançado a política educacional” (JARDILINO; ARAÚJO, 2014, p. 41).
Outro aspecto que deve ser levado em conta refere-se ao cuidado na abordagem da teoria freireana nessas formações, para que não se transforme na reprodução de discurso na prática de alfabetização, conforme citado: “Estamos quase convencidos de que o processo de formação tem conseguido, na quase totalidade das vezes, apenas padronizar um discurso comum. Discurso que não guarda a menor semelhança com a prática comum” (BARRETO; BARRETO, 2003 p. 82).
Acrescentando ainda:
Um exemplo clássico pode ser encontrado no fato de que 90% dos educadores brasileiros, provavelmente por influência de Paulo Freire, dizem em seu discurso que o educando é o sujeito no processo educacional. E no entanto quase dos que dizem isto têm uma prática educativa na qual tratam os educandos como objetos no processo (BARRETO; BARRETO, 2003 p. 82).
No entanto, mesmo com todo o material de formação e as orientações oferecidas pelo Projeto, como enfatizam as falas das monitoras, inferimos que o tempo destinado à formação não é suficiente, pois estudar e assimilar conhecimentos e competências relacionados ao ensino dentro da perspectiva da educação de jovens e adultos, com ênfase na teoria freireana, é um processo que demanda tempo, principalmente se a pessoa selecionada para assumir uma turma de alunos for leiga em nível de formação acadêmica ou da teoria freireana. Embora a monitora Maria José mencione que o estudo da formação propicia certa intimidade com a teoria a ser trabalhada, ainda assim questionamos o grau dessa intimidade para uma prática alfabetizadora com resultados realmente satisfatórios.